Volume 1
Capítulo II: “Gritos na Escuridão”
"Em meio a escuridão..."
“Não… Não… Nãoooo!!”
Abriu seus olhos em um suspiro profundo, emergindo de em meio às águas. Tentava recuperar o fôlego, sua visão ainda estava turva e seus sentidos permaneciam confusos de algum modo.
Tentou manter o foco, forçando seus olhos a verem a sua frente. Suas mãos aos poucos ganharam forma, foi quando as cores começaram a surgir, o que fez seus olhos estremecerem.
Engoliu a seco, sentindo suas entranhas se revirando em seu íntimo, como serpentes que buscavam a saída em sua garganta. Sangue cobrindo todo o chão onde estava, olhando para frente vendo as primeiras silhuetas que se formavam na escuridão.
— Ah… ah… ah…
Uma névoa vermelha cobria aquele lugar imundo, um cheiro forte de ferro junto de algo podre se fez presente. Adentrando sem cerimônia seu nariz, levantou ele diante o susto, não podendo segurar vomitou ali mesmo.
Suas pernas ainda trêmulas o obrigaram a segurar em algo, se apoiando. Apertando sua mão contra seu peito, sentiu seu coração tentar romper seu peito, tentando controlar sua respiração enquanto limpava sua boca suja de vomito.
— Me… ajuda…
Um sussurro ecoou em sua mente, seu corpo petrificou ali mesmo. Com um arrepio na espinha, olhou para frente, se deparando com o rosto deformado em meio a pilha de corpos desmembrados e multilados.
Um homem apavorado que sussurrava por ajuda, lágrimas saiam de seus olhos se misturando ao sangue. Uma mão sem cerimônia agarrou o braço do garoto, que deixou o pavor dominar seu corpo:
— AAHHHHHHH!!!
Com um grito recuou para trás, tropeçando em algo ao chão. Em meio ao desespero da queda, caiu por cima de seu braço, a dor que se fez presente o fizeram voltar a si em choque.
Se levantou com um pouco de dificuldade, suspirando fundo. O sangue escorria por seu corpo encharcado, mas não era frio, de algum modo era quente e aconchegante a sensação.
— MALDITOOOOOOOOOOOO!!!
Um grito ensurdecedor passou por ele, vindo de não muito longe e ecoando pelo lugar. Olhando ao seu redor, viu os amontoados de corpos juntamente de armas quebradas fincadas ao chão, deixadas por aqueles que as empunharam.
O sangue que descia dos ferimentos dos cadáveres dava passagem ao lago vermelho, que crescia cada vez mais, cobrindo o chão lamacento.
Diante disso, não demorou para notar a correria e os gritos não muito longe. Um exército batalhava ferozmente no horizonte, iniciando uma chacina contra o inimigo, tudo diante do luar de sangue que surgia, e do olhar atento embora ainda descrentes do garoto.
Foi quando avistou algo surgindo de em meio ao sangue e a pilha de corpos desmembrados. Os cadáveres caíram à medida que aquilo se movia, uma mão então saiu de em meio aos corpos, se agarrando ao chão.
“O… O que é aquilo?”
Um homem gigante surgiu, se levantando enquanto os corpos caiam ao seu redor. Aquela figura gigantesca causou pavor a todos, até mesmo ao garoto que observava de longe.
Usava ele uma armadura negra como a noite, embora estivesse com a ferrugem consumindo em algumas partes. Ergueu ele sua Nodachi gigantesca e enferrujada, descendo-a com um simples movimento, qual foi suficiente para dividir da cabeça aos pés um dos soldados com armadura dourada.
— Ah– AHHHHHH!!!
Com um giro agarrando firme sua espada em mãos, rasgou ao meio quatro soldados com um corte lateral, como se suas armaduras fossem papel, como se sua carne fosse nada.
— Acabem com eleee!!
Alguns soldados correram até ele, ficando e atravessando suas lanças em seu corpo. Sangue saiu de sua boca, por um momento fazendo todos pensarem que venceram. Foi quando o monstro começou a rir insanamente.
Levantando seu pé e com um poderoso passo, o chão se despedaçou e uma grande onda de vento se dispersou jogando os soldados ao chão.
“O quê está acontecendo aqui…?”
A forte onda de vento passou pelo garoto, que se protegeu com as mãos, quase sendo lançado para trás. Quando a ventania cessou, encarou ele o combate que continuava: os soldados caídos, não tiveram chance de levantar, suas cabeças afundaram em meio ao sangue.
“Um sonho… Eu só posso estar sonhando, né?”
Pensou ele enquanto o gigante o avistou de longe, bufando enquanto abriu um sorriso tenebroso em meio ao capacete avariado e ensanguentado.
— Hmmm... — Bufou uma fumaça negra. — Carne nova?
Seus olhos brilhavam como tochas de fogo, seu elmo gotejando sangue, entranhas penduradas em meio aos espinhos roxos e espalhados em sua armadura enorme. Até mesmo sua espada era estranha, tremia gritando em um clamor excruciante, enquanto sua lâmina enferrujada absorvia o sangue dos inimigos.
