Magic Genesis Brasileira

Autor(a): Rafaela R. Silva


Volume 2

Capítulo 49: O Peso do Sangue Real

O silêncio tomou conta do salão quando Idril apareceu. Cada passo seu parecia pesar no ar, tornando o espaço ao redor mais denso, como se a própria presença dele reverberasse pelo ambiente. Seus cabelos, brancos como a neve, caíam disciplinados pelos ombros, enquanto a barba cerrada, traço que entre os elfos só surge após longos séculos, denunciava a maturidade e a experiência acumuladas por mais de meio milênio. Seu rosto, marcado por linhas finas de expressão, irradiava serenidade e firmeza, e os olhos profundos, tão verdes quanto os de Eduardh, pareciam não somente conhecer tudo ao redor, mas avaliar silenciosamente cada detalhe.

O Rei trajava algo que lembrava uma armadura cerimonial, feita com placas metálicas polidas e ricamente decoradas, que refletiam a luz dos cristais de mana do salão, além de manoplas e grevas que combinavam metal e couro com a sofisticação própria da realeza. Uma espada longa pendia de sua cintura, completando a imponência do conjunto. Por baixo da armadura, vestia um tecido leve em tons azulados e verde-água, delicadamente ornamentado com detalhes dourados e joias sutis.

Diferente do governo de Gregory, que circulava entre conselheiros e, às vezes, participava de reuniões abertas aos cidadãos, ouvindo e intervindo pessoalmente, os Fanöir sempre se afastaram até mesmo de seus semelhantes, designando suas ordens e intenções aos conselheiros e comandantes para serem transmitidas ao povo. Por isso, ver o rei surgir pessoalmente para tratar de algo era um evento raro, quase único, capaz de prender olhares, silenciar vozes e marcar cada presença no salão com um respeito quase instintivo.

Idril mantinha-se impassível diante da cena à sua frente. Seu olhar cansado carregava um peso que dispensava palavras; era a autoridade silenciosa de quem comandara por eras. Ele não precisava levantar a voz nem gesticular; a própria atmosfera parecia curvar-se à sua presença. Lenna, observando-o, sentiu uma mistura de fascínio e apreensão. Apesar de ainda não estar habituada a perceber o fluxo de mana, era difícil ignorar algo tão imenso e opressor. Mesmo os demais do grupo conseguiam, de alguma forma, senti-lo. A mera presença de Idril falava mais alto do que qualquer palavra; era impossível não reconhecer seu domínio sobre o momento.

— Acompanhe a rainha até seus aposentos, Cecil. Ela precisa descansar — ordenou Idril com firmeza, a voz grave que ecoou pelo salão.

A dama inclinou-se discretamente em reverência e, sem hesitar, aproximou-se de Irmiriam. A rainha, pálida e visivelmente exausta, não recusou o auxílio. Permitiu-se ser amparada, apoiando-se nos braços da criada que a guiou em direção à escadaria. Seus passos foram silenciosos, quase solenes, até desaparecerem entre as sombras do corredor superior.

Nifhéas girava em torno de um regime patriarcal. Ainda que a rainha desempenhasse um papel vital na sustentação da corte e no equilíbrio das relações políticas, era sempre a voz do Rei que encerrava a questão. Sua palavra era lei, e raramente se permitia contestação.

O salão mergulhou em um silêncio pesado quando Idril voltou seu olhar para o grupo diante dele. Os aventureiros estavam em frangalhos, feridos, exaustos, marcados pelo que haviam enfrentado. Em circunstâncias comuns, ninguém nessas condições teria ultrapassado sequer os portões principais de Nifhéas. Mas essa não era uma circunstância comum. Idril, por quem jamais era visto em audiências rotineiras, havia aberto uma exceção pessoalmente.

A ausência da rainha trouxe um peso ainda maior ao ambiente. Eduardh permanecia imóvel, como se a força o tivesse abandonado. O sangue manchava-lhe o rosto num tom bordô, destacando-se contra os traços claros levemente encobertos de poeira, endurecendo ainda mais sua expressão.

Idril manteve os olhos fixos em Eduardh por longos segundos. Havia julgamento naquele silêncio, mas também algo mais profundo.

— Que bom que retornou, meu filho.

Eduardh piscou algumas vezes, como se tentasse entender que realmente ouvira aquelas palavras. O tom do pai não foi caloroso, mas sim direto, seco, carregado de um julgamento que somente Eduardh conhecia, e conhecia muito bem.

