Murphy Brasileira

Autor(a): Otavio Ramos


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 51: Pela Primeira Vez, Humana

Um tiroteio intenso ecoava dentro do bunker.

Ella aproximou-se sorrateiramente pelos fundos, surgindo atrás dos militares que atiravam — o outro atirador estava em uma sala reforçada, tudo indicava que era John.

Abrindo o cilindro de sua colt python, Ella percebeu que só tinha três munições restantes contra cinco militares. Retirou mais dois cartuchos do bolso e os encaixou no cilindro cautelosamente, sem fazer nenhum barulho.

Quando alinhou a mira no primeiro alvo, uma sombra estranha se projetou atrás dela. Instintivamente virou e deu de cara com um homem gigante.

O sujeito era uma muralha, mais de dois metros e vinte de músculos diante dos um e setenta de Ella. Era forte como um touro, uma barba de lenhador e um olhar louco.

Surpreendentemente rápido, ele deu um tapa devastador no rosto de Ella, fazendo-a derrubar a arma.

Ella caiu no chão desnorteada, sua visão ficou turva. Seu nariz começou a sangrar logo em seguida — nunca havia recebido uma pancada tão forte em toda sua vida.

— Prestem atenção, seus merdas! — rosnou o gigante. — Essa ratinha ia pegar cada um de vocês.

— Estamos no meio do fogo, porra! — berrou um dos militares, escorado na parede.

Ella se levantou devagar, enquanto o sangue do seu nariz pingava no chão.

— Eu não gosto de bater em mulheres — disse o brutamonte, num tom cínico. — Sou um gentleman, sabe como é né? Isso vai doer mais em mim do que em você, acredite.

Imbuindo seu punho direito nas chamas solares, ela desferiu um soco com toda sua força contra o peito dele. Ele não recuou um centímetro, seu ataque parecia ter sido de borracha.

Por mais que fosse uma mulher, Ella tinha uma força surpreendente se ampliada com a Vontade, mas não contra aquele monstro. Pela primeira vez em sua vida, sentiu-se... como uma mera humana. Frágil. O terror estampou-se em sua face.

— Minha vez. — Um sorriso sádico se espalhou pelo seu rosto.

Ele tentou acertar outro tapa, mas Ella esquivou-se a tempo e rapidamente puxou sua faca.

O gigante puxou seu cabelo antes que ela pegasse distância, agarrando seu tronco e o arremessando violentamente pelo corredor.

Ofegante e com a mão no abdômen, Ella levantou-se novamente.

— Você é resistente em loirinha — murmurou ele, indo até ela.

Repentinamente, uma onda de explosões de Vontade Sagrada varreu cada um dos militares, chamando a atenção do gigante.

Era Mariah, ofegante e exausta.

— Mais uma mulher? Mas que porra tá acontecendo aqui?

— Pra sua felicidade — disse uma voz atrás da porta que se abriu com um chute. — Eu não sou uma mulher.

John estava armado com o rifle altamente tecnológico dos militares, aquele capaz de abater um Primordial com extrema facilidade.

O gigante rapidamente sacou uma pistola e apontou direto para Ella, que estava à sua direita no corredor.

Mariah apontou seu dedo para ele e John o rifle.

— Eu sou resistente pra caralho — exclamou ele, rindo como um louco. — Vocês podem até atirar em mim, mas não irão me matar no primeiro disparo, mesmo com nossos rifles. Mas eu não diria o mesmo da sua amiga loira. Eu era um fuzileiro naval, garanto que não errarei esse tiro.

— Não vale a pena, John — advertiu Mariah.

— Ele viu meu rosto. Vai reunir gente e vir atrás de mim, sei como esse tipo de gente é. Prefiro cortar o mal pela raiz — respondeu John, engatilhando o fuzil.

— É a vida da Ella que está em jogo, porra!

— Não faço questão da vida dela.

— Mas eu faço. — Mariah apontou seu dedo para a cabeça de John. — Deixe-a ir e nós te liberamos.

O gigante gesticulou com a arma para Ella ir até eles. Ele retirou-se lentamente, ainda apontando a arma para Ella até chegar ao corredor.

— O amigo de vocês está tem razão. Isso não acaba aqui. Em breve vou fazer cada um de vocês lamberem as minhas bolas — exclamou ele, com um sorriso doentio antes de sumir.

