Volume 1
Capítulo 4: Yamada Eigun
O vento em Hikari Heights nunca tocava o chão. No distrito dos arranha-céus, a evolução ocorria a centenas de metros do solo. No meio dos gigantes edifícios, o Palácio EIGUN erguia-se como um monólito pálido, quase como a estátua de uma divindade.
A cobertura se assemelhava a um templo moderno: o piso marmóreo, as paredes translúcidas e o céu como teto. Yamada Eigun observava o distrito do alto, suas mãos apoiadas no parapeito. Sua sombra se alongava sobre a cidade como o ponteiro de um relógio, que não marcava horas, mas poder.
Atrás dele, as portas automáticas abriram-se com um assobio suave.
— Finalmente te encontrei. O que está fazendo aqui? — A voz era tranquila, educada. Era Yuki, o vice-presidente da EIGUN, braço direito de Yamada.
— Contemplando. — respondeu Yamada, sem virar o rosto. — O vento está forte hoje.
— É um bom sinal. — disse Yuki. — Significa que o céu ainda se move.
Yuki se aproximou mais um pouco, mas manteve uma distância respeitosa. Ele vislumbrou o horizonte, poucas torres erguiam-se tão altas como aquela.
— Está tudo bem com Otatsu? — Yuki perguntou, enquanto ajeitava seus cabelos escuros.
— Está ótimo. — O presidente sentou-se em uma mesa próxima. — Foi ideia sua enviá-lo, então devia saber melhor do que eu.
Yuki sorriu. Um sorriso desajeitado, mas totalmente calculado.
— É verdade, como posso ser tão esquecido? Porém, fico feliz, pois a semente já está sendo plantada na Britânia.
— Corte o papo furado. Sei que está aqui por outro motivo. — Yamada pôs chá em duas xícaras na mesa. — Sente-se.
O vice-presidente puxou uma cadeira, acompanhando seu chefe. Ele deu um gole demorado em seu chá, a expectativa crescia a cada segundo.
— A Shinsengumi fez uma visita inesperada à nossa fábrica da TSS. — disse Yuki, pondo a xícara de volta no pires.
O vapor do chá ergueu-se como um véu em meio a dupla.
— E o que levaram? — perguntou Yamada, com um olhar fixo no seu companheiro.
— Confiscaram um disco rígido. Continha registros de fornecimento, contratos, quantidades, valores. Nada comprometedor, mas... inconveniente, dependendo de quem o analise.
— Eles acreditam que podem me tocar. — Yamada deu um breve riso.
— É o trabalho deles acreditar.
— Esta empresa foi fundada para demonstrar a grandiosidade do povo japonês. Eu ergui essa torre para provar o quão superior nós somos. — Yamada se levantou de forma brusca, quase teatral.
Yuki ouvia, ciente de que havia sido o primeiro a colocar as pedras daquele império.
— Essa nação esqueceu o que sempre foi: poderosa, corajosa, virtuosa. — Continuou o presidente. — A Shinsengumi é hoje o reflexo do que nos tornamos: fracos, obedientes, domesticados.
— Então... — Yuki limpou a garganta, e retornou ao assunto anterior. — A Shinsengumi virá atrás do senhor, o que faremos?
Yamada se virou, com um olhar determinado.
— Deixe que venham. Quero que saibam como é enfrentar um homem que acredita em um ideal.
— Compreendo… — O vice-presidente cruzou as mãos. — Então farei os preparativos para a grande recepção.
— Faça como achar melhor. Apenas se certifique de que sejam punidos. — Ele ergueu o queixo, satisfeito.
Yuki se levantou, e fez uma leve reverência.
— Certamente. — Sua voz tinha a doçura de alguém que determinava destinos.
As portas se fecharam atrás do vice-presidente quando ele saiu, e o silêncio retornou a cobertura. Yamada continuou em frente ao vidro, a admirar o próprio reflexo.
Ele não percebeu, e talvez nunca perceberia, que o verdadeiro espelho estava do outro lado da sala, vestindo terno cor de vinho e sorrindo por dentro. A história já nos ensinou que os maiores impérios ruíram por dentro.
Em meio à sala escura, algo vibrava constantemente. O som era nada mais do que a respiração da eletricidade. Um computador antigo brilhava diante de Itou Asaboshi, sozinho no cômodo. A tela era um olho: piscava, tremia. Sinais de uma tecnologia decadente.
Seus dedos digitavam com precisão cirúrgica, bisturis de carne e nervos em uma dissecação virtual, camada por camada. Não havia raiva nem pressa, apenas método. Paciência: a forma mais pura de violência.
