Volume 1
Capítulo 8: ASTRA
O escritório de Kondo respirava de forma silenciosa, farto da produtividade derivada de um homem que sabia exatamente o que fazia. Os raios de luz entravam tímidos pela janela semiaberta e pintavam a sala com tons alaranjados.
O comandante organizava alguns documentos sobre a mesa, dando atenção especial a uma carta já aberta, a qual guardou de volta no envelope. Hijikata, que ocupava uma das cadeiras à frente, inclinado para trás, observava o teto com desinteresse.
— Se for mais uma reunião sobre orçamento, eu prometo me jogar pela janela. — comentou, sem tirar os olhos do teto.
Kondo sorriu de canto, já acostumado com a personalidade de seu companheiro.
— Não, hoje não. Recebi um convite formal da ASTRA. — Ele ergueu o envelope com um selo holográfico. — Ra'as Shyr ofereceu uma visita às instalações da ASTRA, guiada pelo próprio.
Hijikata desceu a cabeça, agora com os olhos no comandante.
— ASTRA? A fabricante de lâminas? Devem estar querendo vender alguma coisa.
— Se for algo interessante, então escute a proposta.
— Escutar? Eu? — O vice-comandante se inclinou de vez, com as sobrancelhas erguidas.
— Exato. Diga ao senhor Shyr que agradeço o convite, mas que meu tempo anda curto.
— Qual é, manda aquele cara lá, o do moicano.
— Você é o vice-comandante, é o mais adequado para nos representar perante uma persona ilustre. — Ele fez uma breve pausa. — Dito isso, leve Yamazaki. Ele é o mais próximo de um ferreiro que temos.
Quase como se tivesse sido invocado pelo nome, a porta deslizou e Yamazaki apareceu, seu cabelo levemente bagunçado por baixo do chapéu e um brilho curioso nos olhos.
— ASTRA? Mal posso esperar para descobrir o que eles escondem...
— Não é pra tocar em nada lá. — Hijikata ordenou.
— Chato de galochas... — concordou, com um biquinho.
Kondo se levantou, agarrou o uniforme e o vestiu com calma.
— Dito isso, Ra'as Shyr é um velho conhecido. Tentem não incendiar o edifício dele também.
— Foi um acidente! — Hijikata argumentou, também se levantando da cadeira.
Kondo, de pé e com os braços cruzados, observou os dois patetas por um instante. Era uma dupla engraçada e caótica, mas capaz de se manter na linha.
— Vão, e tratem de voltar com mais respostas do que perguntas.
Ambos assentiram.
O edifício da ASTRA localizava-se também em Hikari Heights, o mais distante possível do Palácio EIGUN. Cravado no distrito como uma joia em meio ao concreto e à fuligem, sua fachada esmeralda, recortada por linhas douradas, refletia a luz da cidade com um brilho etéreo.
Hijikata parou diante do enorme monólito esverdeado, os braços cruzados, os olhos a julgar o edifício.
— Parece um templo. Espero que lá dentro não tenha uma seita.
— É incrível! Mas pode haver problemas estruturais — Yamazaki respondeu, atento aos detalhes da construção. — Ouro não é o melhor metal para se usar em estruturas.
— Consegue ficar cinco minutos sem dar sua opinião sobre algo?
— Deixa eu ver. — Yamazaki olhou para o pulso, como se contasse o tempo em um relógio. — Trinta segundos é o meu limite.
As portas se abriram com um silvo hidráulico quase imperceptível, e o saguão amplo se materializou à frente dos samurais. O chão marmóreo refletia o turquesa de seus uniformes. Ao redor deles, painéis holográficos exibiam diversas lâminas em rotação lenta, acompanhadas de seus dados técnicos.
— Não toque em nada. — Hijikata repetiu.
— Mas eu nem encostei ainda. — Yamazaki respondeu, enquanto tentava ler os dados das lâminas.
— O problema é o “ainda”.
Ra'as Shyr os aguardava no centro do salão com um enorme sorriso coberto por seu bigode enrolado. Suas vestes de corte otomano, compartilhavam da mesma paleta de cores que a fachada do edifício. Sua pele escura contrastava com seus olhos amarelos e cabelos negros.
— Senhores da Shinsengumi! Salaam Aleikum!
— Sal o quê? — O vice-comandante franziu o cenho de imediato, como se tivesse ouvido um xingamento.
— Wa alaikum salam! — Retribuiu o espião.
Yamazaki se inclinou levemente na direção de seu superior, a boca coberta pela mão.
— É uma saudação árabe. — Ele sussurrou.
Ra'as abriu um sorriso ainda maior, e agraciou o garoto com uma salva de palmas.
— Ah, vejo aqui que temos um pequeno conhecedor de culturas, nos daremos muito bem!
