Sessão 2
Capítulo 19: Primeiro Feito
A distância até o acampamento-base era de cerca de meio dia a pé, mas a cavalo levava menos de algumas horas.
"Eiá! Eiá!"
O cavalo de Zayar não perdeu o caminho, mesmo correndo no escuro e por uma trilha montanhosa irregular.
Entendendo ou não a vontade do dono, guiou com todas as suas forças o garoto empunhando uma espada e o vigarista tímido até o acampamento-base.
"O que é aquilo ali?"
E, por fim, chegaram à base da colina próxima ao acampamento-base.
A visão daquele lugar, refletida sob a luz da lua, estava envolta em uma névoa densa, tornando impossível enxergar sequer um passo à frente.
"Eu disse! Estava exatamente assim naquele dia!"
"..."
Vlad desmontou do cavalo e olhou para baixo, na direção da área tomada pela névoa.
A névoa era tão espessa que apenas contornos vagos podiam ser vistos, e era impossível distinguir o que acontecia lá dentro.
"Vamos fugir agora! Você certamente não pretende entrar aí, né?"
"Quieto."
Vlad ergueu o dedo para impedir Gott e ouviu com atenção.
A audição aguçada de Vlad para perceber o ambiente ao redor já havia sido reconhecida por Jorge.
'Gritos.'
Vlad ouviu os gritos dos mercenários em meio aos sons caóticos de armas e berros sem sentido.
A névoa era tão densa que não se podia ver um palmo à frente, mas Vlad conseguia compreender a situação pelo som.
"Você precisa confirmar onde está agora antes de se mover precipitadamente."
Disse o cavaleiro que lembrava o luar azulado.
[Não entre em pânico. Antes de se mover, decida para que direção ir.]
A voz dentro de sua cabeça dizia a mesma coisa.
Vlad inspirou profundamente em silêncio e ponderou.
Onde ele estava agora, o que podia fazer e o que precisava fazer a seguir.
"Gott, você vá."
"Hã?"
Tudo na vida é uma questão de direção.
Apenas aqueles que conhecem a direção correta conseguem alcançar seus objetivos.
"Capitão? Você quer descer?"
"..."
E Vlad encontrou seu propósito.
Havia alguém cantando suavemente em algum lugar dentro da névoa. Não parecia parar, mas era tão frágil que soava como se pudesse se desfazer a qualquer instante.
"Talvez não signifique muito, mas, de qualquer forma, sinto muito por este incidente."
"...Hã?"
Vlad fez uma promessa.
Tenho um trabalho a fazer, então oferecerei minha fé em vez de lealdade.
O garoto entrou na névoa que nem mesmo a luz da lua conseguia iluminar.
Ele talvez não soubesse, mas o passo que deu naquela noite foi o mais brilhante de toda a sua vida.
Cumprir o contrato e ser fiel.
Porque era um ato de buscar algo honroso.
O contrato feito com Josef naquela noite permaneceu como uma estrela brilhante no coração de Vlad.
"Estou indo."
[Vá.]
Vlad caminhou em direção à estrela cintilante, com seus olhos azuis brilhando.
✦ ✦ ✦
"Parece que mal conseguir controlar os mercenários tornou-se inútil."
Josef conseguiu compreender a situação perfeitamente, apesar da explicação difícil de Andrea.
"No fim, não há como lidar com isso a menos que seja Sir Zayar."
Atrás de Andrea, que estava ajoelhado e rezando, o jovem diácono chorava e cantava.
Era um hino.
Embora a voz estivesse manchada pelo medo, a melodia brilhante que clamava a Deus misturava-se ao poder sagrado de Andrea e afastava a névoa espessa.
-Meu filho! Meu filho!
Ali também havia uma mulher estendendo a mão negra como breu em direção a ele.
Josef baixou a cabeça, olhando para seus cavaleiros espumando pela boca.
'Não parece haver uma saída.'
A melhor opção teria sido fugir, mas a maldita névoa não os deixava.
Não importava para onde fossem, a névoa os forçava em direção à mulher.
Por isso, os cavaleiros não tiveram escolha senão proteger Josef até que o Padre Andrea encontrasse uma solução.
