Murphy Brasileira

Autor(a): Otavio Ramos


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 53: Emboscada

— Ella!!! — exclamou Icrow, empolgado ao vê-la.

Ella descia as escadas de um porão, que aparentemente havia se tornado o novo lar de Haldreth.

Icrow escalou rapidamente o corpo dela até se acomodar em seus ombros.

— Icrow! Como vai?

— Bem, nós sentimos saudades de você!

Ella sorriu.

— Também senti falta de vocês. Ainda lembro do dia em que te conheci, Icrow — disse ela, acariciando a cabeça dele. — Você quase morreu pro Samuel. Era só ter me entregado aquele cristal.

— Ugh... tem razão. Aquele maldito! Eu o libertei e ele quase me matou.

Haldreth estava soldando uma peça metálica, concentrado no trabalho. Ao perceber a presença da garota, largou as ferramentas e se levantou.

Ele estava sem capacete — o que era uma surpresa. Antigamente, ele jamais o retiraria.

Ella se aproximou e o abraçou — um abraço verdadeiro entre amigos.

— Tudo bem? Então... você parou de usar o capacete?!

— Somente dentro de casa. Quando saio, eu ainda uso a armadura. São civis... não entenderiam a situação com a devida clareza.

— E então, se acostumou bem aqui na comunidade?

— Mais ou menos... ainda não faz nem duas semanas desde que cheguei. Mas você tinha razão: eles são boas pessoas. Só não tive muito tempo para criar laços ainda. Estou entocado nesse porão praticamente desde o dia que cheguei... estou trabalhando nisso!

Haldreth caminhou até sua mesa e pegou um pequeno chip.

— É o chip do Rostov. Parte dele foi destruída, mas estou tentando salvar pelo menos a outra metade. Ele não voltará com suas memórias, não lembrará de nada... mas com sorte, conseguirei preservar ao menos a “personalidade” dele.

— Já é alguma. Pelo menos não será uma perda completa.

— Pois é... e você? Vai ficar na comunidade agora?

Ella se encostou na parede do porão e cruzou os braços.

— Vou ficar só até amanhã. Depois disso vou sair por alguns dias com meu irmão. Tenho alguém para caçar... é uma pendência de meses atrás — respondeu Ella, séria.

— É uma criatura do Vazio? — perguntou Icrow.

— Não. Mas ele tem conexão com o Vazio.

— Então quem é? — indagou Haldreth, também tomado pela curiosidade.

Ella soltou um leve suspiro.

— Humpf... já que vocês querem tanto saber. Iori, o antigo Águia.

Icrow e Haldreth ficaram em silêncio, trocando olhares.

— Iori Miyazaki? — confirmou Haldreth.

— Sim. Eu conheci a irmã dele e... bom, isso são águas passadas. Mas ainda tem algo que preciso fazer.

— Ei... eu já encontrei esse Iori. Ele é barra pesada. A presença dele é sinistra! — exclamou Icrow, com um olhar assustado. — Eu não sei se vocês dois darão conta dele.

— Não tenho tanta certeza — duvidou Ella. — Ele pode ser forte, mas eu confio no potencial do meu irmão. Nós derrotamos o Kasaroth, que tinha várias pessoas dentro dele. Enfrentar apenas um adversário deve ser mais fácil.

— Só tome cuidado. Não queremos que você morra.

— Eu sei... — respondeu ela, suavizando o tom. — E o seu estudo pra cura da Infecção Astral, algum progresso?

— Ainda nada.

— E onde está o Connie?

— Marc não confiou em deixá-lo na minha casa. Ele o isolou em um lugar ainda mais escondido da comunidade. Mesmo assim, eu o visito todos os dias.

— É... o Marc é um homem bem... qual é a palavra? Arisco!

— Não o julgo. Ser arisco é uma necessidade básica nesse mundo.

— Bom, eu só passei aqui para ver como vocês estavam. Tenho que encontrar meu irmão no restaurante. Se cuidem!

— Você também. Boa sorte na caçada.

— Tchau, Ella! Tome cuidado, não quero que você morra para aquele cara sinistro — disse Icrow, abraçando a perna dela.

Ella soltou uma risada leve.

— Relaxa. Você sabe que eu não morro fácil.

