Volume 1

Capítulo 27: Ensinando Lições…

Já haviam se passado semanas desde que Nimbus havia sido encontrado escondido na Brand, e Lonios estava intensificando os treinamentos com o garoto. 

Todos os dias, Nimbus trabalhava duro na equipe de limpeza, tomava um banho, almoçava e depois praticava com a espada por duas, e às vezes até quatro horas, mesmo após um turno puxado de trabalho. 

Depois disso, Lonios o obrigava a ir até a biblioteca, onde deveria ler sobre um assunto qualquer. 

Como ele dividia o seu espaço com um amigo que havia feito no trabalho, Lonios achava que isso era uma boa ideia. Afinal, amizades eram importantes para um garoto daquela idade, e Nimbus sempre elogiava seu amigo por seu empenho em estudar sobre naves.

Aquele dia não era diferente dos outros. Lonios avistou Nimbus saindo do refeitório e, como sempre, estava esperando no corredor, exatamente na metade do caminho em direção ao ginásio. 

Quando Nimbus se aproximou, Lonios não perdeu tempo e perguntou:

— Então, Nimbus, o que você aprendeu ontem sobre ética? — Lonios caminhou ao lado do garoto, aguardando a resposta.

— Ética é quando tentamos explicar as regras morais de forma racional. Moral são regras que orientam as pessoas, guiando suas ações e julgamentos sobre o que é certo ou errado, bom ou mau. Mas a moral depende da sociedade em que a pessoa vive. O que é considerado moral em um lugar pode ser imoral em outro.

— Muito bem, cite um exemplo de sociedade onde a moral pode ser considerada diferente? — Lonios sabia que ao estudar ética, Nimbus se depararia com o conceito de moral e teria que explorar muitos outros conceitos relacionados. Para Lonios, era uma maneira de fazer Nimbus encarar uma avalanche de ideias interligadas

— Canibais. Para eles, comer carne humana é certo, enquanto para quem não é canibal, isso é uma abominação.

Eles caminharam mais alguns metros até chegarem à grande porta do ginásio da nave. Quando entraram, alguém gritou:

— OFICIAL NO RECINTO!

Imediatamente, todos os mais de quarenta soldados na sala se voltaram para a porta e se colocaram em posição de sentido, com os braços estendidos ao lado do corpo.

Lonios, sempre esquecia que era o quarto em comando do contingente de soldados da nave, e era surpreendido por essas atitudes militares.

— DESCANSAR! — Lonios gritou, com voz firme. Imediatamente, todos os soldados voltaram aos seus afazeres. Alguns estavam treinando com o arco no túnel, sob a supervisão de Sãr Elisis, outros levantavam pesos, e outros ainda estavam envolvidos em combates simulados nos tablados.

Lonios observou que havia também alguns trabalhadores de outras partes da nave, sentados em bancos perto do túnel onde Elisis instrui arqueiros. 

Entre eles, reconheceu Jim, o amigo que Nimbus tanto falava, e Ari, outro garoto que Nimbus mencionara como o maior puxa-saco da nave. 

Outros olhavam disfarçadamente para Elisis, que parecia apreciar a atenção. A amazona, em sua armadura de combate, jogava olhares sutis para os homens à sua volta.

Elisis, por um momento, fixou os olhos em Lonios enquanto ele caminhava dentro do ginásio. Ela parecia avaliá-lo, mas logo voltou a suas obrigações.

Lonios então avistou Sãr Adon à frente dos tablados, provavelmente instruindo os soldados nos combates simulados. 

Valeros estava ao seu lado, acompanhando atentamente cada movimento.

— O que está acontecendo aqui? — Lonios perguntou, antes de se aproximar de Adon e cumprimentá-lo com um aperto de mão.

— Hoje vamos fazer nosso treinamento semanal com o contingente. Tínhamos alguns problemas pela manhã e tivemos que adiá-lo — explicou Adon.

— Treinamento semanal? — Lonios questionou, um pouco confuso.

— O senhor nunca nos honrou com a sua presença em nenhum deles. Pelo que soube, o senhor está sempre dormindo neste horário, e nem os guardas conseguem acordá-lo para o treinamento. Nem que alguém tente derrubar a porta… Ele riu alto.

