Nexus: O Filho das Estrelas Brasileira

Autor(a): Velthar

Revisão: Banjoloko


Volume 1: Sangue e Promessas.

Capítulo 5: O general e o chá.

Drake saiu da mansão e dirigiu-se diretamente ao setor militar da Acrópole Flutuante.

 

O caminho até o quartel-geral era tranquilo. No entanto, dentro de sua mente, tudo estava longe da calmaria. A reunião com seu pai, Solomon, havia deixado questões sem resposta. A justificativa de que Harkin não tinha ninguém por trás dele parecia absurda. Como um único estudante transferido, sem nenhum apoio político aparente, poderia simplesmente humilhar um membro da família imperial e continuar andando livremente?

 

Algo não fazia sentido.

 

Assim que chegou ao setor militar, foi recebido por soldados da Divisão Imperial, que prontamente o guiaram até a sala do general Markus. O homem estava imerso em documentos e relatórios, mas ergueu os olhos assim que sentiu sua presença.

 

— Drake. — Markus cruzou os braços, apoiando-se na cadeira. — Não esperava vê-lo tão cedo.

 

Drake não perdeu tempo com formalidades.

 

— Preciso saber mais sobre um estudante transferido. — Sua voz carregava uma frieza calculada. — Ele teve um confronto com Stein e desde então a academia virou um caos. O senhor sabe algo sobre ele?

 

Markus coçou a barba antes de responder.

 

— Harkin, certo? — Ele fez uma pausa, como se ponderasse o que dizer. — Seu avô ordenou que o trouxessem. Okini e Pietro foram responsáveis pela missão. Ele parece ser esperto, mas fora isso, nada notável.

 

Drake estreitou os olhos.

 

— Então o senhor não faz ideia de quem ele realmente é? Nem por que ele criaria problemas conosco?

 

Markus soltou um suspiro.

 

— Se seu pai não te contou, não serei eu quem vai fazer isso. — Seu tom era neutro, mas havia um peso oculto em suas palavras. — Mas posso te garantir uma coisa: não há ninguém por trás dele. Vocês estão pensando demais. Esse confronto pode ser mais simples do que imaginam.

 

Drake ficou em silêncio por um instante. Apertou os punhos, segurando sua irritação. Markus claramente sabia mais do que estava dizendo, mas não entregaria nada.

 

O general notou sua frustração e esboçou um sorriso de canto.

 

— Drake, você está deixando sua impaciência nublar seu julgamento. Volte para casa e diga ao seu pai o que eu disse.

 

Drake exalou lentamente antes de assentir.

 

— Obrigado pelo conselho, tio. Vou seguir suas orientações.

 

Ao sair da sala, Markus permaneceu sentado, observando-o partir. Quando a porta se fechou, ele soltou uma risada baixa e murmurou para si mesmo:

 

— Esse garoto vai me dar mais trabalho do que minha filha me deu em vinte anos...

 

---

 

Drake voltou à mansão com um turbilhão de pensamentos. Seu encontro com o general Markus havia deixado mais perguntas do que respostas. Se não havia ninguém manipulando Harkin, então isso significava que ele tinha tomado a decisão de atacar Stein por conta própria. Mas por quê?

 

Ao atravessar os corredores do salão imperial, encontrou seu pai Solomon exatamente onde o havia deixado: sentado em sua poltrona, Virman parado ao lado, como se o tempo não tivesse passado.

 

Solomon ergueu os olhos ao ver o filho retornar mais cedo do que esperava.

 

— Isso foi rápido. — Ele tomou um gole de chá e gesticulou casualmente. — E então, o que Markus disse?

 

Drake cruzou os braços, ainda frustrado.

 

— Markus garantiu que estamos pensando demais. Ele disse que a briga com Stein pode ser mais simples do que imaginamos e que não há ninguém por trás de Harkin.

 

Solomon esfregou o queixo, assimilando as palavras do general. Aos poucos, um sorriso desdenhoso surgiu em seu rosto. Então, começou a rir baixinho.

