Volume 1
Capítulo 5: O Máscara Negra
Após a queda, Itou acordou com a vista ofuscada por um clarão branco. A luz do refletor o obrigava a semicerrar seus olhos. Quando sua visão se ajustou, percebeu estar em uma poltrona macia e coberta por poeira. Ele estava em uma fileira, cercado por assentos vazios, esqueletos silenciosos de um público extinto.
“Por que há um teatro embaixo dessa casa?”, pensou, enquanto limpava a sujeira do uniforme.
Sem pressa, ele se levantou, e com os olhos buscou a silhueta imensa de seu companheiro. Nada. A ausência de seu amigo tornava o teatro ainda mais vasto, como se tivesse engolido o som junto a ele.
A luz se concentrava no palco central, não havia atores ou cenário, apenas o chão de madeira. Os holofotes faziam com que a poeira dançasse no ar, lenta como uma neve preguiçosa.
O som agudo e estridente de microfonia varreu o salão, antes da voz de Yamada brotar dos alto-falantes antigos.
— Seja bem-vindo, conselheiro. Ignore a bagunça, esse teatro já não é usado há um bom tempo.
Itou cruzou os braços.
— Por que me trouxe até aqui? Pretende me fazer assistir a uma peça?
— Na verdade, eu pretendo dirigir a sua última — disse Yamada, com uma leve satisfação na voz. — Por consideração à sua posição de samurai, te darei a chance de morrer com honra. Em combate.
Itou respirou fundo, já entediado com aquela performance.
— É mesmo? E se eu vencer?
Yamada riu. Sua risada viajou pelo teatro com certa alegria, como se ele ansiasse por aquela pergunta.
— Então morrerá sem honra. Eu não poderia me importar menos com ela, apenas a usei como desculpa para me entreter com seu fim.
O piso do palco desenhou um círculo perfeito, e após um chiado, começou a girar para dentro. Um alçapão se revelou, e um elevador ergueu-se lentamente do subsolo. Quando enfim alcançou o nível do palco, uma figura revelada tomou toda a luz para si. A primeira coisa que o destaca é o contraste entre a sua pele morena e as cores vítreas do kimono amarrado em sua cintura. Seu torso definido permanecia exposto, um feito de disciplina extrema para alguém tão jovem.
— Itou Asaboshi — disse ele, com admiração pelo nome — Finalmente.
— Finalmente? O que é você? Um fã? — indagou Itou, ainda de braços cruzados.
— Eu me chamo Userkaf. Userkaf Haisoku, sou o homem mais rápido dos céus.
Itou suspirou, sua paciência era cada vez menor.
— Tá bom, lembre-me de arquivar sua ficha na pasta de ‘pessoas irrelevantes’.
Userkaf sorriu, mas seu sorriso não chegou aos olhos. Ele passou a mão em seu cabelo arroxeado, repartindo sua franja tingida de amarelo vibrante.
— Um pouco grosso, não é? Não esperava menos de alguém conhecido por ser a “Estrela da Sorte” da Shinsengumi.
— Não devo simpatia àqueles que se opõe a mim. — O conselheiro desembainhou sua espada, seus olhos tornavam-se afiados.
Yamada interrompeu o diálogo com uma risada, seguida por um comentário:
— Muito cuidado, Conselheiro, a soberba costuma ser a ruína de muitos.
Antes mesmo que Itou tivesse a oportunidade de respondê-lo, a voz de um subordinado ecoou pelos alto-falantes na sala de Yamada. O anfitrião escondeu seu sorriso e se inclinou até a mesa de controle, irritado pela interrupção de seu teatro.
— Patrón, pode me ajudar aqui? — Solicitou o subordinado.
— O que houve, Máscara Negra?
— É melhor o senhor ver a câmera…
A sala exibida em seu monitor mudou do teatro para uma biblioteca antiga. Tomada por estantes altas que se erguiam como gárgulas, contendo livros desgastados pelo tempo. No centro, havia uma mesa partida. Sobre a mesa estava Harada, o gigante adormecido. Ao lado do monge estava a figura que havia comunicado Yamada.
Cabelo branco, cortado bem curtinho, com manchas negras espalhadas de forma uniforme. Seu traje era um tanto formal, uma camisa social branca e um colete xadrez fechado no peito. Tudo isso contrastava com a máscara asteca negra que cobria o seu rosto.