Mariah abaixou seu dedo e John imediatamente deu um soco em seu rosto, derrubando-a.

— Era isso que você queria? Sua vadia burra.

Ella pegou o revólver do chão e apontou para John.

— Me dê um motivo para não te matar agora, seu filho da puta. Você ia deixar ele me matar, seu traíra de merda.

— Se me matar, você será caçada até o dia da sua morte. Não só pela Tatiana, mas por todo o meu esquadrão. Viu só? Isso é poder! Eu decido quem vive e quem morre, não você. — Ele segurou o cano do revólver e o empurrou para baixo. — Se eu te quiser morta, você morrerá.

Ella guardou o revólver no coldre e estendeu sua mão para Mariah, ajudando-a se levantar.

— Você tá bem?

— Estou, só vou ficar com o olho roxo — respondeu Mariah, com um sorriso descontraído.

Aproximando-se de Mariah, Ella sussurrou em seu ouvido:

— Se o matarmos agora... qual o nível do problema que teremos?

— O nível de problema que invadiriam a UCC só pra te matar. Releve isso, não podemos matar ele. Não agora.

— Mas e se pedirmos pro Marc nos ajudar?

— Isso começaria uma guerra. Puracionistas e Goldwings contra a UCC, eles seriam dizimados.

— Venham ajudar a pegar as armas — gritou John, segurando duas maletas enormes contendo os fuzis.

Mariah foi na frente enquanto Ella vinha atrás mancando com a mão no oblíquo — depois de tantos ferimentos, estava difícil até de andar.

O armazém das armas estava repleto de maletas. Algumas eram enormes, exigindo um esforço ainda maior pra carregar.

— Eu não consigo... estou muito machucada.

Seu rosto ensanguentado ilustrava perfeitamente a dor que estava sentindo naquele momento.

— Ela está com um estilhaço de granada na testa. Deixa que eu levo a parte dela — disse Mariah.

John abriu uma das maletas, retirou um fuzil e jogou para Ella.

— M309. O mais novo fuzil de assalto desenvolvido pelo governo de Rubra. Munições caseless com ponta perfurante e explosiva, mira holográfica e um display de contagem. O Rubrannium estava escasso, então tiveram que inovar na tecnologia. Essa arma derruba qualquer Primordial, criatura do Vazio ou alienígena.

— Eu disse que não consigo carregar os fuzis...

— Cada maleta contem três fuzis, você só está com um. Vai nos proteger enquanto levamos todo o resto. Ou você acha que lá em cima não vão estar nos esperando?

John jogou mais um carregador extra — nunca se sabe quanto de tiro você precisará disparar.

Ella o pegou e guardou no bolso lateral da calça.

John entregou uma corda para Maria e ambos amarram uma maleta nas costas e levaram uma em cada mão. Seis no total, sobraram duas para trás, sem quem carregasse.

— É bom que sua mira seja afiada. Já estou com o que preciso e não hesitarei em correr.

— É isso que um covarde diria — provocou Ella, com um sorriso no canto do lábio.

— Não há nada de covarde em abandonar um peso morto — respondeu ele, seco. — Muito pelo contrário, é uma decisão sensata. Agora, cala essa sua boca e faça o que você tem que ser feito.

Ella foi a primeira a sair da sala. Mariah e John vieram logo atrás.

— Tem certeza de que consegue fazer isso? — perguntou Mariah em voz baixa. — Se tudo der errado, eu não vou te abandonar. Digamos que minha vida também está em suas mãos.

— Por que se preocupa tanto comigo? Nós não somos exatamente amigas — respondeu Ella, fria e distante.

— Você é estúpida e teimosa, mas você ainda é a Ella Murphy. Filha de duas pessoas que eu amei como se fossem minha família. Pode até me odiar, mas eu não te odeio. Estarei ao seu lado até o fim, assim como seu pai e sua mãe estiveram ao meu.

Ella mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Talvez tenha sido injustamente dura com Mariah.

— Eu não te odeio — murmurou.

Ella seguiu em frente, com o rifle firme nas mãos, pronta para reagir ao menor sinal de movimento.

Logo ao sair do bunker, deparou-se com diversos cadáveres espalhados pelo terreno. Corpos dos militares, recém-mortos.

Ao examinar o corpo de cada um, percebeu um padrão: todos estavam com a garganta rasgada.

