Sessão 4
Capítulo 34: Cavaleiros Possuem Honra
Sangue nobre possui um tom azulado.
Seu sangue carrega responsabilidade e dever que o sangue carmesim comum talvez não consiga cumprir.
"…"
No entanto, Alicia não está pronta para tingir seu sangue de azul.
Todos aqueles olhares voltados para ela.
E o olhar feroz de Endre retribuindo.
É difícil respirar.
Por mais determinada que estivesse, para Alicia, uma jovem que ainda não tinha vinte anos, suportar a pressão intensa que emanava de Endre era algo desafiador.
Então, ela desviou o olhar.
Para evitar seu encarar da forma mais casual possível.
E ali, quando se virou, esperando por ela, estavam os olhos azuis que vira naquele dia.
"…?"
Um garoto loiro olhando confuso, como se não soubesse o que estava acontecendo.
Quando o garoto apareceu, Alicia forçou-se a se concentrar.
Seu coração acelerado se acalmou, sua visão turva retornou, e o suor incessante cessou.
O conforto que sentira na colina com seu pai e sua mãe agora estava nos olhos azuis do garoto para quem ela olhava.
Neles, ela finalmente podia respirar.
✦ ✦ ✦
Vlad pigarreou ao olhar para o cavaleiro ao lado de Zayar.
[Kura: Pigarrear é coçar a garganta ou tossir.]
"Ele está do nosso lado."
Era o homem misterioso que, assim como Vlad, havia espionado os cavaleiros da outra facção no dia anterior.
Jubert, um cavaleiro enviado pela família Shazad.
Vlad enrijeceu ao perceber o olhar brincalhão de Jubert.
De algum jeito, você me reconhece.
Alguém que o subjugara, fingira intimidade sem permissão e desaparecera no final.
[Essa mulher, Alicia, sem dúvida fez questão de ser astuta; ela tem boas chances de vencer.]
"Suponho que sim."
Vlad não podia responder em voz alta na presença de tantas pessoas, mas também acreditava que, muito provavelmente, Alicia sairia vencedora daquele duelo.
Ele não conseguira observar direito os cavaleiros ao lado de Endre, mas Colin e Pablo não eram páreo para Zayar e Jubert, independentemente de suas classificações.
Jubert, o cavaleiro enviado pela família Shazad, era tão avançado que sua voz e sua aura não podiam ser facilmente lidas.
Dadas as regras do duelo melhor de três, o desfecho parecia previsível.
Mesmo que significasse perder um homem.
✦ ✦ ✦
"Pare, pare, eu me rendo!"
Diante do apelo urgente de Alicia, o sacerdote interveio.
"Parem! O duelo acabou!"
"Ainda não... eu ainda posso continuar!"
"Sir Duncan, sua senhora acenou com a mão. Ela admite a derrota."
O silêncio permaneceu enquanto um duelo feroz, porém melancólico, chegava ao fim.
Duncan, o Velho Cavaleiro.
Ele defendera a família Hainal por muitos anos, e embora tivesse mais de sessenta, mantinha-se em boa forma. No entanto, a passagem do tempo era inevitável, e apesar de seus esforços, o mundo só aceitaria o resultado.
"Foi uma boa luta, mestre."
"Ainda sou seu mestre...?"
Duncan rangeu os dentes enquanto o jovem cavaleiro estendia a mão em sua direção.
Syard, um cavaleiro da família Hainal que havia jurado sua espada a Endre.
"Eu não preciso..."
Criado para ser o futuro da família Hainal, tornara-se uma lâmina que apunhalava sua própria senhora. O julgamento equivocado de Duncan e seu veneno dirigido a Alicia eram indescritíveis.
Cambaleando por causa do ferimento, Duncan afastou a mão com o que restava de seu orgulho e inclinou a cabeça para Alicia, a culpa estampada claramente em seu rosto.
"…"
Embora sua expressão permanecesse firme, ondulações profundas agitavam os olhos de Alicia.
Um velho cavaleiro pedindo desculpas por sua aparência desastrosa.
Era o último pilar de força que Alicia possuía.
O sangue de Duncan trouxe lágrimas aos olhos de Alicia.
"O vencedor deste duelo é o cavaleiro de Lorde Endre, Sir Syard!"
A declaração do sacerdote foi recebida com fortes aplausos pelos que estavam do lado de Endre. Assim como Endre arriscara tudo para conquistar a família Hainal, eles também haviam arriscado muito por ele.
O vencedor leva tudo, o perdedor perde tudo.
Tendo dado o primeiro passo rumo à vitória sob as leis universais do mundo, certamente mereciam os aplausos.
"Próximos cavaleiros, avancem!"
Vlad engoliu em seco quando o sacerdote chamou os próximos duelistas.
Um duelo em três rodadas, dois vencedores.
Talvez o mais crucial fosse aquele que garantisse a segunda vitória.
Eles decidiriam o resultado se o primeiro tivesse vencido ou, no improvável caso de derrota, passariam a decisão ao terceiro, numa tentativa desesperada de virar o jogo.