No restaurante comunitário, Ethan tomava um ensopado em uma tigela. O caldo estava cheio de legumes e alguns raros pedaços de carne.

Ella sentou-se diante dele com sua própria tigela de sopa — tão cheia que quase transbordava.

— Nossa, também tem outras pessoas com fome na comunidade, sabia? — zoou Ethan.

— Qual é, dá um desconto. Faz dias que eu não como que nem uma pessoa decente. E a mulher que serviu disse que eu tinha direito, então peguei o máximo que cabia. Agora, se me dá licença, estou faminta.

Ella começou a devorar a comida rapidamente, totalmente sem modos. Algumas pessoas ao redor se assustaram ao ver uma mulher tão esbelta comendo de maneira tão feia.

— Eu conversei com o Marc — disse Ethan. — Perguntei sobre o Iori.

— E aí? — respondeu Ella, com a boca cheia.

— Dá para você comer que nem uma pessoa normal?

— Ah... desculpa.

— Ele disse que não sabe onde o Iori possa estar. Mas conhece alguém que sabe. O Shan. Lembra dele?

— Claro que lembro, devo muito a ele.

De repente, Tristan apareceu com uma tigela de sopa na mão, sentando-se ao lado de Ella.

— Ella! Quanto tempo não te vejo — disse ele, gentilmente.

— Tristan, oi! — respondeu Ella, ajeitando rapidamente sua postura e o cabelo. — É... já faz um bom tempo desde a última vez que nos vimos.

— Então, quando que nós vamos?

— Nós? — perguntou Ella, confusa. — Ir pra onde?

— Eu não sei onde fica a cabana do Shan. Só o Marc e o Tristan sabem.

— Não seria mais fácil você falar onde fica a cabana? Já provei ao Shan que sou uma pessoa de confiança.

— É que ele não curte revelar a localização da casa dele para quem vive se metendo em confusão? Com todo respeito, mas você atrai confusão. — Tristan riu.

— E por que ele revelou pra você então?

— Minha mãe foi aluna dele. Ele é como um avô para mim. E além do mais, eu sou apenas um pescador. Não saio mundo afora caçando Emissários.

— Quem vê de fora nem imagina do que esse pescador é capaz — respondeu Ella, com um sorriso bobo.

— É como dizem: é melhor ser um soldado em um jardim do que um jardineiro nas trincheiras. Mas então, quando que nós vamos?

— Não sou eu quem decide. Só estou seguindo minha irmã.

— A gente pode tirar o dia de hoje pra descanso e partir amanhã. O que vocês acham?

— Por mim tudo bem.

— Por mim também — disse Tristan. — Mas aí, o que vocês dois querem com o mestre Shan?

— Ethan... você não contou?

— Não achei que precisasse.

— Nós queremos apenas fazer algumas perguntas para o Shan — explicou Ella.

— Que tipo de perguntas?

— Você não precisa saber. É algo perigoso, entendeu? Não quero te envolver nisso.

Tristan arqueou a sobrancelha.

— Vocês já estão me envolvendo nisso. Não seria justo explicarem o que querem perguntar pro Shan?

— Vamos até o Shan perguntar onde está um dos ex-alunos dele, um dos Emissários mais fortes, já que minha irmã — um pouco maluca — quer devolver a carta da irmã dele, que ela matou e aproveitar para matá-lo também — respondeu Ethan, falando muito rápido.

— Falando assim, parece um plano bem bosta mesmo — admitiu Ella.

— Já vi planos piores — respondeu Tristan. — Você, o Ethan e o Raiden derrotaram o Kasaroth juntos. Desde então, suponho que vocês dois tenham estejam muito mais fortes agora.

Ele continuou:

— O Shan já me contou sobre o Iori. Ele é um homem depressivo e sem ambições. Nunca caçou humanos, ele só virou Emissário para salvar sua irmã. Honestamente, eu sinto pena dele.

Tristan abaixou o olhar.

— Talvez seja melhor vocês encerrarem o sofrimento dele.

Com o plano já decidido, os três voltaram a comer e mudaram de assunto, conversando sobre banalidades e contando histórias.

Algumas horas depois, Ethan se separou do grupo, alegando que tinha um assunto a resolver com Cedric. Assim, restaram apenas Ella e Tristan, sentados lado a lado.

