Volume 2
Capítulo 54: A decisão
A noite finalmente se dissolvia, abrindo espaço para o segundo dia de espera do temido ritual de sangue. O amanhecer veio sereno, tingindo o céu com tons de cobre e ouro. Lá fora, as nuvens ainda descansavam sobre os picos distantes, lentas, como se hesitassem em partir.
O castelo real dos elfos erguia-se no ponto mais alto de Nifhéas, tão imenso e altivo que parecia tocar as próprias nuvens. Um monumento de elegância e solidão. De longe, sua beleza era de tirar o fôlego; de perto, havia algo quase triste em sua imponência, como se toda a sua grandiosidade fosse somente um disfarce para o vazio que ecoava em seus salões.
O outono pintava o mundo em tons de amarelo e laranja, cores quentes que contrastavam com o mármore frio e com as cortinas translúcidas que dançavam preguiçosas sob as raras brisas suaves. As grandes janelas deixavam entrar a luz do sol, que se espalhava pelo chão de pedra. Nos corredores, o ar era denso; os guardas permaneciam imóveis, tornando suas presenças quase um móvel de decoração, rígidas estátuas. Até a respiração deles parecia contida, contribuindo para a sensação de isolamento no interior do castelo. De tempos em tempos, um serviçal passava, discreto, garantindo que nada, nem uma partícula de poeira, ousasse quebrar a ordem do lugar.
Lenna abriu os olhos devagar, como quem desperta de um sonho profundo. Havia adormecido sem perceber e, ao tentar se mover, sentiu uma pontada aguda percorrer-lhe o corpo. Seu pescoço ardia, e a dor se espalhava como fogo sob a pele. A sensação de uma queimadura recente, viva. Instintivamente, Lenna levou a mão ao local, os dedos trêmulos buscando entender o que havia ali. A prataria ao lado da cama refletia seu rosto levemente distorcido pela dor, e ao inclinar-se pôde ver, não feridas, mas a marca enegrecida do contato, gravada como uma sombra.
“Essa é a mana negra...? Apenas um toque... não é como uma doença, mas algo que corrompe a alma.”
Os pensamentos dela se dispersaram quando notou Cázhor ainda dormindo. A cena a inquietou. Nunca o vira repousar tanto tempo. Ele sempre despertava antes dela, sempre atento, sempre em guarda. No entanto, ali estava ele, sereno, com o semblante tranquilo, como se o peso que o acompanhava tivesse, por fim, se dissolvido. Aquilo a confortou.
Com o máximo de cuidado, Lenna se levantou. O quarto era amplo e iluminado, decorado com tapeçarias que contavam antigas lendas élficas. O chão era coberto por tapetes finos e o ar cheirava a flores secas e chuva recente. Ela ajeitou os lençóis de seda ao redor do mago, certificando-se de que ele continuasse confortável. Depois, colocou um longo vestido de algodão e renda em tons de verde-água. Leve, elegante e cheio de detalhes, como tudo que pertencia àquele lugar. O dia não estava frio, apenas morno e úmido, o que fez o pano fino que enrolou em volta do pescoço trazer-lhe uma estranha sensação de conforto. Macio, leve, quase acolhedor.
— Ótimo! Vai servir! — murmurou para si mesma, fazendo um pequeno gesto afirmativo diante do espelho dourado do trocador.
A luz dourada que atravessava as janelas parecia repousar sobre ela, acentuando a cor de seus longos cabelos. Ela suspirou fundo. Na memória, a sensação silenciosa de um novo dia que ainda não decidira se traria esperança ou mais sombras.
Muitos metros dali, o castelo élfico erguia-se diante de Ector como um monumento à arrogância de um povo que julgava o próprio sangue superior a todos os outros. Mármore branco, torres altas, corredores tão longos que pareciam engolir o tempo. Tudo ali exalava perfeição, fria, distante, quase inumana.
