Sessão 2
Capítulo 13: Uma Chance
Uma criança de aparência maltrapilha encarava alguém em um beco lamacento nos fundos da cidade.
Aquela criança se destacava devido a uma cor incomum em meio à rua onde todos estavam morrendo miseravelmente.
"Aquele garoto..."
"Deixa ele. Parece estar com fome."
Um homem que comia espetinhos comprados em uma barraca de rua chamou o menino que o observava fixamente.
"Venha cá. Isso, você mesmo, o de olhos azuis."
"..."
O garoto se aproximou como o homem havia pedido, tão desgrenhado quanto se esperaria de uma criança que vivia de restos nos becos.
"De onde você veio, todo espancado desse jeito?"
Seus olhos estavam inchados e escurecidos, e as roupas surradas que mal cobriam seu corpo estavam rasgadas aqui e ali, evidência de uma briga recente.
"Tem um bom olhar nesses olhos."
Apesar da aparência miserável, os olhos da criança ainda mantinham um brilho de vida.
O homem achou isso atraente.
"Here, pegue mais um espeto."
O homem corpulento recebeu um espeto do dono da barraca e o entregou ao garoto maltrapilho que parecia um mendigo.
"Coma."
Foi um simples gesto de simpatia.
No entanto, o fato de ele conseguir despertar simpatia das pessoas que viviam naquele beco significava que havia conquistado aquela refeição.
"O que está esperando? Pegue."
"..."
O aroma da carne grelhada fez a boca do garoto salivar.
"Eu disse para pegar."
O garoto hesitou, refletindo.
E parecia ter tomado uma decisão.
Em vez de pegar o espeto, o garoto falou com o homem.
"Eu sei fazer algo bem."
"O que seria?"
"Qualquer coisa."
O garoto olhou para ele, não para o espeto que o homem oferecia.
"Eu faço qualquer coisa bem. Só me dê uma tarefa."
Para o garoto, o homem que estendia o espeto parecia uma estrela brilhante nos becos.
"Qual é o seu nome?"
O homem, que observava o garoto, ficou curioso.
Quem era aquele mendigo dos becos que falava com tanta confiança em vez de agarrar a comida que garantiria sua sobrevivência do dia?
Por isso, perguntou o nome do garoto que parecia ter rolado na lama e era calado, mas cujos olhos ainda tinham luz.
"Vlad."
Foi só então que o homem encontrou os olhos do garoto, que eram azuis.
O homem também gostou daquela cor.
"Você viria morar na minha casa?"
E assim, decidiu levar o garoto com ele.
Porque aquela cor o lembrava de alguém que ele havia deixado para trás há muito tempo.
Os olhos azuis do garoto lembravam estrelas.
✦ ✦ ✦
"Ha, Ha."
Vlad acordou no meio da noite profunda, enquanto todos dormiam, respirando pesadamente.
"...Já dormi o suficiente."
Era um sonho de muito tempo atrás.
De uma época em que até sobreviver a cada dia era uma luta.
Vlad se levantou e olhou ao redor.
A tenda estava cheia do cheiro pungente de homens desconhecidos e do som de roncos.
"Ainda sinto o cheiro do Sorriso de Rosa nesta terra estéril."
Sabendo que o sono não viria facilmente, Vlad pegou sua espada e saiu.
[Manter a melhor condição possível o tempo todo é um requisito básico de um espadachim, Vlad.]
"..."
Vlad não respondeu à voz.
"Quem está aí?"
"Riemann."
"Onde você vai a essa hora da noite?"
"Para rezar."
"...Riemann, você parece mais adequado para ser um sacerdote do que um mercenário."
Vlad informou sua localização ao pessoal de vigia e seguiu em direção à colina iluminada pelo luar.
Então, segurou a espada e fechou os olhos.
[Você sobreviveu a muitas adversidades.]
"Você viu?"
A voz parecia ter vislumbrado o sonho de Vlad.
[Porque os sonhos são a manifestação de desejos fortes.]
"O que eu desejei?"
A voz não respondeu.
"Sinto falta disso, mesmo assim."
Havia um homem rezando sob um céu sem lua.
Ele tinha cabelos loiros claros, agitados pelo vento frio do inverno.
"...Mas por quanto tempo ainda vou continuar falando sozinho como um lunático?"
[Até você criar seu próprio mundo dentro da sua alma.]
"Criar um mundo? Quem você acha que eu sou, um deus?"
[Apenas alinhar suas intenções com seus pensamentos já é fazer isso. Só uma vontade forte pode fazer seu mundo se expressar.]
Ele parecia estar fingindo algo assim.
"Acho que vou ter que continuar fazendo essa loucura por muito tempo."
[Isso depende de você.]
Riemann Rezador.
Foi um método que ele pensou como último recurso, já que não podia murmurar sozinho na frente dos outros.
