Volume 2
Capítulo 56: Por trás da máscara
O sangue real fazia jus ao nome. Elfos dessa linhagem não apenas manipulavam a mana com extrema facilidade; comandavam-na com uma naturalidade tão absoluta que se tornavam armas vivas, capazes de mudar o curso de uma guerra.
A rainha permanecia diante das flores, deslizando os dedos pelas pétalas com uma delicadeza tão extrema que mal as movia. Havia algo hipnótico naquela calma, uma serenidade que não combinava com o olhar fixo e matemático, que denunciava o desequilíbrio interno. Cercada por guardas e serviçais imóveis como estátuas, Irmiriam parecia parte do próprio jardim, uma figura sagrada inserida naquele cenário para ser venerada e temida ao mesmo tempo.
Espadas, lanças, cajados e escudos formavam um casulo rígido ao redor da rainha, brilhando sob a luz morna do sol e lembrando que sua proteção responderia a qualquer sinal de hostilidade sem hesitação.
Quando viu Cázhor, ela avançou lentamente em sua direção. Ergueu a mão com suavidade e os guardas recuaram de imediato, abrindo passagem para a soberana deixar o círculo de proteção e se encontrar com ele. Nada no gesto revelava suas intenções; apenas reforçava o quão treinada e intimidadoramente subordinada era a guarda que a cercava.
Cázhor levou a mão ao peito e inclinou-se numa reverência elegantemente breve, os olhos fechados em respeito. Quando os abriu, encontrou Irmiriam tão perto que seu fôlego vacilou por um instante. Os elfos, em geral, possuíam estatura semelhante à dos humanos, mas os da linhagem real seguiam outra regra, elevando-se quase como figuras moldadas em luz. Mesmo sendo mulher, Irmiriam não fugia a isso. Aproximava-se de sua altura, e Cázhor, com seus um metro e oitenta e três de altura, notou que ela surgia quase ao mesmo nível de seus olhos. Isso bastou para que a presença dela lhe pesasse um pouco mais.
— Apesar de ser um humano tão jovem — disse ela, dando um passo adiante para reduzir de propósito ainda mais a distância entre os dois — é admirável o quanto de sabedoria e prestígio acumulou em tão pouco tempo.
— A rainha está sendo generosa em suas palavras — respondeu Cázhor, mantendo o tom rígido e respeitoso. — Mas imagino que tenha me chamado aqui por outro motivo.
— Sua percepção é afiada — comentou Irmiriam, desviando o olhar para as flores novamente. Seus dedos roçaram uma pétala com a mesma delicadeza de quem toca uma lembrança perigosa. — Como imaginei, percebeu com facilidade que desejo algo de você.
Cázhor manteve a postura firme. A rainha já havia deixado claro que não o chamara para uma simples troca de palavras, e cada gesto reforçava essa intenção. Ele tentava conter a própria curiosidade. Mesmo sendo um mago de alta patente, poderoso e reconhecido, estar ali, diante de uma representante de uma raça tão antiga e isolada, despertava um interesse genuíno que ele não conseguia ignorar.
Queria entender para onde aquela situação o conduziria. Respeitava a soberana, porém sua mente trabalhava com intensidade, atenta a cada nuance, ciente de que essa oportunidade poderia nunca voltar a se repetir.
Irmiriam inspirou profundamente, como se reunisse forças para atravessar uma barreira antiga. Ao erguer o olhar, a rigidez em seu rosto cedeu, expondo a fissura emocional de alguém exausto de sustentar máscaras por tanto tempo.
— Vocês não deveriam ter vindo — disse, a voz baixa, contida. — Aquilo que trouxeram… não é meu filho.
A frase cortou o ar entre eles como uma lâmina precisa, sem pressa, sem hesitação.
— Idril me puniu com aquela criança — continuou — Tudo porque falhei em cumprir meu papel...
As palavras se quebraram antes do fim. Não em lágrimas, mas em silêncio. Irmiriam levou a mão ao rosto apenas por um instante, como se testasse os próprios limites. Não havia choro. Não haveria. Rainhas não cedem diante de subordinados.
Cázhor franziu o cenho. Em Nifhéas, a palavra do rei moldava destinos, e questioná-la, ainda que de forma velada, era um risco que poucos ousariam correr, mesmo entre os mais poderosos. Ainda assim, o estado de Irmiriam tornava qualquer limite incerto, e aquela conversa avançava por um terreno onde previsões já não tinham valor.
Irmiriam começou a caminhar ao redor do mago, passos lentos, circulares, como se organizasse pensamentos que insistiam em se fragmentar.
— Ele mudou… mas eu ainda vejo… ele… ele não pertence a este mundo, não deveria existir... — a voz saiu em um sussurro, como se séculos de desgaste estivessem comprimidos numa única frase.
