Murphy Brasileira

Autor(a): Otavio Ramos


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 52: De Volta ao Lar

Ella despertou sobre uma cama, diferente do lugar onde havia adormecido.

“Eu não sei mais se isso é a realidade ou se estou novamente no mundo daquela silhueta” pensou, levantando-se lentamente.

Sua rapieira, ainda embainhada, estava apoiada do lado da cama; sua jaqueta e revolver estavam cuidadosamente acomodados sobre uma cadeira próxima.

Ela fixou a bainha de volta ao seu cinto, colocou o revólver no coldre e vestiu sua jaqueta. Seu corpo parecia surpreendentemente leve — não sentia mais dor nenhuma, como se nunca tivesse sido ferida.

Enquanto caminhava em direção à saída da casa, pensamentos inquietos inundavam sua mente.

Ao abrir a porta, um forte feixe de luz solar atingiu seus olhos, obrigando-a cobri-los — sua visão ainda estava sensível. Os pássaros cantavam naquele dia ensolarado e pacífico.

— Oh, você acordou — comentou Mariah, sentada numa cadeira de balanço enquanto fumava totalmente despreocupada. — Como está se sentindo?

— Eu me sinto estranhamente bem. Todas as minhas dores sumiram.

— É um dos efeitos da Lumen, ela é realmente fantástica. Você precisava ter visto o impacto que ela teve na sociedade quando foi lançada. O criador dela até ganhou o Nobel de Medicina.

— Eu tinha que ter visto muitas coisas da sociedade — murmurou Ella, apoiando-se no corrimão da varanda. — Mas infelizmente nasci na pior era da humanidade

— Já fumou alguma vez? — perguntou Mariah, estendendo o cigarro aceso em sua direção.

— Não. E nem quero.

— Qual é, só um trago, não vai te matar. Você disse que tinha que ter visto muitas coisas da sociedade, então comece com uma das mais antigas: o tabaco.

Relutante, Ella pegou o cigarro com a ponta do polegar e indicador.

— É só sugar?

— Coloca na boca e puxa a fumaça, é simples.

Ela sugou a fumaça e quase que instantaneamente tirou o cigarro da boca, engasgando-se enquanto tossia, fazendo uma careta que evidenciava plenamente o seu repulso.

— Puta merda, isso é horrível — reclamou Ella, devolvendo o cigarro para Mariah com uma cara de nojo. — É-é um sabor amargo... seco, não sei explicar.

— Com o tempo você se acostuma — respondeu Mariah, levando o cigarro de volta aos lábios. — Mudando de assunto, o que pretende fazer agora? Eu sugiro que você descanse um pouco. Passamos por muita merda esses dias.

— Vou voltar pra UCC, passar um tempo com meu irmão e depois ir atrás de um Emissário. Tenho um assunto pendente a resolver.

— O que você quer com Emissários, garota? Você não é caçadora. Não vá atrás de brigas que não são suas.

— Você não entenderia... e também não posso te explicar. É só algo que eu preciso fazer. — Ela fez uma pausa. — Aliás, tem alguma ideia de onde o Iori possa estar? Sabe, o antigo Águia.

Mariah suspirou, fitando Ella.

— Vocês, Murphy, são tão enigmáticos. Odiava isso no seu pai. E não, não faço a menor ideia de onde ele esteja, não quero saber e recomendo que você também fique longe dele. O Iori foi um dos Águias mais fortes da época, isso sem mencionar que era o melhor espadachim da CCV.

— Mas o meu pai não era o melhor caçador da CCV?

— Sim, o seu pai era o melhor caçador no conjunto geral. Mas falando estritamente da maestria com espadas, Iori superava todos, até mesmo o Aslan. Se você estiver pensando em enfrentá-lo, desista. Isso seria suicídio.

Ella desviou o olhar, observando as casas da comunidade.

— Eu vou dar um jeito... eu sempre dou.

— Não posso te proteger para sempre. Só tome cuidado, nem sempre seus planos vão funcionar.

— Não se preocupe. Eu vou pegar o meu cavalo e aí... espera, o meu cavalo! Ele correu para longe quando enfrentamos o Lyendell.

— É... ele correu pra beeem longe — comentou Mariah, segurando o cigarro entre os dedos.

— Merda. E aquele cavalo nem era meu, era da comunidade. O Marc vai ficar furioso.

— Garanto que Marc ficaria muito mais furioso se você tivesse morrido pro Lyendell. É só um cavalo.

— Bom dia, Ella! Pelo visto a máquina te revitalizou totalmente — disse Tatiana, aproximando-se.

— É, estou cem por cento novamente.

— Fico feliz que não tenha sofrido nenhum efeito colateral. — Tatiana apoiou-se numa das vigas da varanda, ficando de frente a Ella. — Só queria dizer que você está livre agora. Sua parte do nosso acordo foi paga. Se quiser ficar conosco, tem algumas casas disponíveis. Ou caso queira seguir seu próprio caminho, a escolha é sua.

— Ah... obrigada, eu acho. Ainda estou decidindo, mas vou sair temporariamente. Tenho um assunto a resolver.

Kurt apareceu logo em seguida, acompanhado por duas crianças loiras de olhos azuis — uma garota em seu colo e outro garoto os seguindo.

— Olha quem veio ver a mamãe — disse ele, passando a criança de colo pra Tatiana.

— Ah, meus amores... digam oi para a tia Ella. Esses são os meus filhos, essa fofura é a Elena e o meu maior se chama Nicolas.

À primeira vista, eles pareciam uma família perfeita — ninguém jamais imaginaria que aquela mulher fora uma serial-killer.

— Eles são lindos, a Elena é a sua cara — respondeu Ella, acariciando suavemente a cabeça da menina.

— Ei! Essa sua espada é muito maneira, tia Ella — exclamou Nicolas.

— Gostou? Posso te ensinar a usá-la qualquer dia desses.

— Sério?! Eu ia adorar! Amo esses lances de espadachim.

Ella riu suavemente.

— Vão com seu pai agora. Depois que eu terminar de conversar com a tia Ella, eu brinco com vocês — disse Tatiana, devolvendo Elena para Kurt.

Nicolas voltou saltitando até seu pai.

— Onde estávamos mesmo? Ah é... bom, a escolha é sua. Faça o que seu coração achar melhor. E só pra esclarecer, quando eu tinha ameaçado de te matar, era um blefe. — Tatiana disse isso com um sorriso descarado. — Eu só mataria um Murphy se ele tentasse me matar primeiro. Fora isso, jamais. Sua linhagem é a herança mais valiosa do passado.

— É bom saber que você realmente aprecia minha família. É... eu poderia ter minha mochila de volta? Você confiscou quando nos jogou na sarjeta.

— Ah, claro, é pra já.

Tatiana se retirou para pegar a mochila de Ella. Assim que ganhou distância, Ella soltou um suspiro contido.

— Ela me deixa meio tensa, sinto que se eu disser qualquer coisa errada, ela me mataria.

— É porque ela realmente mataria — respondeu Mariah, sem hesitar. — Não você, claro. Você é tipo uma divindade pra ela.

— Sou tipo uma deusa e ainda sim ela blefa com minha morte? Que péssima devoção em...

— Ela só queria te testar. Ver se você era de fato uma Murphy de valor, e quando viu que era, voltou a te bajular.

— Tanto faz. Eu só quero sair daqui logo. Acha que pode me levar até a UCC com o seu cavalo?

Mariah apagou o cigarro contra a parede e o colocou no cinzeiro ao seu lado.

— Eu e o Marc não terminamos muito bem. Posso te deixar perto da comunidade, mas não chego perto dos portões dele.

— Tranquilo, não me importo com a rixa de vocês. Podemos ir?

Mariah se levantou, pegou sua blusa dentro de casa e partiu ao lado de Ella.

No caminho para o estábulo, encontraram-se com Tatiana.

— Aqui está sua mochila. — Tatiana entregou-a com cuidado excessivo. — Volte sempre que se sentir cansada, com fome ou por qualquer motivo, estarei esperando por você.

Ela segurou as mãos de Ella por um instante a mais do que o necessário e sussurrou em seu ouvido:

— Conto com a sua ajuda para restaurarmos o império Murphy novamente. Os Infames estão quase todos mortos. Mais um pouco e a glória caíra sobre nós Primordiais.

— Esse mundo já é nosso — respondeu Ella, com um sorriso controlado.

Assim que subiu na garupa do cavalo, o sorriso sumiu.

Ela detestava aquelas ideias puracionistas, ainda mais por ter sido criada ao lado de inúmeros humanos comuns, partilhando medos e fragilidades que Tatiana jamais compreenderia.

Diante do portão da comunidade, prestes a sair, Ella notou que John estava encarando-a à distância. Ele levou dois dedos aos próprios olhos e em seguida apontou para ela. Um aviso silencioso. Ella desviou o olhar com desdém.

Horas depois, chegaram próximo as muralhas da UCC. O sol ainda alto iluminava o caminho, com o cantar dos pássaros preenchendo o silêncio.

— Daqui você segue a pé — disse Mariah.

— Você sabe que há vigias em cada canto dessas muralhas, né? Eles sabem que você está aqui. Por que não desce e resolve logo seus problemas com o Marc?

— Antes do mundo acabar eu me resolvo com ele, mas não vai ser hoje. Agora vá. Quero fumar.

Ella desceu do cavalo.

— Eu queria dizer, é... — Ella passou a mão na nuca, hesitante. — Desculpa por ter sido desrespeitosa com você, embora tenha me dado motivos. Só estou viva graças a você. Seria ingratidão da minha parte se eu continuasse te tratando da mesma forma. Só... me avise da próxima vez que for sacrificar alguém.

— Não se preocupe, eu não guardo mágoas — respondeu Mariah, com um sorriso gentil. — Tome cuidado, a partir de agora, não estarei ao seu lado para te proteger.

— Eu sei me virar.

— Sei que sabe. Mesmo assim... não faça nada imprudente.

— Humpf, vou tentar — respondeu Ella, sorrindo de leve.

As duas se despediram — Mariah seguiu rumo ao horizonte enquanto Ella atravessava os portões da comunidade.

— Ella Murphy está de volta! — gritou um dos guardas.

Ethan saiu correndo da Taverna do Dragão e a envolveu num abraço de urso.

— Não me assuste assim, Ella. Eu pensei... pensei que você tivesse morrido.

— Dessa vez eu realmente cheguei perto, muito perto da morte.

— Você nunca deveria ter vindo pra cá — murmurou ele, encostando sua testa na dela. — Esse lugar é perigoso demais pra você.

— Eu não sou mais uma criança, Ethan...

— Você sempre vai ser minha irmãzinha, sabe disso.

— Senti muitas saudades de você — respondeu Ella, acariciando a cabeça dele.

— Pelos deuses, você está viva! — exclamou Marc, surgindo atrás deles. — Você não sabe como ficamos preocupados quando o Atlas retornou sem você.

Os membros da guilda dos caçadores estavam acompanhando Marc. Não só isso, como os civis que ficaram olhando a cena — havia formado quase uma plateia.

— É bom te ver de novo, Marc. — Ella sorriu.

— Então você está viva... talvez eu tenha te subestimado — comentou Cedric.

— Eu disse que ela não morreria. A garota derrotou um Emissário, ela não cai fácil — acrescentou Isaac.

Isaac chegou por trás de Ella e a deu um abraço de ombro.

— Você ainda lembra de mim, não é, Ellinha?

— Claro que lembro, mas não imaginava que você fosse ficar aqui. Achei que fosse um andarilho.

— O Isaac tem sido de grande ajuda para todos, você encontrou uma boa pessoa — admitiu Marc.

— Desculpa interromper, mas será que podemos ir pra um lugar mais reservado? Tem gente demais nos olhando.

No porão da Taverna do Dragão Roxo, cervejas artesanais e vinho enchiam a mesa redonda. Estavam comemorando o retorno de Ella.

— Ela vai usar os rifles que nós pegamos pra iniciar uma possível guerra contra os Goldwings. Ela não chegou a mencionar nada da UCC, mas nós provavelmente seremos o próximo alvo dela.

— Isso é péssimo, ainda mais com o Kross ao lado dela — disse Cedric.

— Temos um tempo até ela vir atrás da gente. Deixem ela destruir os Goldwings primeiro. Isso vai ser bom pra gente — concluiu Marc.

— E o que aconteceu no tempo em que eu estive fora? Vejo que o Isaac entrou pra guilda.

— Sim, eu e o Marcos entramos. Agora temos dois Águias, um Grimhart e dois Murphy. A guilda tá quase virando um esquadrão da CCV.

— Poderia ser melhor — interrompeu Raiden. — Se tivéssemos o Scott e quem sabe até mesmo o Aslan, seríamos imparáveis.

