Lobos de Mibu Brasileira

Autor(a): Suzuya


Volume 1

Capítulo 13: O Eterno sobre o Ferro

A avenida estava quieta de um jeito que não costuma estar. As viaturas da Shinsengumi permaneciam espalhadas pela pista, seus condutores furiosos e seus motores frios. O vento movia alguns destroços menores, e nos guiava adiante pela avenida.

Mais à frente, encontramos um carro estacionário com seu capô amassado.

Okita desceu calmamente, o asfalto mal registrou seus passos suaves. Tal delicadeza era curiosa para alguém que havia dobrado metal com o próprio peso.

Dentro do veículo, nenhum dos dois se mexeu. Otatsu manteve as mãos no volante, e sua mente vagou até uma lembrança antiga.

— Sete anos atrás… — Otatsu falou devagar, quase apreensivo. — Ocorreu um incidente conhecido como "O Expurgo de Kabuki", onde as forças da Yakuza responsáveis pelo controle de cassinos em Neon Hanamachi foram completamente obliteradas.

— Por que está me contando isso agora? — Galahad questionou.

— Porque o responsável por esse expurgo foi uma criança de apenas nove anos. E essa criança… é aquele que está à nossa frente agora.

Os olhos de Galahad se voltaram para o samurai do lado de fora.

"Para uma criança fazer algo desse tamanho..." ele pensou. "Quem é esse garoto?"

— Você está sem sua armadura… — pontuou Otatsu, preocupado com o conflito iminente.

— Ele também está sem armadura, então estamos empatados. — O cavaleiro já estava com a mão na maçaneta. — Vá pelos becos, e não volte por nada.

— Galahad…

— Agora!

Aquele tom não era desconhecido para Otatsu; Galahad já havia tomado sua decisão. Sem mais a dizer, o cavaleiro empurrou a porta e desceu com a Zweihander na mão. O vento da avenida balançou seu uniforme escolar.

De frente um para o outro, os dois ficaram a apenas alguns metros de distância, a espada branca e roxa de um lado, e a katana prateada do outro. Okita deu um sorriso curto.

— Uma Zweihander… não é todo dia que vemos uma dessa por aqui. — disse ele, com os olhos na espada. — Você é Sir Galahad, correto?

— O quê? Como você sabe?

Para Okita, não foi difícil juntar as peças; o uniforme britânico, a espada europeia, a força avassaladora. Tudo indicava que o garoto era um cavaleiro.

— Só um cavaleiro seria capaz de fazer tanto estrago, e o mais jovem deles se chama Galahad.

— Impressionante.

— Não muito. Montar quebra-cabeças faz parte da vida de um policial.

Esse curto diálogo foi o suficiente para Otatsu. Seus passos acelerados cortaram o silêncio da avenida quando ele disparou em direção ao beco mais próximo. Okita não somente ouviu como também o viu, mas deixou passar.

O que parecia ser uma concessão silenciosa, na verdade era apenas cautela. Ele sabia que qualquer deslize diante daquele cavaleiro poderia custar caro.

— Já que você sabe o meu nome, posso ter a honra de conhecer o seu?

— Okita Tezuka, capitão da primeira divisão da Shinsengumi.

— Okita Tezuka… — Galahad firmou a mão na guarda da espada e tomou sua postura de combate. — Sinto que você será um oponente formidável.

— Acho que posso dizer o mesmo.

— Obrigado.

— Não agradeça, isso significa que não irei me segurar. — Okita também tomou sua postura.

Galahad riu, e fez sua invocação de duelo.

— Que o duelo purgue tudo que em ti é frágil, e o eterno floresça sobre teu ferro.

Galahad avançou com a Zweihander em diagonal, num movimento de baixo para cima. Okita ergueu a katana e recebeu o impacto de frente, seus pés riscaram o asfalto para trás. O choque subiu pelos braços do samurai até os ombros.

Não havia dúvida de que era inferior em força. O que não esperava era a fina fissura que percorreu o aço prateado de sua espada.

Seus pés saíram do chão, e ele foi arremessado para cima pelo impulso residual do golpe. No ar, ajeitou a postura e pousou sobre os trilhos suspensos acima da avenida. 

Galahad o seguiu com um salto, e a estrutura inteira vibrou ao aterrissar. Um gemido metálico percorreu os trilhos.

"Ele é bem forte, mas não é por isso que estou em desvantagem. Vamos tentar outra abordagem." pensou Okita, enquanto alternou a postura para chūdan-no-kamae.

"Sua postura mudou. Ele se adaptou tão rápido?" questionou Galahad mentalmente.

Para preservar a integridade da lâmina, Okita optou por estocadas. Além de precisas, eram calculadas para distribuir o peso do choque no caso de um encontro de lâminas. Não era mais uma questão de força, mas de ângulo e geometria.

A primeira estocada passou rente ao ombro do cavaleiro, e ele se aproveitou disso para fechar a distância. Naquela proximidade, a Zweihander perdia a utilidade, mas seus punhos, não.

Um golpe curto acertou as costelas do samurai, que respondeu com o punho da katana no queixo do cavaleiro. Ambos recuaram, cada um com seu próprio ferimento.

— Seus punhos são tão perigosos quanto sua espada. — Okita fez uma observação.

— O punho da sua katana também não é de enfeite. — Galahad massageou sua mandíbula, e seguiu com um sorriso.

A segunda estocada rasgou o espaço entre os dois, o ar se comprimiu ao redor da lâmina com a velocidade do movimento. Os trilhos tremeram com a potência do golpe. Galahad tentou uma esquiva, mas o aço já havia encontrado seu antebraço.