Seu peito se apertou. Era como se vivesse o passado novamente, parado à sombra das portas de ferro que raramente se abriam, sentindo o eco metálico ser o limite de seu mundo. Ali estava ele, o filho que fugira, de volta ao cárcere de onde tanto desejara escapar.

— Pai… — sua voz saiu trêmula, quase um sussurro, perdendo-se no vasto salão. Já não parecia o mesmo elfo confiante e atrevido que o grupo conhecera.

Idril não respondeu. Num movimento brusco e inesperado, sua mão se fechou em torno do pescoço de Eduardh, puxando-o para si com brutalidade. O estalo seco dos dedos do rei apertando a traqueia ecoou pelo salão, e o ar escapou dos pulmões do jovem num gemido sufocado.

Pego de surpresa, Eduardh levou ambas as mãos à garganta, tentando arrancar aquela prisão de ferro que lhe roubava o ar. Mas a força do pai era esmagadora; os dedos se cravavam em sua pele com tal intensidade que parecia que, a qualquer instante, sua traqueia iria ceder sob a pressão.

— Por que está fazendo isso?! — gritou Lenna, a voz escapando antes mesmo que pudesse pensar.

O olhar de Idril se virou para ela, duro e cortante.

— Cale-se! Você não tem voz aqui! — rugiu o rei, o timbre grave ecoando pelas colunas de pedra.

O grupo reagiu de imediato. Ector arfava como uma fera contida, as narinas infladas, o punho crispado no cabo de sua arma. Cázhor estreitou os olhos numa mistura de desaprovação e alerta, enquanto Vladmyr levou a mão à espada, tensionando os músculos até fazer ranger as tiras de couro da empunhadura.

Os guardas não tardaram a reagir, erguendo escudos e lanças, posicionando-se entre o Rei e o grupo, formando um semicírculo fechado que transformava o salão em um campo de pólvora prestes a explodir. As sombras projetadas pelos cristais de mana agora dançavam de maneira irregular, ondulando com o excesso de mana que parecia transbordar do corpo de Idril.

— Ninguém ouse interferir! — a voz de Idril reverberou com autoridade. — Jamais permitimos que forasteiros se intrometessem em nossos assuntos, em nossa família. Não creiam que será agora que irei tolerar isso!

Seus olhos faiscavam como brasas vivas, consumindo qualquer dúvida sobre sua fúria.

— P… pai… por… favor… — Eduardh arfava, tentando arrancar uma nesga de ar entre uma palavra e outra, mas a mão que o sufocava não cedia.

— Garoto tolo! — vociferou Idril, cuspindo as palavras como veneno. — Abandona o próprio povo e ainda ousa voltar aqui, como se nada tivesse acontecido? Mais de três anos escondido como um covarde, e retorna trazendo contigo o maldito conselho de Ancor… e uma transmorfo?! Você me enoja! Envergonha o sangue que carrega!

Num golpe brutal, Idril o lançou contra a poltrona onde o filho estivera sentado momentos antes. O impacto foi tão violento que o móvel se arrastou pelo chão e tombou, espalhando estilhaços de madeira pelo salão.

Eduardh caiu junto ao pequeno dragão, que fora arremessado com ele, ainda preso aos restos de seu manto rasgado. A criatura rosnava, a garganta vibrando com um som agudo de ameaça, mas hesitava em avançar. Seus olhos brilhavam com coragem juvenil, mas as chamas da presença de Idril o mantinham imóvel, dividido entre o instinto de proteger e o medo de ser esmagado.

Idril ergueu o queixo, os olhos queimando de fúria contida.

— Você pode ter mudado… — disse num tom que soava quase pensativo — Tem algo em você que me intriga. Mas, no fim, continua sendo o mesmo menino fraco e medroso. Alguém de quem me arrependo de chamar de filho.

Eduardh ergueu-se com dificuldade, arfando. O ar agora entrava aos poucos em seus pulmões, mas vinha acompanhado de acessos de tosse tão fortes que o obrigaram a apoiar as mãos nos joelhos para não desabar.

Idril avançou em passos firmes. Cada batida de sua bota no mármore ecoava no salão, e a cada aproximação, Lenna mordia os lábios até quase arrancar sangue, travando-os com força. Seu corpo inteiro tremia. Estava no limite.

— Fascinante… — murmurou o Rei, detendo-se por um instante diante do dragãozinho que rosnava baixo, com as ventas arreganhadas e os dentes finos à mostra. — Um dragão?

