Volume 2
Capítulo 55: A chamada
— Lenna!?
Cázhor se ergueu num pulo, o olhar vidrado e o coração acelerado. Por um instante, não reconheceu onde estava. O quarto era amplo, mas estranho. As paredes de pedra refletiam o brilho suave que atravessava a janela entreaberta. A claridade feriu seus olhos, que ardiam como se há dias não vissem a luz do sol. Levou a mão ao rosto, tentando afastar o incômodo, e aos poucos a visão se ajustou.
“A linha de mana... ela desapareceu...”
O silêncio que se seguiu foi quase reconfortante. Por um momento, uma onda de alívio percorreu-lhe o corpo. Foi então, num estalo seco, que as lembranças o atingiram.
O ritual voltou inteiro, como um golpe. A escolha de Lenna. O peso que ela estava prestes a assumir sem hesitar. A ligação que uniria suas vidas de um modo que ele jamais imaginaria, tudo para abrir um caminho que ninguém mais ousaria percorrer, além de impedir que a vida do elfo se apagasse antes do tempo.
Ele recordou cada toque, o olhar carregado de Hannya, e a sensação sufocante de estar preso entre dois mundos. Era como reviver tudo. O momento em que se viu simultaneamente protagonista e espectador, incapaz de alcançar a própria voz enquanto a realidade se desfazia ao redor. E ali, no centro do caos, Lenna lutava em seu lugar.
“Será que agora tudo enfim acabou...?”
Cázhor baixou o olhar para o novo braço. A pele, marcada por veios de mana escura, lembrava cicatrizes que agora se escondiam sob uma bandagem limpa, ajustada com delicadeza. Ele estranhou por um instante; antes, aquelas bandagens não estavam ali. E naquele detalhe silencioso, ele soube de quem partira o cuidado. Lenna. Um pequeno sorriso curvou-lhe os lábios ao perceber a ternura com que haviam sido colocadas.
O mago movimentou os dedos com certa hesitação. Era real. O novo braço respondia, sólido, quente, vivo. Ainda assim, o peso do que isso representava o impedia de se alegrar por completo.
Mas antes que pudesse processar tudo, pesadas batidas na porta ecoaram, ritmadas, impacientes. Cada impacto fazia sua cabeça latejar, como se cada golpe vibrasse por dentro do crânio.
— Um momento... — resmungou, enquanto pegava o pesado manto e cambaleava até a porta.
Quando a abriu, deparou-se com o rosto de Ector. O comandante o observava de cima, com os braços cruzados e um meio sorriso no canto dos lábios, a típica expressão que misturava autoridade e provocação, à qual Cázhor já estava acostumado. A surpresa maior veio logo depois, quando ouviu uma proposta inusitada.
— Eu vou o quê? — Cázhor piscou, ainda meio tonto. — Não deve estar falando sério...
— Vai alterar o feitiço para o elfo vir com a gente — respondeu Ector sem rodeios, como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo.
— Isso eu entendi, senhor Brugnar... — Cázhor piscou devagar, tentando acompanhar a conversa. — Ah! Entre logo antes que alguém escute essa loucura.
Ector soltou uma risada breve antes de cruzar a porta. Cázhor revirou os olhos, preocupado. Por mais que o comandante o tirasse do sério, havia algo na presença dele que o fazia baixar a guarda, uma confiança silenciosa, forjada nas batalhas e nos dias que haviam compartilhado até ali.
Cázhor recuou, sentando-se à beira da cama após um longo suspiro.
— Onde estão os outros? — perguntou, sem disfarçar o cansaço.
— Melhor que não saibam. — Ector fechou a porta atrás de si e caminhou até o centro do quarto. — Quanto menos gente envolvida, mais chances de dar certo.
— De dar certo...? — O mago murmurou, descrente. — E como exatamente o senhor pretende enganar a realeza, comandante?
— Enganar é uma palavra feia, mago. — Ector ajeitou o manto nos ombros e o encarou com uma sobrancelha arqueada. — Prefiro pensar em... adiantar o inevitável.
