Nexus: O Filho das Estrelas Brasileira

Autor(a): Velthar

Revisão: Banjoloko


Volume 1: Sangue e Promessas.

Capítulo 10: A Biblioteca Infinita.

Dentro da mente de Harkin, Eiden começou sua busca.

 

Cada ser vivo tem uma estrutura mental diferente. Para alguns, a mente se revela como um labirinto, para outros, um campo vasto e vazio, ou até mesmo um oceano infinito.

 

A de Harkin, no entanto, era uma biblioteca.

 

Uma imensa biblioteca.

 

As estantes se erguiam até onde os olhos alcançavam, quatro andares repletos de livros, corredores intermináveis, paredes adornadas com detalhes luxuosos e vitrais colossais, através dos quais uma luz ofuscante se infiltrava, distorcendo qualquer visão para além daquele espaço.

 

Não havia nada lá fora.

 

Apenas a forte luz que iluminava o lugar.

 

Eiden bufou, cruzando os braços.

 

— Uma biblioteca, sério?

 

Ele caminhou por entre as prateleiras, observando os livros.

 

— Moleque, você é bom de briga e ainda um CDF?

 

Então, ele ouviu passos distantes ecoando pelos corredores.

 

Alguém se aproximava.

 

Eiden virou-se e viu Harkin, caminhando casualmente em sua direção.

 

Ao vê-lo, o imperador sorriu de canto.

 

— Você diz que contar tudo seria um saco, e agora que eu vim ver por mim mesmo, me joga nesse labirinto infinito de livros pra me atrasar?

 

Harkin retribuiu com um meio sorriso.

 

— Relaxa, terceira idade. Eu vou te mostrar o que aconteceu.

 

O jovem parou ao lado de Eiden, cruzando os braços.

 

— Mas como você pode ver, depois que invadiram minha mente contra minha vontade, eu aprendi a reforçar minha proteção. Não sou forte o bastante para barrar você ou a mamãe, mas até gente como Markus teria problemas para acessar minhas memórias.

 

Eiden franziu o cenho.

 

— Tentaram invadir sua mente antes?

 

A informação ficou registrada em sua cabeça. Se Harkin havia sido alvo de algo assim, era um sinal de que ele já estava envolvido em um jogo perigoso.

 

— E ainda assim você me convidou pra ver isso? — Eiden comentou, semicerrando os olhos.

 

— Se eu te contasse, você desconfiaria.

 

O imperador não discordou.

 

Harkin suspirou e apontou para as prateleiras ao redor.

 

— Enfim, vamos acabar logo com isso.

 

Eiden assentiu, sua expressão carregando um misto de curiosidade e cautela.

 

— Então me guie.

 

Por um instante, o olhar de Eiden suavizou levemente, demonstrando um toque de empatia.

 

Harkin não gostou.

 

— Não tenha pena de mim.

 

O tom dele ficou rígido, quase agressivo.

 

— Você pode ser meu pai, mas eu não sou uma criancinha traumatizada com problemas de abandono.

 

Eiden estreitou os olhos.

 

— Eu vivi muito tempo, moleque. Sentir pena de gente jovem e idiota é automático.

 

Harkin se preparou para retrucar, mas Eiden continuou antes que ele pudesse interromper:

 

— Mas não se engane. Minha pena não é de um soberano para um coitado.

 

O olhar do imperador se tornou sério.

 

— É o pesar de um pai que não acompanhou a infância do próprio filho.

 

Harkin desviou o olhar, desconfortável.

 

Ele não respondeu.

 

Eiden respirou fundo.

 

— Vamos parar de enrolar.

 

Ele olhou ao redor.

 

— Tem pelo menos uma cadeira nesse maldito lugar?

 

Harkin revirou os olhos, estendeu a mão e, num brilho leve de mana, uma mesa de madeira surgiu com duas cadeiras refinadas.

 

Eiden assentiu satisfeito.

 

— Você tem mais controle sobre sua mente do que eu esperava. Quem te ensinou?

 

— Ninguém. — Harkin respondeu, casualmente sentando-se.