Eles lutaram com as bênçãos extraordinárias do Padre Andrea, mas não estavam qualificados.
Não qualificados para derrubar a maldição sobre seu próprio mundo.
O resultado foi este.
Os mercenários engolidos pelo medo se dispersaram, e os cavaleiros que o protegiam agora jaziam ali, espumando pela boca.
Eles morreriam em breve.
E ele não sabia se encontraria o mesmo destino.
'É este o fim?'
Por mais astuto que fosse, criar algo do nada estava além das capacidades de Josef.
Ele não conseguia enxergar nenhuma forma de superar aquela situação.
"Aguente, Lorde Josef. O sol de amanhã certamente nascerá."
"...Mesmo que agora pareça distante demais."
A mulher não podia se aproximar por causa do poder sagrado de Andrea, mas continuava a fitar Josef com insistência.
Josef compreendia.
Se confrontasse o vazio e a escuridão dentro daquela mulher, poderia acabar como os cavaleiros que rolavam no chão.
Não, talvez fosse ainda pior.
'No fim das contas, ela está mirando em mim.'
A mulher, derramando lágrimas negras, segurava um pente de madeira na mão.
Ela segurava o pente como se fosse extremamente precioso, e era o mesmo que Josef havia usado antes.
'Quem é você?'
Aquilo era uma maldição.
Uma maldição implacável direcionada a ele.
No entanto, não havia ninguém ali para responder à pergunta de Josef.
Agora, não havia mais cavaleiros para protegê-lo, e a voz lamentável do jovem diácono estava gradualmente se apagando.
Esperar pelo sol de amanhã parecia pesado demais naquela noite.
Josef, prevendo o desfecho que se aproximava, fechou os olhos.
No momento em que o hino do jovem diácono terminasse, a morte avançaria.
Por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma forma de romper a situação, e Josef mordeu o lábio.
"..."
Josef abriu os olhos com uma expressão triste, fortalecendo o coração para enfrentar o que quer que estivesse à frente.
"Hmm?"
Nesse momento, ele viu um brilho de luz.
-Kyaaaah!
A luz se originava de trás da mulher que derramava lágrimas negras.
"Você é..."
Um raio de espada, partindo o corpo da mulher ao meio, avançou em sua direção.
No fim daquele trajeto da espada, havia um garoto loiro que brilhava mesmo sem a luz da lua.
Era Vlad, com o olho direito fechado.
[Hyaaaah!]
Um relâmpago branco, surgindo da ponta da espada sem adornos, cortou a névoa e iluminou o céu noturno.
✦ ✦ ✦
[Aquilo se move por uma maldição. Você não pode cortá-la com uma espada comum.]
"Então o que eu faço?"
[Consegue usar aura agora?]
"Está brincando comigo?"
A voz deduziu a identidade da mulher que encarava Josef através da névoa.
[Apenas um mago que desafia as regras do mundo, um exorcista que empunha a vontade de Deus, ou um cavaleiro com seu próprio mundo pode romper algo criado por uma maldição.]
"E o Padre Andrea?"
[Ele é fiel, mas não é um exorcista. Um inquisidor herege comum seria mais útil na situação atual.]
"Merda."
Vlad, que observava uma oportunidade atrás da tenda fora do campo de visão da mulher, ficou um pouco irritado quando a voz disse que não havia saída.
"Então, e agora?"
Ele veio até ali com uma determinação firme para salvar Josef, mas agora não conseguia sequer balançar a espada.
Ele não tinha vindo até ali para isso.
[...Bem, não é como se não houvesse nenhuma solução.]
"Qual?"
Em resposta à pergunta de Vlad, a voz respondeu em um tom incerto.
[Vou tomar emprestado seu corpo por um momento.]
"Isso vai funcionar?"
A voz ocasionalmente tomava o corpo de Vlad como parte do treinamento.
Porém, tomar o corpo por um instante para transmitir sensações e usar o corpo para empunhar uma espada contendo aura eram coisas completamente diferentes.
"Tomar meu corpo emprestado para usar aura? Mesmo que funcione, eu posso não conseguir me mover por um tempo."
