Magia Gênesis Brasileira

Autor(a): Rafaela R. Silva


Volume 2

Capítulo 29: Treinamento Parte 2

O dia, se é que podia se considerar assim já que devido ao clima não dava para se estabelecer essa divisão de tempo, havia começado. Mais movimentado do que o normal, aparentemente, os soldados que estavam em ronda haviam voltado para relatar suas descobertas. Porém, o que mais chamava a atenção era o incomum treinamento que estava para se iniciar. Ector era tido por muitos como uma lenda no campo de batalha e aprender com ele era uma honra.

Todos aguardavam ansiosos. Enfileirados e alinhados, permaneciam imóveis como estátuas. Druidas, militares do reino de Carmim e até mesmo alguns habilidosos soldados enviados pela sede geral pouco antes da barreira subir, todos a espera do famoso dono do título de comandante das forças armadas.

Ector em nada se impressionou ao ver a antes vazia e gélida arena, agora cheia homens e mulheres de olhares firmes, trajando armaduras pálidas enquanto batiam continência e aguardavam suas ordens. Há anos, o velho comandante lidera exércitos de dezenas e até centenas de vezes maior do que via, mais do que comum em seu dia-a-dia. Agora, contrariando a orientação de todos os curandeiros, ele se apoiava em algo que lembrava uma bengala, movendo-se com uma leve dificuldade. O homem era forte como um touro, muitos em seu lugar, mal estariam andando.

— Soldados! — exclamou o comandante.

— Sim, senhor! — Um coral se levantou. Vozes que demonstravam sua firmeza e respeito àquele diante deles.

— Preciso de cinco, homens ou mulheres, que tenham habilidade de combate corpo-a-corpo e não utilizem de magia.

Rapidamente, duas mulheres e três homens se apresentaram sem pestanejar. Orgulhosos de terem sido mais ágeis que seus companheiros, eram cercados por olhares invejosos e curiosos.

— Lenna?!

— Sim, senhor Brugnar.

— Você irá enfrentá-los.

— Mas, os cinco? De uma vez só?

— Sim! E quero que use somente sua magia de escudos, nada dessas ventanias, torres de fogo ou lâminas de luz — disse Ector, fazendo o sorriso malicioso dos soldados se transformarem em uma expressão de incógnita e descrença.

Eduardh e Vladmyr, fitavam o comandante sem entender o que ele pretendia expondo a maga dessa maneira, mas se mantinham firmes em sua posição, afinal não se tratava do que eles queriam e sim de um treinamento sério. Vidas e reinos estavam em jogo, não era o momento para contestar um superior.

— Você não queria ir para o campo de batalha e... como é que você disse mesmo? Ser mais útil? Hora de mostrar suas habilidades.

Enquanto isso, os candidatos se apressavam em pegar os materiais de treinamento. Espadas e escudos de madeira escurecida, tratada de forma que suas fibras se tornassem mais firmes e resistentes ao impacto. Coletes acolchoados, feitos com fibras entrelaçadas para garantir que a pancada não doesse muito e, apesar de claramente acharem desnecessário, capacetes que protegiam as partes mais sensíveis da cabeça.

— A missão de vocês é conseguir fazer ela atravessar essa linha, já você, garota, precisa se manter à frente dela por cinco minutos — disse Ector, após fazer um grande risco próximo à borda contraria da arena em que Lenna estava.

— Podemos machucá-la um pouco se formos os cinco de uma vez — ironizou um dos druidas.

— O combate acaba quando um dos lados desistir, ou se acabar o tempo, ou se ficarem inconscientes. Caso necessário, eu também posso interromper o combate. Nada de ataques fatais, isso é um treinamento e não um combate até a morte — disse Ector, ignorando as palavras ásperas do grupo.

Lenna parecia desesperada. Tentava entender como poderia ter alguma chance contra soldados treinados. Agora não teria as armas de seus companheiros para derrotar seus adversários, muito menos as magias avassaladoras de seu mestre. Tudo que lhe restava, era sua defesa.

— Comecem!

A ordem do comandante seguiu como uma lâmina afiada em sua mente, cortando qualquer linha de raciocínio que poderia ter. Os sons dos passos acelerados lembravam o trote de uma manada enfurecida em sua direção. E então, o primeiro golpe. A velocidade que a espada de treino alcançou era algo inacreditável, fazendo a madeira envergar devido ao atrito com o ar. Um estralo soou quando ela chocou contra a barreira de Lenna, levantada no último segundo. O choque fez o pequeno e frágil corpo da maga ser lançado para o lado com força.

