Volume 1
Capítulo 9: Otatsu Eigun
Na estação de ancoragem, Yuki aguardava a chegada de seus conhecidos. Dirigíveis modernos iam e vinham. Da plataforma, ele observava o conjunto suspenso abaixo, atento às suas camadas.
Nada entre as pontes e distritos lhe causava sentimento algum; Yuki olhava a aquilo do mesmo modo que se olha um texto já lido, em busca pelo que será necessário riscar ou sublinhar.
O dirigível de Otatsu surgiu entre as torres, distinto por sua elegância. As enormes hélices cortavam o ar, e seu casco refletia o brilho pálido da manhã; longas sombras se projetavam sobre a plataforma. O vice-presidente ergueu o olhar, não por surpresa, mas por precisão.
A luz da manhã atravessava o vidro quando Otatsu se aproximou da janela, ao encontro de sua pele bronzeada. Flying Tokyo era sua casa, o lugar onde cada distrito suspenso carregava escolhas antigas.
Herdeiro de um grande poder, ele sentia responsabilidade perante a nação; a cidade parecia cobrá-lo a cada instante em que seus olhos permaneciam sobre ela.
Galahad estava ao seu lado, com as mãos nos bolsos do uniforme escolar. Sua postura era calma; alguém tão poderoso quanto ele já estava acostumado a ver o mundo de cima.
Diferente de seu companheiro, os olhos violetas do cavaleiro detinham sua atenção a detalhes menores: trabalhadores cansados, rachaduras discretas e bandeiras remendadas.
Onde Otatsu via um todo que necessitava de proteção, Galahad via pessoas que poderiam ruir.
O aeróstato se acoplou de forma suave à plataforma, e o som da metrópole invadiu o dirigível assim que a escotilha se abriu. Otatsu desceu primeiro, passos firmes; o tecido laranja de seu macacão destoava do cobre da estação.
Antes mesmo que Yuki pudesse encará-lo, Otatsu já havia reconhecido sua presença.
— Chegou no horário — disse Yuki, a voz baixa, quase cordial. — Isso me deixa satisfeito.
— Que coisa estranha para se dizer. — Otatsu sustentou o olhar.
— É verdade, me perdoe. Então, a viagem foi tranquila?
— Tranquila o bastante para evitar certos pensamentos.
O vice-presidente assentiu, mais atento ao movimento da estação do que à resposta. Alguns técnicos cruzavam a plataforma com pranchetas e cabos, assim como passageiros com bolsas e malas.
— O terminal estava cheio antes da sua chegada. — comentou Yuki, sem baixar a voz. — Acho que não queriam curiosos desrespeitando nosso luto.
— Eu não pedi isso.
— Eu sei que não.
O jovem herdeiro não fazia ideia de que a ordem para esvaziar o local partira justamente do homem à sua frente. Quando se detém poder suficiente, interferir no livre-arbítrio alheio torna-se um vício.
— Você… poderia ter assumido a empresa — disse Otatsu, com o olhar baixo. — Quando tudo aconteceu.
Yuki não lhe entregou uma resposta imediata, esperou a partida de um dirigível que observava.
— Poderia.
— E não o fez.
— Não — o vice-presidente sorriu. — Não o fiz.
Otatsu respirou fundo, sabia que aquela resposta não era o fim do assunto.
— Ainda assim, agradeço. É a única coisa que restou do meu pai.
Novamente o silêncio se fez presente. Galahad caminhava um pouco atrás, atento à conversa.
— Você nunca confiou em mim. — Expressou Yuki, sua expressão se tornou neutra.
A frase não soava como uma acusação, e tampouco como uma queixa.
— Você sempre foi competente demais para que eu me sentisse confortável.
O vice-presidente virou o rosto e olhou bem para o jovem, ele não acreditava no que acabara de ouvir. Sua reação inusitada foi seguida por uma breve gargalhada.
— Não sei se devo me sentir ofendido ou agradecido. — Ele limpou a garganta antes de continuar. — Mas fico aliviado em saber que ainda o deixo desconfortável. Significa que minha competência se manteve.
— Se isso o fizer dormir melhor à noite.
