Sessão 3
Capítulo 28: O Lobo Ataca
O tamanho da roupa não parecia incomodá-lo, mas Oksana franziu a testa como se fosse um assunto sério e instruiu as criadas a fazerem algo a respeito.
"Você vai ter que estufar o peito."
"..."
Seguindo as instruções dela, as criadas se aproximaram de Vlad e começaram a ajustá-lo. Acostumado ao toque de mulheres sedentas, o contato das criadas enquanto mexiam em suas roupas era algo desconhecido e desconfortável.
"Assim está bom?"
A mente de Vlad não parava quieta. O tecido era muito macio. Uma sensação quase luxuosa demais para alguém que passara a vida inteira vestindo roupas ásperas.
"Não está apertado demais, certo?"
"Aos 17 anos, você ainda está crescendo."
"Bem, o Josef já era bem grande nessa idade também."
O inverno havia passado, e a primavera estava chegando. Novos tempos, novas oportunidades e novas roupas. E novas pessoas.
Oksana levantou-se da cadeira, como se finalmente tivesse gostado de como as roupas ficavam em Vlad.
"Vista-se conforme a estação", disse ela, "para não perder força."
Vlad prendeu a respiração quando ela se aproximou e tocou o tecido. Ele temia que seu hálito carregasse algum cheiro estranho.
"Vou comprar mais roupas para você neste verão. Por enquanto, vamos nos virar com esse conjunto."
"Me desculpe."
Até agora, Vlad havia se virado com as roupas que trouxera do posto avançado. Elas não cheiravam mal, já que as criadas as lavavam diligentemente, mas não serviam bem, não eram apropriadas para a estação e, acima de tudo, não eram dele; pertenciam ao falecido Riemann.
O que os homens, Josef e Zayar, não haviam cuidado, Oksana estava cuidando agora.
"Pela sua aparência atual, ninguém diria que você cresceu num beco. Um jovem nobre bonito."
"..."
As palavras de Oksana eram verdadeiras. Naquele momento, Vlad tinha a aparência imponente de um nobre. Talvez fosse porque, desta vez, ele não vestia algo tirado de outra pessoa, mas algo que conquistara ao provar seu valor.
Aparentemente satisfeita com o resultado, Oksana deu um leve tapinha e sorriu.
"...Obrigado, Lady Oksana."
Lutando para retribuir o sorriso dela, o garoto abaixou os olhos, incrédulo.
"Você salvou a vida do meu filho, então sou eu quem deveria agradecer", respondeu Oksana, acariciando os cabelos loiros de Vlad.
"Um loiro dourado tão bonito, uma cor que causaria inveja até à nobreza, tão diferente do cabelo do meu filho."
Vlad permaneceu em silêncio, incapaz de encontrar palavras para responder.
"Peço desculpas por interromper seu treinamento, mas agora você deve ir. Vou ajeitar o resto das suas roupas e mandá-las para o seu quarto."
"Muito obrigado."
Vlad pegou o embrulho de roupas que Oksana lhe entregou e saiu do cômodo.
"Leve também as que deixei ali."
"Aquelas..."
disse Oksana, apontando com a mão para uma pilha de roupas perto da porta, como se tivesse acabado de lembrar.
"Só é um homem de verdade quem consegue ser educado quando ninguém está olhando."
"..."
Vlad olhou para onde Oksana apontava, e as pontas de suas orelhas ficaram vermelhas.
Os objetos que Oksana havia separado eram roupas íntimas. O que o garoto não sabia era que, às vezes, o cuidado de uma mãe ia longe demais.
✦ ✦ ✦
Os corredores estavam tingidos de vermelho pelo crepúsculo.
Vlad sentiu o calor da brisa, mas uma sensação de inquietação surgiu no fundo de seu peito.
"Não consigo me acostumar com isso."

Desde que entrara na mansão Bayezid, Vlad tentava se adaptar ao novo ambiente, mas sempre sentia que não pertencia àquele lugar.
Ele sentia como se estivesse engordando.
Carne grudando em sua alma.
