Magia Gênesis Brasileira

Autor(a): Rafaela R. Silva


Volume 2

Capítulo 28: Treinamento Parte 1

Lenna se acomodava próximo a um rústico banco feito de madeira robusta e extremamente pesada. Ao seu lado, Ector se escorava, colocando as muletas de lado e sentando-se para aliviar um pouco o peso da perna ferida, enquanto Eduardh e Vladmyr aguardavam ansiosos suas orientações.

— O que pensa que está fazendo garota? — questionou Ector, enquanto a olhava com a sobrancelha arqueada.

— Como assim, senhor? — Lenna retrucou confusa.

— Quem você acha que vai impedir esses dois de se matarem durante esse treinamento?

— Mas, como... como assim? O que você quer... — Lenna foi interrompida quando uma grande mão áspera e cheia de calos a impulsionou em direção aos dois jovens.

Por pouco a maga não caiu, a garota saiu tropicando por metros até chegar nos rapazes. Tamanha era a força do velho comandante que, o pouco esforço foi o suficiente para lançar a garota longe. O grandalhão ainda não estava muito acostumado a lidar com qualquer coisa mais delicada do que enormes cepas ou truculentos subordinados.

— Vamos ver como se saem em um combate amistoso. Para conhecer melhor seus aliados, nada melhor do que aprender seus ataques. O que ficar de pé por último, estará livre do treino extra comigo amanhã — disse Ector, empolgado para ver o que iria acontecer.

— Mas senhor... eu quase não tenho magia de ataques e os poucos que sei usar não são lá muito efetivos — refutou Lenna.

— Deixe de bobagem, garota. Nesse momento, sua defesa é seu melhor ataque. Use o que tem no momento ao seu favor, depois nos preocupamos com o resto. Agora, comecem!

Sem muito tempo para pensar, Lenna se viu em meio a um combate que a ignorava. Os garotos focaram um no outro, uma velha rixa entre eles imperava a arena. Vladmyr foi o primeiro a avançar, especialista em combate corpo a corpo, era óbvio que queria encurtar a distância entre ele e seu oponente. Já Eduardh, ciente da força e destreza do guerreiro, usava sua agilidade para ganhar vantagem na distância e se posicionar de forma mais favorável ao seu tipo de ataque.

A arena era um enorme espaço oval com chão de terra batida, dispunha de uma arquibancada que ia de fora afora composta por cinco enormes degraus, provavelmente para aqueles que queriam assistir o combate alheio. Por toda a borda podia-se ver equipamentos de batalha e vestes de treinamento, acolchoadas para amortecer os danos.

Mais ao fundo, do lado oposto ao grande portão onde o mago entrara mais cedo com o druida, havia vários bonecos similares a um corpo humano, um fantoche. Eram feitos com palha seca e envoltos em tiras grossas de couro e cordas reforçadas, além de placas de madeira que foram colocadas de forma a imitar algo similar a uma armadura. Provavelmente são sacos de pancadas para treinar sem maiores riscos.

— Vai correr é? Bem seu estilo fugir da luta — disse Vladmyr de forma debochada.

Eduardh claramente sabia que, em uma batalha, o melhor posicionamento para especialistas em arco como ele era bem longe de seu alvo e de preferência vendo-os de cima. Porém, a provocação surtiu o efeito esperado pelo guerreiro, fazendo o elfo finalmente cessar sua ágil movimentação para atacá-lo antes de chegar ao melhor posicionamento.

Com a espada em mãos, Vladmyr se aproximou rapidamente de seu adversário. A investida desarmou o elfo, que precisou cancelar a magia para se esquivar. A lâmina reluzente resvalou o peito do arqueiro, provocando um fino, mas longo corte perto da clavícula.

— Acha que pode se esquivar para sempre? — gabou-se o guerreiro enquanto pressionava mais e mais o elfo.

