Magic Genesis Brasileira

Autor(a): Rafaela R. Silva


Volume 2

Capítulo 53: Entre o abismo e a luz

A voz ecoou em sua mente como uma gota de água caindo no fundo de uma caverna profunda. Num impulso, Cázhor sentou-se na cama, o coração pulsando tão forte que parecia mover seu peito visivelmente. Estava escuro e frio, e ele permanecia imóvel, tentando localizar-se. A pouca luz da lua que antes refletia pelas janelas já não existia; somente o breu prevalecia.

Seus pensamentos estavam confusos, e concentrar-se em qualquer coisa parecia impossível.

— O que é isso…? — murmurou, a voz quase engolida pela escuridão.

Estava claro que ainda se encontrava no quarto do castelo, mas nada parecia indicar isso. O colchão não tinha a mesma firmeza, o cheiro era adocicado e ácido, diferente do aroma terroso que predominava até pouco tempo. Ele sabia que estava ali, mas seu corpo não respondia como esperava; era como se só pudesse assistir a si mesmo, preso entre realidades.

“Um… sonho…?” — pensou, tentando se convencer.

O toque veio antes que pudesse raciocinar. Quente, macio, deslizando pelas suas costas até a nuca. O cheiro doce inundava seus sentidos, o toque úmido em sua pele fria provocava uma estranha, porém excitante, sensação.

— Com certeza é um sonho… — murmurou para si mesmo, cedendo ao cansaço que afogava sua mente depois da reunião exaustiva com o rei e da decisão de Lenna.

Ele deixou o corpo pender de volta à cama, mas foi surpreendido quando mãos femininas começaram a afagá-lo gentilmente. A estranheza deu lugar a uma sensação reconfortante, e ele não afastou as mãos; estava cansado demais, quase hipnótico.

— Você precisa relaxar… — a voz sussurrou de novo, agora mais próxima.

De repente, Cázhor sentiu algo deslizar sobre ele, a pressão quente e firme de um corpo contra sua virilha. Pelo formato e pelo timbre da voz, percebeu ser uma mulher, e um arrepio percorreu sua espinha, deixando-o rígido e surpreso pelo toque inesperado. Sem que ele pudesse reagir, ela começou a arrancar sua blusa com um desejo evidente, e seus longos cabelos negros deslizaram pelos ombros, espalhando-se pela cama como sombras sedutoras. Um sorriso largo revelou caninos pontudos, que ela alisava com a língua de maneira maliciosa, provocando-o ainda mais.

Cázhor já duvidava se aquilo era realmente um sonho. Mas o desejo e as sensações que se espalhavam sobre ele contradiziam sua razão. Ora se convencendo de que era irreal, ora incapaz de negar a intensidade do que sentia, mergulhava cada vez mais na experiência sem saber se queria acreditar ou se conseguiria resistir.

A figura lhe era familiar, mas sua mente nublada não conseguia se lembrar exatamente de quem era. Estava despida, e seus seios roçaram em Cázhor quando ela se inclinou sobre ele. A língua quente deslizou pelo pescoço dele até o lóbulo da orelha, a respiração descompassada transmitindo um recado silencioso, claro e intenso.

Sem tempo para qualquer reação, seus lábios se encontraram em um longo e excitante beijo. Instintivamente, ele a segurou pela cintura fina, descendo a mão pelas curvas até alcançar o quadril. O corpo dele tremia entre a exaustão e o desejo, entregue ao transe da experiência que acreditava ser somente um sonho.

— C… calma… — conseguiu murmurar entre o beijo, a voz trêmula.

— Não precisa se conter… — ela respondeu, sussurrando contra a boca dele, uma promessa silenciosa de prazer e proximidade.

Cázhor sentiu o calor percorrer-lhe a espinha, cada toque aumentando a sensação de vulnerabilidade e entrega. Cada estímulo parecia dolorosamente real, intoxicante, percorrendo seu corpo e sua mente de forma avassaladora. Ele não queria fugir, mas também não compreendia completamente o que se passava. A mulher o mantinha preso nesse limiar entre a consciência e a ilusão, sua presença tão próxima que cada respiração, cada toque, fazia seu corpo reagir instintivamente.

Ele fechou os olhos, sentindo-se afogado por uma mistura de cansaço, excitação e confusão. Por mais que tentasse racionalizar, não conseguia escapar. Estava vulnerável e sabia disso. E, de algum modo, essa vulnerabilidade parecia exatamente o que ela queria.