"O segundo cavaleiro do lado de Alicia, avance!"
E o cavaleiro com a importante tarefa não era outro senão Zayar, da família Bayezid.
Zayar, o Caolho.
Embora não fosse um cavaleiro de título luxuoso, Duncan e Jubert haviam sido unânimes em colocá-lo na segunda posição.
O peso do nome Bayezid era suficiente para justificar tal confiança.
"Zayar."
"Colin."
Para um cavaleiro, as ordens de seu senhor vinham em primeiro lugar, sua honra em segundo.
Aos olhos de muitos, um duelo de honra era um confronto total entre as ordens de seu senhor e a própria honra.
Portanto, o primeiro encontro naturalmente levou à confrontação.
Os dois cavaleiros encararam-se sobre o chão salpicado de sangue.
"Onde você perdeu um dos olhos?"
"Estava com fome, então comi."
"Ah!"
Colin era uma cabeça mais alta que Zayar, mas Zayar não se intimidava. Pelo contrário, parecia ignorá-lo como se fosse um incômodo.
"Acho que você o perdeu então; nunca mais será o mesmo."
"Sim."
"Vou arrancar até o seu último olho."
"Por favor, lembre-se de que este é um duelo honroso."
O rosnado de Colin era incomum, mas o sacerdote recuou para que o duelo começasse.
Embora fosse um duelo honroso, com regras, ainda era uma luta de espadas, e às vezes as coisas podiam sair do controle.
"Pelos deuses do sol deste dia!"
"Kaaaah!"
Ao sinal do sacerdote, Colin gritou e investiu contra Zayar.
Era uma velocidade incrível para um homem tão grande, e um golpe poderoso vindo de alguém tão massivo.
De fato, com um único balanço de sua espada, o homem conhecido como o Javali da Terra das Terras Centrais provou ser uma força formidável.
Zayar, recebendo diretamente aquele ímpeto, permaneceu parado, com expressão impassível.
BANG!
A espada de Colin estilhaçou o piso do salão com um estrondo tremendo. Fragmentos do chão voaram em todas as direções.
"Oh!"
"Ele é tão poderoso quanto disseram!"
O peito de Alicia se apertou quando o golpe de Colin ecoou pelo salão, e Vlad procurou pelas nozes que Jubert lhe dera no dia anterior.
Aquilo era apenas o começo.
Mas os cavaleiros do lado de Endre já haviam percebido uma estranha mudança no fluxo do combate.
Não demorou para que o próprio Colin sentisse que algo estava errado.
"Olé!"
"Desgraçado!"
Só então, encarando o rosto de Zayar, Colin percebeu sua imprudência.
Diferente dele, que já estava ofegante, o rosto de Zayar permanecia sereno e intacto.
Colin arregalou os olhos, horrorizado.
O corpo de Zayar movia-se de maneira estranha.
Não era rápido nem lento, mas carregava inúmeras possibilidades.
Direita ou esquerda.
Esquivar para trás ou avançar um passo.
Não era possível prever.
"Argh!"
Colin cerrou os olhos e continuou brandindo a espada sem cessar, tentando ignorar os movimentos de Zayar que o desorientavam.
Não era um movimento refinado, mas era sua melhor opção.
Quando não há alternativa clara, resta fazer o melhor possível.
E Colin não era o único observando os movimentos de Zayar com olhos semicerrados.
[Observe atentamente; o que ele está tentando lhe mostrar está prestes a ser revelado.]
"..."
Na noite anterior, Zayar advertira seu escudeiro nervoso com um golpe seco.
Pense em andar antes de pensar em correr.
Ao mesmo tempo, demonstrara um de seus truques, transmitindo uma lição ao cambaleante Vlad.
"Você não pode usar uma técnica assim se não tiver as bases adequadas."
"Kaaah!"
Colin gritou, atacando continuamente com sua espada maciça.
As grossas linhas de sangue em seus ombros e antebraços mostravam quanta força o golpe carregava.
Teng!
A lâmina foi desviada com um som opaco.
Tung! Tung! Tung-!
Os ataques de Colin eram implacáveis, mas Zayar os bloqueava sem perder o ritmo. Não, ele os cortava.
[É isso. Uma abertura?]
A cada golpe de espada de Zayar, o ímpeto de Colin vacilava sutilmente.
Era uma abertura criada apenas por um desalinhamento forçado do ataque.
[Contra-ataque.]
Contra-ataque.
A arte de lançar um contra-ataque por meio de uma abertura criada ao bloquear o golpe do oponente.
Era uma técnica avançada que envolvia ler o número de movimentos do adversário e responder de acordo, uma abordagem pouco ortodoxa do contra-ataque.
Era difícil de executar, mas se bem-sucedida, seria letal.
"!"
Vlad ficou ali, com seus olhos arregalados, assistindo ao novo truque que Zayar estava demonstrando.