Mesmo que presunçoso, Vladmyr tinha razão, uma hora ou outra, seu oponente ficaria encurralado. Em clara desvantagem, Eduardh não parecia estar muito preocupado com a lâmina que a cada instante cintilava mais perto. Seus olhos seguiam atentamente cada movimento de seu adversário, avaliando e calculando o momento certo de agir. Por sua vez, o jovem guerreiro avançava firmemente, sem hesitar. Cada golpe, agora, talhava vigorosamente e a lâmina ia mais e mais fundo na carne.

— Você não vai fazer nada? — questionou incrédula, a maga — Ele vai acabar o ferindo gravemente ou até pior...

— Achei que tivesse sido claro da primeira vez — disse Ector, firme e rispidamente — Dê seu jeito de impedir que esses dois se matem.

Em uma fração de segundos, enquanto Vladmyr impelia um novo ataque de sua espada, lançando seus pés para o alto, o elfo deu um mortal de costas e agilmente puxou seu arco. Citando poucas palavras no dialeto élfico, conjurou-se algo um pouco disforme e emanando uma coisa que lembrava vapor de água. Uma flecha mágica.

Vladmyr sabia que uma flecha comum, a curto alcance não era efetiva, porém o elfo usava de magia para seus ataques e sua expressão indicava que pretendia causar um estrago grande. Eduardh parecia satisfeito com a oportunidade que criou e logo, soltou a flecha praticamente a queima-roupa. O símbolo em sua mão novamente brilhava e uma enorme pressão se uniu ao projétil mágico. Um turbilhão zuniu em direção ao guerreiro que com os olhos arregalados, teve tempo apenas de fechá-los e colocar seus braços a frente, formando um xis, para se proteger.

O som do estalar do fantoche quebrando se misturava com o gemido de dor do guerreiro. Vladmyr voara metros devido ao impacto da magia do elfo. Como resultado, um rastro se formou no chão terroso, garantindo um assobio espantado de Ector, surpreso com o contragolpe. O garoto saia furioso debaixo do que sobrou do pobre fantoche, com várias lesões e roxos pelo corpo. Enquanto o elfo se preparava firmemente para um novo ataque.

Dessa vez, o elfo estava na vantagem e, graças a isso, pode se concentrar e acumular muito mais magia do que no último golpe. Até mesmo Ector, que não entendia bulhufas de magia, sabia que esse ataque era demasiadamente perigoso para se usar contra alguém que não fosse seu inimigo.

— Mas esses paspalhos... Eu disse que é só um treino e eles tentam se matar — disse Ector, irritado.

A maga também percebeu o tamanho do dano que esse golpe causaria se acertasse e que o elfo não estava lá muito preocupado com isso, da mesma forma que Vladmyr também não estava quando o atacou. Ector permanecia sentado, afinal as muletas limitavam um bocado sua movimentação, mas observava atentamente cada passo dos dois, calculando assim, uma possível intervenção.

— Vamos, garota. Você não tem muito tempo para decidir o que fazer. Vai ficar sentada esperando lutarem no seu lugar? Acha que seus inimigos não vão partir para cima de você? Mova-se! — Bradou o comandante.

O tempo acabou. O zunido da flecha passava rasgando o vento, fazendo um novo e maior rastro no chão. A poeira subia e era empurrada para os lados devido à pressão do ataque. Rápido demais para uma esquiva. Uma explosão se fez logo em seguida, como se o elfo houvesse lançado uma bomba em direção ao guerreiro.

O vento chacoalhava as longas mechas ruivas da pequena maga, que quase não se aguentava de pé de tanto correr para chegar a tempo. Com a boca seca e ofegante, ela olhava para trás para conferir se havia interceptado com sucesso o ataque.

— Meus parabéns, senhorita. Mas até quando vai conseguir protegê-lo? — disse o elfo, ironicamente.

Eduardh entoava novamente algumas palavras, e dessa vez, ao invés de uma, três flechas apareceram. Não tão perigosas como a última, mas claramente o dano seria consideravelmente preocupante. Puxando firmemente o fio de seu arco, o elfo se preparava para atacar. Lenna ainda permanecia entre os dois. A poeira mal havia baixado quando a maga percebeu um vulto passando ligeiramente por ela, fazendo seu cabelo se desgrenhar novamente com a rajada de vento. O guerreiro passou a uma velocidade impressionante pela garota, ignorando totalmente sua presença.