[É o seu corpo, então você decide. Sinceramente, não recomendo.]
A voz sabia que era um ser capaz de usar aura, mas se isso poderia ser incorporado no corpo de Vlad era outra questão.
Apenas afirmou que, se havia um caminho, esse era o único.
"Se eu não conseguir matá-la, então eu morro."
[Esse também é o caminho da espada.]
Vlad começou a refletir por um momento.
Havia apenas uma chance.
Se falhasse, tudo acabaria.
Havia algum motivo para não estar preparado para isso?
"Vamos fazer."
[Tem certeza disso?]
Vlad apertou firmemente as correias da sua armadura de couro.
"A oportunidade que Josef me dá pode ser uma oportunidade única na vida. E."
Vlad estava decidido.
Sem mais recuar.
"Se eu fugir daqui, posso me tornar o Vlad do beco novamente."
[...]
Vlad temia algo mais do que a mulher misteriosa à sua frente e o medo da morte em caso de falha.
"Tenho mais medo de ser nada."
Para que ele nasceu, e com que propósito viveria?
O garoto não tinha as qualificações para responder a nenhuma dessas perguntas.
Ele não queria encarar o fim de sua vida como alguém que não foi nada.
"Vamos."
[Respeito sua escolha.]
Cerrando os dentes, Vlad ergueu a cabeça uma última vez e olhou para o céu.
Estava encoberto pela névoa, mas a lua deveria estar lá.
A lua azul que ele precisaria despedaçar algum dia.
[Logo à frente.]
"Entendi."
Vlad ergueu a espada que comprara com as lágrimas da garota e respirou fundo.
A chave para matar com um único golpe é a imprevisibilidade.
A imprevisibilidade vem de movimentos que superam previsões e despedaçam expectativas.
'Ela não me viu.'
A mulher de lágrimas negras não percebeu Vlad.
'Heup!'
Mesmo que tivesse percebido, ela teria antecipado o golpe que estava prestes a receber.
Vlad cortou a névoa e avançou.
Os movimentos de Vlad, rompendo sem a menor hesitação, eram como flechas disparadas de um arco.
-Meu bebê?
Naquele momento, o pescoço da mulher se dobrou de forma estranha ao ouvir o som dos passos de Vlad.
Era um ângulo que um ser vivo não poderia fazer.
[Agora!]
"Argh!"
Os olhos da mulher, encontrando os de Vlad por um breve instante, eram tão profundos e escuros que ele não conseguia respirar, como se estivesse submerso na água.
Ainda assim,
"Argh!"
Para cumprir o contrato que fez com aquele a quem confiou sua fé, o garoto fez o máximo para fechar o olho direito.
[Ugh!]
E, a partir dali, era o mundo de alguém desconhecido.
Seu mundo estava repleto de tempestades, relâmpagos e um vendaval tão imenso que parecia capaz de engolir o mundo inteiro.
Um raio, escapando de seu mundo, cortou as lágrimas negras que escorriam dos olhos da mulher.
O mundo branco partiu o mundo negro.
✦ ✦ ✦
Foi apenas um clarão, mas iluminou tudo no mundo.
Josef realmente pensou assim.
"Vlad!"
Em meio ao relampejar furioso, ele cortou a mulher que derramava lágrimas.
"Gah!"
Vlad desabou e rolou pelo chão.
Embora tivesse se preparado para isso, a dor que veio facilmente superou suas expectativas.
"Gah... Gah..."
Vlad se contorcia em agonia tardia.
Após usar a aura, Vlad teve de suportar uma dor tremenda.
"Maldição!"
Josef percebeu que Vlad não estava em condições de mover o corpo naquele momento.
O clarão recente era, sem dúvida, um vestígio de aura, e embora não soubesse como Vlad havia feito aquilo, estava claro que ele pagara um preço alto.
"Lorde Josef!"
"Não parem o hino!"
-Bebê, bebê!
A mulher amaldiçoada fora partida ao meio, mas não parou.
Ela continuava a se arrastar pelo chão, com um olhar vazio.
E a direção para a qual rastejava e encarava destacava-se: onde Vlad estava.
"Gah!"
"Fechem os olhos! Não olhem para aquela mulher!"
