Volume 1
Capítulo 1: Voe! Shinsengumi!
O som metálico das lâminas ricocheteava pelas paredes fibrosas do dirigível, assim como um trovão preso em meio às nuvens. O vice-comandante da Shinsengumi, Hijikata Mifune, serpenteava entre os malfeitores, sem um pingo de misericórdia.
— Vocês podiam ao menos formar fila! — sugeriu, antes de fender o ar. — Ficar zigue-zagueando vai me deixar enjoado.
Um chute arremessou um dos bandidos para fora do aeróstato, seu grito desapareceu com o vento. Mais dois correram na direção do policial, ansiosos para conhecer o pós-vida.
Hijikata desviou com a leveza de uma folha e revidou com dois cortes secos. O sangue respingou nas paredes e se misturou ao forte cheiro de… querosene?
— Espera… cadê aquele galão de gasolina? — questionou o samurai, que varreu o local com os olhos semicerrados.
As chamas começaram discretas: primeiro o estalo de madeira, depois uma cortina a arder. Mas bastou uma faísca saltar do choque das lâminas para o combustível no chão acender o inferno. Em segundos, o corredor inteiro transformou-se em um forno.
E pensar que tudo havia começado como uma simples missão de reconhecimento. Claro que, no dicionário de Hijikata, “reconhecimento” significava aniquilação.
Ele invadira o edifício da Tríade na expectativa de que encontraria apenas meia dúzia de criminosos. Em vez disso, tropeçou em algo muito maior.
A cada compartimento, o mesmo cenário: caixas e mais caixas, abarrotadas de lâminas e outras armas improvisadas. Aquilo não era coisa de uma gangue de rua. Era o arsenal de um exército. E tudo isso sem uma gota de pólvora presente.
Mas, no momento, Hijikata tinha preocupações mais urgentes. Como, por exemplo, continuar vivo.
O dirigível balançava nos céus como um barco à deriva, sem rumo, devorado pouco a pouco pelas chamas. Hijikata deslizava entre a fumaça negra, à procura de uma saída para o desastre que ele mesmo provocara.
Elaborar planos nunca foi sua especialidade. Sua abordagem era simples, porém quase sempre eficiente: entrar, bater em todo mundo e sair pela porta da frente. Claro que, vez ou outra, essa falta de planejamento se mostrava… prejudicial.
— Cara, eu não devia ter trazido aquele galão de gasolina. — resmungou, seu olho semicerrado pelo calor sufocante. — Quer dizer, a culpa também é deles. Eu não esperava que o dirigível fosse decolar no meio da briga.
A madeira começou a estalar sob seus pés, e ele saltou antes de ser engolido pelo buraco que se abriu. O dirigível estava sentenciado à morte e, caso o vice-comandante não agisse em breve, ele também.
Em meio ao labirinto de chamas, o samurai chegou até a cabine de pilotagem. Diante dele, espalhavam-se botões, alavancas e mostradores. Nenhuma daquelas coisas fazia o menor sentido; se não desse para cortar com uma espada, não era do seu interesse.
Sozinho, cercado pela fumaça, tinha apenas alguns segundos para tomar uma decisão. Foi então que a ideia mais absurda — portanto, a mais adequada — se acendeu em sua mente.
— Se é pra cair, então vamos cair com estilo.
Um sorriso torto surgiu em seus lábios. Ele não fazia a mínima ideia de como pilotar um dirigível, mas, quando foi que ele deixou de fazer algo só porque não sabia como?
O que o incomodava não era o fogo, ou mesmo a queda iminente. Era a lembrança de que Kondo ainda iria encher seus ouvidos por ter desaparecido sem aviso, e de que os idiotas da tropa se sentiriam aliviados sem suas broncas rotineiras.
“Não vou dar a eles esse gostinho”, pensou, antes de começar a apertar os botões e puxar as alavancas. Quase como em um fliperama.
O dirigível, quase como um touro enfurecido, bufou, cambaleou e, aos trancos, começou a mudar sua trajetória.
Abaixo, as luzes da cidade formavam uma pintura estrelada. Mais ao fundo, a silhueta do edifício de onde haviam decolado se erguia, o ninho da maldade, no aguardo da sua punição.
Hijikata cortou os vidros da cabine. O vento invadiu o interior e alimentou ainda mais as chamas. Felizmente, o uniforme turquesa da Shinsengumi não era apenas um símbolo de prestígio: o tecido possuía propriedades capazes de resistir a mais do que apenas fogo e fumaça.
— Seria um ótimo momento pra pensar numa frase de efeito… mas a única coisa em que consigo pensar é: BANZAIII!
No instante final, Hijikata lançou-se no vazio. O vento o rasgava enquanto a gravidade o puxava de forma implacável. Foi então que, com um xingamento nada heroico, sacou uma pistola-gancho e disparou contra a borda de um telhado próximo.
A corda metálica tensionou e quase deslocou seu ombro, mas o puxou de volta em direção ao alto. Atrás dele, a explosão iluminou o céu: o dirigível se chocou contra o prédio da gangue, e rasgou o concreto, cuspindo fogo em um clarão ofuscante. O estrondo ecoou por toda a cidade.
Ao alcançar a cobertura, o policial se deixou cair no chão do telhado, arfando, porém vivo. A dor no ombro pulsava como um lembrete de que sobreviver nem sempre era sinônimo de sorte.
— Obrigado, Yamazaki! — agradeceu o vice-comandante, com um beijo na pistola-gancho.
Atrás dele, o prédio em chamas rugia contra o céu noturno, impossível de ser ignorado. A animação por ainda estar inteiro foi logo minada pela antecipação da bronca que viria.
— Isso vai dar um problemão… — murmurou, com o antebraço a cobrir seu rosto, enquanto recuperava seu fôlego.
Algum tempo se passou, e o vice-comandante continuou sentado no telhado, com o braço apoiado no joelho. Sua respiração se estabilizava, e ele contemplava o prédio da gangue a se contorcer em fogo.
Por alguns segundos, o inconsequente samurai achou que teria paz para apreciar o caos infligido por ele, antes que suas consequências batessem à porta.
Assim como um otário, ele havia achado errado.
Um enorme punho negro despencou em um cascudo certeiro no topo da sua cabeça. O policial quase se engasgou com a própria saliva.
— Acorda, moleque! Tá achando que é feriado? — Uma voz grave soou atrás dele.
Hijikata se virou, furioso, mas ao ver o rosto barbado do comandante — Kondo Arona — soltou apenas um muxoxo.
— O proletariado não tem um dia de paz… — resmungou, com uma massagem na nuca.
— Proletariado? — Kondo arqueou a sobrancelha. — Você é um funcionário público!
Sem dar chance a mais lamúrias, o comandante agarrou o uniforme do oficial e o ergueu com um só braço. Hijikata balançou no ar, os pés suspensos a dezenas de centímetros do chão. A diferença de estatura era gritante: Kondo se erguia diante dele como uma montanha.
— Me larga! — exigiu Hijikata, junto com um chute em seu superior.
— Cala a boca. — Kondo respondeu seco, e soltou o subordinado.
Hijikata voltou ao chão — ou melhor, ao telhado — e imediatamente ajeitou o uniforme amarrotado, numa tentativa de resgatar a própria dignidade.
— O Estado anda cada vez mais opressor… — reclamou, mas ainda alto o suficiente para provocar.
— Sim. — Kondo ajustou os óculos com calma. — E o Estado vai querer saber o motivo por trás daquele edifício em chamas.
— Não foi de propósito… o incêndio.
— Então atirar o dirigível no prédio foi? — retrucou Kondo, a voz carregada de ironia.
— Dois coelhos em uma tacada só, comandante. — Hijikata ergueu dois dedos em sinal de paz. — Aquele prédio nada mais era do que um covil de ratos. E o dirigível estava carregado de centenas de armas… o suficiente para abastecer toda a Shinsengumi.
O silêncio caiu sobre o telhado. O olhar de Kondo se estreitou; um lampejo de preocupação cruzou seu semblante.
“Centenas de armas? Para quem? E por quê?” — refletia. Algo naquilo não cheirava bem.
Hijikata, claro, não parecia se importar. Para ele, quanto mais lâminas, mais inimigos para cortar.
A cidade que, até poucos minutos parecia cochilar preguiçosamente pela troposfera, agora mergulhava em um alvoroço. Lá embaixo, as pessoas apontavam para o céu, gravavam com seus celulares, e crianças choravam nos colos de suas mães.
— Meus parabéns, você acendeu o pavio de toda a cidade — comentou Kondo, cruzando os braços.
Diversos grupos discutiam a razão do acidente, cada um mais convencido de sua própria versão do que o outro:
— Um ataque estrangeiro!
— Não! Foi obra dos ninjas! Sempre é!
— Amanhã o governo vai dizer que foi um drone, mas eu sei a verdade!
No fim, ninguém sabia de nada. Mas todos tinham certeza absoluta. E enquanto as teorias se espalhavam como faíscas ao vento, a verdade estava apenas a alguns metros acima.
Apesar da aparência catastrófica, a visão do prédio em chamas não era tão desastrosa quanto parecia, os bombeiros já haviam assumido a cena, e agiam com extrema eficiência.
Enquanto isso, as maiores autoridades da Shinsengumi retornavam ao seu ninho, para descobrir o que realmente estavam enfrentando.
Na oficina do quartel da Shinsengumi, o silêncio da madrugada era quebrado pelo barulho de ferramentas. Para a maioria, aquilo não passaria de ruído. Para Yamazaki Orcinus, era a sinfonia do progresso.
O espião, médico e inventor passava as noites em claro. Às vezes em busca de inovação, às vezes imerso no trabalho de investigação.
Sobre sua bancada, duas enormes botas inacabadas aguardavam o toque final do artesão. Os calçados tecnológicos eram ainda um esqueleto à mostra, com tubos de cobre expostos e pequenos cilindros nas laterais.
— Botas de Hermes… — expressou, como se batizasse um filho. — É um bom nome. Agora só falta escolher as cores… talvez turquesa, para combinar com o uniforme?
Ajustou os óculos de aviador com a ponta dos dedos e retomou o trabalho. Ao girar uma pequena válvula, ouviu o puff de ar comprimido. O jato levantou a poeira da mesa e bagunçou seus cabelos louro-escuros.
— Primeiro truque: propulsão por ar comprimido. Saltos de até três metros! Ou mais… caso o teto não seja de concreto.
Ele sorriu, e rabiscou apressadamente no caderno. Voltou-se ao projeto, pronto para anunciar o segundo truque com ares teatrais.
— O vice-comandante vai odiar essa aqui… o segundo truque é…!
A porta da oficina foi escancarada por um chute, e a apresentação foi interrompida. Hijikata, ainda com o rosto coberto de fuligem, adentrou o local. Kondo seguia logo atrás, como uma montanha em movimento.
— Yamazaki! — berrou Hijikata, sem nenhum apreço pela serenidade.
O susto fez o espião deixar a bota cair. O protótipo tilintou como um prato de vidro, mas felizmente não se quebrou.
— Teste de resistência… aprovado. — Anotou Yamazaki, sem perder o ritmo.
A oficina era uma completa bagunça, assim como as ideias na mente de um gênio, as quais apenas ele era capaz de compreender. Materiais, ferramentas e protótipos se encontravam por todo o lugar, e havia fumaça saindo de algum canto, embora ninguém soubesse exatamente de onde.
— O que mais você pode nos dizer sobre a Tríade Escarlate? — perguntou Hijikata, cruzando os braços, carrancudo como sempre.
— Hm? O que exatamente vocês querem saber?
— Queremos saber o motivo de centenas de armas estarem estocadas em um dirigível. — Kondo tomou a frente.
— Provavelmente eles estão se armando.
— Vamos adicionar isso à lista de "palavras de sabedoria". — Hijikata ergueu as mãos em sarcasmo, mas o olhar sério de Kondo o fez engolir a próxima piada. O silêncio pesou sobre a oficina.
— Porém — continuou o espião. — Durante algumas investigações descobri que a Tríade anda confiscando todo tipo de aço. Seja de outras facções, de ladrões de galinha ou até de comerciantes.
— Seus números não são tão grandes. Se fosse apenas para se armarem, não haveria necessidade de tanto metal — ponderou Kondo, enquanto alisava sua barbicha. — Retorne à sua investigação, Yamazaki. Precisamos descobrir os reais motivos por trás dessa conspiração.
— Sim, senhor! — afirmou o espião, batendo continência.
— Sinto que temos um caso grande em nossas mãos. — Kondo se retirou do local, restando apenas o vice-comandante e seu cheiro de fumaça.
Hijikata encarou o espião por alguns segundos, como se procurasse as palavras certas, até que finalmente comentou:
— Valeu… pela pistola-gancho. Não que eu fosse precisar, mas valeu. — O samurai agradeceu e se retirou rapidamente.
Yamazaki sorriu silenciosamente. A aprovação de seus companheiros significava mais do que qualquer reconhecimento público. E, por mais carrancudo que Hijikata pudesse parecer, todos sabiam que, no fundo, havia ali um coração… surpreendentemente mole.
A porta se fechou, e Yamazaki deitou-se na cadeira, seus pés em cima da bancada. Agora sozinho, o único som que podia ser ouvido era o tique-taque de um velho relógio pendurado na parede.
— Aço e armas... O que vocês estão aprontando, Tríade?
O espião suspirou, imerso no ritmo constante dos ponteiros.
Cada tique era uma contagem regressiva para um capítulo ainda não revelado.
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