Irmiriam calou-se antes de concluir. Virou-se de costas, o rosto erguido para o céu de outono que se abria sobre o jardim, tingido de tons avermelhados entre poucas nuvens dispersas, como se buscasse respostas em algo que já lhe fora negado. O brilho contido em seus olhos não era esperança. Era exaustão. Dor antiga. Um luto que jamais alcançaria o descanso.
— Quero saber o que é aquilo… — sussurrou, por fim.
As palavras não soaram como uma confissão, mas como um pensamento dito em voz alta, um desabafo contido enquanto ela organizava fragmentos que insistiam em se chocar dentro de sua mente. Ainda assim, não havia fragilidade suficiente para torná-la vulnerável. Mesmo nesse estado, o nome de Irmiriam erguia-se como muralhas incontestáveis. Sua posição não enfraquecia. Seu título não vacilava.
A mana que envolvia Irmiriam permanecia densa e firme, marca inconfundível da linhagem Arhaneil Fanöir, famosa por sua frieza calculista, estratégica e impiedosa quando necessário. Era esse legado, mais do que qualquer exército, que inibia tentativas de golpe ou usurpação do trono. Os fiéis à realeza não apenas a respeitavam, mas também jamais ousariam questioná-la. E mesmo os que cogitavam a traição sabiam que enfrentar essa linhagem de sangue significava convidar uma resposta da qual poucos sobreviveriam.
Cázhor compreendeu, então, o que ela não dizia em voz alta. Não se tratava apenas de dúvida. Havia ali uma negação deliberada, uma escolha imposta tanto pela dor quanto pela razão.
Entre todos do grupo, era diante dele que ela se permitia avançar um passo além da máscara. Talvez o julgasse distante o suficiente de intrigas familiares. Talvez confiasse em sua postura sempre contida. Ou talvez apenas estivesse testando até onde ele enxergava. Não havia como saber.
O que Cázhor sabia era que essa fragilidade não vinha da raça nem do peso da coroa. Havia algo quebrado, silencioso, drenando-lhe de certa forma. Como se parte de sua essência estivesse sempre à beira de se apagar.
— Alteza… infelizmente não posso lhe dar essa resposta — disse Cázhor, com cautela. — Mudanças assim costumam confundir até os olhos mais atentos. Quando a mana de alguém é alterada, o corpo responde, às vezes de formas que dificultam reconhecer o que antes parecia familiar. O que posso afirmar é que sua inquietação não é infundada… e ignorá-la, nesse momento, seria imprudente.
Falavam da mesma mudança, mas a partir de lugares distintos. Para Cázhor, tratava-se do corpo e da mana. Para Irmiriam, de algo que jamais conseguira chamar de filho. Sem perceber, ambos tocavam a mesma consequência por caminhos opostos.
Irmiriam voltou-se para ele. O fitando. Como se avaliasse não apenas o homem, mas o risco que representava as informações ditas ali.
— Senhor Wilheiman… — Ela hesitou apenas o suficiente para reorganizar o próprio tom — Deixemos assim. Digamos que eu não possa amá-lo como uma mãe deveria. Talvez nunca consiga.
A frase não soou como arrependimento, mas como um limite imposto com precisão. Irmiriam não se retratava por ter se aberto. Apenas se recusava a avançar além do que já havia dito.
— Enfim… — disse ela — De um jeito ou de outro, ele encontrará um modo de partir. Desaparecer… Vi isso em seus olhos. Espero que tome uma decisão sensata.
Havia algo além da mágoa.
“Será que ela suspeita do plano?” Cázhor chegou a engolir seco.
— Eduardh, nesse momento, não é uma opção — concluiu Irmiriam. — Não por covardia, mas por ainda não compreender que certas escolhas deixam de existir quando o sangue cobra seu preço.
As palavras assentaram como uma verdade amarga.
Cázhor percebeu, então, a ausência do que mais temia. Não havia ali acusação velada, nem indício de que ela soubesse mais do que dizia. A rainha falava de destino, não de planos. De caráter e aceitação, não de conspirações.
Por um breve instante, quase imperceptível, a tensão no peito do mago cedeu. Ector não fora ouvido. Ainda assim, manteve a postura inalterada. Em um lugar como aquele, até o alívio precisava permanecer em silêncio, para não ser mal interpretado.
— Cuide dele — pediu, num sussurro que parecia nascer mais da alma do que dos lábios.
O pedido inesperado arrancou um olhar surpreso de Cázhor.
— Não permita que esse menino caminhe para a desgraça. Mesmo que demore… se ele não voltar, se não assumir as responsabilidades que lhe cabem por direito e dever, Idril não lhe concederá outra chance.