Cázhor bufou, revirando os olhos novamente. Porém, dessa vez, também procurava algo pelo quarto, até Ector o interromper.
— Se está procurando a garota, ela está com o Vald. Acabei a encontrando enquanto voltava dos jardins do norte do castelo, foi quem me disse que você estava aqui. Só não entendi o porquê de vocês dois... bom, isso não é da minha conta.
— Deixe de besteira, senhor Brugnar. — O tom de Cázhor endureceu.
— Brincadeira, rapaz. — Ector levantou as mãos em rendição, rindo baixinho. — Você leva tudo a ferro e fogo. Devia aprender a relaxar um pouco.
— Relaxar não é algo que combina muito com o que estamos enfrentando.
— Ficar desse jeito também não ajuda muito. — Ector aproximou-se. — A garota me contou o que aconteceu, isso após me implorar para eu não vir te acordar. O fato é que ela salvou sua pele, não foi?
Cázhor desviou o olhar, o maxilar tenso.
— Ela tem o dom de se colocar em risco...
— Pois devia agradecer em vez de ficar emburrado. — O comandante deu um leve tapinha amistoso no ombro do mago.
Cázhor parecia já estar se acostumando ao jeito despojado do comandante, embora tenha lançado um olhar torto depois da atitude de Ector.
— Agora isso... — Ector continuou, apontando para o braço do mago envolto em faixas. — Isso eu gostaria de ouvir com calma depois.
Cázhor permaneceu em silêncio. O olhar pousou sobre as faixas claras, e o ar pareceu se tornar mais denso ao redor. A lembrança trazia um tipo de desconforto difícil de conter, talvez até de compreender. Era como se uma parte daquela presença ainda se entranhasse em sua alma.
— Podemos ver isso depois. Antes, temos outra encrenca para resolver — disse Ector, firme.
O olhar do comandante ficou mais sério; o tom baixou.
— O elfo virá conosco.
— Mas... como... — Cázhor não conseguiu terminar a frase.
— Porém — Ector continuou sem dar brechas para qualquer contestação — Gilgaren garantiu que isso não fosse possível com aquele maldito ritual, então precisamos dar um jeito.
— O senhor parece confiante. — Cázhor cruzou os braços, analisando-o. — Imagino que tenha um plano.
— Você é o plano! — Ector respondeu sem hesitar.
Cázhor franzia o cenho a cada palavra que saía da boca do convicto comandante.
— Acredito que seja mais que capaz de mexer na estrutura dessa porcaria sem deixar rastros.
O semblante confuso era claro no rosto do mago, como se tentasse montar um quebra-cabeça de peças infinitas.
— Garanto que consigo a distração necessária para puxar toda a atenção para mim. Daí, você faz o que melhor sabe fazer. Nada difícil para um prodígio. — Ector abriu um sorriso atrevido.
Cázhor suspirou profundamente.
— Quanto tempo o senhor acha preciso para modificar uma magia de alto nível, escrita por uma linhagem real de elfos ancestrais?
— Temos até amanhã. — respondeu Ector, seco.
Cázhor o fitou, incrédulo.
— Amanhã? Isso é insanidade. Mesmo com os insumos e o acesso à base do ritual, não há como...
— Confio em você. — Ector deu-lhe outro tapinha no ombro — Não creio que isso seja um desafio.
Cázhor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Às vezes me pergunto se o senhor é corajoso... ou simplesmente louco.
— As duas coisas costumam andar juntas, meu caro. — Ector respondeu, com um sorriso confiante.
— Ele é o príncipe de um reino, com o mesmo peso político e militar que a sede de Ancor... tem ideia do que isso pode implicar? — Cázhor cruzou os braços, relutante. — Um passo em falso e podemos transformar uma negociação tensa em uma guerra.
O comandante o observou por um instante, como quem pesa escolhas que conhece bem demais. Havia compreensão ali, mas também algo mais profundo. Uma certeza antiga de que dever nenhum tem valor se o herdeiro não souber quem é quando chega a hora de cumpri-lo.