— São cortes perfeitos — comentou John, surgindo atrás de Ella. — Foi um Águia que fez isso. Nenhum sobrevivente comum teria essa precisão com uma espada.

Ella tinha alguém em mente — não um Águia, mas um simples comerciante, pelo menos era isso que pensava.

Se ele fosse realmente o responsável, então quem realmente é o Vendedor Viajante?

Eles seguiram adiante, encontrando mais cadáveres com a mesma garganta rasgada, até alcançarem o jipe, que surpreendentemente ainda estava intacto.

John e Mariah descarregaram todo o armamento na traseira e embarcaram nos assentos dianteiros. Ella acomodou-se no banco de trás.

Ele deu ignição no carro e partiram de volta para a comunidade.

Enquanto John dirigia, Ella observava a paisagem com um olhar vazio e cansado, mas aliviado. Apesar de toda a dor, havia sobrevivido a mais um dia.

A brisa amenizava ardência pulsante que sentia em sua testa.

À margem da estrada, um homem caminhava em linha reta.

Encoberto por um capuz, caminhava lento, como um indigente qualquer. Era apenas mais um no mar de loucos daquele mundo.

— Esses andarilhos são uns vermes. Detesto cada um deles, não servem pra merda nenhuma, nem mesmo nesse mundo fodido — exclamou John, com um desprezo. — Tem um urubu no ombro dele. Está morto, só não sabe ainda.

Ella fitou ele do início ao fim — não era um urubu. Era uma águia.

Em meio a sua expressão de dor, um leve sorriso surgiu em seu rosto.

Ao chegarem à comunidade, o portão foi aberto e foram recepcionados pelos homens armados da comunidade. Kurt e Tatiana aproximaram-se logo em seguida.

John estacionou e todos desceram.

— Ella! Oh meu Deus... o que aconteceu com seu rosto? — exclamou Tatiana.

— Você! — gritou Kurt, apontando pra um dos seus homens. — Avise o Clark que estamos indo na casa dele!

— Um estilhaço de granada ficou preso na minha testa — explicou Ella. — Digam que vocês têm um médico bom...

— Nós temos o melhor! Vamos dar um jeito de tirar isso da sua testa — garantiu Tatiana. — O armamento, vocês conseguiram trazer?

— Trouxemos seis maletas, três fuzis cada. Dezoito no total. Dezenove contando com o que Ella trouxe na mão.

— Não havia mais fuzis? — questionou Kurt.

— Tivemos que deixar duas maletas para trás. Ella estava ferida demais para carregar e nós estávamos cheios.

Tatiana e Kurt se entreolharam rápido.

— Dê os fuzis aos homens certos e terá um exército... isso deve ser o suficiente — concluiu Tatiana.

— Kurt! O Clark disse que a sala dele está pronta e que é para trazer o ferido — alertou um dos homens.

— Vamos, Ella. Consegue andar? — perguntou Kurt, tentando ajudá-la.

— Consigo. Não preciso de ajuda, obrigada.

— John, leve os fuzis ao arsenal — ordenou Tatiana. — Vou com Ella.

— Sim, senhora.

Na casa do médico, Ella estava sentada em uma maca enquanto ele a examinava. Ela havia relatado tudo que tinha acontecido.

— O estilhaço provavelmente atravessou o homem à sua frente antes de atingir sua testa. É a única explicação — concluiu o doutor. — Um estilhaço de granada viaja em velocidade fatal, você não teria sobrevivido

O médico era um homem idoso, branco, de cabelos totalmente grisalhos e um semblante gentil. Aparentava já ter seus setenta anos, mas era sadio.

— Vai ficar uma cicatriz enorme, não é?

— Hoje é seu dia de sorte, minha jovem. A propósito, qual é seu nome mesmo?

— Ella, senhor.

— Então, Ella — disse ele, com uma voz tranquila. — Nós temos uma Lumen R3. Sua testa vai ficar lisa que nem antes.

— É... o que é isso mesmo?

— Uma máquina de reconstrução celular — explicou Mariah, sentada atrás deles. — Foi projetada para tratar ferimentos profundos sem a necessidade de procedimentos invasivos.

— Isso mesmo — concordou o doutor.

— Essa máquina seria capaz de regenerar meus dedos? — perguntou Ella, erguendo a mão esquerda mutilada.