Irmiriam deixara transparecer que não o reconhecia como filho. Ainda assim, ao pronunciar aquelas palavras, algo em sua voz traiu a rigidez que sempre sustentara, uma preocupação que não vinha apenas do trono.
A frase permaneceu suspensa, frágil como folhas de outono à mercê do vento.
Cázhor compreendeu o peso do pedido.
Acenando com um breve gesto de cabeça, Irmiriam sorriu, enquanto o vento morno agitava seus longos cabelos brancos, realçando uma beleza austera que dispensava adornos.
O sorriso de Irmiriam durou pouco. Apenas o suficiente para encerrar a conversa sem abrir novas frestas. Em seguida, voltou-se para o jardim, como se o diálogo já pertencesse ao passado, misturado às folhas que o vento carregava pelo chão de pedra.
“Farei o que estiver ao meu alcance.” Cázhor inclinou levemente a cabeça, em sinal de respeito.
Cázhor se afastava, sentindo o peso do pedido acomodar-se em seus ombros. Não era apenas Eduardh que estava em jogo, mas o equilíbrio frágil de um reino sustentado por decisões antigas, segredos enterrados e sangues que cobravam, cedo ou tarde, aquilo que lhes era devido.
Ao deixar o jardim, o mago lançou um último olhar para a figura da rainha entre as árvores outonais. Austera, imóvel, bela como uma estátua moldada pela renúncia. E, ainda assim, mais humana do que jamais admitiria.
Cázhor finalmente voltou ao seu objetivo inicial, encontrar Eduardh. A conversa com a rainha o pegara desprevenido, mas trouxera dúvidas que exigiam respostas, caso quisessem que o plano desse certo.
Havia mais em jogo do que ele gostaria de admitir. Uma linha tênue começava a se romper entre os reinos, mesmo que tudo fosse conduzido em nome de uma missão cujo fracasso colocaria o mundo inteiro em risco. Ainda assim, os Fanöir pareciam pouco se importar com as consequências.
Os resquícios da comoção causada por Ector ainda eram visíveis, tornando fácil identificar os corredores que levavam à sala onde Eduardh se encontrava. O espaço estava ocupado por elfos que aguardavam uma possível audiência. Alguns mantinham o semblante fechado, outros trocavam comentários baixos, carregados de impaciência. A presença deles tornava o ambiente denso, como se cada passo exigisse cuidado. Guardas permaneciam postados junto às paredes, atentos demais para um lugar que deveria ser apenas de passagem.
Cázhor observou a cena com um olhar cansado. Um suspiro curto escapou-lhe, mais de desgaste do que de irritação. Então a porta se abriu. O burburinho cessou de imediato, e a atenção coletiva se voltou para dentro.
— Imagino que Ector tenha falado algo com o senhor para ter vindo até aqui... — disse Eduardh, surpreso ao ver o mago diante de si. — Vamos, entre.
A atitude arrancou olhares indignados dos aristocratas que ainda aguardavam no corredor, todos certos de que aquela era a própria chance de falar com o futuro rei de Nifhéas. Não houve protestos, apenas o silêncio amargo de quem viu a porta se fechar após Cázhor entrar.
— Pode ter certeza de que sim — disse o mago, o tom contido, mas claramente aborrecido com a situação — mas primeiro quero ver sobre esse selo, alteza.
— Não precisa usar esses termos, senhor — Eduardh parecia constrangido com a tratativa.
— Preciso, sim, ao menos enquanto estivermos aqui. Agora, sobre o selo… prometi a seu pai que daria um jeito nisso. Creio que já tenha havido tempo para providenciarem os suprimentos que pedi. Há algum salão de alquimia no castelo?
Eduardh estranhou o comportamento do mago, o selo não era prioridade e toda essa urgência repentina o fez hesitar com um arquear de sobrancelhas.
Cázhor percebeu a hesitação, mas sem dizer nenhuma palavra, olhou firme para o garoto como quem pede confiança sem precisar dar explicações.
— Tudo bem... — Eduardh estreitou os olhos, alongando um pouco a última palavra — me siga.
Assim que deixou a sala, o príncipe foi acompanhado de imediato. Guardas se moveram com precisão treinada, abrindo caminho à frente e fechando a retaguarda sem que ordens precisassem ser ditas. O som metálico das botas ecoava pelo corredor, marcando o ritmo do avanço. Os elfos que aguardavam do lado de fora se afastavam com passos contidos, alguns por respeito, outros por puro desagrado, acompanhando a passagem com olhares longos e tensos. A escolta só se dissolveu quando Eduardh ergueu a mão, dispensando-os com um gesto breve e automático, como se já estivesse acostumado àquela vigilância constante.