Josef se arriscou e correu até Vlad, que gemia.
Valeu a pena.
O clarão que Vlad acabara de mostrar era precioso demais para ser abandonado agora.
Era uma possibilidade brilhante que não podia ser deixada perecer diante da morte fria.
"Segure em mim!"
Ele sentiu o frio vindo da mulher logo atrás, mas Josef não parou.
"Gah!"
"Maldição!"
Josef não conseguiu erguer Vlad devido à sua força enfraquecida, mas precisava arrastá-lo de alguma forma até o alcance do poder sagrado.
"Gah!"
Por um instante, a mão negra como breu da mulher roçou seu tornozelo, mas Josef não soltou a mão que segurava Vlad, apesar da dor ardente.
"Lorde Josef!"
Vordan, que batia os pés ao ver Josef sair de repente, agarrou-os rapidamente e puxou-os para dentro.
"Gah! Maldição!"
"Cof, cof!"
Os dois jovens, encharcados de suor, tombaram no chão.
-Aaaaaah!
A mulher, que os havia perdido, começou a uivar intensamente, como uma mãe que perde o filho.
-Onde você está! Onde você está!
Mesmo com o corpo partido ao meio, por ser uma morta-viva, ela parecia relutar em largar sua existência.
-Meu filho, por favor, por favor, por favor.
Talvez houvesse um motivo para isso.
-Dói. Meu filho. Por favor, encontre-o. Por favor.
"Sniff. Huuuee."
Surpreso com o som de choro ao seu lado, Josef olhou para Vlad, rolando ao seu lado.
Vlad chorava tristemente ao ouvir a voz da mulher.
Ele derramava lágrimas como uma criança de apenas seis anos.
'Ele foi afetado!'
Josef conseguiu perceber o estado de Vlad por causa de seu comportamento incomum.
"Pa- padre."
"Vlad! Reaja!"
Talvez em estado de confusão, Vlad se desvencilhou do apoio de Josef e se aproximou de Andrea com o corpo trêmulo.
Então, ajoelhou-se diante dele, ainda tremendo.
"Ab, abençoe minha espada. Preciso libertar aquela mulher de seu sofrimento."
"...Tudo bem."
O Padre Andrea também percebeu o estado de Vlad, mas assentiu e disse que o faria.
Embora sua compleição ficasse mais pálida, ele concordou, pois os olhos do garoto permaneciam firmes.
"Me dê a espada."
O Padre Andrea interrompeu a oração e olhou para a espada de Vlad.
Uma espada simples.
Ele colocou a mão sobre a lâmina.
"Abençoei sua espada com minha bênção."
"Obrigado."
O sangue do padre fiel escorreu pela espada sem adornos.
Uma noite silenciosa.
O hino do jovem diácono e os gritos pesarosos das mulheres chorando se apagaram.
Apenas os passos penosos do garoto ecoavam naquele lugar.
"Sinto muito."
-Por favor, encontre...
Foi apenas por um instante, no tumulto, mas Vlad olhou nos olhos vazios da mulher.
Dentro deles havia memórias terríveis.
Mulheres presas em uma prisão escura.
Crianças jovens e frágeis morrendo uma a uma.
E a mãe da última criança restante chorava e gritava enquanto se agarrava às barras frias.
-Meu filho, meu filho.
Ela via seu filho morrer lentamente no chão frio do lado de fora das grades.
"Haah… Huu..."
Vlad ajoelhou-se diante da mulher que chorava.
Ergueu a espada em direção à mãe que procurava o filho.
Seu corpo tremia de dor e seus músculos estavam enrijecidos, mas ele precisava fazer aquilo.
Naquele momento, ele era quem compreendia seu sofrimento mais do que qualquer outro.
"Que você descanse em paz."
Swoosh-
A mulher derramou suas últimas lágrimas ao ver a espada se aproximando.
-Onde você está?
A espada de Vlad atravessou a cabeça da mulher que chorava.
Suas lágrimas escorrendo encharcaram o chão frio e formaram uma poça ali.
A mãe que não conseguiu encontrar seu filho, por fim parou, encerrando sua busca.
Traduzido por Moonlight Valley
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