 

Drake observou, confuso.

 

— O que foi?

 

Solomon continuou rindo, balançando a cabeça antes de finalmente responder.

 

— Agora tudo faz sentido. — Ele se recostou no sofá, cruzando os dedos sobre a mesa. — Esse confronto tem uma motivação mais banal do que parece.

 

Ele fez uma pausa, degustando a reação do filho antes de continuar.

 

— Stein passou meses cortejando uma garota chamada Serafina. Tem sido rejeitado há tempos. Você sabia disso?

 

Drake arqueou uma sobrancelha.

 

— Como não saber? Ele até me pediu conselhos sobre como conquistá-la. Normalmente, as mulheres se jogam para ele. Além de ser da realeza, ele é atraente. Ser rejeitado por uma plebeia fez ele entrar em uma crise de identidade.

 

Solomon soltou uma risada curta e sarcástica.

 

— Então é isso. — Sua expressão endureceu. Os olhos frios brilharam com um desprezo silencioso. — Essa garota é apenas uma plebeia. A alegria da vida dela deveria ser servir a um Empera. O fato de que ela sequer percebe o privilégio que tem me irrita profundamente.

 

Drake franziu a testa. Ele conhecia bem a mentalidade do pai, mas nunca o vira tão incomodado por algo tão trivial.

 

— Você está dizendo que Harkin atacou Stein por causa dela?

 

— Exatamente. — Solomon sorriu de canto, o olhar afiado. — Se não há ninguém por trás dele, se essa situação não é um jogo político, então ele fez isso por instinto. Ou melhor, por desejo.

 

Drake piscou, assimilando a informação. Por mais que tentasse negar, fazia sentido.

 

— Então Harkin atacou Stein porque...?

 

— Porque Serafina recusou Stein, mas talvez tenha mostrado interesse no novato. — Solomon recostou-se na poltrona, girando a xícara de chá entre os dedos. — É tão simples quanto isso. Uma disputa entre machos por uma fêmea.

 

Drake ficou em silêncio por um instante. Algo parecia errado... Mas, ao mesmo tempo, Stein nunca havia sido rejeitado antes. Se Serafina realmente se interessasse por outro, ele não aceitaria pacificamente.

 

E se Harkin agiu por impulso, então isso fazia dele um tolo. Um tolo perigoso, mas um tolo ainda assim.

 

Solomon percebeu a hesitação do filho e pressionou ainda mais.

 

— Isso significa que temos uma vantagem agora. — Ele apoiou os cotovelos na mesa, a voz fria. — Se Stein valoriza tanto essa garota, vamos testar uma teoria...

 

Drake estreitou os olhos.

 

— O que quer dizer com isso?

 

Solomon inclinou-se ligeiramente para frente.

 

— Quero que você a traga até mim.

 

O silêncio preencheu a sala.

 

Drake estreitou os olhos. Havia entendido a intenção do pai, mas precisava confirmar.

 

— Você acha que isso fará Harkin vir até nós?

 

— Se minha teoria estiver certa, sim. — Solomon sorriu de maneira calculista. — E o melhor: papai não poderá interferir. Esse é um problema pequeno demais para a atenção dele, mas grande o suficiente para nos beneficiarmos. Vamos testar a hipótese.

 

Drake suspirou. O plano fazia sentido, mas havia algo nele que o incomodava. Mesmo assim, assentiu.

 

— Vou buscar Serafina agora mesmo.

 

Solomon apenas acenou em aprovação.

 

Assim que Drake deixou o escritório, Solomon tomou outro gole de chá e olhou para Virman.

 

— Você acha que fui longe demais? — Sua voz estava tranquila, mas havia uma sombra de irritação em seu tom. — Tive que desenhar o plano para ele entender.

 

Virman, sempre impassível, deu um leve sorriso.