A longa caminhada os levou a uma enorme torre ao oeste do castelo, alinhada às construções mais recentes, mas claramente distinta delas. Suas pedras eram maiores, levemente irregulares e marcadas pelo tempo, com fissuras e musgos que denunciavam séculos de existência. Enquanto os anexos ao redor exibiam paredes claras, linhas precisas e manutenções recentes, a torre mantinha uma tonalidade mais escura, quase solene, como um vestígio de uma era anterior. Era uma estrutura que não tentava se esconder nem se adaptar, permanecendo ali como um lembrete silencioso de quão antigo aquele castelo realmente era, e de tudo o que já havia resistido antes que novas muralhas fossem erguidas ao seu redor.
— Aqui não é tão usado hoje em dia... meus antepassados construíram uma outra torre mais moderna na ala sul, então aqui praticamente caiu em desuso e teremos mais privacidade. — disse Eduardh.
Uma longa escadaria em espiral se erguia por metros acima da porta de entrada, perdendo-se na escuridão da torre. Mesmo com o sol do meio-dia em seu ápice, o interior permanecia estranhamente frio, envolto em sombras densas. As pequenas aberturas laterais, distribuídas ao longo da estrutura, mal permitiam a entrada de ar ou luz suficientes para quebrar aquela sensação de clausura. À medida que avançavam, cristais de mana incrustados nas paredes despertavam um a um, ativando-se em sequência, lançando um brilho suave e crescente que os acompanhava até o topo.
— Bom… — Eduardh quebrou o silêncio — devo adiantar que Zyircer está lá em cima…
— Zyircer? — Cázhor enrugou a testa.
— É… o dragão… Ele não me deixava em paz e chamava muita atenção, então deixei aqui até decidir o que fazer com ele. Acabei dando um nome. Zyircer… algo como ornamento brilhante. As escamas douradas contrastam com o couro negro…
Eduardh falava com naturalidade, mas havia um apego discreto em sua voz, como quem se acostumara à presença da criatura sem perceber.
— Pois bem… essa criatura é outro problema que ainda precisamos resolver...
As palavras de Cázhor se perderam no ar quando seus olhos finalmente encontraram a criatura.
O que dias atrás lembrava um pequeno felino agora se estendia pela ampla sacada no topo da torre, coberta por arcos de pedra e aberta ao céu pelas laterais, ocupando quase todo o espaço com uma presença impossível de ignorar.
O dragão dormia tranquilo, aninhado às próprias asas e à cauda, o corpo grande demais para qualquer definição de “filhote”. Os traços haviam se tornado mais firmes, mais angulosos, e a antiga aparência inofensiva dera lugar a algo que beirava o majestoso e perigoso. Era fácil imaginar o quão imponente ainda poderia se tornar.
A abertura no topo da torre facilitava a entrada e saída de Zyircer… por enquanto.
— É… ele cresceu um pouquinho — Eduardh segurou o riso ao perceber o espanto estampado no rosto do mago.
— Mas o que, em nome dos deuses, o senhor deu para essa criatura crescer assim?
— Eu? Nada. Achei estranho ele não aceitar nenhum alimento, mas mesmo assim…
Cázhor levou a mão ao rosto, os dedos deslizando até o queixo, apertando o maxilar com força contida.
— E o senhor não achou que deveria dizer nada?
— Ah… não pensei nisso… com a situação da Lenna, meu tio… esse negócio de rei… acabei me esquecendo.
— Esquecer? — Cázhor apontou para o dragão — Como se esquece de algo desse tamanho? Como pretende explicar isso ao rei? Como se já não tivéssemos problemas suficientes…
Apesar do tom duro, o mago se aproximava do dragão. A irritação não conseguiu suprimir o fascínio. Ver uma criatura mitológica daquela magnitude, viva e respirando diante dele, tornava a lenda real demais para continuar sendo ignorada. A mana transbordava de Zyircer em ondas densas, quase palpáveis. Não era preciso ter a sensibilidade de Lenna para perceber, mas havia algo além disso. Algo errado.
Os olhos de Cázhor se estreitaram ao encarar Eduardh.
— O-o que foi? — Eduardh recuou um passo ao notar a mudança brusca na expressão do mago.
Cázhor avançou, seguindo um fluxo quase invisível, como uma linha que ligava a criatura ao príncipe. Era o mesmo padrão que sentira quando ficou ligado a Hannya ao copiar sua magia. Do elfo saía um rio contido de mana, drenado parcialmente pelo selo deixado por Thorm e, agora, também por Zyircer.
— Droga… — murmurou, estalando a língua antes de soltar um longo suspiro, passando as mãos pelos cabelos com força — isso está ficando mais complicado do que deveria ser...
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