Em meio a todas as emoções, Cázhor finalmente percebera algo diferente, que não estava ali. Seu braço esquerdo amputado havia sido substituído por algo feito de sombras. Não tinha certeza, pois, ao mesmo tempo que parecia intocável, o novo braço parecia sólido, como se nuvens de escuridão transitassem dentro de uma prótese invisível. Suas unhas estavam levemente crescidas e pontiagudas. Não doía mais, era como se sempre tivesse estado ali; ele tinha o controle e o tato como no braço original. Por um instante, arregalou os olhos e franziu o cenho, pasmo com o que via.

— Não desperdice sua atenção com isso agora, meu querido — sussurrou a mulher, envolvendo-o em um abraço caloroso que percorria todo seu corpo. — Foque apenas em nós dois… em mim…

Os olhos de Cázhor perderam brevemente o brilho, como se ele fosse acometido por um novo transe. Ele a agarrou pela cintura e, com o braço de sombras, afagou sua nuca, entrelaçando os dedos nos cabelos dela, fazendo-a arfar. O movimento repentino a fez cair de costas na cama e, instintivamente, ele se inclinou sobre ela, num gesto provocante. Ela sorria maliciosamente, mas ele parou.

A mulher parecia constrangida e irritada com a pausa, enquanto Cázhor permanecia em conflito consigo mesmo. Então, seu olhar se voltou para o fino fio de mana ainda preso a seu punho, pulsando intensamente, quase queimando.

— Tsc! — Ela estalou a língua.

Os olhos de Cázhor brilharam como chamas recém-alimentadas, e a marca de Fazhar se manifestou. A mana gerada fez com que um feixe de luz da lua invadisse o quarto, dissipando o breu. Seu cabelo, que até então parecia negro na escuridão, agora se revelava em um azul anil profundo, e os olhos refletiam o mesmo tom. Foi então que ele se lembrou das esferas que havia visto antes de adormecer.

— É você! — explodiu em raiva, agarrando o pescoço da criatura, reconhecendo a demônia que havia enfrentado na floresta.

— Fico lisonjeada que lembre de mim... — disse ela, a voz levemente engasgada pelo aperto de Cázhor. — Vejo que gostou do meu presentinho.

Ela olhou para o braço de sombras dele, agora iluminado parcialmente pela luz da lua. Cázhor pôde ver melhor, o membro parecia transplantado de forma cirúrgica e perfeita, moldando-se ao corpo dele. O choque o fez soltar a demônia.

— O que você fez? — disse ele, incrédulo.

— Não quero um brinquedo incompleto — sussurrou ela em seu ouvido, abraçando-o pelas costas e insinuando-se com suas curvas.

Ele não conseguia se mover livremente, não por algum tipo de imobilização física, mas como se estivesse entrando em transe novamente.

— Hannya… não se esqueça do meu nome, querido. Até porque eu já sei o seu, Cázhor — disse ela, agitando a pequena linha de mana que a ligava a ele.

Cázhor avançou novamente sobre a demônia, mas dessa vez agarrou o vazio. Imediatamente, ele despertou do transe. Abriu os olhos assustado e enfurecido, ainda deitado na cama. Estava sozinho.

— Apenas um pesadelo… — murmurou, alisando os cabelos encharcados de suor.

Parou ao perceber que o novo braço ainda estava ali. Não foi apenas um sonho. Atônito e com o coração acelerado, ele permanecia imóvel, tentando compreender o que acabara de viver.

Ainda era madrugada. Cázhor permanecia sentado à beira da cama, sem conseguir dormir desde o encontro com Hannya.

Sempre que o corpo insistia em se render ao sono, a imagem daqueles intensos e sedutores olhos azuis invadia sua mente, perturbando qualquer tentativa de descanso.

O fio de mana, o símbolo da ligação profana com a demônia, pulsava mais forte do que nunca. Talvez fosse o efeito colateral de uma forma de conjuração moldada às pressas, criada a partir da magia dela, sem preparo algum. Ele odiava admitir, mas não sabia o que fazer.

Um homem que sempre tivera as ideias alinhadas, o raciocínio firme e um controle quase impecável sobre as próprias emoções, agora se via desorientado.