 

— O jovem mestre Drake é inteligente, mas ele não vê o mundo como o senhor. Ele e Stein se preocupam mais com força do que com estratégia. Isso é uma questão de perspectiva.

 

Solomon riu, mas seu olhar permaneceu afiado.

 

— Talvez você tenha razão. Depois que isso for resolvido, deixarei que lidem sozinhos com seus próprios problemas. Meu pai sempre soube observar bem as pessoas... Pode ser que ele esteja certo sobre esses garotos. Eles são mimados demais.

 

Virman apenas inclinou a cabeça em concordância.

 

— O privilégio deles é esse, não é, milorde? Se a vida deles sempre foi fácil, mudá-la agora traria mais problemas do que soluções.

 

Solomon sorriu com ironia.

 

— Você sempre sabe o que dizer, Virman. Vamos ver como essa história se desenrola. Eu prefiro sempre o plano mais simples.

 

Ele tomou o último gole do chá, enquanto uma única certeza se formava em sua mente.

 

"Esse novato fará o velho mudar as regras do jogo. E eu preciso estar pronto para isso."

 

---

 

Enquanto o Império fervilhava com as repercussões do que Harkin havia causado, ele parecia alheio ao caos.

 

Enquanto nobres e oficiais militares tramavam nas sombras, ele dormia profundamente.

 

Seu dormitório ficava no Prédio Lumax, a maior estrutura da academia, reservada apenas aos melhores estudantes. O espaço era luxuoso, um pequeno apartamento privativo, com uma sala de estar bem mobiliada, cozinha equipada, um quarto espaçoso e até mesmo uma sala dedicada a treinos.

 

Era um contraste brutal com a ala dos nobres, onde sangue e influência ditavam a escolha de acomodações. Ali, o que definia o direito de estar era o talento puro.

 

No entanto, o dormitório de Harkin, apesar de todo o requinte arquitetônico, era um completo caos. Roupas jogadas de qualquer jeito, papéis espalhados, objetos largados como se tivessem sido deixados no meio de uma tempestade.

 

Mas, para ele, estava confortável assim.

 

O silêncio do ambiente foi quebrado por batidas insistentes na porta.

 

No início, eram apenas toques suaves. Mas, conforme Harkin ignorava, as batidas se intensificaram, até se tornarem socos que faziam a estrutura tremer.

 

Ele acordou abruptamente.

 

Ao abrir a porta, um soco veloz veio em sua direção.

 

Seus reflexos impediram o golpe no último segundo. Segurou o punho do agressor com facilidade, seu olhar ainda meio sonolento, mas carregado de diversão.

 

— Cara, existem formas melhores de acordar alguém do que quase derrubar a porta. Quer começar uma briga logo de manhã?

 

A frente dele, um homem alto, robusto e de expressão feroz o encarava. A pele bronzeada realçava a cicatriz discreta no queixo, e os olhos de um azul profundo pareciam perfurá-lo.

 

Vestia o uniforme da academia — colete preto sobre a camisa branca, calças sociais bem ajustadas — mas sua musculatura fazia o traje parecer pequeno demais para seu corpo.

 

— Você tem sorte de eu não ter te destruído. Pra que serve um Magiphone se você não atende? — O homem bufou, visivelmente irritado. — Achei que estivesse morto! Ressuscitou? Faz uns dez minutos que estou te chamando, e nada! Se eu não tivesse sentido sua presença, estaria preocupado, mas o morto-vivo aqui não podia acordar do seu descanso de beleza, não é?

 

— Pietro. — Harkin abriu um sorriso preguiçoso.— Para com o drama e entra logo. Parece que não anda transando ultimamente, hein?

 

Pietro franziu o cenho, irritado com a provocação, mas seguiu Harkin para dentro. Seu olhar percorreu o apartamento e ele soltou um suspiro de exasperação.

 

— Por Empera! Você nunca ouviu falar de higiene e organização?

 

Harkin deu de ombros.