— Desgraçado! Queria me matar, é? — o guerreiro gritou enraivecido enquanto avançava novamente para cima do elfo.

Vladmyr esquivava com maestria do novo ataque, seguindo para uma nova investida.

— Eu? Foi você que começou, babaca.

Eduardh não teve muito tempo para um bate-boca, já que estava sob ataque a queima-roupa. A lâmina do guerreiro cortava o ar e as ondas do vento eram quase visíveis. Um estalo de aço gelado ecoou na arena, causando um agudo e prolongado tinido. A espada de Vladmyr chocava com um punhal tirado às pressas pelo elfo. O deslisar das lâminas soltava faíscas. Era clara a diferença entre os dois quando o quesito era força física. O guerreiro, se aproveitando disso, pressionou o elfo contra a parede, forçando a espada contra o pescoço de Eduardh, que tentava angustiadamente repeli-la com o punhal.

— Tudo bem, já che... — Ector se interrompeu quando viu os dois garotos voando as cambalhotas para cima de uma pilha de pedaços de armaduras.

Surpreso, o comandante, que olhava a cena, logo caiu na gargalhada.

— Boa garota! Mostra para eles como é que se faz. Mas não esqueça de não exagerar também, hein?

A pequena maga havia lançado uma forte rajada de vento. Considerando que magias de elementos não são sua especialidade, a garota ficou surpresa ao ver que seu ataque foi efetivo. Ambos olharam para Lenna e lembraram que haviam a ignorado completamente. A disputa sem sentido entre eles acabou os cegando e tirando o foco do intuito do treinamento.

— Bom... chega de brincadeiras. Estou desapontado. Como podem ignorar um adversário por conta dessa rivalidade idiota? E você, garota, se deixar para agir somente quando alguém estiver para morrer, vai acabar matando todos nós — disse Ector, que dessa vez parecia zangado.

No final, todos teriam de participar do tal treinamento extra com o comandante. Já haviam feito muito estrago apenas por uma noite. Ector ficou pensativo quanto ao que iriam causar de avarias com mais tempo, ao menos os uniformes se mostravam bem resistentes.

— Me pergunto como eles sabiam nossas medidas? — Questionava Lenna, enquanto avaliava as vestimentas.

— A senhorita Truman tinha todos os nossos dados. Nada muito surpreendente, visto que é a função dela saber das coisas relacionadas à sede — disse Cázhor, com a face emburrada, como sempre.

Para a surpresa de todos, o mago havia voltado e aguardava no portão que entrara mais cedo. Parecia estar há um tempo observando os garotos lutarem ou, talvez, só preocupado com Lenna após ver toda a destruição que causaram.

— Achei que já tinha ido dormir — disse a maga, desconcertada ao perceber a feição de seu mestre.

— Dormir? Com toda essa bagunça, creio que ninguém conseguiu. Qual parte de não causar confusão vocês não entenderam?

— Relaxa, mago. Eu estava de olho neles — disse Ector, com um semblante orgulhoso.

“Por isso mesmo a minha preocupação” pensou o mago, franzindo o senho.

Enquanto isso, os garotos se aproximavam do restante do grupo. Lentamente, cheio de cortes e hematomas, eles tiravam a poeira, pequenos pedaços de madeira e feno que acumularam enquanto rolavam depois do golpe de Lenna.

— Mas o que aconteceu com vocês? — disse o mago, enquanto olhava constrangido o estado dos dois.

— Parece que sua aprendiz deu uma coça nesses palermas — respondeu Ector, enquanto parabenizava a maga dando leves tapinhas em suas costas.

Cázhor arqueou uma de suas sobrancelhas, fazendo uma expressão incrédula, mas preferiu não falar nada. Lenna esperava ansiosamente por algum comentário de seu mentor, mas esse sentimento logo se esvaiu quanto o silêncio predominou. Os garotos foram à frente, também em silêncio, enquanto os demais seguiam juntos, logo atrás, pelo longo e frio corredor.