Ector caminhava por entre esse esplendor com o semblante duro. Por dentro, fervia. O simples fato de precisar se curvar à vontade da realeza élfica o enojava. Essa linhagem prezava títulos e aparência mais do que a própria família. Mas ele entendia o peso político do reino. Os elfos eram poderosos, tão influentes quanto a própria Sede Mundial. Uma atitude precipitada poderia ruir alianças e acender uma guerra que o mundo inteiro pagaria.
Ainda assim, havia limites até para a diplomacia. E o líder da Guarda Mundial sentia os seus se desfarelando.
O ritual imposto por Gilgaren ainda prosseguia. Um feitiço antigo, cruel, que selaria o destino de Lenna, a jovem cujo sangue agora servia como uma garantia de obediência. Se Eduardh recusasse o trono, ela morreria. Se aceitasse, viveria, mas à custa da própria liberdade. Não havia escolhas verdadeiras. Apenas o menor de dois males.
Para Ector, não havia honra em sacrifícios feitos por obrigação. E o que mais o enfurecia era ver os elfos chamando aquilo de dever sagrado.
Com um suspiro pesado, Ector deixou os corredores para trás e entrou no quarto. Encostou-se à janela e, no silêncio do espaço, observou uma movimentação estranha e chamativa. Era Eduardh, que cruzava o pátio acompanhado por uma escolta de guardas que garantiam sua proteção. O elfo caminhava lentamente, a cabeça erguida, mas o olhar perdido, vazio. Aquele não era o mesmo homem que, dias antes, zombava do perigo com ironia e leveza. Agora, era uma sombra de si mesmo.
Ector sentiu o estômago apertar. Eduardh havia se entregado, não por covardia, mas por lealdade. Poderia ter fugido, como fizera antes, e ninguém o culparia. Mas escolheu ficar. Acorrentando-se à própria linhagem para que Ector, Lenna, Vladmyr e Cázhor pudessem avançar em sua jornada.
“O Rei... esse idiota se recusa a intervir... A cidade é protegida por uma antiga magia? Mas até quando essa magia vai resistir sob um ataque do desconhecido?”
Esse pensamento foi a centelha final.
Ector levantou-se, afastou o manto escuro dos ombros e prendeu o machado nas costas. A lâmina cintilou sob o dourado do amanhecer.
Os corredores se estendiam à frente como um labirinto silencioso. O som de suas botas pesadas reverberava pelas paredes polidas. Estátuas observavam com olhos frios, guardas imóveis misturados ao cenário. Havia alas inteiras ocupadas apenas por luxo e vazio. Símbolo perfeito de um povo que se orgulhava de sua posição.
Por onde passava, Ector atraía olhares. Serviçais de pele pálida o fitavam com curiosidade e desdém. Sua postura altiva e o corpo marcado por cicatrizes destoavam da pompa ao redor. Para eles, Ector era um bárbaro que ousava andar de cabeça erguida no palácio. Mas ele não se abalava. Já comandara exércitos que o odiavam e salvara homens que o desprezavam. Já foi chamado de monstro, herói, louco. Ainda assim, aqueles que o julgavam voltaram vivos das guerras. Isso porque Ector prezava o que poucos ali compreendiam: companheirismo. Lealdade.
E Eduardh jamais havia falhado nisso.
A caminhada o levou até o enorme jardim ao norte. O vento trazia o perfume das flores misturado a uma melancolia densa. A fonte central brilhava sob a luz do sol nascente, e no reflexo das águas via-se a escultura de uma elfa alada, símbolo da pureza élfica, diziam. Para Ector, era apenas mais um lembrete da hipocrisia daquele povo.
“Chega de me curvar a quem troca vidas por títulos.” A cada passo, sentia crescer dentro de si o mesmo pensamento.
Ele avançou com determinação pelo jardim. Os guardas que o viram aproximar-se endireitaram-se, batendo os punhos contra o peito em saudação. Ele respondeu com um aceno breve.
