Volume 1
Capítulo 7: Convicção e Autoridade
A sala de controle já não possuía mais controle algum. As luzes falhavam em intervalos irregulares, projetando suas sombras duras nos painéis, transformando números em borrões inúteis.
O calor se acumulava próximo ao teto, e o cheiro de fumaça se misturava ao ozônio dos circuitos sobrecarregados. A mansão havia decidido encerrar sua obediência.
Yamada foi até a porta e girou a maçaneta. Nada. Tentou novamente, com mais força, até o metal começar a queimar. A porta continuou imóvel, indiferente a sua urgência.
— Não… — murmurou, a palavra se perdeu no zumbido dos sistemas.
Caminhou até o painel lateral e acionou a abertura de emergência. O botão afundou, mas não houve mudança alguma no local. Nenhum alarme, nenhum destrave. A mansão que fora projetada para controlar tudo, não antecipava seu próprio colapso.
Eigun respirou fundo e puxou o telefone da mesa. Seus pés estavam inquietos, o suor cálido escorria pela sua testa. Seu chamado demorou para ser atendido, tempo longo o suficiente para que o medo criasse raízes.
— Yuki? — chamou, a voz mais tensa do que gostaria. — Onde você está?
A resposta veio calmamente, sem nenhum senso de urgência.
— No Palácio EIGUN. Houve um pequeno alvoroço por aqui, mas tudo sob controle.
Yamada respirou aliviado, mas tossiu logo após inalar apenas o gás tóxico.
— Escute, Yuki. Eu estou preso. A mansão está pegando fogo. Preciso de ajuda agora!
Do outro lado, houve uma pausa breve. Não era surpresa, muito menos choque, mas mera ponderação.
— Sabe — disse Yuki. — Estava pensando sobre a reunião de amanhã. A morte sempre complica cronogramas. Investidores ficam nervosos.
— Yuki… — Yamada engoliu em seco, seus olhos já irritados. — Não é hora para isso.
— Pelo contrário. Acidentes acontecem, é sempre bom estar precavido.
A fumaça começou a escorrer pelas frestas do teto, fina no início, quase discreta. Yamada tossiu uma vez, depois outra. Alguns monitores apagaram de vez, escurecendo ainda mais a sala.
— Estou falando sério — insistiu, quase a implorar. — As portas não abrem. O fogo está chegando aqui.
— Yamada — respondeu o vice-presidente, com a mesma voz educada. — Você já cumpriu seu propósito, é hora de descansar.
O chão pareceu se inclinar levemente. Eigun apoiou a mão na mesa de controle para tentar manter seu equilíbrio, sua respiração já irregular.
— Meu filho… — disse, quase sem perceber.
— Ele está seguro, não se preocupe. Ainda temos planos para ele.
A visibilidade da sala tornou-se nula, o ar se tornou espesso, sufocante. Cada inspiração queimava todo o trato respiratório. As telas restantes se apagavam uma a uma, tal como ponteiros anunciando o fim.
O telefone escorregou de seus dedos e caiu no chão, sem comunicação alguma. Yamada deslizou até se sentar, as costas apoiadas no painel. Seus olhos, marejados, já não refletiam pânico, mas memória.
Delirante, viu o rosto de sua esposa ainda saudável, rindo de algo banal na cozinha. Seu pequeno filho corria livre pelo jardim, sem grades, muros altos ou seguranças. Um tempo em que o poder não era sinônimo de isolamento.
Um sorriso fraco se formou em seus lábios secos.
— Estou indo… — sussurrou, com suas últimas energias. — Estou indo te encontrar, Chiyo...
A fumaça engoliu a sala de controle por completo. E, pela primeira vez em muito tempo, Yamada Eigun deixou de observar o mundo do alto.
O escritório de Kondo era pacato em comparação ao resto do quartel. Sobre a mesa, um relógio antigo encontrava-se aberto, suas engrenagens expostas tal como um corpo em cirurgia.
As mãos do comandante trabalhavam com paciência e precisão, ajustando o tempo peça por peça.
Tobi, o coelho branco, permanecia atento ao seu lado, com suas orelhas a se mover em cada tique metálico.
Quando a troca de uma ferramenta era necessária, o animal felpudo agarrava da caixa ao lado com seus dentes e a entregava ao seu companheiro.
— Devagar e com calma... — murmurou o comandante, mais para o coelho do que para si mesmo.
A porta deslizou e o ritmo suave da sala foi quebrado. Itou entrou primeiro, de postura firme, seguido por Harada, que necessitava se inclinar para não raspar o batente. Kondo não ergueu o olhar de imediato.
— Antes de qualquer coisa, quero deixar algo claro — disse Kondo, sem elevar a voz. — Você não tinha permissão para agir.
O comandante fechou o relógio com um clique satisfeito e só então se virou para eles. Seus olhos afiados percorreram os dois, com destaque para as marcas de fuligem nas roupas.
— Se eu tivesse pedido, Yamada teria desaparecido antes do pôr do sol. — respondeu Itou, sem perder sua postura.
Harada se sentou no chão, ele sabia que a atmosfera estava prestes a ficar pesada. Tobi saltou da mesa e foi até a caminha no canto, rodou duas vezes e desabou em um sono tranquilo.
— Você provocou um incêndio em um dos distritos mais sensíveis da cidade. — Continuou Kondo. — Isso irá repercutir, e não será bom para nossa imagem.
— A Shinsengumi não deve se curvar à opinião daqueles que vivem nas torres de marfim.
— Eles vivem nelas porque, gostemos ou não, financiam metade do que mantém essa cidade suspensa.
— Então estamos alugando nossa espada. — Itou cruzou os braços. — Achei que éramos policiais, não mercenários.
— Responsabilidade é o preço que pagamos para empunhar essas espadas.
— Eu achei que a gente ia falar do cara que sumiu. A gente já passou dessa parte? — Harada coçou a cabeça.
Kondo soltou o ar devagar. Ele sabia que não deveria transformar aquela conversa em algo pessoal. Seu tempo e sua paciência deveriam servir à busca de respostas, não a debates inúteis.
— Ainda não. Onde está Yamada Eigun? — continuou o comandante.
Itou não mudou de postura. Continuou com seu olhar altivo.
— Morto. Assim espero.
Kondo suspirou novamente, e juntou suas palmas sob a mesa.
— Não é assim que operamos, Itou. Mesmo com provas, mesmo culpado, seu lugar seria atrás das grades.
— Estamos falando de Zhulong. Um rei do crime mais antigo que a própria cidade. Mesmo preso, não haveria garantia que ele deixaria de ser um problema.
Kondo cobriu os olhos com as mãos. Não havia raiva ali, apenas incredulidade diante da ingenuidade de seu subordinado.
— Zhulong? É disso que se trata? Você acha que Yamada Eigun era Zhulong?
Itou sustentou o olhar quando as mãos do comandante desceram.
— Zhulong não construiu um império tão poderoso para cair perante um garoto teimoso e um monge pançudo.
Harada abriu a boca, com anseio para comentar, mas desistiu ao sentir o clima pesar. Preferiu se sentar no chão, próximo ao animal felpudo.
— Ele se achava intocável o bastante para se esconder em plena vista, para nos receber como convidados.
— Ou talvez ele só seja inteligente o suficiente para se proteger atrás de um nome mais conhecido.
Kondo desviou o olhar. Próximo a Kurosuke, o coelho dormia encolhido em sua caminha, alheio às intrigas e conspirações. O comandante observou o animal por alguns segundos, buscando a calmaria que a conversa não era capaz de oferecer.
— Discordo da sua certeza, Itou. Convicção não é prova.
Kondo endireitou a postura e retomou o controle da sala.
— Dito isso, vocês já me causaram problemas o suficiente por hoje. Yamada, Zhulong, seja quem for, vou lidar com as consequências.
— Aí sim meu patrão. — Harada comemorou, aliviado pelo fim da tensão.
— Estão dispensados.
O monge foi o primeiro a se retirar, com grande anseio por guloseimas. Itou permaneceu por alguns instantes, imóvel, como se ainda houvesse algo a ser dito. Quando finalmente se virou para partir, a voz de Kondo o alcançou.
— Tente não confundir iniciativa com autoridade. Quem manda aqui ainda sou eu.
Itou não respondeu. Apenas assentiu com a cabeça e deixou a sala, junto a uma convicção que nenhuma ordem era capaz de extinguir.
O salão de conferências do Palácio EIGUN estava impecável demais para um dia como aquele. O mármore claro, o vidro polido, as bandeiras perfeitamente alinhadas. A tragédia parecia ainda não ter alcançado aquele andar, e talvez nunca o alcançasse de fato.
As câmeras se alinharam, os olhos famintos por tragédia. Microfones repousavam à espera de uma nova manchete. O murmúrio cessou quando o vice-presidente Yuki surgiu pelo corredor lateral, semblante calmo, postura leve.
Diante do púlpito, ajustou o microfone, limpou a garganta e respirou fundo.
— Obrigado por terem vindo com tão pouco aviso.
Não havia pressa em sua voz, tampouco tremedeira ou solenidade exagerada. Apenas um tom neutro, de alguém treinado para gerenciar catástrofes.
— É com profundo pesar que informo que Yamada Eigun, presidente das Indústrias EIGUN, faleceu esta tarde em um acidente trágico.
Ainda que os jornalistas ansiassem por perguntas, respeitaram o momento com um minuto de silêncio. Yuki, esperto, baixou a cabeça por um breve instante; o momento necessário para que uma câmera capturasse seu luto.
— Uma falha estrutural causou um incêndio inesperado em uma de suas propriedades particulares. Apesar dos esforços das autoridades... ele não sobreviveu. Ele deixa um filho e um enorme legado para a nossa cidade.
O termo "falha estrutural" era o mais conveniente para a ocasião. Um erro sem culpados, apenas mais um evento infeliz em um mundo imperfeito.
— Yamada era um visionário. Um homem que acreditava no futuro desta nação e trabalhou incansavelmente para mantê-la próspera, segura e independente.
Anotações foram feitas. Aquele era um discurso confortável, feito sob medida para preencher as manchetes.
— As Indústrias EIGUN cooperarão integralmente com qualquer investigação conduzida pela Shinsengumi ou por órgãos governamentais. A transparência, é claro, sempre foi um pilar da nossa empresa.
Yuki ergueu seu olhar, os olhos percorreram a sala, um rosto por vez. As expressões, os sentimentos, tudo era meticulosamente analisado para tecer suas próximas palavras.
— Quanto ao futuro da EIGUN, asseguro a todos que a empresa continuará. Após os devidos procedimentos, Otatsu Eigun herdará o trabalho árduo de seu pai, e seguiremos trabalhando pelo bem da nação.
Ele fez uma breve reverência, seu sorriso oculto embaixo do rosto.
— Agradeço a compreensão de todos neste momento difícil.
As câmeras continuaram as filmagens mesmo após ele se afastar do púlpito. Flashes de fotos buscavam sinais de falha humana em seu semblante. Nada encontraram, nada além de um homem eficiente a se retirar.
O vice-presidente alcançou seus aposentos, onde acendeu um cigarro. Diante da enorme janela atrás da sua mesa, a cidade brilhava com suas luzes artificiais. Ele observou em silêncio, pôs a mão no bolso interno do paletó e retirou um celular.
— O palco está limpo — disse, com um sorriso em seu rosto. — É hora de trazermos os novos atores.
O aparelho foi desligado, o cigarro foi tragado.
Mesmo após a perda de um homem, a cidade seguia viva, alheia ao fato de que havia ganhado algo muito pior.
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