— Por favor, não dê corda pra ele. — Implorou Hijikata, cansado antes mesmo da conversa começar.
Ra'as riu baixo e deu alguns passos ao redor da dupla, em avaliação.
— Hehe, confesso que eu esperava outra pessoa, mas dois jovens prodigiosos estão de bom tamanho.
— Não sou nenhum jovem, tenho vinte e sete. — Corrigiu Mifune.
— É mesmo? Está bem conservado, meu rapaz, o que anda passando no rosto?
— Hidratante da Ren-chan. — respondeu sem hesitar. — E eu sinto que você já está tentando me vender alguma coisa.
— Alguém tem que vender o meu peixe, não é? Quem não joga a isca não pesca nada.
— São muitas analogias de pesca pra alguém que vende lâminas.
— Venho de uma família de pescadores, e como todo bom árabe, a arte do negócio corre em minhas veias.
Hijikata suspirou e seus braços se cruzaram.
— É mesmo?
— Claro, eu não minto. — Afirmou o comerciante, com outro sorriso confiante. — Quer dizer, ocasionalmente posso ocultar verdades, se for lucrativo, mas não conto mentiras.
— Isso não é muito bom pra sua credibilidade.
— Minha credibilidade está na qualidade dos meus produtos; depois de vendidos, não há reclamações. Que mal há em convencer alguém a comprar uma mercadoria excepcional?
— É genial.
— É um pouco malandro. — Corrigiu Hijikata.
— Suas opiniões foram anotadas. — Ra’as respondeu com um aceno divertido. — Dito isso, não os trouxe aqui hoje para vender algo. Muito pelo contrário, desejo lhes dar — sem malícia — algo.
Yamazaki virou-se de imediato, seus olhos a brilharem.
— Tipo um presente?
— Eu amo esse rapaz, ele entende exatamente o que eu quero dizer.
Hijikata ergueu um dos lados do lábio, desconfiado.
— Não existe almoço grátis. Qual é a pegadinha?
Ra’as começou a caminhar em direção a um corredor envidraçado, e fez um sinal para que o seguissem.
— Eu lucrarei com isso, mas não será vendendo a vocês, fiquem tranquilos. — Lançou um olhar cúmplice por sobre o ombro. — Eu prometi um tour, não foi? Então vamos. Eventualmente, eu lhes darei a resposta.
O tour se iniciou, os convidados seguiram por corredores amplos e vitrificados, com ouro sempre em abundância. As máquinas cantavam em harmonia durante sua fabricação de espadas.
Ra'as caminhava à frente com as mãos abertas, orgulhoso em apresentar seu trabalho. Hijikata observava com imenso tédio; Yamazaki, com curiosidade e respeito.
Passaram por linhas de montagem, onde lâminas flutuavam presas em campos magnéticos, cada uma em um estágio distinto de nascimento. Algumas aguardavam o fio, outras já eram afiadas demais para serem observadas por muito tempo.
O passeio terminou diante de portas brancas, mais simples do que o resto do prédio.
— Agora, é hora de mostrar onde mantenho Hefesto cativo. — Anunciou Ra’as Shyr.
— O deus da forja? — Yamazaki inclinou a cabeça, curioso.
— Bingo.
Ra'as empurrou as portas com cuidado e revelou um laboratório. No centro do laboratório, entre bancadas cobertas de ferramentas e fragmentos metálicos, estava Sakamoto Wayland.
A primeira coisa que se destacava eram suas roupas negras de couro, que contrastavam com o branco casaco de laboratório que era usado por cima.
— Conheçam Sakamo — Ra’as engasgou-se no meio da apresentação. — Ya Allah… essa fumaça definitivamente não é da forja.
Os olhos violetas de Sakamoto, escondidos por baixo de seus longos cabelos loiros, ergueram-se na direção dos intrusos em seu local de trabalho.
— Que cara inconveniente… — resmungou, enquanto tragava um cigarro. — Já te disse que não gosto que invadam minha oficina.
— É uma ocasião especial. Tenho aqui dois grandes nomes da Shinsengumi. — disse Shyr, de forma teatral.
— E quais são eles? — perguntou, com a sobrancelha erguida.
— Eu não sei. — O anfitrião deu uma risada. — Mas o público definitivamente sabe, e é isso que importa. Senhores, este é Sakamoto Wayland, o melhor ferreiro da nação.
Yamazaki veio a frente, com uma expressão genuína de reconhecimento.
— Wayland? Filho de Takumi Wayland?
— Isso aí, otário. — Confirmou Sakamoto.
Hijikata não gostou do insulto ao seu companheiro, e tomou a frente.
— Ei! Só eu posso chamar ele de otário.
— É? E vai fazer o quê a respeito? — Sakamoto sorriu de canto.
— Você tem muita coragem pra perguntar isso a um samurai.