Na parede, o símbolo desgastado da Shinsengumi parecia observá-lo. Itou, porém, não acreditava em símbolos. Acreditava em evidências, mas elas, assim como os homens, também são capazes de mentir.
Finalmente, atingiu a última camada. O sistema se abriu, e uma floresta de arquivos foi revelada. Tabelas, transferências, relatórios... burocracia exagerada, o perfume perfeito para disfarçar o cheiro de sujeira.
Ele filtrou as palavras-chave:
Tríade
Nada.
Zhulong
Nada.
TSS
Finalmente, um nome veio à tona, repetido demais para ser mera coincidência:
EIGUN Industries.
Itou parou. Recostou-se na cadeira, a expressão desgostosa de sempre em seu rosto. Por dentro, comemorava: estava cada vez mais próximo de seu objetivo.
A luz fria da tela refletia em seu rosto. A cidade não seria capaz de esconder seus mistérios para sempre, pois os números nunca mentem.
A Tríade recolhia o lixo, e o império de EIGUN o transformava em ouro. No fim, aqueles que se chamavam de visionários eram sustentados pelo lixo dos homens nas sombras.
Ele copiou tudo para um disco de dados. Com alguns comandos, limpou todos os rastros.
A tela do computador se apagou, havia sido silenciada.
Itou levantou-se e saiu.
Restou somente uma cadeira, a girar lentamente atrás dele.
As máquinas revelam aquilo que os homens são incapazes de confessar. Mas Itou sabia que toda confissão possuía um preço a se pagar.
O quartel general da Shinsengumi era uma fortaleza viva. Ali dentro, cada divisão possuía seu próprio território, um pequeno mundo dentro da ordem. Algumas exalavam o cheiro de metal e suor, outras de incenso e silêncio. Mas a décima divisão era diferente.
O conselheiro atravessou a ponte que ligava o quartel à décima divisão. O som distante de risadas femininas o guiava até o portão torii negro, decorado com sinos e fitas. Os sinos soavam insolentes, como se zombassem da austeridade do restante do quartel.
Além do portão, a atmosfera mudava. O espaço deixava de ser militar e tornava-se um santuário. Enormes colunas mantinham de pé o templo principal, cortinas de seda desciam dos tetos altos. Estátuas de gatos de porcelana observavam o visitante.
No salão principal, iluminado por luzes suaves, que projetavam reflexos dourados nas paredes, repousava Harada Kurosuke. Deitado em um sofá circular.
Ao redor dele, sacerdotisas — todas jovens, belas, de orelhas felpudas e bustos rotundos. — O serviam frutas com disciplina.
Itou permaneceu de pé por alguns segundos. Aquele lugar era um insulto à sua seriedade.
Uma sacerdotisa se aproximou e inclinou a cabeça com um sorriso cerimonioso.
— Boa tarde, conselheiro — disse ela. — O capitão está em meditação profunda.
— Está em digestão profunda, isso sim. — Itou respondeu, olhando para o gigante comilão.
Harada abriu um enorme sorriso ao ver o seu companheiro.
— Ah, Itou! Como vai, meu querido?
— Indo. — respondeu Itou. — Preciso de você para uma missão.
— Agora?
— Agora. Estamos indo até Sublime Teien.
— Recomendo levar um incenso. Dizem que lá o ar tem cheiro de mentira. — comentou uma sacerdotisa.
— Hm, o comandante já está sabendo? — Harada coçou a careca.
— Não, mas eventualmente saberá.
Harada levantou-se do sofá. O capitão era uma presença impossível de ser ignorada. Seu rosto liso e cabeça raspada acentuavam sua estrutura masculina desproporcional, como se a natureza tivesse exagerado em seu molde.
Sua pele, escura como obsidiana, era fruto de uma condição genética rara chamada Melanofortis. A anomalia produzia uma pigmentação intensa e inibia a miostatina, o que fazia de seus músculos algo fora da escala humana.
Seu corpo largo lembrava o de um lutador de sumô, com sua gordura aparente a esconder seus músculos densos.
— Você sempre me leva nessas suas encrencas. — Kurosuke resmungou, enquanto se espreguiçava.
— É porque você sobrevive a elas. — Asaboshi respondeu, seco.
— É por isso que você gosta de mim?
— Eu gosto do silêncio. E você é o oposto dele.
Harada deu uma gargalhada final, pegou o uniforme jogado no sofá e o vestiu.
— Então vamos fazer uma baguncinha.
As sacerdotisas os acompanharam até o portão, enquanto abanavam as mãos.
— Que o deus gato os guie. Ou pelo menos se divirta vendo o desastre!
Os dois seguiram lado a lado, as espadas refletindo a luz dourada que saía das lâmpadas do teto. O som dos passos se misturava ao murmúrio distante do quartel. A cidade suspensa os aguardava, a dormir sob o disfarce da normalidade.
Em meio às diversas mansões no horizonte de Sublime Teien, a de Eigun se destacava como um monumento. Suas paredes em pedra branca, vitrais coloridos e o portão de ouro ornamentado contrastavam com o restante do distrito. Uma ruína europeia, que se recusava a admitir o tempo. Um delírio de opulência em meio aos céus.
Harada observava a fachada enquanto subiam as escadas.
— Eita casarão bonito!
— Não se engane por aparências. Na natureza, o que é chamativo costuma ser venenoso. — Itou respondeu.
Em frente a porta, antes mesmo que pudessem bater, ela se abriu. Uma mulher de rosto impassível os recebeu, com um sorriso ensaiado e uma voz suave.
— Policiais, o senhor Eigun está à sua espera.
— Eita. Isso não pode ser bom... — Kurosuke coçou o queixo, suspeito.
— Pelo contrário, isso é ótimo. É uma confirmação das nossas suspeitas. — Itou comentou, e seguiu casa à dentro.
Conforme adentravam, o perfume de flores artificiais permeava as narinas. O interior era um templo da avareza; tapetes persas, colunas douradas e bustos de mármore gritavam riqueza. Mas, ao mesmo tempo, emanavam enorme pobreza.
O salão principal era amplo, um lustre de cristal derramava luz sobre o redondo tapete carmesim. No centro, Yamada Eigun os aguardava, sentado em uma poltrona chique. Vestia-se todo de branco, com seu cabelo penteado para trás.
— Shinsengumi! — disse ele, com os braços abertos e um sorriso falso em seu rosto. — A que devo a honra?
Os policiais pararam diante dele. Outra empregada se aproximou, a segurar três xícaras de chá em uma bandeja de prata. O vapor espiralava no ar, com seu aroma leve e convidativo.
— Fiquem à vontade. — Yamada brandiu a mão em direção a bandeja.
Harada, que nunca recusava uma fonte de calorias, pegou a xícara com empolgação.
— Ahh, valeu!
Antes que pudesse dar um gole, Itou esbofeteou a xícara de suas mãos. A porcelana voou até colidir com o chão, o líquido correu pelo tapete e formou uma mancha escura.
— Oxi, meu chá mano!
Itou agarrou a outra xícara da bandeja, ergueu-a no alto diante de Yamada e a virou, derramando o seu conteúdo com uma expressão de desprezo.
Yamada não se irritou. Pelo contrário, riu baixo.
— Entendo sua preocupação, mas era apenas chá. — O anfitrião agarrou a última xícara e a bebeu tranquilamente.
— Você sabe porque estamos aqui, e não é para tomar chá. — disse o conselheiro, cada vez mais impaciente.
O anfitrião gesticulou para que os samurais se sentassem. Harada prontamente tomou um assento, o enorme sofá na sala, mas Itou preferiu continuar de pé.
— Eu imagino que vocês estejam aqui para me levarem sob custódia. — Yamada pousou a xícara em uma mesinha próxima.
— Exatamente, sendo o suspeito número um, você será levado a interrogatório.
— Eu me recuso. — disse Yamada, sem erguer o tom de voz.
— Se recusa? Não é um pedido, é uma ordem. — respondeu Itou, frio.
— Acha mesmo que pode prender alguém como eu? — O anfitrião inclinou-se para frente, os olhos firmes, a vaidade em cada sílaba. — Somente cães seguem ordens.
— Está querendo dizer que um cão é mais civilizado que você? Sem ordem, só resta a selvageria.
— Controle e ordem são necessários — replicou Yamada, o sorriso retornou ao seu rosto. — Estou apenas dizendo que sou aquele que segura a coleira, e não o que obedece.
Itou respirou fundo, farto de ouvir os delírios de Yamada.
— Sinto muito te dizer, camarada, mas você não é esse cara. E, para o seu infortúnio, dinheiro e prestígio não significam nada perante a minha justiça.
— Justiça? — Eigun levantou-se. Seus olhos em chamas. — Você acha que essa cidade flutua por justiça? Não. Ela flutua porque alguém pagou o preço. Você acha que está cumprindo a lei, conselheiro, mas serve aos mesmos homens que financiam meu império.
— Então irei pagar para ver se esses homens são capazes de te tirar de nossas celas. — Itou começou a caminhar em direção ao seu anfitrião.
— Estou decepcionado, conselheiro. Bastante decepcionado.
Com um olhar triste em seu rosto, Yamada estalou seus dedos. O chão se abriu embaixo dos policiais, não houve tempo de reação, eles foram engolidos.
O salão, a luz e o luxo, tudo havia… desaparecido.
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