O monstro agora caminhava na direção do garoto, cada passo pesado que dava, fazia o sangue respingar nos olhos daqueles já caídos pelo caminho. O pobre garoto encarava a cena ao longe, petrificado de medo.
Sentia seu corpo implorar para que corresse, mas não ousava se mover dali. Tremia enquanto o ar começava a lhe faltar, seus olhos arregalados e trêmulos acompanhando cada movimento da besta que vinha ao seu encontro.
O monstro vinha, cortando qualquer um que entrasse em seu caminho. Caindo em mais gargalhadas enquanto se banhava com sangue.
— E-en-então, esse é o-o in-inferno…? — disse o garoto com um sussurro escapando de sua boca trêmula.
***
A lua vermelha que saiu de meio as nuvens cinzas, deu passagem aos gritos daqueles que tinham seus membros despedaçados pela espada. Ossos se quebravam, gargantas se rompiam, estômagos se abriam junto das risadas dele.
O garoto podia escutar os cochichos em meio às pilhas de corpos, sussurros abaixo da carne desmembrada. Talvez sobreviventes, condenados a morrerem agonizando no escuro, clamando por seus deuses os quais os abandonaram ali, sozinhos.
— Argh–
A espada enferrujada se limpava com sangue, se lavando por completo, demonstrando assim o seu brilho prateado e brilhante. Enquanto aquele que a empunhava a brandia incessantemente, rasgando carne e consumindo almas, onde cada golpe era mais poderoso que o anterior.
Uma cena brutal diante dos olhos de um garoto apavorado ao longe:
— Hm… o quê é tudo isso?
— P-Por favo-or, nãooo!!
Gritou um dos homens que tentou fugir dele, que com um golpe baixo teve suas pernas arrancadas pela espada. Caindo em meio ao sangue, se arrastando enquanto tentava fugir dele:
— AHHHHHH!! AHHHHH!!! Piedade meu lorde! Piedade!!
Com mais um golpe teve sua cabeça esmagada por aquelas botas de ferro. Os demais vendo isso foram para cima dele, em vão.
O monstro tinha dificuldade em andar, sua armadura ficava mais pesada, onde cada golpe esmagador conduzia os restos de carne que se prenderem nela. Sangue e entranhas em meio ao metal negro e espinhos roxos, com o peso extra seus passos ficavam mais pesados.
Continuou lentamente, sem pressa e sem medo, se aproximando do garotinho petrificado mais adiante. Seu elmo negro e avariado pela ferrugem, esbanjava dois chifres de esmeralda, chifres esses que pareciam de cervo e possuiam correntes presas a eles.
Também calçado com botas de ferro, tais como cascos de touro, e em suas mãos manoplas verdes com lâminas roxas.
Estava ofegante, um bafo quente escapou de sua boca e narinas. Com um sorriso encarou o garoto que tremia diante o horror. Medo, o mais profundo e visceral pavor, enquanto o monstro que se escondia detrás da armadura finalmente o alcançou.
— Haaaaarrr… Um garoto, aqui?
Abriu um sorriso ainda maior, mostrando suas presas pontudas e desordenadas. Quais brilhavam em um amarelado sangrento, salivando como uma besta selvagem faminta.
— Venha até mim, criança.
O pobre garoto assustado, recuou para trás com um passo em falso, escorregando em meio ao sangue. Caindo, deixando o terror dominar sua mente e corpo novamente:
— Nãooooooo!! Nãooooooo!!
Tentou correr se arrastando ao chão, enquanto seus pés escorregavam, tomando distância do monstro que até então o encarava imovel.
— Fique longe de mim!! Fique longe de mim!! — Gritou enquanto suas mãos escorregaram.
Olhando para trás, já era tarde, a enorme espada era levantada aos céus. Descendo com um poder esmagador, diante de seus olhos suas pernas foram esmagadas em um simples movimento pesado, onde o sangue lançado no impacto começou a cair como chuva.
— Ah– ah–, AAAHHHH!!!
Ele se arrastou para fugir ainda mais histérico, colocando toda sua força em suas mãos que se agarravam onde podia. Sentindo suas pernas ainda penduradas ao seu corpo, se desprendendo e ficando para trás.
— AAAAAHHHHHHH!! Fique longe! Fique longe!! Fique longe de mim!!!
Sua mente se tornará em branco diante a dor, se arrastando para sobreviver. Mantendo distância, quando o monstro começou a rir novamente:
— Hahahaha!! Então, acha que pode fugir de mim?! Hahahaha! Acha que pode fugir de seu destino, verme?!
— N-Nãooooo!! Fique l-longe!
— Tatrón-org-lumis-org… — disse levantando a espada. — Não tem como fugir do destino!
— Nãooooo! Nãooooo!!
As lágrimas invadiram seus olhos, o pavor havia possuído completamente seu corpo. Se afastava da besta, cravando suas unhas no chão enquanto seu corpo sucumbia à perda de sangue, seus olhos mais uma vez se tornavam turvos.