— Tiveram algum avanço nas informações sobre a barreira? — perguntou Lenna, um pouco sem graça por quebrar o silêncio.

— Amanhã, o Sr. Beothoro e seus subordinados sairão para patrulhar a região próxima à barreira. Vou com eles para estudar melhor o caso e não, você não irá junto. “Não acredito que direi isso, mas...” Preciso que fique aqui e treine. Siga as instruções do comandante Brugnar e desenvolva melhor suas táticas de combate. Livros não ajudaram você agora. — respondeu Cázhor, finalizando com um longo suspiro.

Pela primeira vez, Cázhor confiava em alguém além dele para treiná-la. Ela não sabia dizer se era algo bom ou ruim. Já estava acostumada com o estilo do mago e, querendo ou não, Ector tinha um jeito bem truculento e descuidado de lidar com seus subordinados, totalmente o oposto do que já estava habituada.

Enquanto voltavam, passavam por olhares contorcidos e expressivos, em sua maioria, direcionados a transmorfo. Tal atitude ainda incomodava muito a pequena maga que, não diferente das outras vezes, andava cabisbaixa e desanimada.

— Garota! — disse Ector, baixinho, chamando Lenna com um movimento leve da mão — Amanhã faremos um treinamento especial. Acho melhor levantar essa cabeça e se focar no que é importante. Eles não pegarão leve com você.

Lenna assentiu. Sabia que coisas assim continuariam a acontecer. Mesmo com a ameaça de um inimigo tão perigoso, a guerra havia deixado marcas profundas nessa nação. Os transmorfos eram vistos como pragas a serem extintas, e quem andasse ao lado de um acabava se tornando, hora ou outra, também alvo dessa apatia.

Logo, a garota se viu sozinha, já que seu quarto era um dos últimos do corredor. Alguns druidas ainda circulavam na sede e passavam por Lenna como se ela não existisse. O ar, que já era frio a essas horas, se tornava sufocante ao ponto de fazer as orelhas e cauda felinas de Lenna se eriçarem. A sensação de solidão a consumia a cada passo, a cada desviada de olhar.

— Monstro! Suma daqui! — Sussurros surgiam como vento enquanto um grupo passava pela maga.

— Por que não morre logo? — resmungou baixinho, outro grupo que cruzou por ela logo em seguida.

Frases que Lenna ouvia o tempo todo e já deveria estar acostumada. Não entendia o motivo de se sentir tão afetada dessa vez. Finalmente se sentia parte de algo importante, sem contar serem pessoas que sabiam a verdade por trás de toda a farsa. Seus pensamentos inundavam sua mente na busca de um motivo, até que tudo se tornou silencioso com o estalar da fechadura oxidada da última porta sendo trancada.

— Ela ficará bem, mago — disse Ector, baixinho, enquanto observava Cázhor espiar, pela fresta, toda a cena.

— Pelos deuses, Sr. Brugnar! — engolindo seco, o mago chegou a ficar pálido com a aparição surpresa do comandante.

— Quem diria... raramente vejo você perder a compostura — disse Ector com um leve sorriso — você a ensinou bem, agora deixe comigo, caso contrário não conseguirá se concentrar na expedição amanhã.

— Não sei do que está falando. — Cázhor disfarçava enquanto pigarreava.

Um seco e áspero som se fez quando o mago fechou subitamente a porta, encerrando a cena.

“Ehr... melhor eu também descansar, amanhã será um longo dia...”

O corredor finalmente estava vazio. Agora, apenas o estalar das tubulações da caldeira se fazia presente. As cores das pedras acinzentadas e empoeiradas se mesclavam ao lampejo das iluminarias de cristais mágicos, fazendo sombras aleatórias no chão, já gasto pela passagem de pés carregados de armaduras. Enquanto isso, a nevasca parecia finalmente dar uma trégua, o frio ainda predominava, mas, por alguns instantes, podia-se ver perfeitamente a imagem da lua em seu ápice.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora