Volume 1
Capítulo 3: Estágio Bônus.
Neon Hanamachi, o distrito do entretenimento que nunca dormia. As luzes vibrantes do neon corriam pelas ruas como veias expostas. Ali, entre os cassinos, bares de karaokê e cinemas, um fliperama se erguia como um templo do ruído.
Os telões piscavam, a exibir slogans antigos de jogos esquecidos. As máquinas zumbiam, sedentas por competição. Jovens de uniforme, velhos sem rumo e adultos vagabundos disputavam pequenas vitórias, mesmo que virtuais.
No fundo do corredor, sentado como um rei num trono, Saito Jomiru segurava o controle de um antigo jogo de luta. Os óculos rosados escondiam seus olhos, o corpo permanecia imóvel, e os dedos distribuíam golpes virtuais com precisão. O som dos botões transformava-se em uma melodia para quem soubesse ouvir.
As gêmeas Agu e Gao, da família Mon, estavam ao seu lado. Como sempre.
Agu mascava chiclete, enquanto batia o pé no ritmo da música. Gao manipulava um dispositivo portátil, obra própria, os dedos flutuavam sobre a tela tátil.
Ao fim da partida, o nome de Saito reluzia no placar digital:
WINDMASTER – 999,999 pts.
Porém, logo abaixo, seu rival perpétuo o superava por um mísero ponto.
SHADOWBUSTER – 1,000,000 pts.
Agu bufou, emburrada.
— Não é possível! De novo esse cara? Ele zerou todas as máquinas do fliperama, deve estar trapaceando!
Gao não tirou os olhos do dispositivo, a luz da tela separava seu cabelo em linhas geométricas.
— Você sempre acusa quem joga melhor. Isso diz mais sobre você do que sobre ele.
— Repete! — Agu agarrou Gao pelo colarinho, que continuou com sua expressão despreocupada.
Saito largou o controle, e a tela piscou: "STAGE CLEAR."
As duas imediatamente olharam para Jomiru, que se levantou devagar, ajeitou seu cabelo verde espetado e colocou sua jaqueta turquesa.
— Pause. — Anunciou ele, com a mesma expressão indecifrável de sempre.
Agu e Gao o seguiram até o beco lateral do fliperama. Ali, o barulho se dissolvia em um zumbido distante, restando apenas o som pacífico do vento. Saito sentou-se em cima de um grande contêiner de lixo, agarrou uma caixa de donuts que ali repousava. Junto de um energético, ele começou a repor suas energias.
— Capitão, enquanto você jogava, eu percebi algo estranho nos logs. Transições duplicadas. Créditos que entravam sem passar pela central.
Agu piscou diversas vezes, confusa, ela não fazia ideia do que aquilo significava.
— Tipo trapaça? Eu estava certa?
— Não, tipo lavagem. — respondeu Gao. — Dinheiro está sendo reciclado através dos torneios nos fliperamas.
Agu inclinou a cabeça, os dois grandes coques balançaram como antenas inquietas.
— Por que alguém lavaria dinheiro? Não vai estragar?
Saito engoliu um donut.
— Next.
— Fliperamas atraem apenas aficionados. Torneios pagam prêmios em dinheiro. O setor mantém grandes quantias fora do radar. — Gao destacou os números na tela. — Fluxo suficiente para alimentar uma empresa enorme.
Agu abriu a boca, surpresa com a quantidade de zeros.
— Quanto dinheiro! Para quem vai tudo isso?
— Não para quem. Para onde. — Gao ajeitou uma mecha curta atrás da orelha e rolou a página. — Indústrias EIGUN.
Em meio ao silêncio da revelação, o vento desenhou um círculo no ar, quase perfeito.
— Essa não é aquela grande empresa que fabrica armamentos? — Agu alisou o queixo.
— E não apenas. EIGUN é a segunda maior produtora de lâminas, atrás da ASTRA. E parece que estão tentando trapacear para tomar o primeiro lugar.
— Cheaters. — Saito cuspiu no chão.
— E há mais. — Gao deslizou o dedo pela tela, com destaque a um nome. — As remessas não vão direto para eles. Passam por uma empresa intermediária: Tokyo Sky Services. Uma fachada, somente um endereço físico e algumas contas fantasmas.
Saito saltou do contêiner, e ajustou as mangas da jaqueta, que destacavam as palavras “EGO” de um lado e “AURA” do outro.
— Hora de um estágio bônus.
— Sigam-me os bons! — berrou Agu, dando pulinhos para fora do beco.
BONUS STAGE!
A fábrica da Tokyo Sky Services era grande, cercada por containers amarelados pelo tempo. Saito empurrou o portão, que rangeu ao abrir, a evidência de um certo nível de abandono. Agu e Gao o seguiram de perto, cada uma com seus comentários singulares.
— Setor livre, capitão! — disparou Agu, enquanto usava suas mãos em formato de binóculos.
A construção era cercada por anúncios da EIGUN, alguns desbotados, outros meio rasgados. Mesmo assim, era possível ler seu slogan:
"A Verdadeira Lâmina Japonesa."
Dentro da fábrica, o ar era denso, empoeirado e de baixa qualidade. O odor era de óleo e ferrugem. Sucata, máquinas abandonadas e até mesmo veículos desmontados estavam por todo o lado. Mas, aquilo que chamava atenção era a pilha de caixotes em boas condições.
— Quanto loot! — brincou Agu.
— Observando os rastros no chão e as condições dessas caixas... Dá para afirmar que foram movidas recentemente. — Pontuou Gao, seus olhos em Saito.
Saito aproximou-se de uma das caixas e a abriu com cuidado, suspeito do que poderia estar dentro. O estalo das travas foi seguido pelo brilho frio do metal lapidado: katanas, tantos, wakizashis, todas prontas para uso.
Entre as lâminas, pequenas etiquetas com ideogramas vermelhos. Saito ergueu uma delas, e um símbolo triangular se destacou na iluminação.
— A vaidade realmente é uma vadia. A Tríade deixou assinatura. — Agu comentou, com um biquinho.
— E não somente. — Gao deslizou uma janela de dados com o dedo, como se o ar tivesse consistência. — Cada remessa da EIGUN passa por aqui antes de chegar à Tríade. Transporte triangulado. Risco mínimo de rastreio direto.
— EIGUN e Tríade. Um belo casal — comentou Saito, irônico. — O que seria o seu filho?
— I L E G A L! — respondeu Agu, com seu sotaque ligeiramente cantado. — Mas, por que alguém precisaria esconder tantas armas?
— Para que não saibamos que estão criando um exército. — Saito respondeu, e então levantou a mão, perceptivo. — Silêncio.
Faróis começaram a cortar o breu do galpão, e o ronco de motores se fez presente. Problemas haviam chegado, mas Saito já estava preparado.
As portas se abriram, e uma dúzia de criminosos adentrou no local. Roupas pretas, bijuterias e tatuagens brilhavam sob a luz dos caminhões. Um deles, mais valente do que esperto, percebeu a presença inesperada do policial, e berrou:
— Ei! Quem é você, desgraçado?!
Saito ergueu lentamente a cabeça, as sombras tornaram seu rosto mais ameaçador.
— Eu sou o Final Boss.
Um clique leve. Seus óculos piscaram. Então, a realidade derreteu por um instante na visão de Saito, e moldou-se em uma arena digital. O cenário era agora muito mais vívido, como em um mundo de videogame.
As duas wakizashi em sua cintura deslizaram da bainha, com um som afiado, diretamente para suas mãos.
— Gao, quantos pontos eles valem? — perguntou o capitão.
— Zero — respondeu ela, sem hesitar. — A diferença de nível é discrepante.
— Então vamos fazer uma speedrun.
Saito inverteu a posição das wakizashi, suas lâminas agora apontavam para o chão. Ele fechou os olhos e se concentrou, então respirou fundo e anunciou:
Tennen Rishin-Ryū: Vento Esmeralda.
A brisa no local se intensificou, e o vento que antes era refrescante, tornou-se cortante. O golpe foi um traço, depois outro. O verde serpenteou, cada corte deixava um vestígio de luz, como se o ar lembrasse onde ele passara.
O chão erodiu em rachaduras esverdeadas, os capangas tentaram se mover, mas caíram antes de perceber o que havia acontecido. Nenhum deles sequer teve tempo para gritar.
Quando o vento passou, o que restou no ar foi apenas um rastro prásino. A projeção se dissolveu, e o local voltou a ser só um armazém: poeira, cheiro de sangue e caixotes.
— É um novo recorde! Yay! — Anunciou Agu, em sua empolgação costumeira.
— O nível dos guerreiros em Tóquio é deprimente. Talvez um dia eu mude de servidor. — disse Saito, desapontado.
Saitou caminhou por cima dos corpos inconscientes, a cada passo os sensores dos óculos piscavam, realçando detalhes menores do ambiente.
— Gao. — murmurou. — Filtra o que restou.
As linhas verdes que flutuavam diante dele, tornaram-se códigos, planilhas e mapas. Entre eles, um fragmento piscava em vermelho.
— Ali ó. — Agu apontou. — Tem algo criptografado.
Saito aproximou-se de uma mesa e abriu uma gaveta, que revelava uma pequena maleta metálica. A fechadura digital era um sinal de que prometia algo. Enquanto ele colocava a maleta sobre a mesa, Gao já havia destravado a fechadura digital.
Dentro, um disco rígido vermelho, pesado como um segredo. A superfície refletia a luz vibrante dos óculos.
— Um disco rígido? Que retrô. — disse Agu, com uma lupa nos olhos.
— Apesar de defasado, é mais seguro que os dispositivos modernos. — Gao pontuou.
— Vai servir. — Expressou Saito, enquanto guardava o disco no bolso interno da jaqueta.
Então, o vento esmeralda, pela mesma porta que entrou, também saiu. E deixou para trás a destruição de um vendaval.
BONUS STAGE
CLEAR!
De volta ao fliperama, Saito sentou-se novamente. As luzes na tela dançavam como bailarinas holográficas, que refletiam em seus óculos. Ele digitou seu nome no ranking. As letras surgiram devagar, uma a uma, sem pressa.
O nome preencheu a tela e emanava autoridade. Era quase como uma assinatura mítica, um lembrete para todos que tentavam alcançar o mestre do vento.
Gao, apoiada na máquina ao lado, o observava com o olhar de quem estuda um fenômeno científico.
— Por que continua jogando o mesmo jogo há anos? — perguntou, a voz calma, analítica.
Saito não respondeu de imediato. A música eletrônica ecoava, um ritmo pulsante de um distrito que nunca dormia. O capitão sorriu, como se somente ele fosse capaz de entender, então respondeu:
— Porque ainda tem um oponente vivo.
Agu inclinou a cabeça, mastigando chiclete.
— O ShadowBuster?
Saito assentiu com a cabeça.
— Todo herói precisa de um vilão.
— E quando você o vencer? — questionou Gao, com seus olhos atentos.
— Game Over.
— Você fala como se a vida fosse um jogo. — Agu comentou, novamente de braços cruzados.
— Os jogos sempre se baseiam em alguma coisa.
Saito retirou o disco de dados do bolso da jaqueta, e o conectou a um computador próximo a máquina. O disco girou, e os dados foram enviados para um terminal.
— Gao, envia isso para o conselheiro Itou. — Saito ordenou.
— O da cara de tédio?
— Esse mesmo.
— Por que ele? — Agu se intrometeu.
— Ele gosta de puzzles.
— Tem certeza de que ele vai ver? Ele ignora todo mundo!
— Cada um tem seu charme. Jogos não seriam tão interessantes se todos os personagens fossem iguais. — Saito retornou sua atenção à máquina do fliperama.
A tela piscou. Um novo desafiante havia entrado. No placar, as letras tremiam em vermelho:
SHADOWBUSTER – READY?
Saito sorriu, estalou seus dedos e pressionou START.
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