Havia surpresa genuína em seus olhos, um lampejo de admiração, mas que logo se apagou, substituído pelo mesmo desprezo gélido.

— E, ainda assim, continua a ser apenas um fardo. O que você se tornou, Eduardh? — O rei mantinha um olhar de desgosto.

O filhote trepidava, dividido entre a coragem e o medo. Foi então que, ao tombar a gola da camisa rasgada de Eduardh, o selo de Thorm se revelou, pulsando como uma cicatriz viva.

Idril empalideceu por um instante, antes de explodir:

— Mas… o que é isso?! — sua voz ecoou como trovão. — Isso exala magia negra! Como ousa trazer isso para dentro de minha casa, para as minhas terras?! Você arrisca a segurança do meu povo, seu tolo insolente!

Num movimento rápido, Idril desembainhou a espada. O aço reluziu sob a luz dos cristais, e a lâmina apontou diretamente para o peito do filho, que arregalou os olhos, incrédulo diante da violência do gesto.

— Pai… eu posso explicar… — a voz de Eduardh quebrou-se, implorando. — Apenas me dê a chance de falar…

Mas Idril já não o ouvia. Para ele, nada justificava a presença de algo tão profano ali. O semblante endureceu e ele ergueu a espada acima da cabeça, deixando claro que não hesitava em arrancar o selo e a carne junto, se necessário.

A lâmina começou a descer.

Foi então que uma barreira luminosa surgiu entre ambos, o impacto do aço ricocheteando num estalo metálico que vibrou por todo o salão.

— Você não vai encostar mais nenhum dedo nele! — a voz de Lenna cortou o ar, carregada de fúria. Seus olhos ardiam, e a magia pulsava em ondas visíveis ao redor do escudo que ela havia conjurado.

— Lenna… o que você fez… — Eduardh arfava, um misto de alívio por estar vivo e desespero pelo gesto da maga.

A ação de Lenna acendeu a fúria de Idril. O peito do Rei inflava a cada respiração, como se o ódio pudesse romper sua armadura a qualquer momento.

— Em nome da Guarda Mundial, Majestade, peço que considere abrandar sua sentença — disse Ector, a voz firme, mas controlando a raiva que crescia por dentro diante da atitude impiedosa de Idril.

Cada gesto do Rei inflamava sua indignação, mas ele sabia que perder a compostura ali seria fatal. Pedir absolvição talvez fosse ingênuo, mas sua posição e influência poderiam, ao menos, servir de peso neste momento crítico.

— Se o maior problema é o selo, Majestade, posso garantir que consigo removê-lo — interveio Cázhor, numa tentativa de apaziguar a situação, quase como uma barganha. — Mas preciso de insumos e tempo. Tempo esse que precisamos que o senhor também nos conceda para explicarmos, adequadamente, por que estamos aqui.

Vladmyr observava a cena, dividido. Cada fibra de seu corpo implorava para intervir a favor de Eduardh, mas a consciência do risco que Lenna já assumira ao erguer o escudo mágico o mantinha preso, tenso e quase paralisado, a mão pairando sobre a empunhadura da espada. O ar parecia pesar a cada segundo que passava, e a pressão da situação o deixava com o coração acelerado.

— Vocês estão se achando importantes demais para exigir algo a essa altura, não? — O Rei não se intimidava. A voz cortante de Idril atravessava o salão.

— Majestade, não estamos exigindo — respondeu Cázhor, mantendo a calma que a diplomacia exigia. — Pedimos apenas compreensão, para desfazer este mal-entendido e expor a gravidade da situação em que todos nós, incluindo seu reino, estamos.

Ele conhecia bem as nuances da alta sociedade e sabia que Idril não ignoraria uma ameaça potencial ao seu povo, mesmo que sua raiva ameaçasse ofuscar a razão.

Lenna permaneceu imóvel, o corpo tenso, sentindo cada centímetro da presença esmagadora de Idril. Sua respiração era contida, mas firme, o escudo mágico ainda pulsava entre Eduardh e o Rei.

Eduardh, por sua vez, engolia em seco, cada vez mais consciente da fragilidade da situação de seu grupo. A mão trêmula segurava o pequeno dragão, que se encolhia contra ele, ainda hesitante diante da presença dominante do Rei.

Idril observava tudo com evidente desgosto e, após um breve suspiro, deixou os ombros se desfazerem da rigidez. Num gesto lento e preciso, colocou a espada de volta à bainha. O som metálico ecoou pelo salão, encerrando o clima de ameaça que pairava no ar.