"Todos os cavaleiros fazem isso? Têm um mundo dentro da alma?"
[Aqueles que lidam com aura.]
"Bom, desse jeito, não tenho nada a dizer."
E, sem querer, esse método era bastante eficaz.
O ato de rezar permitia que Vlad tivesse um tempo a sós sem interrupções, mas também o distinguia dos outros mercenários, criando uma sensação de singularidade.
Ser diferente dos outros.
Era outra forma de expressar algo precioso.
"Mas antes, eu fiz exatamente como você disse, e não funcionou direito."
[Por que não funcionou?]
No entanto, agora o garoto se arrependia.
[Quando você ergue a espada e inclina o corpo, o oponente vai whoosh. Então você vai swoosh. Por mais que eu diga, por que você não entende?]
"...É sério isso?"
Porque o que ele estava tentando alcançar por meio da oração estava falhando.
Há um ditado que diz que, por melhor que seja um espadachim, nem todos são bons professores.
Esse ditado estava correto.
Vlad nem sequer sabia se a voz era de um grande espadachim.
"Você realmente acha que dá pra entender isso?"
[...Não, eu disse para fazer o som de swoosh quando você balança.]
"Ó Senhor. Por favor, leve embora esse lixo de demônio que não sabe nem falar direito."
Uma veia saltou na testa de Vlad enquanto ele ouvia a explicação absurda.
"Mate-o ou me poupe."
[Eu ouço tudo.]
A voz parecia ciente de que era péssima em explicar e respondeu num tom estranhamente abatido.
"Então me mostre uma vez."
[Você pode acabar virando uma poça de gosma, sabia?]
"Eu disse que não vou para a expedição amanhã."
O que foi um tanto quanto afortunado era que havia outras formas de o garoto aprender com a voz.
[Okay. Feche o olho direito.]
Vlad seguiu as instruções da voz e fechou o olho direito.
"Mmm..."
Então, Vlad sentiu como se sua visão estivesse recuando por um instante. Era como dar um passo atrás e observar o mundo.
[Sinta bem.]
Vlad, com o olho direito fechado, puxou silenciosamente a espada sob o luar, com uma postura e uma atmosfera diferentes de antes.
Naquele momento, Vlad parecia outra pessoa, oprimindo tudo ao redor, inclusive o vento que soprava e o chão em que pisava.
[Aproxime-se furtivamente com um movimento inesperado.]
Havia uma sensação de dominar o mundo.
[Controle o campo de batalha com percepção, um passo à frente.]
E ele brandiu a espada.
[Esse é o segredo de matar com um único golpe.]
Houve um clarão sob o luar que deveria brilhar sozinho.
Foi um brilho momentâneo.
Mas Vlad pôde sentir o fluxo de ar se partindo por um instante.
O rasgar e o uivo do vento.
[Abra o olho, Vlad.]
Vlad, ao abrir novamente o olho direito, cambaleou e caiu no chão.
"Ugh, isso foi intenso."
Vlad fez uma careta e segurou a panturrilha dolorida.
Durou apenas um instante, mas ele sentiu uma dor aguda nos músculos sobrecarregados além do limite.
[Você sentiu?]
Mesmo assim, Vlad sorria apesar da dor.
"Eu entendi mais ou menos."
Ele viu, sentiu e também teve um vislumbre.
A voz desconhecida havia injetado temporariamente experiências vívidas no corpo de Vlad.
E o garoto perspicaz conseguiu aprender seguindo os rastros deixados para ele.
"Acho que da próxima vez eu consigo."
[Você disse a mesma coisa da última vez.]
Ensinar por meio da experiência direta estava em um nível totalmente diferente em comparação a ensinar com palavras e demonstrações.
Talento nato e ensinamentos vívidos impulsionavam o rápido crescimento de Vlad. Era como se estivesse destinado a ser assim.
"A lua está excepcionalmente brilhante esta noite."
Vlad, apoiando-se nas pernas trêmulas, observou o céu noturno.
"Agora, sempre que vejo a lua, me lembro daquele cara."
[...]
O cavaleiro que se assemelhava ao luar azul. Ele foi o primeiro mundo que o garoto viu e aquele que destruiu Jorge, o seu próprio mundo.
"...Um dia eu vou destruir a lua."
[Você será capaz de fazê-lo.]
Vlad era um garoto que sempre olhava para as estrelas brilhantes, mesmo antes de ver a estrela forjada pelo velho ferreiro.
"Eu vou vingar Jorge."
Aquela estrela era a mais imponente e gigantesca estrela dos becos. O garoto segurava no coração a estrela quebrada que tanto desejava.
"Já chega por hoje."
[Tudo bem.]
E a estrela comprada com as lágrimas da garota foi colocada sobre seu ombro.
O luar azul observava as costas do garoto descendo a colina, carregando a estrela no ombro.
✦ ✦ ✦
"...Então você conseguiu lidar com o hobgoblin por pura improvisação."