 

— Puta que pariu, Pietro! Você é meu pai, por acaso? O lugar tá limpo, só tá bagunçado.

 

— "Bagunçado"?! — Pietro olhou ao redor, incrédulo. — Isso aqui parece o quarto de um animal.

 

— Bom, pelo menos não parece o seu quarto, que é um templo de perfeição e chatice.

 

Pietro massageou as têmporas, controlando a paciência.

 

— Você não aprende, né?

 

Harkin apenas sorriu.

 

Antes que Pietro pudesse dizer mais alguma coisa, Harkin se tornou um borrão. A velocidade com que se moveu fez o ar vibrar. Em poucos segundos, toda a bagunça do apartamento desapareceu. Os objetos foram organizados de forma improvisada, roupas jogadas no armário e os papéis enfiados em uma gaveta qualquer.

 

A cozinha já tinha água fervendo para o chá, e sobre o balcão estavam duas xícaras prontas.

 

Pietro piscou, surpreso.

 

— Se eu não visse sua velocidade, não acreditaria. Mas se você não tinha tempo para arrumar, como conseguiu fazer isso em exatos cinco minutos?

 

Harkin sorriu de canto.

 

— Simples. Eu não organizei nada. Só joguei a bagunça no meu quarto e na sala de treino.

 

Pietro riu, pegando uma das xícaras.

 

O silêncio pairou por um momento enquanto tomavam o chá. Mas Pietro não havia esquecido o real motivo de sua visita.

 

Ele pousou a xícara na mesa e encarou Harkin.

 

— Você ao menos tem noção do tamanho da merda que fez?

 

Harkin ergueu uma sobrancelha, divertido.

 

— Cara, você veio mesmo pra dar sermão?

 

Pietro ignorou a provocação.

 

— O Império inteiro tá falando de você. Se acha que Stein era o problema, espere até ver o que vem pela frente. Você tem um plano?

 

Harkin sorriu de forma enigmática.

 

— Eu sempre tenho um plano.

 

O chá esfriava sobre o balcão enquanto o silêncio se instalava entre Harkin e Pietro.

 

— Dessa vez, espero que seja algo mais sólido do que socar alguém.

 

— Funcionou bem até agora.

 

— Eu tô falando sério, droga! — Pietro socou o balcão, fazendo as xícaras tremerem. — Você não está lidando com um estudante mimado qualquer agora. Isso envolve Solomon. Você sabe quem ele é. Ele vai fazer algo.

 

Harkin suspirou e girou o chá na xícara.

 

— Eu sei. E estou pronto para lidar com ele.

 

Pietro soltou uma risada amarga.

 

— Pronto? Você tá achando que isso é uma luta que pode se resolver na porrada?

 

Harkin não respondeu de imediato. Seus olhos brilhavam com algo mais profundo.

 

Pietro percebeu a mudança sutil. Conhecia Harkin há tempo suficiente para saber que por trás da fachada despreocupada, havia algo mais.

 

— Você realmente acha que Solomon é um problema? — Harkin perguntou, erguendo a sobrancelha.

 

— O que mais ele seria?

 

— Uma oportunidade.

 

Pietro estreitou os olhos.

 

— Eu não gosto dessa sua cara de "já pensei em tudo". Fala logo. O que você tá planejando?

 

Harkin girou a xícara entre os dedos antes de responder.

 

— Solomon é um homem de negócios antes de qualquer coisa. Se eu for um problema grande o suficiente, ele vai querer me transformar em um ativo.

 

Pietro piscou, processando as palavras.

 

— Você quer que ele tente te recrutar?

 

— Quero que ele veja o que posso oferecer. Se ele quiser me usar, eu ganho influência. Se ele tentar me esmagar, ele perde algo mais valioso. De qualquer forma, ele não pode simplesmente me eliminar sem gerar consequências.

 

Pietro recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

 

— Isso é um jogo perigoso.

 

Harkin sorriu.

 

— Os melhores jogos sempre são.

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