O ritmo diminuiu conforme se aproximavam do elevador à sua espera. Com suas paredes envidraçadas, conforme o equipamento descendia, o panorama da cidade era ocultado pelas grandes construções.
— Você não veio aqui só para me dar boas-vindas, não é? — Otatsu lançou um olhar cético ao vice-presidente.
— Não, tenho coisas para te falar. — Ele devolveu o olhar. — Mas não aqui.
O elevador alcançou o nível inferior, e as portas se abriram para o fluxo controlado da estação. O vice-presidente estendeu a mão, e Otatsu deu o primeiro passo para fora.
O jovem herdeiro o acompanhou sem insistir. O espaço era amplo e limpo, com seguranças eficientes o suficiente para não precisarem ser vistos. O nome de Yuki não era anunciado, bastava sua presença para que os acessos se organizassem.
— Tem a ver com negócios? — disse Otatsu.
— Quem dera fosse algo tão previsível — respondeu Yuki, sem se virar. — Envolve algo mais complexo: pessoas.
O veículo aguardava próximo à saída, negro e discreto. O motorista abriu a porta sem pressa, e os passageiros adentraram o carro.
— Porém, alguns assuntos pedem um local mais discreto — Ajustou o paletó. — Cuidado o bastante nunca é demais.
O carro seguiu pelas vias elevadas, a cidade passou a existir apenas como reflexo nos vidros escurecidos. Otatsu observou em silêncio, não havia nada de novo naquela paisagem, apenas um certo desconforto em vê-la reduzida a fundo.
Galahad, ao seu lado, acompanhava o movimento sem expressão. A paisagem pouco lhe importava; havia atenção demais naquilo que ainda não fora dito.
O carro parou diante do Palácio EIGUN, e Yuki foi o primeiro a descer. Otatsu o seguiu, escoltado pelo jovem Galahad. O saguão se estendia alto demais para ser acolhedor e escondia segredos demais para ser confiável.
— Esse lugar é enorme — comentou o cavaleiro. — Não há nada tão grande em Falling London, nem mesmo o castelo do nosso rei.
— Ele foi pensado para fazer com que pessoas pequenas se sintam ainda menores — respondeu Yuki. — Um aviso de que apenas grandes personalidades triunfam aqui dentro.
— Faz tempo que não venho aqui… — murmurou Otatsu, quase para si.
— Pouca coisa mudou — disse Yuki, o surpreendendo. — A mais triste, claro, é a ausência de seu pai.
Otatsu não reagiu. O grupo seguiu até o elevador principal, que se abriu antes mesmo de alguém tocar o painel. A subida ocorreu sem som, apenas com a leve sensação de deslocamento.
As portas se abriram no andar superior. O corredor pomposo, repleto de pinturas e estátuas, conduzia direto ao escritório de Yamada, agora de seu filho.
O escritório ocupava toda a largura da cobertura. O que primeiro se impunha não era a mobília nem qualquer tentativa de decoração, mas o vidro.
Uma parede inteira revelava Flying Tokyo sob seus pés: camadas de luz, estruturas suspensas, o tráfego aéreo reduzido a linhas distantes. Não havia cortinas. Nada ali sugeria intimidade. Era um espaço feito para observar.
A mesa ficava afastada do centro, posicionada de modo que quem se sentasse atrás dela tivesse a cidade como pano de fundo.
Atrás da mesa, discretamente apresentado na parede lateral, um painel holográfico exibia símbolos e rostos da Shinsengumi. Registros, datas, operações, nomes. Alguns riscados. Outros marcados em vermelho.
— O motivo pelo qual fui buscá-lo não era formalidade — disse Yuki, enquanto agarrava um controle remoto. — Ou até mesmo nostalgia.
Otatsu tomou o lugar atrás da mesa e sentou-se na cadeira de seu pai. Galahad ficou encostado na parede, seus olhos atentos demais para alguém que fingia não estar ali.
— Eu imagino que não tenha ficado sabendo, mas… a Shinsengumi encerrou oficialmente o caso de seu pai há dias. Um incêndio acidental, disseram.
— Está querendo me dizer que discorda da conclusão? — perguntou Otatsu, os dedos cruzados entre as mãos.
— Não exatamente. Mas sinto que concluíram rápido demais.