Sakamoto tragou mais uma vez, e expeliu a fumaça no rosto do policial.
— Nenhum ferreiro tem medo de vocês. Somos nós que fazemos as armas que vocês usam para se matarem.
Ra'as, vendo que a tensão na sala crescia rapidamente, bateu palmas alto o suficiente para cortá-la.
— Rapazes, vamos acalmar os nervos. Estamos aqui para um momento de colaboração.
— Concordo. — O espião assentiu, rápido. — E Kondo foi específico quando pediu para eu manter o vice-comandante longe de fogo.
— Ele não vai largar do meu pé sobre esse acidente… — O vice-comandante murmurou, mais para si do que para os outros.
Após um pigarro, o anfitrião retomou o controle da sala com naturalidade.
— Bem, como Sakamoto já sabe, e vocês ainda não… recentemente adquiri um enorme meteorito em um leilão.
Antes de continuar, retirou um controle remoto de dentro das suas vestes. Ao pressionar o botão, a parede ao lado se abriu como uma janela, revelando a grande rocha espacial.
— Quando adquiri o meteorito, soube exatamente o que fazer com ele: lâminas de grau extraordinário. E, a única pessoa capaz de manejar metal de alta qualidade nesse país é Sakamoto.
Mifune coçou a cabeça e pensou por alguns segundos.
— E o que a Shinsengumi tem a ver com isso?
— Tudo! — Ra’as respondeu, com um sorriso orgulhoso. — As espadas serão doadas para vocês, como um agradecimento por protegerem nossa cidade.
— Deixa eu ver se entendi direito. Você gastou uma fortuna com essa pedra aí, só pra transformar ela em espadas e entregar elas de graça pra gente? A conta não fecha.
Ra'as soltou uma breve risada nasal, quase ofendido com a desconfiança do policial.
— Só errou uma coisa: eu sempre lucro. Só não cobrarei de vocês. O que acha que o público pensará quando ver os grandes samurais da nação empunhando lâminas da ASTRA?
— Que elas são de boa qualidade? — sugeriu Yamazaki, atento ao assunto.
— Exatamente! — Ra’as apontou para ele, novamente satisfeito pela sagacidade do jovem. — Propaganda é um dos pilares da venda.
Ele pigarreou novamente antes de continuar:
— Eu venderia muita coisa para muita gente por dinheiro, é verdade. Mas isso aqui? Isso não. Eu gosto de dinheiro, adoro dinheiro, mas gosto mais ainda de dormir bem à noite.
Hijikata balançou a cabeça, uma indicação de que havia compreendido a estratégia do anfitrião.
— Entendi. Então você vai nos doar as espadas de graça e, em troca, seremos seus garotos-propaganda. Não parece um mal negócio, mas não cabe a mim tomar a decisão.
— Claro, claro. — Ra’as acenou com a mão, já conformado. — Leve meu abraço ao comandante Kondo. E, se puder, mencione o quanto fui educado e generoso.
Antes que a conversa pudesse chegar ao seu fim, Sakamoto deu um passo à frente, os olhos fixos na cintura de Hijikata.
— Ei, essa espada aí. Deixe-me dar uma olhada.
— Hm? A minha? — O policial virou a cabeça.
— Aham.
Ele retirou a lâmina do cinto. Não havia bainha, guarda ou punho, apenas o aço nu e seu gume marcado por falhas e cicatrizes de uso. No lugar do cabo, um pano ciano com ornamentos budistas envolvia a base da lâmina.
— Essa lâmina já sofreu o bastante. Tenha piedade. — comentou Ra'as, perplexo com o estado da "espada".
— Magnífico… — murmurou Sakamoto, ignorando o comentário.
— Como é? — Ra’as estreitou os olhos.
— Essa lâmina é de grau extraordinário. — Sakamoto passou os dedos a poucos centímetros do gume, respeitoso. — Apesar do desgaste, ela não perdeu o fio. Muito pelo contrário, eu nunca vi uma lâmina tão afiada.
— Ela foi passada pra mim por Kondo. — Hijikata respondeu. — Dizem que era do irmão dele antes.
— Uma herança de família, hein? — Ra’as assentiu. — Coisas herdadas costumam durar mais do que quem as deixa.
Sakamoto devolveu a espada com cuidado incomum.
— Cuide bem dela. Nem mesmo meu pai conseguiu forjar algo próximo a esse grau de grandiosidade.
Após se despedirem, os samurais deixaram para trás o edifício esmeralda que, mesmo à distância, continuava a brilhar. A cidade retomou seu ritmo habitual ao redor deles, indiferente a meteoritos, ferreiros lendários e promessas futuras.
No fim das contas, tudo acabou sendo apenas isso: uma visita curiosa, boas conversas e a sensação de que, pelo menos daquela vez, as coisas tinham seguido exatamente como deveriam.
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