Tristan convenceu Ella a darem uma volta na cidade fora da comunidade, e assim ela o seguiu. Juntos, subiram até um prédio em ruínas, para observar o pôr do sol.

— Que frio aqui em cima — exclamou Tristan, esfregando as mãos para se aquecer.

— Você está sentindo frio? Não sinto nada, só a brisa suave do vento.

— Tá aí uma vantagem da Vontade Solar. Ou talvez desvantagem, não sei. Você nunca vai saber como é a diferença das temperaturas — disse Tristan, sentando-se na beirada do prédio.

Ella sentou-se ao lado dele.

— Acho que é uma vantagem. O inverno vai começar daqui alguns meses, vai ser complicado para vocês.

— Sem dúvidas, o inverno é a pior época do ano. Dá vontade de pegar o navio e ir para o Brasil, a terra natal do meu pai. Ele sempre fala que lá faz calor quase o ano inteiro... um clima totalmente diferente do de Rubra.

— Será que o mundo inteiro foi tomado pela infecção astral? — refletiu Ella. — E só restaram os humanos de Rubra?

— A gente já navegou por toda a costa do território rubro e até chegamos perto do continente asiático. Dá para ver de longe que foram completamente engolidos pela infecção. Mas o Brasil fica bem longe daqui... quem sabe ele não tenha se salvado.

Ella ficou pensativa por alguns segundos.

— Nós não podemos continuar coexistindo com o Rithan. Precisamos matá-lo antes que ele nos extermine de vez. Deveríamos reunir todos os humanos fortes que ainda existem e partir para um confronto final. É uma pena estarmos tão divididos. Imagina ter alguém como o Andrew Griffin ou o Logan Deckard como aliados. Seriam um apoio enorme.

— Eu não acho — respondeu Tristan. — Obviamente eu nunca lutei contra o Rithan, mas ele não parece ser o tipo de inimigo que se derrota com um exército. Uma pessoa... talvez duas ou no máximo três, mas com poderes absurdamente elevados. Eles sim seriam capazes de derrotar o Rithan. Muitas pessoas contra um único inimigo raramente funcionam. Foi por isso que o Chaos acabou sendo derrotado apenas pelo seu pai.

— E quem poderia ser essa pessoa capaz de matar o Rithan?

— Além do seu pai? Somente um. Uma lenda... um fantasma... o Ceifador. Ninguém sabe onde ele está. Nem se ainda está vivo — disse Tristan, com admiração. — O Caçador mais forte da história, mais forte até mesmo que seu pai.

— Kousei — completou Ella, com um leve sorriso.

— Kousei Akimura. Só de falar esse nome o próprio Vazio parece estremecer. Os mais velhos contam histórias de que ele humilhou a Caçadora de Águias! Imagina o quão foda esse cara deve ter sido. Um dos meus sonhos é conhecer ele.

— O que exatamente era essa Caçadora de Águias? Já ouvi esse nome algumas vezes, mas nunca me explicaram o que de fato ela é.

— O Marc me contou que ela era a besta mais selvagem e poderosa do Vazio. O único capaz de controlá-la era o Chaos e tudo ficou pior quando ele começou a usar ela como arma. A criatura começou a gostar de devorar humanos e estava cada vez mais fora de controle. Dezenas e dezenas de Águias de todos os países do mundo foram enviados para caçá-la. Todos acabaram do mesmo jeito. Mortos. Foi aí que surgiu o título dela.

— E por que acreditavam que era uma fêmea?

— Eu perguntei a mesma coisa para o Marc, ele disse que era por causa da voz que era feminina. Mas sei lá, não acho que exista esse lance de sexo no Vazio.

— Sim, não é como se eles se reproduzissem.

Tristan tirou uma pequena garrafa de vinho da sua jaqueta. Abriu a tampa e tomou um gole enquanto observava o sol desaparecer no horizonte.

— Esse mundo é uma merda — exclamou ele, com um olhar desiludido. Então, estendeu a garrafa para Ella. — Mas, mesmo assim... tem algo de especial nele.

Ella pegou a garrafa sem hesitar e deu um gole generoso.