— É, mas nós não temos, então deem o melhor de vocês. Sinto que não estão levando a situação a sério como deveriam — bradou Cedric, sério como sempre.

— Desculpe interromper e eu sei que não tem muito a ver com o assunto, mas onde estão o Marcos, o Hans e a Zoe?

— O Marcos deve estar em algum lugar da comunidade por aí, já o Hans e a Zoe estão em casa... juntos. Só nós, os solteiros, ficamos na taverna mesmo — ironizou Ethan.

— A gente deveria mudar o nome da guilda para “Guilda dos Solteiros” — sugeriu Isaac, rindo.

— Mas e o Hans e a Zoe? — perguntou Ella.

— Expulsamos os dois e abrimos vaga para mais dois solteiros — respondeu Isaac, sem o menor pudor.

Cedric não conseguiu segurar o riso diante de uma conversa tão idiota.

Depois de muita bebida, risadas e celebração, cada um seguiu para sua casa.

Ella se livrou de todo seu armamento, das botas e das meias e se jogou na sua cama. Como havia sentido falta disso.

Ethan sentou-se na ponta da cama. Observou sua irmã brevemente antes de sorrir.

— Às vezes fico assustado de como você cresceu. Agora já é uma mulher adulta, não é mais aquela garotinha que eu pegava no colo.

— Você ainda pode me pegar no colo — respondeu Ella, sorrindo de leve.

— Não sei se você ainda cabe no meu colo.

O sorriso dele diminuiu de pouco em pouco.

— Eu e o Cedric investigamos umas fendas que se abriram por perto. O Vazio anda... inquieto. Ele acha que isso tem alguma ligação com você.

— Eu?! — Ella se ergueu um pouco. — O que eu teria a ver com isso?

— O Cedric disse que o Chaos está tentando acelerar o processo de erradicar os humanos. Ele teme que um Murphy possa derrotá-lo novamente.

Ella franziu o cenho.

— O quê? Não, definitivamente não. Ele já teve a chance de me matar e não matou. Disse que havia muitas coisas que eu precisava testemunhar. Fora que você está aqui há anos. Não tem nada a ver com os Murphy.

— Sei que me ama como seu irmão e eu também te amo como minha irmã — disse Ethan, com cuidado. — Mas nós dois sabemos que eu não sou um Murphy... pelo menos não de sangue.

Ella sentou-se na cama e suspirou, desanimada.

— É frustrante saber que só me resumem a uma linhagem... não me veem como uma pessoa única, nunca sou a Ella. Sou sempre a Murphy, Ella Murphy.

— Não foi isso que eu quis dizer...

— Eu sei que não. — Ela o interrompeu. — É só que eu queria ser livre desses estigmas, dessas responsabilidades que me perseguem somente por eu ser descendente de um homem mau que fez coisas horríveis há séculos atrás. Minha simples presença provoca mudanças e causa mortes... tudo porque temem uma maldita linhagem.

Ethan ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão.

— Será que ele realmente fez coisas ruins? Você não acha que em um mundo onde todos tivessem Vontade, nós não teríamos sobrevivido contra Vazio e o Rithan? Os Primordiais sempre foram minorias... mas imagine só, um mundo onde qualquer humano pudesse combater o Vazio por conta própria.

— Ethan, os mais fracos não merecem morrer só porque os mais fortes os consideram inúteis!

— Talvez você esteja certa — concordou ele. — Mas por que você acha que os únicos humanos sem Vontade ainda vivos estão aqui na comunidade? Porque nós os protegemos. Você mesmo sabe, qualquer um fora das muralhas é um Primordial ou um Portador.

— Onde você quer chegar com isso?

— A linhagem Murphy nunca foi maldita, é transformadora, sempre foi. Cada um dos Murphy moldou o mundo à sua volta, seja para o bem, ou para o mau. — Ele a encarou. — E agora chegou a sua vez.

— Mas eu não quero transformar nada... eu, eu só quero encontrar o pai e voltar para casa, junto com você.

— Você sabe que isso não vai acontecer. Não se as coisas continuarem do jeito que estão.

— Eu sei. E é por isso que eu preciso da sua ajuda para o que eu vou fazer.

— Da minha ajuda? — Ele arqueou a sobrancelha. — Que milagre. Você prefere fazer tudo sozinha. E o que exatamente você pretende fazer?

— Caçar o Iori.

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