— Senhorita Weins, desfaça o escudo — sussurrou Cázhor à sua pupila, em um tom baixo, mas firme.

Lenna obedeceu a contragosto. A magia se desfez como vidro quebrando no ar, cintilando antes de desaparecer por completo. Ela sabia que sua atitude fora imprudente, mas ainda assim carregava no peito a convicção da promessa feita, que seria o escudo do grupo. Nenhuma posição social a impediria de honrá-la agora.

O salão mergulhou em um silêncio quase palpável, cada um aguardando, contido, que alguém ousasse ser o primeiro a falar.

— Bom... não creio que arriscariam a reputação de dois reinos importantes para o conselho sem um motivo sério — disse Idril, sua voz baixa, mas penetrante, cada palavra carregada de julgamento — Devido a isso, irei ouvi-los, mas não agora.

Os soldados permaneciam rígidos, cada músculo tenso, como se a própria ordem de Idril não tivesse sido capaz de dissipar o peso que pairava sobre eles. A exaustão era visível, mas a disciplina os mantinha em posição.

Lenna sentiu um impulso irrefreável de se aproximar de Eduardh, de verificar se ele estava bem, mas foi contida pelos guardas, ainda em alerta, cada gesto carregado de uma tensão silenciosa. Ela voltou os olhos para Idril, como se exigisse, em silêncio, que ele desse a ordem para que a liberassem. O ar entre ambos era cortante, quase palpável. Ela não disse nada, mas o peso de seu olhar carregava desafio e urgência.

Idril percebeu a afronta silenciosa. Por um instante, nada aconteceu, apenas uma troca de olhares carregados de desafio e tensão. O mundo pareceu conter a respiração. Então, com a calma gélida de quem sabe que detém o poder da escolha, Idril relaxou a guarda, dispensando os soldados que impediam Lenna de prosseguir. Um aceno rápido de Cázhor, quase imperceptível, confirmou ser seguro avançar.

Sem hesitar, Lenna correu até Eduardh, o coração acelerado, cada passo carregado de tensão e incerteza. O filhote de dragão, ainda tremendo de medo, aproveitou a deixa para se enroscar aos pés de Eduardh, buscando proteção junto ao seu dono.

Quando chegou ao seu lado, a visão a deixou boquiaberta. O corte em sua bochecha havia desaparecido, e a vermelhidão no pescoço sumira como se nunca tivesse existido.

— Mas o quê…? — murmurou ela, a voz trêmula, incapaz de esconder o assombro.

Eduardh passou a mão pelo próprio rosto, incrédulo ao perceber que os ferimentos haviam desaparecido por completo, sem nem mesmo sinal de cicatriz, deixando-o tão surpreso quanto Lenna.

Enquanto se aproximava, toda a situação fez Lenna notar algo que antes não conseguia perceber. A mana de Eduardh havia mudado e agora jorrava de seu corpo como um gêiser quase palpável, intensa, mas grande parte dela era drenada pelo selo que pulsava em seu ombro.

— Eu… não havia reparado antes, Ed… Isso está sugando toda a sua energia… — Lenna tocava delicadamente com as pontas dos dedos no selo — e nessa velocidade, não teria como você ainda estar…

— Vivo? — completou ele, a pergunta saindo em um fio de incredulidade, refletindo o mesmo espanto que consumia Lenna.

No mesmo instante, Eduardh finalmente notou algo que antes lhe havia escapado na sua marca de Fazhar, um leve brilho quase imperceptível, pulsando de forma contínua e reagindo à energia que ainda fluía de seu corpo.

“Como eu nunca havia percebido isso antes...?” Ele encarava singela luminescência.

O choque o deixou sem palavras, e por um instante ele só conseguiu encarar Lenna. Um brilho prateado cintilava nos olhos de Eduardh, lembrando o ressoar de uma ativação recém-desencadeada. Pela primeira vez, Eduardh se deu conta da profundidade do poder da marca e de sua ligação com tudo o que acontecia com ele, deixando-o completamente sem respostas.

Idril apenas os observava em silêncio. Um breve arqueamento de sobrancelhas denunciou sua atenção, mas não havia preocupação paterna ali. Era curiosidade, interesse afiado, focado nas habilidades da maga, na energia do filho e nas pessoas que os acompanhavam. A cada nova observação, seu interesse aumentava, enquanto sua mente avaliava todas as possibilidades e limites.

— Você encontrou pessoas interessantes, filho — disse Idril finalmente, com a voz baixa e calculada — Creio que realmente precisemos conversar.

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