Volume 1
Capítulo 6: O Mais Rápido
As cadeiras eram arremessadas cada vez que Userkaf disparava em direção à Itou, rápido demais para qualquer espectador compreender o que havia acontecido. Os golpes vinham confiantes, poderosos, mas Itou respondia no limite do necessário.
— Você viu isso? Foi quase! — disse Userkaf, com prazer em sua voz, não deboche.
Itou girou devagar, ajustou seus pés no chão e manteve a espada baixa. Seu olhar perseguiu o jovem inimigo recuar de volta ao palco.
— 'Quase' não vai te levar a lugar algum. — respondeu o samurai.
Userkaf inclinou a cabeça, seus olhos cerraram-se enquanto visava seu adversário.
— Estranho você não correr atrás de mim. Todos os outros correm.
— Por que eu faria isso? Da forma que estou é mais vantajoso.
— Veremos até onde sua vantagem dura!
O egípcio avançou novamente, mais rápido, mais próximo. As lâminas se encontraram no último instante, o choque sonoro se dispersou pelo teatro vazio. Itou recuou apenas o suficiente, e rebateu o adversário para longe.
— Fingindo não se esforçar? — provocou Haisoku, ofegante. — Porque eu estou me divertindo.
— Você luta como se estivesse em frente a uma plateia. Deixa eu te dar uma dica: não tem ninguém te assistindo.
— Não há beleza em um combate sem performance!
— Um combate não deve ser belo, deve ser definitivo. Você está aqui para me dar uma morte honrada, te direi em que acredito: não existe honra na morte. Seu corpo te abandona, as estrelas desaparecem, e você respira pela última vez. É assim que termina.
— É uma forma chata de ver o mundo. Eu não gosto dela. — Userkaf fez uma cara emburrada.
— Assim como eu, ela também incomoda muita gente. Agora venha, vamos terminar logo com isso. — O samurai ergueu sua espada, preparado para retornar à ação.
Userkaf acelerou com tudo. Ele correu, girou, entrou e saiu do alcance, em uma tentativa de impor seu ritmo à força.
As cadeiras continuaram a voar, vítimas colaterais de pés que mal tocavam o solo. Perante a velocidade do egípcio, o teatro se tornava pequeno demais.
Mesmo assim, Itou manteve o seu ritmo. Defendia no momento exato, sem pressa ou excesso. Fosse por centímetros ou milissegundos, cada golpe era bloqueado ou aparado.
Era o suficiente para negar seu oponente sem humilhá-lo, mas o jovem começou a se irritar de qualquer maneira.
— Qual é o problema? — rosnou Userkaf, antes de afastar-se após mais uma defesa limpa. — Eu sou mais rápido que você. Por que não consigo te acertar?
— Suas pernas são rápidas — respondeu Itou. — Seus braços, nem tanto.
O ataque seguinte veio logo após o fim da fala, mais pesado e menos técnico. Asaboshi interceptou o golpe facilmente com um giro. O impacto fez com que seu adversário perdesse parte do equilíbrio.
— Além disso, não importa o quão rápido seja — continuou o samurai, como se explicasse a uma criança. — Você ainda é um amador.
— Besteira! — retrucou Haisoku, antes de avançar novamente.
Defendido outra vez. E então outra. O aço soava repetitivo, quase didático; cada bloqueio tornava-se uma correção silenciosa.
— Se anunciasse seus ataques em voz alta, provavelmente seria mais difícil de adivinhar. — Itou recuou em um passo calculado.
— O que quer dizer com isso? — Userkaf parou, e o semblante de raiva em seu rosto se desmanchou.
— Você é rápido, admite-se. Mas telegrafa todos os golpes. Antes mesmo de atacar, seu corpo já entrega o que você irá fazer: ombros, respiração, quadril. Em vez de reagir ao golpe vindo em minha direção, meu cérebro reage antecipadamente graças a esses sinais.
— Se é tão bom assim, então por que não me derrota?
— Estou esperando.
— Esperando pelo quê? — O egípcio levantou uma sobrancelha.
— Você errar. — O policial abriu um sorriso malicioso no rosto. — E, como todo amador, você eventualmente irá errar.
O orgulho ferido do adversário falou antes da razão. Quando ele disparou novamente em direção ao samurai, não havia mais diversão em seus olhos, apenas pressa.
Itou deu meio passo para o lado. Era o suficiente.
A lâmina do samurai ascendeu em um arco curto, e sem floreio, atingiu o pulso do adversário. O impacto não foi violento, mas significativo. A força de Userkaf dissipou-se no ar; sua arma escapou de seus dedos e deslizou pelo chão.
O egípcio tentou recuar, ainda confiante em suas pernas. Mas não houve tempo, Itou já ocupava o espaço interno de sua guarda, próximo demais para que a velocidade se tornasse apenas uma abstração. O punho do samurai avançou, seco e direto, e encontrou o plexo solar de Haisoku.
O som foi surdo. O ar abandonou os pulmões do jovem de uma só vez. Ele caiu de joelhos, seu corpo dobrado, sua testa próxima ao chão. Suas mãos buscavam apoio, mas encontraram apenas cansaço. A luta acabou.
Itou manteve sua espada baixa, atento, sem pressa alguma.
— Eu... eu não quero morrer para alguém que não acredita em honra. — disse Userkaf, com um olhar decepcionado. — Alguém que luta sem algo pelo qual acreditar.
O samurai aproximou-se do inimigo caído. Seu rosto não trazia desprezo ou convicção, apenas indiferença.
— É aí que você se engana. Honra não passa de um conceito. Eu não luto por conceitos.
Haisoku escutou em silêncio. O teatro agora dava palco para o policial e seu discurso.
— Luto por aquilo que é palpável. Um senhor que apenas quer voltar para casa. Uma criança que não entende por que sente medo. Se isso não é motivo suficiente… então você nunca entendeu porquê carregamos a espada.
— É... justo... — O corpo de Userkaf desistiu antes de sua vontade. Seu orgulho caiu, junto de seu corpo, inconsciente.
Itou embainhou sua espada.
"Eu devia começar a cobrar por essas aulas." sugeriu o samurai.
Não demorou muito para que o teatro começasse a ranger. Os estalos vieram das paredes, longos, irregulares, e o cheiro de fumaça infiltrou-se nas narinas do policial como um aviso tardio. Tornava-se claro que aquela vitória não seria o fim da missão.
Os passos pesados de Harada anunciaram sua chegada antes mesmo de sua silhueta aparecer por completo. Através de uma abertura na parede, o monge surgiu junto com a fumaça.
Sobre seus ombros largos, carregava o corpo inconsciente do homem mascarado.
— Te achei! — disse Harada, com um sorriso no rosto.
— Você sabe que estamos no subterrâneo, não é? — questionou Itou, direto. — Sair quebrando paredes não é uma boa ideia.
— Ih, foi mal. É que eu não tava achando nenhuma saída. — O monge deu de ombros.
— Além disso, por que o lugar inteiro está pegando fogo? Na verdade, esquece. Eu já consigo imaginar.
O teto estalou acima deles e, em seguida, um pedaço de reboco despencou perto do palco.
— Temos que sair daqui — falou Asaboshi. — Agora.
— Vamos nessa! — Harada fez um joinha.
— Já que está carregando lixo, por que não leva aquele ali também? — Itou apontou para o egípcio desacordado.
O colosso aceitou a sugestão sem pestanejar. Agachou-se com cuidado e passou um dos braços livres sob o torso do jovem. Harada agora carregava dois corpos como se fossem sacos de farinha.
O palco central despencou, e a abertura por onde Userkaf havia entrado em cena foi revelada. Itou apontou sem dizer nada, e Harada entendeu. O monge foi primeiro, equilibrando os dois inconscientes enquanto buscava não ficar entalado.
Eles correram por um túnel subterrâneo que os levou novamente ao salão principal. O luxo vitoriano já havia começado a encontrar o seu fim; rachaduras serpenteavam pelas paredes claras, e os lustres balançavam como pêndulos. O cheiro de fumaça dominava o local, pesado e sufocante.
— Ei… — Harada quebrou o silêncio, com esforço para não inalar a fumaça. — E o dono da casa?
Itou não desacelerou o passo.
— O importante agora é sairmos vivos.
Uma viga despencou atrás deles, e o chão por onde haviam passado começou a colapsar. O aviso era claro, e eles não tardaram em correr para fora.
O edifício colapsou sobre si mesmo assim que os samurais pisaram no jardim esmeralda, agora coberto pela fuligem. Os dois observaram por um instante, em silêncio.
— Se eu disser que foi sem querer, você me defende? — Harada coçou a nuca.
— Não.
— Justo. — O monge riu.
Passos suaves se aproximaram pela lateral. A empregada surgiu intacta, com o uniforme limpo demais para o cenário. Ela segurava uma bandeja de chá nas mãos, como se nada tivesse acontecido.
— Acho que terei que procurar outro emprego — disse, educada. — Gostariam de outro chá?
Harada, claro, abriu um enorme sorriso e estendeu a mão. Itou esbofeteou a bandeja antes que os dedos do colosso pudessem tocá-la e, no mesmo movimento, puxou a mulher pelo colarinho.
— Onde está Yamada Eigun?
— Ei, pra quê isso, pô — comentou Harada, em desaprovação da atitude do companheiro.
A bandeja caiu, e as xícaras se partiram no solo.
— Eu… eu não vi o senhor sair — respondeu ela, assustada. — Ele mandou que eu o aguardasse aqui.
Itou se acalmou e então soltou a mulher com delicadeza. Seus olhos se voltaram para os escombros em chamas.
Por um instante, considerou a possibilidade.
E, pela primeira vez naquele dia, não encontrou uma resposta imediata.
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