— Fácil demais! — A druida, se gabava do ataque efetivo.

Lenna se levantou rapidamente, levando a mão ao braço dolorido, o qual recebeu a pancada. Mesmo com a barreira, ela recebeu boa parte do impacto. A força dos soldados que compunham o grupo era de dar orgulho a qualquer comandante, e estava claro que eles não iriam aliviar em nenhum momento para a pequena maga.

Agora, dois iam em direção à garota que tentava prever como seriam os golpes. Estava claro que eles não lutavam com uma maga, e sim tentavam eliminar apenas mais um transmorfo. Cada golpe era carregado de ódio e desprezo. As pancadas pouco eram absorvidas pelas barreiras estáticas de Lenna. Mais um golpe. Socos e pontapés também pressionavam a maga a empurrando cada vez mais próximo à linha. Alguns golpes eram tão fortes que a barreira se despedaçava com o impacto, fazendo Lenna receber lesões sérias.

“Vamos... Reaja!” Vladmyr observava atentamente, com um olhar de seriedade, enquanto cerrava os dentes.

“Porque a magia de defesa dela está tão fraca? Tá na cara que tem alguma coisa errada”. Era o que passava na mente de Eduardh, que se segurava apertando seu arco de tal forma que parecia que, a qualquer momento, iria parti-lo em dois.

De fato, a maga estava com problemas. Com vários hematomas e feridas pelo corpo, ela se esforçava para se manter afastada da linha e, ao mesmo tempo, de pé. A batalha de Lenna não se limitava apenas à arena, ela também precisava lidar com os olhares dos demais espectadores, que a sufocavam com seus julgamentos maldosos e cruéis.

“Lembre-se das palavras do Sr. Brugnar, a defesa é meu melhor ataque. Usar o que tenho no momento ao meu favor.” A pequena maga tentava achar uma saída.

O grupo não parecia se importar em concluir o objetivo do treinamento. O ódio e a abominável história que envolvia aquela raça, predominava e engolia qualquer compaixão a esse ser. Ector se mantinha firme, sua palavra era um de seus grandes valores, ele não iria interferir a favor de ninguém, por mais que internamente, torcesse pela vitória da maga.

Avançando e encurralando a maga, dois soldados a flanquearam, desferindo vários golpes consecutivos contra a pobre coitada transmorfo, que mal conseguia se proteger. Girando em seu próprio eixo, um dos soldados, aplicou um golpe extremamente forte com sua perna, levantando-a a altura dos ombros de Lenna. Estava claro que ele focava os pontos mais sensíveis do adversário, uma pancada dessas, acertando em cheio, com certeza faria a garota desmaiar de imediato.

— Droga! — murmurou baixinho, o soldado, quando viu seu golpe rebater na barreira.

Lenna tinha uma grande vantagem, de não precisar recitar encantamento para esse tipo de magia, talvez isso a tenha salvo nesse momento. Mesmo assim, o impacto a fez recuar ainda mais. Esses eram os cinco minutos mais longos que ela já tinha passado. Ela não teve tempo para pensar, a mesma mulher que anteriormente a havia repudiado enquanto se insinuava para o elfo, agora vinha para cima com uma sequência de socos e chutes poderosos. Uma especialista em combate corpo a corpo desarmado era o pior inimigo de um mago.

— Não vai revidar? Você só está atrasando nosso treinamento — dizia a druida, entre um soco e outro, ao mesmo tempo que as barreiras apareciam e sumiam após o impacto — Vai matar todos nós!

— Não! — gritou a maga.

— Como assim, não? — retrucou a druida, que ainda mantinha o ritmo frenético de seus intensos seus golpes.

A pergunta não teve resposta. Dessa vez, a barreira não se quebrou após o golpe. Lenna segurava, tremula, a pressão gerada contra ela. Enquanto isso, a druida arregalou os olhos ao perceber estar sendo barrada, e pior, estava sofrendo a pressão contrária.

— Eu não vou deixar ninguém do meu grupo morrer! Chega de me esconder!

Os demais do grupo, vendo toda a cena, partiram para cima da maga. O tempo estava acabando e não iriam correr o risco de deixá-la ganhar. Tinham uma sincronia de dar inveja, cada golpe que terminava iniciava outro combo para cima da pequena garota.