 

— Aprendi ouvindo pequenos detalhes do que a velha dizia às vezes.

 

Eiden ficou em silêncio por um instante.

 

Então, se sentou na cadeira oposta e inclinou-se para a frente, os cotovelos apoiados na mesa.

 

— Bom. Então vamos direto ao ponto.

 

Harkin puxou um livro de capa vermelha da prateleira, assoprou a poeira e o colocou sobre a mesa.

 

— Aqui está o que você quer.

 

Eiden passou os dedos pela capa do livro, observando-o.

 

— Vamos ignorar a parte da reconstrução familiar, certo? Podemos salvar essa relação outra hora.

 

O imperador sorriu de canto.

 

— Direto ao ponto. Já imaginava que você não seria dócil comigo.

 

Harkin cruzou os braços.

 

— Antes de tentar ser um pai, primeiro você precisa saber quem eu sou.

 

O tom dele era firme.

 

— E saber por que eu não quero ser amiguinho do Império. Muito menos ser filho do imperador.

 

Eiden ficou em silêncio, ouvindo.

 

— Depois de ver o que aconteceu comigo, você terá suas respostas.

 

Harkin respirou fundo.

 

— E eu vou tentar, com muita força, não ser um cuzão com você e o resto da família.

 

Ele sorriu de canto.

 

— Afinal, se eu quiser concretizar meus planos, evitar você e os outros não será uma opção.

 

Eiden estreitou os olhos.

 

— Planos, é?

 

Harkin não respondeu.

 

— Tudo bem. — O imperador passou os dedos sobre a mesa. — Mas antes…

 

Ele o encarou fixamente.

 

— Até pouco tempo atrás, eu só observava de longe. Pensei que você era um espião de Morgana.

 

O silêncio de Harkin não o surpreendeu.

 

— Ainda não consigo descartar essa ideia. Então me diga…

 

Eiden se inclinou ligeiramente para a frente.

 

— Eu estou certo ou errado, criança?

 

Harkin ficou imóvel por um instante.

 

Então, riu.

 

O riso foi genuíno, e seus olhos até lacrimejaram um pouco.

 

Eiden não gostou nada da reação.

 

— Qual a graça?

 

Ele bateu o dedo na mesa, impaciente.

 

— Eu sou sincero com você, e você ri da minha cara?

 

Harkin ergueu a mão, cessando a risada.

 

— Calma, velho.

 

Ele respirou fundo, recompondo-se.

 

— É só engraçado como todos os governantes acham que eu tô metido nesse jogo de poder de vocês.

 

O olhar de Harkin ficou sério novamente.

 

— Eu não tenho interesse no trono do Império. Muito menos no de Nerio.

 

Eiden estreitou os olhos.

 

Harkin continuou.

 

— Foi por isso que abdiquei da linha de sucessão.

 

— E sua mãe aceitou isso?

 

Harkin deu de ombros.

 

— Ela não tem herdeiros além de mim, mas isso não importa. No papel, eu sou um príncipe, mas na prática, eu não interfiro em nada.

 

Ele bufou.

 

— E não me revelei ao Império pelo mesmo motivo. Você sabe quantos problemas políticos eu evitaria simplesmente fingindo que eu não existo?

 

Eiden relaxou os ombros.

 

Ele dizia a verdade.

 

O imperador respirou fundo.

 

— Podemos continuar?

 

Pegando o livro de capa vermelha, ele virou-se para o filho.

 

— O que eu verei se abrir isso?

 

Harkin sustentou o olhar.

 

— Um passado com arrependimentos.

 

Ele sorriu sem humor.

 

— E outras milhares de coisas que eu preferia esquecer.

 

Eiden abriu o livro.

 

Imediatamente, um turbilhão de emoções, visões e sons tomou conta de sua mente.

 

A biblioteca desmoronou ao seu redor, dando lugar a um vazio absoluto.

 

Harkin desapareceu.

 

Por um momento, Eiden não sentiu nada.

 

Nem tempo. Nem espaço.

 

Apenas o vazio.

 

Silêncio.