— Eu achei que ele estava desacordado com a queda, mas el hombre está dormindo.
O ronco preencheu os alto-falantes, vibrando pelas paredes da sala de controle. O anfitrião cobriu seus olhos com a mão, ele não podia acreditar na cena. Todo seu planejamento teatral tinha ido por água abaixo graças a uma peça imprevisível.
— Bem, tente acordar ele. — Ordenou Yamada.
— Entendido, patrón.
O máscara negra aproximou-se do colosso dormente, esticou a ponta da sua bota e deu um chute leve no enorme monge. Nenhuma reação. Ele então tentou o ombro, a costela e as pernas. Nada, a criatura gigantesca continuava imóvel, entregue a um sono que o mundo parecia incapaz de interromper.
— Não está funcionando, jefe.
O anfitrião soltou um longo suspiro.
— Deixe-me tentar algo...
Yamada aumentou o volume dos alto-falantes na sala, aproximou seus lábios do microfone, e então berrou:
— HAMBÚRGUER GRÁTIS!!!
O corpo adormecido de Harada reagiu como se tivesse sido atingido por um trovão. Seus olhos se abriram, e ele saltou da mesa destruída como uma bala de canhão.
— CADÊ!? — berrou o monge, com a visão e olfato intensificados.
Ele olhou ao redor, confuso, como um urso que havia acordado no meio da primavera.
— Hum? Onde é que eu tô?
O Máscara Negra apresentou-se com uma mesura, dando ao gigante as boas-vindas.
— Bienvenido, cabrón.
— Ah, eai. — respondeu Harada, enquanto coçava a careca.
O anfitrião respirou fundo, recompôs a postura. E tentou recuperar o clima solene, embora soubesse que sua peça já havia descarrilhado.
— Harada Kurosuke, o grande monge! Você deve estar se perguntando a razão de estar aqui.
— É, eu perguntei já.
— A mesma oportunidade que dei ao seu companheiro, concederei também a você. Uma morte honrada em combate.
— Que isso mano, bora conversar.
— Não há o que conversar, a Shinsengumi é minha inimiga, e deve ser exterminada.
— É só não ser ruim que a gente não vem atrás de você.
O anfitrião piscou devagar, ele havia sido atingido por uma lógica tão absurda que seu cérebro chegou a travar.
— Quanta ingenuidade, acha que alguém é capaz de ser o número um sendo somente excepcional? Não, todos aqueles que estão no topo precisaram sujar suas mãos para chegar lá.
— Mentira, olha o Michael Jackson.
A biblioteca ficou muda. A sala de controle também.
— Ele tem razão, jefe, Michael era un chingón. — concordou o Máscara Negra enquanto alisava o próprio queixo.
O anfitrião perdeu a paciência de vez. Endireitou-se na cadeira e cortou o assunto para não ouvir mais bobagens.
— Que seja. Máscara Negra, faça o que te contratei para fazer.
— Sale.
De suas costas, o homem de máscara negra puxou um macuahuitl, uma clava asteca ladeada por lâminas de obsidiana. Harada inclinou a cabeça, curioso, ele nunca havia visto uma arma como aquela. Era como se tivesse sido roubada de algum museu.
— Que arma maneira. — comentou o monge, sem demonstrar qualquer preocupação.
— Gracias. É uma das armas de meus ancestrais. Macuahuitl. Suas lâminas de obsidiana são tão afiadas que podem decapitar um cavalo com um único golpe — O mascarado performava golpes no ar durante sua explicação.
Harada observou o balé ameaçador da arma e deu um sorriso idiota.
— Que bom que eu não trouxe nenhum cavalo.
— Não, cabrón, o que estou dizendo é que ela tem poder para decapitar um cavalo.
— E você acha que eu sou mais fraco que um cavalo?
O mascarado apertou o cabo da arma, sua voz tornou-se mais grave.
— É o que veremos.
O mascarado avançou. Seus golpes estavam carregados de intenção, com força suficiente para fatiar uma enorme árvore. Harada levantou o antebraço e recebeu o impacto da lâmina, que adentrou apenas milímetros em sua carne.
O mascarado encarou a arma, boquiaberto. Como os músculos de uma pessoa poderiam ser densos o bastante para deter um material tão afiado?
— Vou precisar de um band-aid. — debochou o monge.