Tarde da noite, Josef estava sentado, apoiado na cadeira, olhando para o cavaleiro que lhe fazia o relatório.
Com as bochechas largas, um corpo volumoso mal escondido pela armadura e um olhar bastante tímido, ele não parecia alguém realmente adequado para empunhar uma espada e viver como cavaleiro.
"Sir Vordan."
"Sim, Lorde Josef."
Josef engoliu um suspiro que quase escapou e falou.
"Eu pareço um idiota para você?"
"..."
Josef sabia que deveria estar furioso naquela situação, mas, em vez disso, sentia vontade de rir.
"O quão ridículo eu devo ter parecido para você me trazer um relatório desses?"
"Lo-Lorde Josef..."
O cavaleiro à sua frente estava zombando de si mesmo. Não estava claro se era para se proteger ou para inflar a própria imagem, mas ele despejava mentiras diante de Josef, o comandante da expedição.
"Mais de vinte mercenários o acompanharam. Você acha que nenhuma palavra do que eles disseram chegou até mim?"
"..."
Ele permaneceu em silêncio.
Zayar, que estava ao lado de Josef, respirava pesadamente ao ver Vordan revirar os olhos.
Josef sabia que, se ordenasse a Zayar que matasse Vordan ali mesmo, aquele rosto feio acabaria rolando pelo chão.
"...Lembre-se das minhas palavras de hoje."
"Obrigado por sua clemência, Lorde Josef!"
Mesmo assim, Josef não podia ordenar a morte do cavaleiro chamado Vordan. Isso porque aquele velho incompetente, estúpido e maldito era um dos poucos cavaleiros da família que o seguiam.
"Lixo..."
Assim que Vordan saiu da tenda, Josef segurou a cabeça e soltou um suspiro exasperado.
Embora a família Bayezid reverenciasse o militarismo, nem todos os seus cavaleiros possuíam habilidades notáveis. O termo "cavaleiro" referia-se a alguém que empunhava uma espada, mas também era um título.
"Queria que essa maldita família simplesmente entrasse em colapso. Aí eu cortaria a cabeça dele sem hesitação."
A família Bayezid tinha um limiar alto, e possuir o dinheiro e as conexões para superá-lo significava que cavaleiros como Vordan podiam surgir.
Isso também podia ser chamado de força e habilidade.
"Meu pai me vê como uma lixeira? É por isso que só empurra lixo para a minha frente?"
Agora, com a raiva fervendo, Josef se levantou e falou com os lábios trêmulos.
"Por favor, acalme-se."
"...Eu preciso de uma espada. Uma espada afiada, não esse tipo de espada lixo."
Nos olhos sombrios de Josef, ardia um desejo intenso como chamas.
"Se eu tiver isso, não há razão para eu ficar para trás do meu irmão."
Ele suspirou profundamente.
Admitia que lhe faltavam habilidades, mas não suportava ser julgado por algo com o qual nasceu e não tinha.
Todos os chefes da família Bayezid até então estiveram entre os cavaleiros que representaram sua era.
Seu pai, Peter Bayezid, não foi exceção, e seu irmão Rutger Bayezid também era alguém com talento para se tornar um cavaleiro representante da próxima geração.
"Deus não dá tudo. Lorde Josef, o senhor tem muito mais do que lhe falta."
As palavras de Zayar eram precisas.
Josef não nascera com um corpo saudável, mas carregava armas que Rutger não possuía.
Ele possuía muitas outras coisas. Uma mente afiada, uma postura calma, um espírito forte. E até um grande apoio da família materna.
Claro, todas essas qualidades eram consideradas secundárias na família Bayezid, que reverenciava o militarismo.
"Você encontrou?"
"Sim."
Josef pensou.
Se ele não podia se tornar a espada, então seria aquele que a empunharia no lugar dela.
"Ele é um nobre?"
"Não."
"Ou é um membro promissor de alguma guilda de esgrima?"
"Ele não está ligado a nenhum grupo específico."
Os lábios de Josef se curvaram ao ouvir o relatório de Zayar.
"Ele é um homem sem mestre."
"Isso mesmo. Dizem que ele veio dos becos de Shoara."
Se não houvesse uma espada para ele usar, ele criaria uma, se fosse necessário. Contanto que pudesse ser lapidada.
"Muito bem. Já está tarde, então vou encontrá-lo amanhã."
"Entendido."
Josef recostou-se na cadeira enquanto observava Zayar sair silenciosamente da tenda.
Sozinho, passou a considerar cuidadosamente suas opções.
"O que você quer, Vlad."
Josef nunca desistia.
"O que devo lhe oferecer para que você não me recuse, Vlad?"
Ele sempre foi alguém que lutou para sobreviver.
À luz trêmula da vela, seus olhos carregavam um desejo estranho.
Traduzido por Moonlight Valley
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