Antes, todo o seu esforço era para superar limites, aprimorar a própria força, acumular conhecimento, provar para si mesmo que era capaz. Nada, além disso, importava. Um prodígio obcecado, isolado em sua própria busca. Então, Lenna cruzou seu caminho, ainda uma criança, e a lógica impenetrável que guiava sua vida começou a ruir. Pela primeira vez, Cázhor descobriu que podia ser forte não apenas para si, mas por alguém. Que podia passar seu conhecimento adiante. E essa descoberta, que deveria ser uma fonte de coragem, agora o dilacerava, temia não ser capaz de protegê-la.

“Comprei briga em um conflito que afeta todos os reinos... por causa dela... e agora não sei se estarei aqui para ajudá-la como prometi... Menina teimosa, arriscando a própria vida pelos outros...”, pensava, encarando o novo braço como quem encara um inimigo íntimo.

O cansaço pesava sobre os ombros. Sozinho em seu quarto, Cázhor se permitia uma fraqueza que jamais mostraria aos outros. A expressão firme cedia lugar a um olhar cansado, o peito apertado por um lamento silencioso. Ali, no refúgio da escuridão, não havia aparências a sustentar. Apenas a verdade de um homem dilacerado por dentro.

Por fim, levantou-se devagar. Puxou um longo sobretudo de veludo, em um tom profundo de verde musgo. A peça, pesada e imponente, era bordada com discretos fios de ouro e costuras em linha negra, trabalho primoroso dos alfaiates do castelo. Ao vesti-lo, deixou que o tecido caísse em amplas dobras, ocultando o braço esquerdo sob a folga larga das mangas. Um gesto para esconder aquilo que ele próprio ainda não aceitava ou entendia. Sem perceber, seus passos o conduziram adiante, guiados por emoções turbulentas e pela energia insistente da marca de Fazhar, como se algo além de sua vontade o movesse.

Em silêncio, Cázhor se conteve, resistindo a contestar a decisão de Lenna, consciente de que interferir na autonomia dela diante de todos seria errado. Mas uma inquietação persistente corroía seu interior. Lembranças do passado com a garota surgiam como um turbilhão, cada passo, cada palavra, a primeira magia, cada gesto que antes parecia insignificante agora ganhava um peso inesperado. A marca de Fazhar em sua pele pulsava, emitindo um leve tom avermelhado que também inundava seus olhos, e ele só percebeu isso quando se viu refletido na maçaneta lustrosa do quarto de Lenna. Por um instante, a realidade pareceu instável, como se tudo ao redor pudesse se dissolver.

“Quando foi que...” ele se questionava, sem entender como havia chegado ali.

— Oi... o que o senhor precisa? — disse Lenna, entre um bocejo e outro, com o cabelo desgrenhado.

Ele a encarava, surpreso com a recepção da garota.

— Mas eu não... me desculpe, senhorita Weins... eu... eu realmente não sei por quê...

— Ouvi o senhor me chamar várias vezes, até cheguei a pensar que estava sonhando... — ela tentava manter os olhos abertos — mas senti uma aura estranha, uma oscilação de mana muito forte, então resolvi levantar para ver e...

Lenna parecia chocada com o que via. Seus olhos, que até então estavam cansados e mal se abriam, agora se arregalavam em terror e incredulidade. Era como se uma chama negra, invisível aos demais, emanasse incontrolavelmente de Cázhor. A aura parecia queimar apenas ao ser encarada. Um clima pesado e tenso se instaurou; a imagem de seu mestre diante dela, irradiando aquela energia, a fez recuar um passo.

Ele ainda a observava, sério, duro. A recua de Lenna fez com que franzisse o cenho, tentando entender o motivo de tal reação.

— O que aconteceu com o senhor...? — Ela respirou fundo e se aproximou novamente, hesitante.

— Não se preocupe com isso, senhorita Weins. Desculpe incomodá-la. Estou cansado, vou retornar ao meu quarto.

— Espere!

Ela levou instintivamente a mão em direção ao mago. Ele estreitou os olhos e se afastou ligeiramente, evitando o toque com facilidade.

— O que pretende...

Ele não completou a frase. Lenna, com o já conhecido beicinho de frustração, o encarava emburrada, e então desta vez ele não se esquivou. Delicadamente, ela afastou o pesado tecido que encobria o estranho membro outrora amputado. Mordendo o lábio e franzindo as sobrancelhas, ela observava apreensiva.

Então, Lenna o pegou pela outra mão e o guiou até seu quarto, sentando-o gentilmente em sua cama ainda bagunçada. Ele não resistiu, embora tenha arqueado uma das sobrancelhas, estranhando a atitude da garota.

Cázhor não conseguia relaxar. A lembrança de Hannya ainda o perseguia, invadindo seus pensamentos como um sussurro que se recusava a cessar. Mesmo desperto, sua presença, de alguma forma, se fazia presente em sua mente. Um incômodo constante e silencioso. Cada fibra de seu corpo permanecia alerta, mesmo quando o cansaço parecia querer dominá-lo.

— Você devia parar de colocar sua vida em risco… sempre priorizando os outros — disse Cázhor ignorando seu estado — Quantas vezes vou ter que te advertir…

Ele tentou explicar o motivo que o levara até ali, mas a frase se perdeu quando Lenna se lançou em sua direção. Ela o abraçou com força, um abraço longo e apertado, quase um pedido silencioso por proximidade.

— Por que você não se abre para mim? Me fale o que está acontecendo… deixe eu te ajudar, do mesmo jeito que você sempre me ajudou… — os olhos marejados transbordavam preocupação.

Ele suspirou pesadamente, como se cada palavra custasse um esforço.

— Ultimamente, Lenna, não tenho tido respostas para muitas de minhas dúvidas… não sei como você poderia me ajudar se nem ao menos eu sei…

— Você quer me proteger, mas não confia em mim para fazer o mesmo… — ela olhou para o braço que ele insistia em ocultar sob o manto — por favor… deixe eu ajudar.

Ele percebeu, enfim, que qualquer resistência era inútil. Não havia sentido em esconder algo dela agora, e talvez fosse necessário que ela se preparasse para o pior.

— O senhor fala como se não tivesse outra opção, como se já tivesse desistido…

— Eu não vejo um destino diferente… — respondeu Cázhor, com uma expressão pensativa.

A presença de Hannya o havia afetado mais do que queria admitir; ele encarava o fio de mana em seu punho e o novo braço, exausto, piscando longamente entre cada palavra.

Lenna aproximou-se, olhando atentamente para a linha de mana.

— Essa linha… parece distorcida, desfocada… mas eu consigo ver que se estende, de alguma forma e… — sua voz diminuiu quando percebeu que ele havia adormecido.

Por um instante, um alívio silencioso passou pelo coração da garota, até que uma estranha sensação a fez estremecer. A oscilação de mana ecoava novamente do mago, intensa e quase palpável. O fio em seu punho parecia sólido, quase tangível. Pulsando como se a convidasse.

Foi por impulso. Sua mão flutuou até a linha de mana, que naquele instante brilhava com intensidade, iluminando parte da cama em tons arroxeados e azuis. Antes quase imperceptível, agora sua luz era forte o suficiente para revelar cada detalhe ao redor. Ao tocá-la, uma conexão esmagadora e silenciosa se formou, envolvendo-a por completo. Tudo ao redor mergulhou em trevas; o único ponto de luz emanava daquela linha pulsante, hipnotizante e viva. Ela não sabia se estava sonhando ou alucinando, apenas sentia a força da energia atravessando cada fibra de seu corpo e misturando-se a seus próprios pensamentos.

“Talvez... se eu me concentrar, eu consiga entender melhor...”, Lenna se lembrava da experiência na luta contra Galgard.

Foi então que dois pontos luminosos surgiram, azuis, exuberantes e provocantes. Sedutores, opressores, impossíveis de ignorar.

“Então é assim que ela…”

Os pensamentos de Lenna foram abruptamente interrompidos quando uma visão tomou forma diante dela. Uma figura feminina, de longos cabelos azuis, se debruçava sobre Cázhor. Embora estivessem juntos momentos antes, agora ele parecia distante, como se tivessem sido separados por um abismo invisível. Ele estava imóvel, exausto, o olhar opaco e pesado.

A mulher sorria maliciosa, deslizando unhas pontiagudas pelo corpo dele, deixando rastros negros que se espalhavam como ervas daninhas, infectando cada traço de sua presença.

Lenna sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Era uma mistura de repulsa e desespero; a aura da mulher era irresistível, quase manipuladora. Precisou se concentrar com todas as forças para não perder o sentido daquilo que estava fazendo.

Com um impulso quase instintivo, Lenna avançou, puxando o ar, ou algo que lembrava o ato de respirar. Seus pulmões se inflaram, mas o gesto parecia apenas um reflexo do corpo; ali, o ar simplesmente não existia. Era estranho, mas, mesmo assim, não cedeu. O que quer que fosse aquele lugar, não precisava dele para continuar.