"…"
Ao chegar ao seu quarto, Vlad soltou o suspiro que vinha segurando há muito tempo.
"Ainda não."
Olhando para o cômodo estreito, Vlad sentiu um alívio repentino.
Este é o meu lar.
Por enquanto.
Ele colocou as roupas que trouxera sobre a cama e tirou as que Oksana havia lhe dado.
Em seguida, vestiu o traje de mercenário ao qual estava acostumado.
Vlad sorriu ao sentir o tecido áspero espetando a nuca.
Ainda não estou pronto para as roupas elegantes que Oksana me deu. Então isso vai servir por hoje à noite.
"Vamos."
Quando entrou no quarto, ele era Vlad de Sohara; quando saiu, era Vlad do beco.
Ele precisava disso naquela noite.
O crepúsculo caiu.
Vlad caminhou pelo corredor cada vez mais escuro.
Os passos do garoto eram leves ao entrar no lugar familiar.
✦ ✦ ✦
Noite.
No fim do dia, durante o horário de cuidados pessoais em seus quartos, alguém bateu na porta de Potree.
"Quem é?"
Potree espiou e abriu a porta de um quarto maior que o de Vlad, mas estreito o suficiente para caber muitas linguiças.
"Vlad?"
"Tudo bem?"
Potree sorriu para Vlad que, por algum motivo, parecia estar de bom humor. Ele ainda não estava pronto para chamá-lo de amigo, mas Vlad era o único que continuava tratando-o como uma pessoa.
"O que foi?"
"Preciso de algo de você."
"Algo?"
Vlad olhou ao redor do quarto de Potree e, ao encontrar o que procurava, levantou o dedo e apontou.
"Me dá aquilo."
"Aquilo?"
Onde a ponta dos dedos de Vlad apontava, havia um pedaço de presunto de alta qualidade. Era caro, do tipo que nem Potree desperdiçava.
"Você quer isso? Tudo?"
"Sim."
A visita inesperada de Vlad no meio da noite, pedindo presunto, deixou Potree confuso e amargo.
"Tudo bem."
Talvez nunca fossem amigos, mas pelo menos poderiam compartilhar uma risada. Ainda assim, o garoto do beco não parecia pensar nisso dessa forma. Para ele, aquilo era apenas carne. Mesmo para um garoto robusto de família abastada, dar um presunto curado por cinco anos era demais.
Ainda assim, Potree ofereceu o pedaço de presunto com gentileza. Ele não queria comer sozinho de novo no dia seguinte. A solidão de estar sozinho e a sensação de não pertencer a lugar algum ainda eram pesadas demais para alguém da sua idade.
"Tem um cara que eu conheço... que diz isso."
"O quê?"
"Eu achei que já tinha tomado tudo o que queria e nunca olharia para trás. Mas um cavaleiro só toma aquilo que é seu por direito."
"Hã?"
"Essa é a minha recompensa justa, então não seja muito duro comigo."
"Hã?"
Potree só conseguiu balançar a cabeça enquanto observava Vlad pronunciar aquelas palavras incompreensíveis.
"Se algum outro bastardo bater à sua porta hoje à noite, não abra. Nem sequer o siga."
"O que você quer dizer?"
"Só lembra disso."
Potree quis perguntar mais sobre o que Vlad havia dito, mas o garoto que queria ser livre em todos os lugares já estava caminhando pelo corredor escuro.
"Se cuida."
Potree chamou Vlad enquanto ele atravessava o corredor sem velas, totalmente às escuras, mas tudo o que recebeu em resposta foi um sussurro.
"Certo."
Ecoando as palavras de Vlad.
✦ ✦ ✦
Hoje o céu estava limpo. Não havia nuvens, e o vento estava calmo. Além disso, era noite de lua cheia, então a escuridão não parecia tão intensa.
Na claridade da noite, alguém gemia.
"Para... aah."
"Deita aí. Se você se mexer um centímetro, eu quebro o seu crânio."
O escudeiro, que caíra no chão ao ouvir a voz vinda de cima, decidiu ficar imóvel por enquanto.
Esse cara realmente ia quebrar o crânio dele.