 

Ele esperou.

 

E esperou.

 

Por uma eternidade.

 

Sem luz.

Sem som.

Sem cheiro.

Sem qualquer ponto de referência.

 

Aos poucos, sua consciência se fragmentou.

 

Quem sou eu...?

 

O tempo ali não existia. Anos? Décadas? Séculos?

 

Ele esqueceu de si mesmo.

 

Sua mente se dissolveu no nada, tornando-se parte do próprio vazio.

 

Então, flashes apareceram.

 

Primeiro, distantes.

 

Depois, se tornando imagens.

 

Rostos borrados pelo excesso de luz.

Sorrisos.

Pessoas que ele nunca tinha visto.

 

E então, Eiden sentiu algo.

 

Um corpo.

 

Ele tentou se mover.

 

Pesado.

 

A mente turva.

 

Tudo parecia novo, como se estivesse experienciando o mundo pela primeira vez.

 

Os Primeiros Anos

 

Eiden não era mais ele mesmo.

 

Ele era Harkin.

 

A memória tomou forma, e o tempo começou a fluir novamente.

 

Eiden viu através dos olhos de uma criança muito pequena.

 

Não haviam palácios, nem luxo, nem nobreza.

 

Havia uma casa simples.

 

O cheiro de pão fresco, madeira envelhecida pelo tempo e o som do vento cortando as janelas.

 

Dois adultos estavam ali.

 

Um homem e uma mulher, ambos na casa dos trinta anos. Seus rostos eram marcados pelo sol, os corpos fortes pelo trabalho duro.

 

Mas eles sorriam.

 

Viviam uma vida simples, mas cheia de alegria genuína.

 

Na casa, além deles, duas crianças mais velhas.

 

Um garoto alto, por volta dos dez anos, cabelos pretos e ondulados.

 

E uma menina de treze ou catorze, cabelos castanhos longos que desciam até a cintura. Seu rosto, mesmo jovem, já carregava traços de uma beleza marcante.

 

Eiden sentiu uma dúvida repentina crescer dentro dele.

 

Quem são essas pessoas...?

 

O pensamento não era dele.

 

Era de Harkin.

 

Aos poucos, Eiden percebeu o que estava acontecendo.

 

Ele estava vivendo a memória em tempo real.

 

Os anos passaram, e ele foi entendendo.

 

O casal se chamava Beatrice e Kian.

 

Eles eram pais adotivos.

 

Foram eles que criaram Harkin.

 

Mas não por muito tempo.

 

Quatro anos depois, eles morreram.

 

Uma praga atingiu Sinnomun, ceifando muitas vidas. Entre elas, as de Beatrice e Kian.

 

Foi nesse momento que a perspectiva de Eiden mudou.

 

A consciência dele se separou da de Harkin, e agora ele via tudo como um espectador externo.

 

Os últimos sete anos passaram diante de seus olhos.

 

E tudo começou a fazer sentido.

 

Eiden inspirou fundo.

 

Harkin foi criado por pais adotivos...

 

Seus punhos se apertaram.

 

Ele perdeu os primeiros anos do próprio filho.

 

"Beatrice e Kian... Eles eram boas pessoas."

 

Viveram como pessoas honradas.

Fizeram um bom trabalho.

Foram excelentes pais.

 

"Melhores do que eu fui."

 

Eiden sentiu uma tristeza profunda crescer em seu peito.

 

Mas ele não tinha o direito de lamentar.

 

O passado era imutável.

 

— Finalmente acordou, velho?

 

A voz de Harkin o trouxe de volta.

 

Eiden virou-se e viu o jovem deitado no nada, as mãos cruzadas atrás da cabeça.

 

Seus cabelos cor de cobre cobriam parte do rosto, mas Eiden viu sua expressão.

 

Não havia raiva.

 

Nem sarcasmo.

 

Havia tristeza.

 

Uma tristeza genuína.

 

Ele ainda sente a dor da perda.

 

Eiden não comentou.

 

Apenas respirou fundo.

 

— Essa foi a primeira vez que vivenciei uma memória de forma tão intensa.