— Ah sim... é uma pena que tenha perdido os dedos. Sinto em dizer, mas essa máquina não cria estruturas corporais, ela apenas remodela e reconecta o que ainda existe. Sua testa, por exemplo, a pele está machucada, os vasos rompidos, fibras rasgadas e nervos danificados, mas eles ainda estão lá. Já nos seus dois dedos... faltam ossos, tendões, músculos, vasos inteiros e outros. Não há o que reconstruir.

— Que merda... — murmurou Ella. — Eu realmente sinto falta dos meus dedos.

— Deixemos a conversa para depois. Venha, vou levá-la até a máquina.

Ella deitou-se dentro da cápsula cilíndrica, perfeitamente moldada para um corpo humano. As paredes curvas eram de um material translúcido que lembrava uma combinação de vidro e marfim polido. Uma luz suave preenchia o interior.

— A Lumen irá liberar um gás anestésico — explicou o doutor. — Você irá dormir durante o processo, mas ficarei aqui o tempo todo.

— A Mariah... eu preciso que ela fique aqui — pediu Ella, tensa.

— Já estou aqui. Não se preocupe — respondeu ela, ao lado do doutor.

— Bom, nos vemos daqui a pouco — disse o doutor, acionando a máquina.

Seis braços robóticos emergiram de dentro da máquina. Um deles começou a escanear o ferimento, como se fosse um raio-x.

Enquanto isso, um aroma doce e refrescante começou a se espalhar pela cápsula. A dor que sentia cessou instantaneamente, seus músculos perderam a tensão, seus ombros afundaram no tecido confortável e em segundos adormeceu.

Mas de repente, sentiu que estava caindo e acordou sobressaltada.

Misteriosamente, estava em sua cama. Não a de um acampamento qualquer — a cama da sua casa, no Pináculo das Montanhas Brancas.

Uma silhueta cinza estava sentada no pé da cama.

— É... você?

— Vejo que já decorou o formato do meu corpo — respondeu a silhueta, com uma voz feminina.

— Por que estou aqui? — indagou Ella, desconfiada.

A silhueta bufou, aparentemente incomodada.

— Você sobreviveu por pura sorte. Não foi milagre, tampouco interferência divina, foi sorte. Sua imprudência quase te matou. Tem noção do que isso significa?

— Já sobrevivi a coisas piores — respondeu Ella, com um sorriso de canto.

— Tire esse sorriso sarcástico da sua cara, garota tola. Você faz ideia do que sua vida significa? Dos milhares de humanos vivos, por que eu escolhi você? Nós temos um trato urgente!

— Eu sou só uma! Estou tentando fazer o máximo que consigo — rebateu Ella, sentando-se. — Eu sei que fui imprudente, mas aquilo foi culpa da Mariah!

— E no fim, ela que salvou sua vida. Isso que me incomoda! Você está colocando muito a sua vida na mão dos outros. Não me obrigue a encerrar o nosso tratado.

— Às vezes isso é inevitável... Eu sou filha do caçador mais forte que já existiu, mas estou longe de ser como ele. Mesmo assim... eu juro, juro que estou dando o meu melhor. P-por favor... meu pai é tudo pra mim.

Os olhos de Ella encheram-se de lágrimas.

Ela realmente estava tentando, mas não parecia suficiente. Qual era o propósito daquele tratado, afinal?

Num ato de desespero, Ella gritou:

— Se você pode proteger o meu pai, por que não lida você mesma com os Emissários?!

A silhueta respondeu calmamente:

— A interferência de um dos meus causou um desastre universal, que consequentemente está extinguindo a raça humana. Intervir diretamente agora extinguiria o que restou da humanidade.

— Então qual é o seu propósito?

— Guiar vocês, humanos, pelo caminho certo. O caminho que irá garantir a sobrevivência de vocês.

Um lampejo surgiu na mente de Ella e as peças começaram a se encaixar.

— Foi você... — sussurrou Ella. — Você fez o meu pai vir pra cá. Entrou na mente dele da mesma forma que fez com a minha, não é? Me diga a verdade!

— Você é inteligente — confessou a silhueta. — Imprudente, mas inteligente. Sim, nós fizemos um trato.

— E qual era o trato?

— Proteger a filha dele. Custe o que custar.

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