— Aqui não tem espaço para você, coisa!

Estranhamente, dessa vez, as ofensas que proferiam contra ela, não faziam tanto efeito. Em sua cabeça só se passava as lembranças de como foi incapaz e o que isso custou ao grupo. Que não iria passar por isso novamente.

Olhos semicerrados, a observavam de longe, quando um longo tinido se fez no ar. Uma das espadas ricocheteou e voou longe ao bater contra o escudo que não se desfez. A sombra que conferia ao longe o desempenho da garota permanecia imóvel.

Por mais que o corpo franzino da maga não fosse o ideal para esse tipo de combate, ela estava conseguindo se virar bem compensando com sua magia que, finalmente, parecia ter se estabilizado.

“Eu consigo, não posso ficar outra vez para trás.” Lenna repetia a frase várias vezes em sua mente.

Focando na criação de seus escudos, Lenna fez uma leve mudança na conjuração. Agora conseguia movê-los sem precisar desfazê-los ou refazê-los. Os golpes eram interceptados efetivamente e, com o próprio escudo, ela revidava, como se uma sólida e firme parede fosse jogada contra seus inimigos. O grupo foi pego de surpresa, afinal essa magia era bem diferente do que ela vinha usando até então. Invisível até que algo se chocasse contra a magia que, no impacto, brilhava como pequenos pedaços de cristais sobre a água translúcida banhada pela luz do sol da manhã. Não dava para ver de onde vinha o golpe, até que fosse atingido fortemente e arremessado para longe.

— Vadia! — gritou uma das druidas, após ser lançada longe pelo golpe da maga.

Ector acompanhava o combate assiduamente, verificando o tempo numa espécie de cristal esférico que imitava uma ampulheta, porém a pessoa podia escolher qualquer medida de tempo, de horas a dias.

Apesar do plano bem-sucedido de última hora, Lenna ainda tinha dificuldades em manter o ritmo, afinal já havia sofrido bastante dano antes de começar a revidar. Sem contar que uma magia manipulada assim, do nada, demandava muita essência mágica, não havia tempo para controlar o gasto de sua magia nesse momento, estava esgotada.

Depois do susto, o grupo se recompôs e logo estavam a cercando, só que dessa vez já estavam mais atentos. Lenna não conseguia enxergar nenhum cenário em que ela sairia vitoriosa. Por mais que ela os acertasse, eles se levantavam de novo e de novo. Parecia não ter fim.

— Por que não desiste? Mal se aguenta em pé. Não me dê o desprazer de olhar por mais tempo para sua cara — disse o druida ao se aproximar novamente da maga.

A ação do druida foi interrompida quando percebeu um leve brilho acinzentado nos olhos da garota, um olhar que, de alguma forma, transmitia perigo. Dessa vez a pancada foi forte, a barreira, que agora servia também como arma, pegou em cheio o soldado, que não teve tempo para pensar. O impacto invisível causou danos consideravelmente graves, pode-se confirmar isso após o nítido som de ossos quebrando.

— Mas o que... — a garota druida foi interrompida ao sofrer do mesmo destino de seu colega.

Ao ser lançada bruscamente para o lado, a soldado caiu inconsciente. Nesse momento, dois dos três que ainda restavam hesitaram diante da reviravolta inesperada da maga. Porém, um ainda se manteve firme, aparentemente o mais experiente dos cinco. Ele a encarava firmemente, da mesma forma que um animal que está prestes a dar o bote.

“Ele é perigoso, não sei se consigo...” Lenna interrompeu seus pensamentos ao ver que o homem adotou uma postura diferente do que vinha fazendo.

E então, o ataque. Um soco que, impressionantemente, cortava o ar. Lenna, com a barreira já acionada, nem sequer conseguiu ver o golpe. Seu poderoso escudo agora se desfazia em pequenos pedaços de partículas mágicas, e lentamente, se desmanchava no ar. Uma pressão enorme se movia em sua direção. Um segundo escudo se formou instantaneamente, quase como se fosse um mecanismo automático de defesa, mas apenas com um pouco de resistência, ele também se partiu.

Um estrondo ecoou pela arena. Todos encaravam, boquiabertos, o cenário à sua frente. O combate havia finalmente chegado ao fim. Logo após, a estranha e até o momento estática sombra se moveu lentamente até sumir por completo.

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