Um passo. Depois, outro. O som de seus movimentos se perdia no silêncio, cada metro percorrido parecia uma eternidade.

Uma sombra colossal envolvia Cázhor, contorcendo-se ao redor dele, como se quisesse engoli-lo. Ele não reagia, imóvel, o olhar vazio. Um prisioneiro na própria mente.

A mulher sorria, satisfeita, enquanto a distância entre elas parecia se multiplicar a cada avanço. Por mais que Lenna corresse, o cenário se distorcia, e ela se via presa em um espaço que se curvava e se expandia conforme a vontade da demônia.

Os cabelos de Hannya ondulavam em azul profundo, como se flutuassem em um lago invisível. Entre os fios, começaram a despontar dois chifres longos e negros, reluzentes sob uma luz púrpura. Ela deslizava as mãos pelo corpo de Cázhor, pressionando os seios nus contra as costas do mago. Sua língua percorria o pescoço dele, num gesto lento e provocante, subindo até os lábios entreabertos.

Lenna sentiu o coração arder. A cada toque, uma veia escura se ramificava no rosto do mago, espalhando-se sob a pele como veneno líquido. O ar ao redor vibrava, quente, sufocante, opressor.

— Não encoste nele! — Lenna gritou com toda a força que podia.

Seus olhos se acenderam com um brilho esbranquiçado, quase cristalino, faiscando como duas fendas de pura energia. A luz emanava do corpo da maga, expandindo-se em ondas que rachavam o vazio ao redor. O chão desaparecia sob seus pés e, por um instante, a sombra que envolvia Cázhor recuou, uivando.

— Tsc! — Hannya estalou a língua, virando-se devagar. O sorriso ainda curvado nos lábios. — Não pense que apenas isso vai me deter.

Apesar das palavras afiadas, a onda de luz foi suficiente para afastá-la do mago. A pressão ao redor de Lenna aumentou; uma força invisível tentava empurrá-la para trás, comprimir seu corpo contra o vazio gelado. Mas o brilho nos olhos da maga não se apagou. Ela avançava novamente. Sua marca pulsava, como um tambor rítmico. E, pela primeira vez, o sorriso foi arrancado dos lábios de Hannya.

— Não pense que pode manipulá‑lo! — Lenna cuspia as palavras, a voz rasgada pelo ódio contido — Pare de tratá-lo como se fosse seu brinquedo. Ele não é sua posse!

— Acha que tem forças para competir comigo, garotinha? — disse Hannya, esbravejando e arregalando os olhos. A expressão oscilava entre desprezo e fúria.

Num lampejo de ódio, a demônia se fundiu às sombras, movendo-se com uma velocidade inacreditável, como se corpo e sombra fossem um só. Antes que Lenna pudesse reagir, ela a agarrou pelo pescoço. O toque era ácido; as sombras devoravam sua pele, queimando-a como metal em chamas, quase corrosivo. Lenna sentiu a carne arder e o ar fugir dos pulmões em meio à pressão e à dor agonizante.

— Ele é meu. Não há nada que você possa fazer... — Hannya sussurrou, com um ar triunfante.

— Isso... é o que você... pensa! — Lenna respondeu, engasgada, as palavras saíram em estocadas enquanto lutava por espaço entre a dor e a sanidade.

Hannya inclinou o rosto e deu um riso baixo; seus olhos, agora negros, estavam famintos. Lenna não respondeu com palavras, apenas sorriu, algo que Hannya não esperava. O sorriso de Lenna era duro, perigoso, e não combinava com a situação em que se encontrava. A expressão da demônia se contorceu em algo quase inumano, cheia de ódio.

— Já chega, sua vadia! — Hannya estava prestes a finalizar a maga.

“Dessa vez... você não vai ter o que quer...” Lenna mantinha o foco.

Na palma da mão da maga, uma foice de luz se materializou. Longa, quase maleável, como se a própria claridade tivesse sido forjada por seus pensamentos e transformada em lâmina. A luz roçava a imensidão de sombras com um som sutil, metálico.

— Mas, o quê?! — Os olhos de Hannya se arregalaram.

— Enquanto eu viver... você não encosta mais nele! — disse Lenna com voz firme, cada sílaba martelada pela convicção.