Lonios sorriu sem graça. Era verdade: ele trabalhava no turno da noite, das meia-noite às seis da manhã, cuidando da ponte de comando, e depois dormia todas as manhãs. Provavelmente, os guardas designados para acordá-lo não se empenhavam muito na tarefa e mentiam sobre quase derrubar sua porta.

— Verdade, é o momento que escolho para descansar, após ficar a noite inteira em claro na ponte — Lonios deu de ombros.

— Sem problemas, Sãr Lonios. É só que os guardas sentem falta de um dos seus comandantes para orientar os treinos.

— Tudo bem, então. Vou dispensar meu escudeiro do treino hoje e me concentrar nos soldados.

— Que é isso, Sãr Lonios? Não vamos privar o seu garoto do treino só porque a guarda está aqui. Ele pode ajudar no treinamento. Os soldados estão cansados de ser massacrados pelo Valeros nos combates simulados — Sãr Adon bateu no ombro de seu escudeiro, que sorriu para Lonios.

— Serão massacrados da mesma forma pelo meu Nimbus aqui — Lonios deu um tapinha no ombro de Nimbus, que parecia ainda inseguro.

— Não sei não, Sãr Lonios. Os soldados estão acostumados a lutar com meu garoto, e como o senhor sabe, ele supera até a mim em habilidade de combate. Não acho que será tão fácil para ele massacrar meus soldados assim como o senhor afirmou.

— Acredite, Nimbus é mais do que parece — Lonios olhou de canto para o garoto, agora mais cabisbaixo. Pensou consigo mesmo: “Droga, ele vai estragar tudo assim.”

— Muito bem então — Sãr Adon chamou um garoto loiro e baixo, da idade de Nimbus, que estava treinando com um dos soldados. — Pavel, venha cá, deixe o escudeiro do Sãr Lonios dar algumas lições aos seus subordinados.

Pavel se aproximou de Lonios e, em posição de sentido, se apresentou:

— Alferes Nicolas Pavel, se apresentando, senhor. É uma honra ter a sua presença aqui, digo isso em nome dos meus homens.

Após a apresentação, Pavel saiu de posição e apertou a mão de Nimbus.

— Pode ir, garoto. O soldado está esperando — Sãr Adon apontou para o soldado no tablado, que aguardava para treinar com Nimbus.

Lonios observava atentamente, o coração apertado. Era a primeira vez que Nimbus lutava contra alguém além dele, e, apesar de confiar no treinamento do garoto, havia uma preocupação que não conseguia afastar. 

Nimbus era extremamente habilidoso, mas também muito violento, e a ideia de ele machucar algum dos soldados era algo que o preocupava profundamente. 

Eles não estavam acostumados com o ritmo acelerado e intenso dos treinos que ele e Nimbus praticavam todos os dias. 

Para os soldados, os treinos eram pesados, mas esporádicos, apenas uma vez por semana.

— Pega leve com ele, Nimbus, lembre-se que esse soldado não sou eu — Lonios alertou, a voz carregada de preocupação.

Antes que subisse no tablado, Valeros entregou a espada de treino a Nimbus, que a recebeu com um simples agradecimento. 

Quando o garoto subiu, Lonios percebeu a gota de suor que escorria de sua testa. A tensão era palpável, e o cavaleiro sabia que Nimbus estava provavelmente preocupado com muitas coisas, mas certamente não com a ideia de pegar leve com o soldado, que parecia confiante com a luta contra um garoto de quatorze anos.

Nimbus não era um tipo de criança que impusesse respeito imediatamente. Alguns meses antes, ele até estava um pouco acima do peso. 

No entanto, com o treinamento intensivo, seu corpo começava a se transformar, revelando músculos definidos e uma postura mais sólida.

O soldado, cansado de esperar, foi o primeiro a atacar. Mas Nimbus foi mais rápido. 

Em um movimento preciso, desarmou o homem e colocou a espada sobre sua garganta. O soldado estava atônito, mas Nimbus parecia ainda mais surpreso com a rapidez do golpe.