 

Ele encarou Harkin.

 

— Você colocou algum feitiço na sua mente?

 

Harkin negou com a cabeça.

 

— Não.

 

Ele tragou o cigarro antes de continuar.

 

— Eu não sei o motivo, mas a mamãe passou pelo mesmo fenômeno.

 

Eiden arqueou uma sobrancelha.

 

— Morgana também ficou presa nas suas memórias...?

 

— Sim. — Harkin exalou a fumaça lentamente. — Mas na época eu não tinha poder suficiente para agir como guia. Então ela demorou muito mais tempo pra se desprender.

 

Eiden ficou em silêncio.

 

"O que foi isso...? Eu fiquei preso no que parecia o Vazio. Hrkin não tem experiência suficiente para me prender ali. Por que eu não consegui sair antes?"

 

Algo não estava certo.

 

Mas agora não era o momento para questionar isso.

 

Harkin se levantou do nada e sacudiu a poeira invisível de suas roupas.

 

— Enfim, vamos ao que importa.

 

Ele olhou diretamente para o pai.

 

— Você quer continuar vivenciando? Ou prefere apenas observar?

 

Eiden estreitou os olhos.

 

— Essa escolha não é sua.

 

Harkin desviou o olhar, cruzando os braços.

 

— Eu sei. Mas às vezes é bom entender as intenções das pessoas.

 

Ele fechou os olhos.

 

— O que vem agora...

 

Ele engoliu em seco.

 

— É onde tudo começou a dar errado.

 

Eiden não hesitou.

 

Ele se jogou de volta na memória.

 

E voltou a ser Harkin.

 

A Sombra do Passado

 

A voz de Harkin ecoou dentro da mente de Eiden.

 

— Essa era Gabriela.

 

Eiden viu uma jovem de dezoito anos, ombros erguidos pelo peso da responsabilidade.

 

— Depois que Beatrice e Kian morreram, ela e Edgar cuidaram de mim.

 

A memória se ajustou, mostrando um garoto de quatorze anos.

 

— Edgar teve que amadurecer rápido demais.

 

A voz de Harkin suavizou levemente.

 

— Mas mesmo assim, nós fomos felizes.

 

Eiden observou as cenas.

 

Viu anos passarem diante de seus olhos.

 

A rotina simples, os desafios, os momentos de felicidade.

 

Harkin trabalhando de um lado para o outro para ajudar os irmãos.

 

O dia em que Gabriela o forçou a tomar banho, dizendo que não seriam pobres e sujos ao mesmo tempo.

 

A vez em que Edgar bateu em três garotos mais velhos por terem agredido Harkin.

 

Então, o aniversário.

 

Os irmãos conseguiram comprar um bolo.

 

Harkin chorou de alegria.

 

Eiden sentiu o aperto no peito.

 

Essa era uma família feliz.

 

E então...

 

A voz de Harkin ecoou como um sussurro dentro da mente de Eiden.

 

— Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida.

 

Ele sentiu o peso das palavras.

 

— Nós tínhamos pouco, mas estávamos bem. Gabriela era aprendiz de padeiro, Edgar treinava com a guarda privada de uma companhia. O dinheiro era curto, mas finalmente não estávamos endividados. Eles queriam me colocar numa escola, diziam que eu era um gênio desperdiçado sem os recursos certos.

 

Carregada de uma melancolia oculta, os pensamentos dele passaram para seu pai.

Como se aquele momento fosse um brilho distante em meio à tempestade de sua vida.

 

— Mal sabia eu… que aquele seria o meu último dia feliz ao lado deles.

 

As palavras ressoaram como um trovão dentro da mente de Eiden.

 

A cena diante de seus olhos tremeu.

 

O mundo desmoronou.

 

E então, ele foi puxado.

 

Eiden sentiu sua consciência ser engolida pelo abismo da memória.

 

Dor.

Euforia.

Tristeza.

Alegria.

 

Tudo veio de uma vez.

 

Ele não era mais o imperador.

 

Ele não era mais um observador.

 

Ele era Harkin.

 

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