— Ef-sunt-cán-org-lumis-home-it-dó-org. — disse se aproximando dele. — Por que? Porque eu sou o seu destino!
Pisou ele no pobre garoto, prendendo-o e o esmagando contra o chão. Podia agora sentir seus ossos sendo esmagados, enquanto o gosto de sangue tomava sua boca.
— Você irá implorar por sua vida em breve… Me implorar como o verme que é, e o verme que está destinado a ser!
O vislumbre de luz ao longe foi ceifado com o som repentino da lâmina atravessando sua pele e órgãos. Seus olhos colapsaram enquanto escutava seu coração, sendo esmagado contra seus ossos e peito que se despedaçaram.
Sentiu o calor de seu sangue se espalhando, os espasmos que dominavam seu corpo. O vazio de sua mente que se fez presente com o vazio em seu peito, o doce frio da morte consumindo lentamente sua vida.
— Ar… ha… ah…
Tentou gritar por ajuda, mas já se engasgava em seu próprio sangue. Sangue que aos poucos consumiu sua boca, seus ouvidos, seu nariz e por fim seus olhos.
Retirando a espada com brutalidade, sangue respingou em seu rosto o fazendo lamber os beiços, cuspindo em seguida com nojo:
— Hmph, nojento!
Seus olhos perdiam o brilho sendo consumidos pelo vermelho, se virando ao chão, podia ver o culpado. Encarando aquela silhueta enorme em sua frente, que o encarava de cima com aqueles olhos tenebrosos.
Tamanho poder, olhos que encaravam sua alma e o humilhavam até o fim. Como galáxias que não se importam com sua insignificância humana, sua insignificância mortal:
— Patético…
***
— AAAAAHHHHHH!!!
Acordou de repente, apertando sua mão contra seu peito enquanto se encolhia ao chão. Suava frio, não conseguia controlar sua respiração, seu coração parecia querer sair de seu peito, ainda podia sentir a sensação de vazio e de suas pernas retalhadas.
— Eu… eu… Tô vivo?
Por um momento ficou aliviado, seus sentidos voltavam novamente, foi quando escutou os breves sussurros ao seu redor. Uma brisa suave e aconchegante passou por ele, juntamente do aroma calmante de incenso e velas de rosa.
Direcionando seus olhos para frente, ficou deslumbrado com o que viu: Várias pessoas se encontravam ali em meio ao grande salão, algumas aparentando estarem na mesma situação que ele. “Onde eu estou? E quem são essas pessoas?” Perguntas que passavam como o vento por sua mente, enquanto alguns ainda despertavam.
Todos estavam com roupas comuns, alguns com farda escolar, embora tivesse um garoto que tentava esconder seu corpo nu. Tremendo ele de frio, parecia assustado enquanto encarava ao seu redor confuso, usando suas mãos para esconder seu corpo enquanto se encolhia no chão.
Direcionando os olhos para cima, percebeu grandes lustres de cristais. Voltando seus olhos para trás, um amplo e enorme salão, arquitetura simples, mas encantadora e nobre, piso liso e feito com algum material reluzente.
“Que lindo…”
Havia alguns símbolos e runas ao redor deles, pareciam ainda quentes e emitiam um pouco de vapor. As paredes também eram do mesmo material reluzente, com outros símbolos estranhos, onde todo o lugar era sustentado por grandes e fortes pilares de jade.
Enormes como o salão, cheios de gravuras que contavam alguma história envolvendo seres místicos que lutavam contra criaturas abomináveis.
“Onde eu estou agora?”
Suas mãos sentiam o chão em que estava, a sensação parecia especial de algum modo. Avistou então pessoas mais à frente, vestidas com mantos longos e capas que os escondiam, já outros com roupas bonitas e cheios de bijuterias brilhantes.
Homens e mulheres que sorriam encarando os demais deitados ao chão, alguns até mesmo o encaravam, rindo e o julgando.
“Quem são esses esquisitões? Tão de cosplay?”
Foi então que se lembrou do ocorrido de mais cedo, dos disparos e da dor aguda que sentiu consumindo seu corpo.
“Espera… Lugar estranho, gente esquisita, eu não tô legal! Minutos antes eu tomei um tiro nas costas, e...”
“Espera um pouco…”
“Eu morri? Eu morri?! Aqui é o céu?!”
O brilho do sol de repente ofuscou sua visão, adentrando os grandes vitrais sem cerimônia, dissipando por completo a escuridão do lugar com uma luz quase mística. Cobrindo seus olhos com as mãos, de relance pode avistar as silhuetas em meio a luz que ficava aos poucos mais suportável.
Duas figuras sentadas em tronos, à frente dos dois enormes vitrais. Um lado brilhava com a imagem fragmentada de vários flocos de neve, e o outro brilhando em um tom vermelho com a imagem de um poderoso dragão negro bufando fogo pelas narinas.
"Eu devo estar alucinando, né?”
Continua...
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