— Mago, depois de tudo que passamos e... — Ector fez uma pausa. A expressão, antes firme, suavizou-se em algo entre desgosto e cansaço. — E depois do que vimos aqui, ainda acha justo deixá-lo preso a essa rede de tradições antigas e intrigas familiares?
Cázhor desviou o olhar, o cenho ainda franzido.
— Não se trata de deixar ou não, comandante. Trata-se de equilíbrio. — Ele inspirou fundo, tentando se manter racional. — O que está propondo pode desabar tudo o que foi construído pelo governo mundial.
Ector estreitou os olhos, como quem já imaginava essa resposta. O dever do jovem príncipe nunca esteve em debate para ele; a forma como era cobrado, sim. Nenhum reino prospera com um governante moldado apenas por obrigações herdadas.
— Nem sempre manter o equilíbrio é a melhor escolha. — Ector falou baixo, mas com firmeza. — Ele é um garoto, Cázhor. Um príncipe, sim, mas ainda alguém que acredita no que é certo. Depois de tudo o que teve de enfrentar, você não acha que ele merece, ao menos uma vez, escolher o próprio caminho? Certo ou errado, ele precisa amadurecer.
O mago abriu a boca para retrucar, mas a voz não veio. O argumento de Ector o atingira em cheio, bem mais fundo do que gostaria de admitir. As lembranças do que presenciaram desde que chegaram a Nifhéas, a frieza, os olhares de desprezo e a maneira como a própria família de Eduardh o tratava ainda o corroíam por dentro. Havia uma rigidez naquela linhagem, fria e letal, com a precisão de uma lâmina polida que corta sem deixar rastros.
Por um instante, a imagem de Lenna surgiu em sua mente. O mesmo olhar firme de quem nasceu diferente e aprendeu cedo a suportar julgamentos que não merecia. O peito apertou ao lembrar de quanto ela foi cobrada, do pouco que recebeu em troca e do quanto precisou lutar para existir sem pedir desculpas.
Naquele breve momento, reconheceu algo que tentava ignorar. Talvez Eduardh e Lenna não fossem tão distantes quanto imaginava.
Pela primeira vez, Cázhor não achou a proposta de Ector tão absurda.
— Acho que tenho uma ideia de como posso alterar a magia, mas só vou conseguir ter certeza quando começar o ritual.
— Eu sabia que você não decepcionaria.
— Sr. Brugnar — interrompeu Cázhor, com um olhar preocupado — tem certeza de que é isso que ele realmente quer?
Ector se lembrou do instante em que o elfo realmente baixara a guarda enquanto conversavam no castelo. Muito antes de qualquer título entrar em cena, ele era apenas o rastreador do grupo, leve, debochado, companheiro. A energia viva nos olhos não carregava o peso de uma linhagem inteira nem o eco silencioso de um abandono afetivo que o acompanhara desde cedo. Nada naquele jovem sugeria as sombras que agora o seguiam tão de perto.
Depois que decidiram seguir rumo a Nifhéas, tudo mudou rápido e de forma dolorosa. Tornou-se raro vê-lo livre do fardo dos deveres que o sufocavam, sem a máscara que mantinha com disciplina quase cruel. A solidão, antes escondida atrás dos sorrisos e provocações, agora surgia sem filtro, impossível de disfarçar.
— Sim. Tenho! — Ector afirmou convicto.
— Bom... — Cázhor soltou um longo suspiro, massageando as têmporas com uma das mãos. — Tenho pouco tempo, preciso ver o Sr. Hardr... Fanöir, que seja, para dar início ao plano.
— Vou me assegurar de descobrir onde pretendem fazer o ritual. Reconhecimento de campo será fundamental para que a minha parte no plano dê certo — conclui Ector.
Em silêncio, Cázhor apenas assentiu. Sabia que, independentemente de qual fosse o plano, era improvisado e perigoso, mas também compreendia que o cargo de Ector não fora conquistado à toa. Precisava confiar, agora mais do que nunca, em seus companheiros.