Com a mão no controle, foi necessário apenas um pressionar de botões para que um arquivo no painel fosse aberto. Era o registro de uma operação, com uma data que atingiu o coração de Otatsu como uma flechada.
— Seu pai estava sob investigação informal — acrescentou Yuki. — Nada que merecesse publicidade. Nada que justificasse pressa. Ainda assim, agentes foram mobilizados…
O jovem herdeiro respirou fundo; sua mente ainda processava o que acabara de ouvir.
— Então… você está sugerindo um envolvimento direto da Shinsengumi na morte do meu pai?
— Sugestões podem ser convites ao debate, e debates costumam cansar. Fatos, por outro lado, são um pouco mais educados, menos invasivos. Eles ficam ali, quietos, esperando, até que ninguém seja mais capaz de ignorá-los.
Yuki fez uma breve pausa, permitindo que as informações permanecessem expostas tempo suficiente para que não pudessem ser ignoradas.
— A Shinsengumi não matou Yamada Eigun porque quis — concluiu. — Mas também não demonstrou grande empenho em mantê-lo vivo. E essa omissão… pode ser bastante reveladora.
Não houve resposta imediata, mas era o suficiente para Yuki, pois já conseguia ver a fissura se formar. Otatsu permaneceu imóvel, os olhos presos ao cenário, consciente de que algo ali havia mudado, mesmo sem ainda saber o quê.
— Ah… esse arquivo é particularmente interessante — comentou Yuki, quase com deleite. — Não chegou a virar um caso, somente um nome na aba de “baixas”.
Outra imagem ocupou o telão. O vice-presidente conduzia a sessão com precisão quase acadêmica. Na gravação, um beco estreito, três corpos no chão e, ao fundo, dois homens em uniforme turquesa.
— Quem eram? — perguntou Otatsu, direto.
— A ralé da Tríade Escarlate. Mas, esse jovem aqui — Ele apontou um dos corpos. — Não era um criminoso, apenas um colaborador por necessidade. Coagido. Um sobrevivente tentando negociar alguns minutos a mais de oxigênio.
— Então ele era… — O herdeiro hesitou. — Um inocente?
— Tecnicamente, ele era um inocente. — Yuki saboreou a palavra. — Tecnicamente.
Galahad estreitou os olhos, agora de braços cruzados. Ele prestava atenção na conversa, e decidiu interferir.
— A Shinsengumi sabia disso?
— Não. — Yuki sorriu, apontando para o cavaleiro. — Mas o detalhe curioso é: também não tentou descobrir.
Com um gesto delicado, o vice-presidente desligou o telão. Agora, com as mãos nas costas em pé diante dos jovens.
— A Shinsengumi poderia ter feito perguntas — prosseguiu. — Poderia ter investigado a coerção, rastreado a Tríade, desmontado uma cadeia inteira de comando.
— Então esse homem morreu sem sequer ter a chance de explicar… — Otatsu fechou as mãos lentamente, cabisbaixo.
Yuki se agachou diante dele, em um movimento lento, preciso, até que seus olhos alcançassem o mesmo nível dos de Otatsu. Seu sorriso era leve, sutil, mas estava ali.
— O fim da justiça raramente é um ato. Não, não, não. É um acordo silencioso, gradual. E o pior: é firmado por aqueles que juraram defendê-la.
Por alguns instantes, ninguém disse nada. O silêncio não era constrangedor, apenas pesado, pois as palavras ditas ainda levavam tempo para serem processadas.
Otatsu se levantou e aproximou-se do vidro. Observou a cidade sem pressa; em seu rosto não havia raiva, apenas descrença, a sensação incômoda de perceber que algo conhecido talvez nunca tenha sido realmente compreendido.
Galahad lançou um olhar breve ao herdeiro e, em seguida, ao vice-presidente. Não era o momento de intervir. Além disso, aquela não era sua terra, e certas feridas pertenciam apenas a quem havia crescido sobre elas.
— Preciso de você no centro disso, Otatsu — disse Yuki, já se afastando. — Mesmo que ainda não saiba de que lado vai ficar.
Ele seguiu em direção à saída sem esperar resposta. As portas se fecharam atrás dele com um som suave demais quando comparado à cacofonia que começava a se formar na mente do herdeiro.
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