"Caramba, inimigos demais pra um só cara. Nem bandidos de rua fazem isso."
"Cala a boca!"
Em um canto pequeno da mansão, iluminado pela lua cheia, Sobanin rosnava para o garoto loiro encostado na parede.
"Vamos ver até onde você vai, maldito. Bastardo."
"Você está me matando de medo."
Cercado por todos os lados, Vlad só conseguiu mostrar um sorriso entediado.
"Venham. Eu vim até aqui sozinho; vocês deveriam fazer o mesmo."
Todos os escudeiros ao redor engoliram em seco ao ver a palma provocadora de Vlad.
Ele estava cercado, mas eles é que se sentiam cercados. Era um contra mais de uma dúzia, mas o ímpeto estranhamente favorecia Vlad, que estava sozinho.
Todos sabiam que, se ele os atacasse um por um, nem o mais forte entre eles conseguiria se defender.
"Ughhh…"
"Sobanin..."
Mas a visão de outro homem agora caído no chão fez com que hesitassem. Eles estavam em péssimas condições, e a posição em que se encontravam dificultava atacar todos de uma vez. Parecia uma parede de corpos.
"Cee-bah!"
Sobanin soltou um grito selvagem quando as coisas não saíram como ele queria e começou a brilhar.
"Somos mais numerosos!"
Mais números. Melhores circunstâncias. E os vassalos, que cresceram em condições melhores, cercavam um cão que saíra de um beco, latindo miseravelmente.
"Vamos deixar esse bastardo continuar causando confusão?"
"Não!"
"Não deixem!"
Por mais que Sobanin gritasse e olhasse ao redor, nenhum dos vassalos quis dar um passo à frente.
O homem diante deles era mais poderoso do que o fervor de Sobanin ao seu lado. Eles não ousavam comparar.
"..."
Os olhos azuis ardiam intensamente na sombra sob a lua.
"Esse bastardo..."
Aqueles olhos haviam caçado os escudeiros quando estavam sozinhos e exibido dentes afiados. Ainda atordoados pelo horror, o grupo de Sobanin não conseguia se mover com facilidade.
"..."
A investida selvagem de Sobanin e a hesitação dos escudeiros criaram um espaço cada vez maior entre eles.
"...Sim."
Era como alguém que já havia perdido a vontade de lutar por puro tédio.
A distância entre Sobanin avançando e os escudeiros parados só aumentava.
"Só mais uma vez!"
A incapacidade de Sobanin de entender a situação apenas alimentava sua raiva diante da provocação de Vlad.
Uma espada de madeira carregada de poder. Com um único golpe, até ele morreria...
Mas os olhos de Sobanin se arregalaram quando ele avançou. Vlad precisou de apenas um movimento, e agora seu corpo pendia para a esquerda.
Era como uma onda se espalhando.
"Peguei ele!"
A espada de madeira que errara o alvo atingiu o chão com fúria. A terra levantada cobriu a visão deles.
"Você já matou alguém para ter coragem de dizer isso?"
Uma voz gelada sussurrou no ouvido de Sobanin. A voz, murmurando na escuridão, zombava.
"Esse bastardo..."
Bam!
"Kuck!"
Um clarão.
Sobanin recuou bruscamente, incapaz de emitir qualquer som quando uma sensação áspera atravessou seus pulmões, seguida por um forte golpe no queixo.
"Segura!"
O golpe foi bloqueado por pouco, mas Vlad parecia já ter previsto isso e continuou atacando.
Uma sequência incessante de golpes. Mas havia neles uma afiação com a qual Vlad nascera. Era o tipo de energia que podia espalhar veneno pelo corpo de alguém com um único corte.
"Louco!"
Sobanin sentiu-se arrastado por uma corrente poderosa que não conseguia controlar.
"Ele nem usa espada há tanto tempo assim!"
Sobanin ficou profundamente confuso ao observar Vlad, que já não era o mesmo homem que havia duelado com ele.
[É isso mesmo, você captura o oponente dentro da lacuna que você mesmo cria.]
"..."