Quando o comandante se afastou, o silêncio envolveu novamente o quarto. Depois do turbilhão que Ector havia trazido logo no início do dia, Cázhor precisava colocar a mente em ordem. De nada adiantaria nenhuma estratégia se ele não conseguisse cumprir sua parte.
Não era momento para recuar. Decidido, vestiu novamente o pesado manto e, antes de sair, certificou-se de que ele cobria o membro artificial de forma impecável. O novo braço ainda era um problema. Se o selo lançado por Thorm sobre Eduardh já complicara a situação do grupo diante do reino, ele nem queria imaginar o que Idril poderia fazer se descobrisse a origem daquele membro. Apesar de a influência de Hannya parecer apenas ter enfraquecido, ainda assim precisava arriscar. Mas ele não se permitiria baixar a guarda novamente.
Esses pensamentos o levaram a Lenna. Ainda não havia conversado com a garota e, embora desejasse saber como ela estava, agradecer-lhe e até mesmo repreendê-la por se colocar em perigo outra vez, sabia que isso podia esperar. Pela forma como Ector falara, ela estava bem, ou ao menos parecia estar. Era isso que o confortava e o impedia de desviar a atenção do inusitado e repentino plano.
Enquanto caminhava pelos corredores na busca de Eduardh, um movimento suave ao longe lhe a chamou atenção. A luz filtrava-se pelas janelas altas, e entre os jardins, ele avistou a rainha Irmiriam. Diferente da mulher perturbada e aflita que conhecera antes, agora parecia calma, quase etérea.
Trajava um vestido verde-esmeralda que reluzia como seda viva sob o sol. Leve e elegante, caía em ondas até o chão, ajustado por um cinto dourado que marcava a cintura com delicadeza. O corpete, bordado em motivos florais, e os véus translúcidos que desciam dos ombros completavam o traje perfeito para uma soberana em seu passeio pelos jardins do castelo. Sua presença carregava uma serenidade quase hipnótica, uma beleza que, por um instante, apagava a lembrança sombria do momento do reencontro com o filho.
Por mais que Cázhor fosse um diplomata e ocupasse um dos assentos mais altos da cúpula mágica, lidar com a realeza de Nifhéas ainda lhe parecia atravessar uma fronteira invisível. A família real era quase um mito para o povo, inalcançável, envolta em tradição e silêncio, acessível apenas a poucos e escolhidos. O pouco contato que tivera até agora já ultrapassava tudo o que vira ao longo de toda a sua vida. Para ele, cada encontro era um passo dentro de um território desconhecido, e embora imaginasse certo rigor, jamais previra tantas intrigas ocultas sustentando um império que aparentava perfeição absoluta.
Cázhor tentou mudar de direção, desejando evitar qualquer contato visual prolongado, mas foi inútil. Irmiriam o notou imediatamente, acompanhando-o com os olhos e oferecendo-lhe um sorriso delicado, quase tímido. Ele mal teve tempo de desviar o olhar quando percebeu uma das damas de companhia da rainha aproximando-se apressada, interrompendo seu caminho. Era uma elfa de beleza marcante, com cabelos castanhos que se tornavam dourados nas pontas, corpo curvilíneo e a pele clara e impecável, traços típicos das damas de companhia da nobreza.
— Perdão, senhor Wilheiman. A rainha insiste em falar com o senhor. — A elfa mantinha o olhar baixo, respirando fundo para manter a postura impecável.
A ideia não o agradava, mas não havia como recusar um chamado da soberana dentro de seu próprio reino. Ele apenas assentiu.
— Por favor, me acompanhe — disse a dama ao receber a confirmação.
O silêncio permaneceu entre eles durante todo o percurso. Nenhuma troca de palavras, nenhum olhar. A tensão parecia se adensar a cada passo rumo aos jardins externos. Ao descer as escadas que se abriam para o pátio florido, Cázhor avistou finalmente o que tentava evitar desde o início. A rainha, rodeada de guardas, o aguardava entre os canteiros.
A pressão no ar subiu até os pulmões, firme e incômoda, como se aquele encontro tivesse força suficiente para desmoronar tudo.
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