Lágrimas se acumulavam em seus olhos forçados, mas o garoto, faminto por tudo, devorava o que via.
Ele nem sequer respirava.
Tinha sorte por ter encontrado Zayar.
Um homem selvagem e torto, mas que sabia o que fazia.
A lição de hoje chama-se "Contra-ataque."
O objeto de teste era o Javali da Terra.
✦ ✦ ✦
"Acabou."
Zayar ajustou o tapa-olho e olhou para o sacerdote.
"O vencedor do duelo é o Cavaleiro Sir Zayar, representante da Lady Alicia!"
A vitória de Zayar foi declarada claramente, mas o lado de Alicia permaneceu em silêncio, sem aplausos.
O silêncio preencheu a arena do duelo.
A aura estranha de Zayar deixara os homens de Endre esvaziados e os de Alicia sem palavras.
"..."
Mas o mais silencioso de todos era Colin, agora ajoelhado, com o rosto sem expressão.
Hoje, ele batera contra uma parede.
E sentira isso.
Era enorme, intransponível.
"Bem feito."
"Bom trabalho."
Vlad só podia ser grato por Zayar ter preparado o cenário deliberadamente para ele.
Mesmo que não demonstrasse.
"Obrigado, Sir Zayar."
"Eu apenas segui as ordens, Lorde Josef."
Duncan voltou-se para Zayar, vitorioso, e agradeceu sinceramente.
Vê-lo envolto em ataduras avermelhadas ainda era lamentável, mas Zayar foi o mais cortês possível.
"Próximos duelistas, avancem!"
Duncan perdeu, Zayar venceu.
Com a Vanguarda e o Meio de Jogo concluídos, restava apenas a Batalha Final.
"Minha vez."
Ao chamado do sacerdote, alisando seu bigode bem cuidado, Jubert entrou na arena do duelo.
Aquilo seria suficiente.
Vencer ali significaria que Alicia se tornaria a legítima Baronesa de Hainal, reconhecida em nome de Deus.
Os olhares ansiosos de Alicia, de Duncan e dos que os seguiam convergiam atrás de Jubert.
Mas o próprio Jubert permanecia imperturbável, com um sorriso indecifrável no rosto.
Os dois cavaleiros atravessaram o silêncio criado por Zayar e entraram na arena.
"Sou Pablo de Arnstein."
"Não é a primeira vez. Que nos encontramos."
"Pablo de Arnstein."
"...Jubert de Shazad."
Jubert sorriu ironicamente por não conseguir fazer uma piada.
Virou a cabeça para olhar para Alicia e fez uma reverência.
Era uma saudação adequada e bem aprendida.
"Eh?"
Mas Josef, sentado entre os espectadores, observando o duelo, percebeu que algo estava errado com a saudação que Jubert acabara de fazer.
Não era uma saudação que se usasse naquela situação.
"Vou repetir. Um duelo termina quando um representante expressa a intenção de se render, e quando o duelo não pode ser apressado..."
O sacerdote explicava diligentemente as regras do duelo, mas Jubert permanecia em silêncio.
"Eu me retiro."
"Se sofrer um ferimento grave... O que disse?"
O sacerdote não compreendeu imediatamente as palavras que saíram da boca de Jubert.
Ouviu com os ouvidos, mas não entendeu com a mente.
Eram palavras que não deveriam, e não poderiam, ter sido ditas agora.
"Eu me retiro."
Como um ator no palco, Jubert olhou ao redor com gestos exagerados e proclamou.
"Eu, Jubert, representante enviado pela família Shazad, retiro-me deste duelo."
"..."
"..."
As palavras de Jubert pareceram simples, mas para aqueles que precisavam ouvi-las, foram como um trovão.
Um silêncio terrível dominou o salão.
"Isto, isto... isto."
Duncan, finalmente recuperando os sentidos, ergueu as mãos feridas em descrença.
"!"
Alicia, a parte principal do duelo, levantou-se com os lábios trêmulos.
Sua pele branca e pálida começava a adquirir um tom azulado.
Todos estavam em pânico, sem compreender o que acabara de acontecer.
Palmas, palmas, palmas.
O som de aplausos ecoou no salão silencioso.
"Atenção!"
Endre Hainal.
"Então, o duelo acabou!"
O homem, segundo na linha de sucessão da Casa Hainal, finalmente exibiu as presas que mantivera escondidas.
"Não deste jeito!"
Ele gritou alto diante do silêncio geral.
Era o acusador, o usurpador.
E também um homem que já tinha quatro mãos antes mesmo de entrar na arena do duelo.
"....Maldição."
Percebendo que fora arrastado para uma situação desagradável, Josef rapidamente fez um gesto para Vordan.
"Reconheçam-me agora diante dos deuses. Sacerdote!"
Jubert acenou para Alicia com um gesto exagerado.
Era uma despedida.
"Que eu sou o único Hainal legítimo!"
Este duelo estava manipulado desde o início.
Por aqueles que não conhecem honra.
Traduzido por Moonlight Valley
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