No matadouro, Vlad não fizera muito mais do que desferir uma série de golpes concentrados. Mas com o treinamento de Zayar e a Voz, Vlad amadureceu e agora sabia criar seu próprio fluxo na batalha. Pode não parecer muito, mas quem entende percebe que Vlad havia subido de nível.
"Kaboom!"
Um nível que o garoto balançando a espada de madeira ainda não alcançara.
"Não é assim que se faz!"
Sobanin gritou enquanto os ataques vinham de todos os lados.
As mesas precisavam virar.
Com esse pensamento, ele tentou cravar a espada de madeira em Vlad.
"Hã? Achei que vi um clarão vindo da espada de madeira do Vlad."
Com esse pensamento, o mundo se inclinou.
Era como se o chão avançasse em sua direção enquanto ele permanecia imóvel.
"Por quê?"
A espada de Sobanin já estava além da compreensão de um escudeiro.
A beleza de um golpe fatal vem do inesperado. E por inesperado, quero dizer algo além do imprevisível. Como agora.
Thump-.
Com um impacto alto, o corpo de Sobanin parecia uma pipa que perdeu a linha.
"Ugh!"
Sobanin lutou para se recuperar da queda. Refletido em seus olhos, tudo o que via era a lua flutuando no céu noturno.
"Se prepare."
E, no canto do seu campo de visão, encobrindo a lua, estava o rosto de alguém.
"..."
Sobanin achou que Vlad estava sorrindo, embora fosse difícil dizer sob a luz da lua.
Vencedores ficam acima, perdedores abaixo. O vencedor fica com tudo.
Os vencedores tomam tudo!
A cada lampejo da espada de madeira, o sangue de alguém espirrava. Junto a um grito grotesco, impossível de conter.
Os escudeiros ao redor de Vlad cambalearam para trás diante dos cortes enlouquecidos.
"Aaaaaaaargh!"
"...Vou te dizer isso só uma vez: não faça contato visual comigo no futuro."
Vlad cuspiu em Sobanin, que se contorcia no chão, fosse de dor ou de medo.
A saliva escorrendo grudou friamente nas bochechas de Sobanin.
"Nem pense em tocar no Potree."
"Ugh…"
Era humilhante, mas Sobanin instintivamente tentou evitar o olhar de Vlad.
"Entendido!"
Impotente, Sobanin apenas conseguiu concordar com a cabeça, encarando pela primeira vez em sua vida um medo desconhecido. Era o tipo de medo que só alguém que realmente matou uma pessoa podia exalar.
"Isso é tudo…"
Vlad levantou a cabeça e esticou o pescoço rígido.
Sua vingança contra Sobanin havia acabado. E o preço pelo presunto foi cobrado.
Eram coisas pequenas, mas precisavam ser feitas, e ele queria fazê-las.
"Quem é o próximo?"
Agora que fiz o que precisava fazer, posso correr livremente. Vlad ergueu a cabeça, os cabelos loiros suados brilhando à luz da lua cheia.
"Quem é você?"
"..."
Os olhos de Vlad brilharam ferozmente enquanto ele erguia a espada de madeira manchada de sangue.
Mas não havia uma única pessoa que ousasse responder à sua pergunta.
"Se vocês não vêm, eu vou."
Vlad desapareceu nas sombras sob a luz da lua.
A vida é uma luta. Uma criança nascida em um lugar onde só se come tomando dos outros sabe bem disso. Por isso, hoje ele tropeça na escuridão, lutando uma batalha da qual nunca se cansará.
Para sobreviver. E pelas outras vinganças que ainda precisa tomar.
"Isso é ótimo."
Alguém assentiu, ouvindo os gritos dos escudeiros ecoarem pelo céu noturno. Seu olhar permaneceu fixo em Vlad, um sorriso satisfeito no rosto enquanto observava o campo de batalha manchado de sangue.
Como as estrelas no céu da noite, a espada de madeira do garoto ainda brilhava à luz da lua.
[Kura: Não curto muito spoilers, mas digamos que quem viu de longe foi o dono da casa.]
Traduzido por Moonlight Valley
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