Ector avistou à frente, nos corredores laterais, burgueses e aristocratas aglomerados próximos a uma imensa porta dupla. Estava claro para ele que havia chegado finalmente ao seu destino. De alguma forma, a notícia já havia se espalhado, talvez propositalmente, e todos pareciam ansiosos para conhecer o futuro rei.
A presença do comandante era uma sombra desconfortável naquele ambiente de expectativa. Ao perceberem sua aproximação, fechavam a cara, interrompiam sorrisos e cochichos, como se sua simples presença lembrasse que aquela intromissão não seria tolerada. Cada olhar carregava surpresa, resistência e falsos sorrisos; Ector sentiu o peso da arrogância deles, mas não recuou. Caminhou firme, consciente de que ali não precisava ser visto, mas respeitado. Ector fechou os punhos, sentindo o sangue subir ao rosto.
“Desde quando a nobreza vale mais que a vida...”
— Comandante, o senhor tem autorização para entrar? — perguntou um dos guardas reais, interrompendo os pensamentos que fervilhavam na mente de Ector.
Ector desviou o olhar por um instante, os olhos escuros faiscando como brasas sob o sol do jardim.
— Autorização? — replicou, a voz firme — Eu não preciso de autorização para falar com um amigo, meu jovem.
— Compreendo, senhor, mas…
— Deixe-o entrar... — a voz de Eduardh ecoou de dentro da sala, atravessando a grossa madeira das portas duplas entalhadas.
Ector não esperou a reação dos guardas. Empurrou as portas pesadas, que se abriram com um rangido grave, atraindo olhares revoltados daqueles que aguardavam ali.
O salão era amplo, banhado pela luz filtrada pelos vitrais azuis. Mapas, livros e pergaminhos estavam espalhados e cobriam as mesas. Perto da janela, Eduardh permanecia imóvel, o olhar perdido na paisagem, como se já carregasse o peso de tudo o que estava por vir.
Ector parou à entrada, fechando as portas atrás de si com um estalo. No reflexo da vidraça, viu os ombros caídos do elfo, a expressão apagada, o semblante de quem já aceitara a própria sentença.
— É isso? Desistiu? — indagou Ector.
— Não tenho muita escolha...
— Moleque. Você faz suas escolhas. Já fez uma vez...
— É... mas agora é diferente, senhor — ele rebateu de forma cansada.
— Diferente como? Pode deixar tudo isso para trás. A gente dá um jeito.
— Você não ouviu meu pai? — Eduardh esbravejou — Ele não vai deixar isso passar em branco!
— É isso o que você quer? — retrucou Ector, sua voz soou grave, firme como aço.
— Não vou meter vocês nisso... mais do que já estão...
— É isso o que você quer? — repetiu Ector, uma expressão séria e endurecida se moldava em seu rosto.
— Claro que não! Nunca quis que Lenna se colocasse em risco por minha causa!
— Eduardh, o que você quer?! — Ector o fitava agora, firme, sem espaço para fuga.
O elfo hesitou. O silêncio entre eles parecia se estender por uma eternidade. Ector manteve o olhar firme, percebendo cada vacilo, cada sombra de medo e culpa que atravessava o semblante de Eduardh, que sem perceber deixava escapar um pedido silencioso por apoio.
— Eu só quero terminar esta última aventura com vocês! — disse o elfo, a voz embargada pelo peso de tudo o que sentia.
Ector permaneceu imóvel por um instante, estudando-o com atenção, e então um leve sorriso curvou seus lábios.
— Era tudo que eu precisava ouvir, garoto.
Com um gesto firme, carregado de orgulho e respeito, Ector pousou a mão nas costas do elfo, batendo de leve como quem reafirma um pacto silencioso. O toque bastou. Pela primeira vez em dias, os olhos de Eduardh se suavizaram, e um brilho discreto, quase esquecido, despontou em seu olhar, algo entre alívio e esperança. E finalmente ele compreendeu, não estava sozinho.
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