— Golpe de sorte — comentou Sãr Adon, dando risada. — Outro.

No mesmo instante, o soldado anterior saiu e outro subiu ao tablado. Dessa vez, o novo oponente adotou uma postura defensiva, percebendo que Nimbus havia se saído bem contra o anterior. 

Agora mais confiante, Nimbus avançou devagar, e logo os dois estavam trocando golpes. Quando o soldado atacou, Nimbus esquivou-se facilmente, girou e se colocou atrás dele, com a espada apontada para sua nuca.

— Acho que não foi sorte não, Sãr Adon — provocou Lonios, um sorriso desafiador em seu rosto.

— Pode ser... OUTRO! — Sãr Adon, visivelmente irritado, mandou outro soldado subir.

O novo combatente foi direto para Nimbus, tentando pegá-lo de surpresa. Mas o garoto, com agilidade, desarmou-o com um golpe certeiro e, em seguida, fez um giro rápido, atingindo a perna de apoio do soldado. 

O homem caiu de costas no chão, batendo a cabeça com força no tablado. Se o local não fosse macio, ele poderia ter se ferido seriamente ou até perdido a consciência.

— Nimbus, chega por enquanto! — Lonios chamou, vendo o soldado caído.

Imediatamente, Nimbus desceu do tablado, deixando o homem no chão.

— Não vamos perder tempo. Outra dupla no tablado! — ordenou Sãr Adon, enquanto dois soldados subiam e ajudavam o homem caído a se levantar.

Nimbus se aproximou de Lonios, visivelmente empolgado.

— Mestre, eu não sabia que eu tinha ficado tão bom! O senhor viu como eu acabei com eles?

Lonios não pôde deixar de sorrir, mas também sentiu a necessidade de repreender o garoto pela violência excessiva, especialmente no último golpe. 

Porém, a euforia de Nimbus foi contagiante, e o cavaleiro decidiu elogiá-lo em vez de fazer uma reprimenda.

— Você é um dos melhores alunos que eu já tive. — Lonios respondeu, tocado pela alegria do garoto.

Nimbus, com o sorriso largo, ficou ainda mais confiante. 

— Sãr Adon? Acho que podemos continuar com o treino dos seus soldados, já falei o que era necessário para Nimbus.

— Claro! — Sãr Adon respondeu rapidamente. — Que tal colocar em prova a habilidade dele contra múltiplos oponentes?

— Não vejo problemas — Lonios concordou, sabendo que, pela rotina de treino de Valeros, essa era uma prática comum para Adon.

— Subam vocês três lá — Sãr Adon apontou para três soldados que estavam esperando sua vez. Eles subiram rapidamente.

Lonios fez um simples movimento com a cabeça, indicando que Nimbus também subisse. 

No fundo, ele torcia para que o garoto se lembrasse das técnicas que havia ensinado para combate contra múltiplos inimigos. 

Antes que o combate começasse, os três soldados se posicionaram em uma formação difícil de defender, um em cada canto do tablado, flanqueando Nimbus de todos os lados. 

Quando Sãr Adon deu o sinal, os três partiram para o ataque ao mesmo tempo.

Nimbus, com movimentos rápidos e precisos, se esquivou do ataque de um dos soldados, chutando-o nas costelas e jogando-o ao chão. 

Em seguida, com habilidade, ele desarmou um dos outros oponentes e, em um movimento fluido, girou, desarmando o último soldado e, com um golpe certeiro, acertou o cabo da espada na boca do homem, forçando-o a recuar.

Foi um movimento lindo de se ver e extremamente rápido, mas Lonios não estava preocupado com isso, Nimbus não estava se contendo.

O soldado que tinha levado um chute estava com bastante dor, talvez até com costelas fraturadas e o que foi ferido com o cabo da espada estava com a boca sangrando e quase com um dente arrancado. Era a sua obrigação não deixar esse breve sucesso lhe subir à cabeça.

— Sãr Adon, que tal você colocar alguns dos seus oficiais para testá-los contra Nimbus — Lonios perguntou ao seu colega.

— Será que ele está preparado? Você acha mesmo uma boa ideia? — perguntou o velho cavaleiro, com um sorriso no rosto.

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