O mascarado cerrou os dentes e atacou novamente. A clava zuniu no ar com cortes sucessivos; Harada desviava de um, enquanto o outro lhe acertava a barriga. As estantes tremiam com a movimentação do gigante.
"Como é possível? Mesmo sendo tão gordo e pesado, ele continua rápido o suficiente para desviar dos meus golpes!" pensava o mascarado.
O Máscara Negra apressou o passo, com um golpe baixo que raspou a coxa do gigante. Outro veio logo atrás, em direção ao pescoço. Kurosuke defendeu no último instante, e a lâmina abriu sua pele como papel grosso.
O sangue escorreu devagar. Pela primeira vez, o inimigo sorriu por trás da máscara.
— Pelo visto, até mesmo você pode sangrar — disse, com a respiração pesada.
— Ninguém é de ferro, né — respondeu Harada.
Dessa vez, o monge tomou a iniciativa e avançou. Cada passo empurrava o adversário para trás, reduzindo cada vez mais seu espaço. A clava se movia com precisão, em busca de brechas para atingir o alvo.
— Afoba não — comentou Kurosuke, de forma casual. — A mão treme se você ficar nervoso.
A fala não tinha más intenções, mas o mascarado a tomou como provocação. Ele rosnou, girou seu corpo inteiro, e a clava atingiu o ombro de Harada com força suficiente para colocá-lo de joelhos.
O Máscara Negra ergueu a arma. Era a única oportunidade que tinha de finalizar o oponente. Harada levantou o rosto; seus olhos, em contraste com a pele escura, não carregavam raiva, apenas determinação.
Quando o mascarado tentou baixar a arma, ela não se moveu. A mão de Harada segurava o cabo com firmeza.
— Por que continuar com isso? — perguntou o samurai, de forma honesta. — Isso não vai terminar bem para nenhum de nós.
— Si no termino el trabajo, no cobro. — respondeu o mascarado, antes de chutar o inimigo para longe.
O monge soltou a arma e recuou. Uma estante atrás dele tremeu perigosamente.
— Se você quer dinheiro, pode entrar na Shinsengumi — disse Kurosuke, limpando a sujeira do chute em seu uniforme.
— ¿Y trabajar honestamente? Seis dias por semana? Nunca.
— Na verdade, são sete.
— Madre mía... é pior do que eu pensava.
— Depois não diga que eu não tentei!
A luta prosseguia, e o monge fazia pouco esforço para lutar contra seu adversário. No entanto, a tremedeira constante foi suficiente para que uma das lamparinas caísse sobre a velha tapeçaria. A chama se alastrou pelo tecido com uma alegria perigosa.
— Ih. — Harada murmurou. — Isso aí não é bom.
— ¡Concentración! Gordo! — rosnou o mascarado.
— Tu que derrubou a parada aí, mano.
O calor se espalhou rapidamente pela biblioteca; afinal, papel e madeira são os aperitivos preferidos de Xiuhtecuhtli. O mascarado deu um passo para trás, incomodado com o avanço das chamas. Harada avançou pelo fogo como se fossem apenas cortinas.
A hesitação do mascarado ao ver a cena era a abertura que o monge precisava. Com um simples puxão, ele tomou a arma das mãos do oponente.
— Vou pegar isso emprestado. — Anunciou, com um sorriso no rosto.
Antes que o mascarado pudesse reagir, Harada o atingiu no peito com a parte contundente da clava. O golpe soou como um tambor oco. O capanga foi arremessado para trás, colidiu com uma estante de livros e terminou soterrado por eles.
— Touchdown! Não... esse é outro esporte. Ah, sei lá. — murmurou Kurosuke, confuso como sempre.
Em meio à floresta de chamas, Harada percebeu que o fogo consumiria seu inimigo desacordado.
— Não posso simplesmente deixar o cara...
Ajoelhou-se, afastou os livros caídos com cuidado desproporcional e verificou a respiração do homem. Ainda estava vivo. Com facilidade, colocou-o sobre o ombro largo e se levantou. O peso não o atrasou.
A biblioteca rangia, prestes a desaparecer, enquanto as cinzas caiam como neve negra. Ele caminhou pelo incêndio enquanto as chamas continuavam a se espalhar. As paredes rasgavam com o fogo, mas não encontravam espaço na pele do monge.
Sem olhar para trás, Harada deixou o salão em chamas, com mais um problema que se recusava a deixar morrer.
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