— Às vezes eu me pergunto, será que matando o Rithan, o Chaos... tudo isso vai acabar? Finalmente seremos livres... felizes?

— Estou disposto a fazer de tudo para descobrir — respondeu Tristan. — Eu conversei com meu pai, vou ficar em terra por um tempo. Quero te ajudar na sua missão. Isso se você quiser, é claro.

— Eu adoraria — respondeu Ella, com um sorriso tímido.

Eles continuaram a conversar por alguns minutos, até que o céu começou a escurecer. Foram embora antes que a noite tomasse conta do ambiente, não queriam ter que lidar com as criaturas do Vazio que vagavam durante o horário.

Na manhã seguinte, Ella, Ethan e Tristan pegaram dois cavalos.

Ella cavalgaria junto com Tristan em seu fiel cavalo, Pé de Pano, enquanto Ethan seguiria em outro cavalo amarrado ao de Tristan. Ambos estavam vendados, conforme Shan havia exigido a Tristan.

Seguindo a rota habitual rumo ao Norte, Tristan subitamente puxou as rédeas, notando algo incomum.

— Por que paramos? — perguntou Ella.

— As duas ruas estão bloqueadas... elas não estavam assim da última vez.

— Bloqueadas com o quê? — perguntou Ethan.

— Carros e motos. Parece que foram colocados ali por humanos.

Ethan arrancou a venda dos olhos.

— Ei! Não tire sua venda!                                     

— Isso é uma completa idiotice — respondeu ele.

— São ordens do Shan. Se te incomoda, reclame com ele.

Ethan analisou o local rapidamente.

— Fizeram uma barricada para impedir a passagem de cavalos. — Ele apontou para a direita. — Mas ainda tem um caminho livre por ali.

— O problema é que esse caminho leva para dentro da cidade — respondeu Tristan. — O caminho que eu seguia passava pela floresta, é mais seguro.

— E o que faremos agora? — perguntou Ella.

Tristan pensou por alguns segundos.

— Vamos pelas ruínas da cidade. Pode tirar a venda, Ella. Fiquem atentos, pode ser uma emboscada. Quando entrarmos na floresta, coloquem as vendas novamente.

Os cavalos avançaram entre as ruas desertas da cidade — naquele dia em especial, o silêncio parecia pesado demais. O único som era o eco dos cascos batendo no asfalto quebrado.

Uma atmosfera opressora pairava no ar e todos já haviam percebido.

Tristan diminuiu o ritmo do cavalo e Ethan fez o mesmo.

— Vocês estão sentindo? — perguntou Tristan.

— Muitas presenças... — respondeu Ella.

— Onde estão? — Ethan olhava ao redor.

Repentinamente, uma distorção negra rasgou o espaço.

Andrew Griffin teletransportou diante deles, materializando-se a poucos metros de distância.

Quase ao mesmo tempo, dezenas de homens armados revelaram suas posições nos telhados e janelas dos prédios ao redor.

— Yo, irmãos Murphy. Faz um bom tempo que não nos vimos — exclamou Andrew, puxando suas adagas enquanto caminhava lentamente em direção a eles.

Ele lançou um olhar para Tristan.

— E você deve ser o Tristan, não é? Vá embora se quiser sobreviver. Meu assunto não é com você.

Desde o início, Tristan analisava cada detalhe do ambiente procurando uma rota de fuga.

Um buraco na lateral de um prédio havia cativado sua atenção desde o início — o único ponto sem um Ceifador mirando a arma.

— Acha que tem a mira boa? — sussurrou Tristan para Ella.

— Tenho — respondeu Ella, colocando a mão em seu coldre.

— Então se segura em mim e proteja minha retaguarda. Vou dar um jeito de tirar a gente daqui.

Enquanto a atenção se voltava somente a Tristan e Ella, Ethan puxou silenciosamente o pino de uma granada de fumaça.

— Fujam! — gritou ele, arremessando a granada de fumaça para frente.

Uma nuvem espessa explodiu no ar.

Os Ceifadores abriram fogo imediatamente, disparando às cegas. Tristan e Ella foram em direção ao buraco no prédio. Ethan seguiu pela direção oposta.

Eles ainda não haviam escapado da emboscada.

Ela tinha apenas começado.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora