Lobos de Mibu Brasileira

Autor(a): Suzuya


Volume 1

Capítulo 2: Zhulong

O relógio marcava quase duas da manhã. Do lado de fora, a cidade dormia tranquila após o incidente com o dirigível. Dentro do armazém, os criminosos exerciam suas atividades ilegais, empilhavam caixotes de madeira carregados com lâminas.

A luz amarelada das lâmpadas cintilava, penduradas por fios precários. As sombras de cinco homens ao trabalho projetavam-se no chão. O cheiro metálico das armas misturava-se ao de tabaco de má qualidade.

— Rápido, quanto mais cedo terminamos, mais cedo recebemos. O comprador quer tudo pronto até o amanhecer. — comentou um dos contrabandistas, e secou o suor da testa.

— Deveríamos cobrar mais caro, tá ligado? O mandachuva deve receber o triplo por essas armas. — Rebateu um deles, com o cigarro no canto da boca.

— Quer contrariar o Zhulong? Vá em frente. — respondeu, sem olhar.

— Ei, não fale esse nome!

Havia algo de amedrontador naquele nome, capaz de acender o medo no coração de qualquer criminoso. Somente sua menção bastava para silenciar todo o armazém, como se uma entidade sombria os observasse.

Retornaram ao trabalho. O homem do cigarro se agachou para erguer mais uma caixa. Desatento, não percebeu a sombra que se moveu por trás das colunas. O grunhido veio sem aviso, seguido pelo som de algo pesado a desabar.

A lâmpada piscou novamente, e a sombra atravessou o armazém. Três bandidos já estavam no chão, inconscientes. O último homem de pé tentou sacar a espada, mas foi rapidamente desarmado. Um punho atingiu-lhe o estômago com força e o colocou de joelhos.

Diante dele, a figura tomou forma sob a luz: Itou Asaboshi, o conselheiro da Shinsengumi. Um rapaz petulante, sempre disposto a fazer as coisas com as próprias mãos.

— Shinsengumi... que saudades do tempo em que vocês não existiam. — comentou o criminoso, suas mãos a envolver a barriga, que latejava de dor.

Itou iniciou sua investigação pelo local. Os cabelos trançados e acinzentados se moviam a cada passo.

— Sim, o tempo em que a escória como vocês podia andar livremente por aí. — Itou vasculhou documentos e papéis, até se deparar com um símbolo chinês. — Tríade...

De volta ao bandido, Itou o puxou pelo colarinho, suas mãos bronzeadas agarraram firmemente o tecido. O rosto do criminoso estava pálido, tremia de leve.

— Vocês da Tríade andam dando bastante trabalho, sabiam?

— Podemos dizer o mesmo da Shinsengumi. — O homem riu, rouco.

— Você vem comigo.

Itou encaixou as algemas no criminoso e desapareceu nas sombras ocasionais do armazém. Restou apenas o ruído das lâmpadas que balançavam.


A sala de interrogatório era pequena, propositalmente sufocante, com apenas uma fonte de luz no teto. As paredes de concreto pareciam encolher a cada instante, como se quisessem encurralar o criminoso.

Algemado à mesa, o homem da Tríade mantinha a cabeça erguida, mesmo com o sangue a escorrer pela sobrancelha. 

Itou permanecia diante dele, imponente, a observar como quem examina um inseto raro. O desdém em seu olhar era visível, mas ainda mais sua determinação.

— Para um conselheiro, você luta bem. — disse o criminoso, com um sorriso torto. — Mas você não vai conseguir nada de mim. Sou apenas um peixe pequeno.

Itou puxou a cadeira, virou o encosto e sentou-se. Um gesto calculado para impor dominância.

— Então me diga onde posso conseguir o maior peixe.

O homem riu.

— Como eu disse, não sou tão importante assim. Você sabe, o tipo descartável.

Itou deslizou um caderno de anotações na mesa.

— “Zhulong”. O que significa?

Pela primeira vez, o coração do criminoso acelerou. Antes de responder, engoliu em seco.

— Tá me achando com cara de chinês? Não faço a menor ideia.

— É mesmo? Então talvez sua filha saiba. O que ela vai pensar quando descobrir o verdadeiro trabalho do papai?

Ele cerrou os punhos e se projetou para frente com um berro.

— Canalha! Não a envolva nisso!

— Ela já está envolvida, lixo humano. Desde o momento em que você aceitou o dinheiro sujo da Tríade pela primeira vez.

— Desgraçado… — Encostou-se novamente na cadeira e retomou o discurso. — Zhulong é, supostamente, o líder da Tríade.

Itou arqueou a sobrancelha, curioso, e cruzou os braços.

— Supostamente?

— Ninguém nunca viu o cara. Ele é praticamente uma lenda. Muitos dizem que não existe, mas todo mundo já trabalhou pra ele.

— As ordens chegam de algum lugar. Seja de Zhulong ou do maldito Gengis Khan.

— As ordens chegam, o dinheiro também. As perguntas desaparecem, assim como aqueles que as fazem... Você pode interrogar todos os criminosos desta cidade, conselheiro, e ainda assim continuará sem a resposta que procura.

O conselheiro se levantou e apoiou as mãos sobre a mesa.

— Eu não acredito em historinhas criadas para amedrontar crianças. Eu terei minha resposta.

A lâmpada oscilou, sombras sendo lançadas sobre o rosto do prisioneiro.

— Ou ele terá você...

Itou se retirou da sala sem dizer mais nada.

O criminoso permaneceu imóvel na cadeira, o fôlego preso, como se respirar acordasse uma besta.

A luminária sobre a mesa lançava luz sobre uma única palavra escrita no caderno:

Zhulong.


No escritório do comandante, Kondo acariciava Tobi, seu coelho branco que parecia ter saído de um clássico da literatura infantil. O animal felpudo mordiscava uma cenoura semi-cozida e, quando enfim satisfeito, saltou para uma almofada, e desabou em um sono pacato.

Kondo sorriu. Às vezes, observar aquela pequena criatura era o momento mais relaxante do seu dia. Lá fora, tudo que restava era uma enorme cidade suspensa, imponente e inquieta. E na bancada, pilhas de papéis, contratos e documentos. Mesmo assim, o comandante se mantinha sereno.

A shoji deslizou, e Hijikata adentrou o escritório. Olhos cansados, ombros rígidos do dia anterior. Apesar de não sorrir, possuía um charme irritante: convencido de estar sempre certo, mesmo quando estava errado.

— Sua empreitada do dia anterior está me causando uma grande dor de cabeça, Hijikata — disse Kondo, com olhar firme.

Hijikata coçou o pescoço. Sabia que estava errado.

— Pelo menos ninguém morreu.

— Você colidiu um dirigível em chamas contra um prédio de doze andares, em uma área urbana! — Kondo ergueu um documento orçamentário, como enorme prejuízo à mostra. — Quem você acha que vai pagar por tudo isso?

— Tipo… o Shogun? — retrucou Hijikata. — Qual é, ele fundou uma cidade flutuante, dinheiro não é problema para o governo.

Kondo suspirou. Mantinha a postura, apesar da elegante fadiga de carregar a cidade nas costas.

— A cidade está flutuando em dívidas, Hijikata. Se a Shinsengumi continuar sendo um prejuízo, não posso garantir a continuidade da organização.

Silêncio. Tobi continuava a sonhar com seu paraíso de cenouras, alheio às burrices e problemas humanos.

— Eu preciso de você comigo, Hijikata — disse Kondo, calmamente. — Mas há um limite para tudo.

— Entendido, comandante.

Hijikata bateu continência, agarrou um bilhete de luta livre feminina sobre a mesa — cortesia do comandante — e saiu. Antes que a porta se fechasse por completo, uma mão a segurou. Itou apareceu, sem cerimônias.

— Até quando vai tolerar as falhas daquele homem? — questionou o conselheiro.

— Já o repreendi. É suficiente — Rebateu Kondo, e puxou um documento para ler.

— Um carinho na cabeça e um tapinha nas costas. Grande repreensão.

— Hijikata cumpre o que promete, e nunca falha em seu trabalho.

— Cumpre, mas destrói tudo o que toca. É apenas um animal selvagem fingindo ser homem.

Kondo deixou de lado o documento e se recostou na poltrona, mãos cruzadas sobre a mesa.

— E você, Itou, acredita ser o quê?

— Alguém que não se deixa cegar por lealdades.

— Ou alguém cego pela própria prepotência.

Houve uma pausa. Antes que Itou pudesse continuar com seus argumentos fúteis, Kondo redirecionou o assunto:

— Fiquei sabendo do interrogatório. O prisioneiro falou um nome.

— Zhulong — disse Itou, com a voz de quem foi contrariado. — Já ouviu falar?

— É uma figura antiga. Eu era apenas um adolescente quando ouvi esse nome pela primeira vez, lá embaixo.

— Todos os criminosos parecem ter medo de Zhulong. O que dizem sobre ele… é verdade?

— Não sei. Mas o medo é uma verdade. Está em todos os lugares e toma diferentes formas — respondeu Kondo, serenamente. — Zhulong existe. Ele é feito de carne, osso e… medo.

Itou sorriu, debochado. Parecia acreditar que seu comandante não teria muito mais a acrescentar à investigação.

— Se ele existe, então me encarregarei de colocá-lo aos nossos pés — finalizou, deu meia-volta e caminhou até a porta.

Antes de se retirar por completo, olhou por cima do ombro e comentou:

— Sua gentileza poderia facilmente ser confundida com incompetência.

Kondo suspirou novamente e cruzou os braços.

— Gentileza é uma virtude que ainda preciso refinar. É a razão pela qual fracassei em transmiti-la a alguns de vocês.

— O senhor é gentil, mestre Kondo. Não falhou em me ensinar o que é gentileza. Eu, porém, a julguei descartável. — finalizou Itou, fechando a porta atrás de si.

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