Antes que Hannya pudesse reagir, Lenna impulsionou o braço para a frente, fazendo a estranha foice girar entre seus dedos, dançando como o revoar desengonçado de um pássaro que acabara de aprender a voar.

Então, um pequeno estalo. A lâmina da foice atingiu com sucesso a fina linha de mana flutuante que unia Hannya a Cázhor. Um som cristalino, como vidro se partindo, ecoou pelo abismo negro em que estavam. Num piscar de olhos, a linha se desmaterializou por completo. Em uma reação que nem mesmo Lenna esperava, Hannya a soltou repentinamente.

Lenna caiu de joelhos, revelando a marca no pescoço deixada pelos dedos da demônia, uma queimadura negra que pulsava como lembrança do contato. Ela gemeu de dor, sentindo a energia latejante ainda correndo sob a pele.

A demônia parecia em choque.

— Desgraçada! — Hannya rugiu, os dentes cerrados, o corpo tenso, a fúria quase consumindo cada centímetro de sua voz. — Vou te matar! Você vai pagar por isso!

Seus punhos se cerraram com força, as veias do pescoço saltando, enquanto cada respiração vinha como um rugido abafado. Os olhos negros faiscavam, refletindo o ódio que queimava por dentro.

— Você não vai escapar! — Sua mão tremia, o peito apertado pela perda do que demorara tanto a conquistar, como se algo dentro dela estivesse se despedaçando.

— E quem disse... que quero fugir? — Lenna rebateu, já se pondo de pé, a respiração entrecortada, a boca manchada de sangue, encarando a demônia sem medo.

Em fúria, Hannya partiu para cima. Seu movimento era tão rápido que parecia planar pelas sombras, um borrão impossível de acompanhar, deixando rastros que se desfaziam no ar. Seus cabelos azuis esvoaçavam como véus na tempestade, dançando aos jatos de vento do próprio ataque. Num soco seco, Hannya acertou a barriga de Lenna com tal violência que a maga foi arremessada metros adiante, cuspindo sangue e perdendo todo o ar que existia em seus pulmões.

Cázhor permanecia inerte, ainda preso entre cansaço e os resquícios do transe.

— Vadia! — Hannya murmurou, lamuriosa e possessiva, enquanto encarava a maga.

Ela fechou os olhos por um segundo, como se saboreasse a humilhação, e as unhas se cravaram na palma da mão até o cheiro de ferro subir.

— Como ousa quebrar a nossa ligação? — continuou Hannya, a voz cortando o ar. — Oh, meu querido... eu vou despedaçá‑la!

Rangendo os dentes, Hannya voltou a atacar. Os socos vinham secos, como martelos, e os chutes explodiam contra a película quase invisível que envolvia o corpo de Lenna. Na luta contra Galgard, ela aprendera a não depender apenas da barreira projetada à frente, moldando a defesa junto à própria pele quando a pressão exigia. Ainda assim, a violência dos golpes fazia a superfície translúcida ondular e rachar em pontos de luz que surgiam e se desfaziam exatamente onde era atingida, antes de se recomporem com um brilho instável. Cada impacto rasgava o ar ao redor e lançava Lenna contra o chão, arrancando-lhe o fôlego.

— Acha que esse truquezinho vai salvar você? — Hannya sorriu com crueldade, o riso curto e cortante. — Esse escudo só vai prolongar sua vida alguns segundos. Nada, além disso.

Então, ela a segurou pelo pescoço novamente e, com força descomunal, ergueu‑a como se expusesse uma caça abatida. Hannya pressionava o corpo da maga com a clara intenção de esmagar ossos; a barreira trincava, estalando a cada segundo. A visão de Lenna estreitou; a dor a atravessava como lâminas de ferro invisíveis, dobrando cada músculo de seu corpo.

— Eu... eu só precisava aguentar até... — Lenna murmurou, um sorriso estranho, quase triunfante.

— Até o quê? — Hannya franziu o cenho, soltando um ruído de impaciência, estranhando a reação da garota quase morta à sua frente.

Era sua última chance. Mesmo ferida, ela canalizou cada resquício de força em um movimento desesperado. Lenna agarrou com uma das mãos o braço que a apertava. Os dedos, ainda trêmulos, mantinham firme pressão; com a outra, concentrava toda a energia acumulada pelos golpes sofridos em uma esfera condensada de luz. O novo poder, recém-dominado, vibrava na palma da maga como se a qualquer instante fosse explodir.

Num impulso final, Lenna pressionou a energia contra o rosto de Hannya, sem soltar o aperto. A marca de Fazhar brilhou intensamente, amplificando o poder do ataque.

A luz entrou como ferro quente. Os olhos, nariz e boca de Hannya foram submersos em uma inundação de claridade pura; a demônia se contorcia como se estivesse sendo afogada pela própria essência. A dor deformava suas feições. Um líquido negro escorria dos orifícios e a pele de sua face parecia derreter enquanto a demônio caía de joelhos.

Lenna se arqueou, rangendo os dentes, cada músculo queimando sob o esforço extremo. Ela pressionava ainda mais, mantendo a energia concentrada, até que a intensidade do clarão explodiu, inundando tudo ao redor. Ela sentiu, por um segundo interminável, o vórtice da visão desmoronar. Um clarão, tão intenso que os olhos arderam, e depois silêncio.

Aos poucos, a realidade se recompôs. Uma sala branca, depois a cama, a janela entreaberta. O cheiro úmido da chuva passada entrou como um lembrete frio de normalidade.

Ela caiu de joelhos ao lado da cama, puxando um ar que teimava em não encher os pulmões. Tossia sangue. Apoiada nas mãos para não desmaiar, tentou controlar a respiração enquanto a consciência oscilava.

— Onde... onde estou... Cázhor? — Sua voz era um fio.

— Lenna! — Ele correu até ela, agora lúcido, o rosto marcado pela preocupação e pelo alívio. — Me desculpe, Lenna. Eu não consegui fazer nada... só conseguia assistir àquela cena...

— Que bom... que o senhor está... bem — ela dizia baixinho, quase num sussurro.

Estavam de volta ao quarto, como se nunca tivessem saído. Cázhor a abraçou com força, como se precisasse ter certeza de que ela estava ali, viva.

— Beba, por favor — disse, entregando uma das poções de cura que havia solicitado como reposição aos curandeiros do castelo.

Ela não recusou. Enquanto bebia, Cázhor apenas a observava. Então, finalmente, percebeu que o peso que o perseguia já não existia mais. A linha de mana que o ligava à demônia havia desaparecido. Isso lhe trouxe uma sensação de extremo alívio. O novo braço, embora ainda presente, não ecoava mais a mesma energia sombria. Ele tocou a cabeça de Lenna com firmeza, numa tentativa de demonstrar carinho, do seu jeito. Um gesto curto e seco, mas carregado de um cuidado que não passou despercebido por Lenna.

— Nunca mais faça mais isso... — murmurou Cázhor, a voz embargada e um olhar terno. — Eu não suportaria te perder. Você é muito importante para mim.

— Estou aqui por você. Sempre. — Debilitada, mas viva, Lenna correspondeu, chorando nos ombros do mago.

O toque de Lenna agiu como um vento suave, carregando consigo o peso que Cázhor vinha carregando há tanto tempo. Era como se um imenso fardo desaparecesse de repente, liberando cada músculo tenso, cada pensamento preso na culpa e na preocupação. Ele deixou escapar um suspiro longo, quase imperceptível, e encostou levemente a cabeça contra o ombro dela, permitindo-se confiar naquele cuidado silencioso.

A respiração, antes presa e irregular, tornou‑se lenta e tranquila, e um raro traço de serenidade desenhou‑se em seu rosto severo. Por alguns instantes, Cázhor parecia apenas um pai cansado, vulnerável, acolhido pelo gesto carinhoso e constante de uma filha aflita. Finalmente o corpo relaxou por completo, e ele adormeceu. Lenna sorriu.

Longe dali, em um espaço que brotava das sombras do próprio pesadelo, algo se agitava.

Hannya abriu os olhos ainda com resquícios de pequenos fragmentos de luz flutuantes e as órbitas inundadas por um líquido negro e viscoso. Ela havia sobrevivido. Agora, deitada na enorme cama, coberta por lençóis de seda cor de vinho com detalhes negros, ela sorriu, um sorriso que não era de dor, mas de vingança.

— Se ela acha que acabou... — sussurrou, a voz lenta e afiada. — Está profundamente enganada. Vou arrancar cada vestígio da existência daquela garota miserável.

O sussurro perdeu‑se entre os cortinados do quarto. Hannya ergueu uma das mãos e as sombras alinharam‑se obedientes à sua volta, como quem reúne soldados. A ambição em seus olhos era voraz; no ar ficou a sensação de que algo maior e mais cruel começava a se mover.

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