Com um corte raso no uniforme escolar, ele respondeu com um uppercut no rosto de Okita. O samurai girou no ar e aproveitou a oportunidade para desferir um corte no rosto do cavaleiro. A distância se abriu novamente.

Ao longe, os trilhos começaram a cantar. Era quase imperceptível em meio ao vento, mas logo o metal sob os pés dos combatentes começou a vibrar. O trem ainda não era visível, mas já podia ser sentido.

"O que farei agora me dirá tudo que preciso saber sobre você, e aquilo que diz proteger." concluiu Galahad.

Os olhos de Okita se cerraram levemente quando o cavaleiro ergueu a Zweihander com as duas mãos, o cristal bizâncio a pulsar. Uma esfera de energia começou a se formar acima da ponta da espada, a eletricidade aparentava ser sugada do espaço ao redor.

Logo, uma esfera violeta gigante tomou conta do céu, e mesmo as sombras recuaram com o brilho.

— Ei, ei... O que pretende fazer com algo tão grande? — Okita apontou com a espada, descontraído, sem tirar os olhos da esfera.

— O que mais eu poderia fazer? Vou arremessá-la em você. — respondeu o cavaleiro, com um sorriso.

O vento cessou. A poeira que pairava entre os dois ficou suspensa por um instante. A Zweihander desceu com sua ponta apontada para Okita. A esfera violeta acompanhou a espada, e a eletricidade que vazava para todos os lados foi sugada de volta ao centro com uma violência contida.

Os trilhos começaram a brilhar, aquecidos pelo excesso de energia. A esfera foi disparada, viajou pelos trilhos em direção ao inimigo, e o brilho violeta iluminou cada detalhe da estrutura suspensa, cada parafuso, cada fresta. Até mesmo o rugido crescente do trem se misturou ao da energia devastadora.

“Não importa o quão bom você seja com uma espada, seu corte continua restrito à matéria. Então, o que você decidirá?” refletiu Galahad enquanto observava.

Para sua surpresa, Okita ficou parado no caminho, sem intenção de recuar, a única linha de defesa entre a esfera e o trem. 

O princípio do corte é anterior a qualquer escola de esgrima. Cortar é concentrar energia o suficiente em uma área pequena até que a estrutura ceda. Em essência, uma questão de geometria.

A estrutura da esfera não era visível, muito menos palpável. Esse problema seria intransponível para muitos, mas não para Okita.

Em um campo elétrico, linhas invisíveis determinam o caminho da energia. O ponto onde essas linhas convergem é mais denso, mais frágil. Para atingir esse núcleo, Okita precisava de um corte perfeito, e o seu corte perfeito era aquele que mais praticou em sua vida: 

Tennen Ryshin-ryu: Mukei

A lâmina desceu ao encontro do lugar certo. A esfera hesitou por uma fração de segundo antes de colapsar. Se desfez em duas cascatas de relâmpagos que varreram os trilhos em ambas as direções.

Um esplendor violeta atravessou as janelas do trem, e os passageiros tiveram uma visão etérea da luz roxa a deslizar pelos vidros antes de desaparecer. Diante daquilo, o silêncio foi a única reação possível.

O clarão ainda preenchia o espaço quando Okita percebeu que havia caído em uma armadilha. O cavaleiro se moveu junto com a esfera, camuflado pelo brilho das cascatas, o tempo devidamente calculado para vulnerabilizar o samurai.

O soco atingiu a costela do policial com um poder maior que o de um trem. O corpo de Okita saiu do lugar como se fosse arremessado por uma catapulta, cortou o ar acima da avenida e atravessou a fachada de um prédio próximo, vidros e molduras levados consigo.

Entre Galahad e o trem, houve apenas o tempo de um salto.

A luz da avenida penetrava o escritório pela fachada destruída. As mesas estavam viradas, as cadeiras fora do lugar, os papéis espalhados pelo chão como após uma tempestade. Os cacos de vidro cobriam tudo, até o uniforme de Okita.

O policial levantou-se, com a katana ainda na mão, e limpou as vestes. Galahad pousou no escritório, mas isso não apressou Okita. Ele sabia que o intervalo entre quedas e recomeços faz parte de uma luta.

— Consigo pensar em diferentes formas de evitar a colisão entre a esfera e o trem, mas você optou pela mais singular. Por que? — disse Galahad.

— Está curioso? — Okita deu um sorriso. — Pessoas comuns são capazes de feitos notáveis, até um simples vendedor de takoyaki pode se tornar extraordinário em seu ofício. Mas quando você é alguém como eu, qualquer ato simplesmente o é.

— Pelo visto, modéstia não é muito seu estilo. — Galahad sorriu e ergueu a Zweihander. — Vou tentar não te decepcionar então.

Okita respondeu com um riso baixo. Não era uma risada humorística, mas a de alguém que havia encontrado o que procurava: um oponente digno. Ele retomou a postura, e a atmosfera mudou.

Ambos avançaram. O escritório que sobreviveu à primeira colisão por sorte, não teria a mesma chance na segunda.


A porta da sala de segurança irrompeu com força suficiente para acordar até os mortos. Hijikata não era um morto, mas estava bem próximo, reclinado na cadeira giratória com o jingasa sobre o rosto. Levou um segundo para o barulho encontrar a parte do cérebro responsável por lidar com problemas.

— É melhor alguém estar morrendo. — disse ele, após acordar assustado.

O policial na porta engoliu em seco.

— Duas pessoas foram assassinadas, vice-comandante.

— Puta que pariu. — Hijikata respirou fundo, o dever chamava. — Onde está Yamazaki?

Lá fora, encontrou o espião encostado na parede com um copo de mocaccino entre as mãos. A expressão era despreocupada — afinal, diferente do vice-comandante, ele nem havia chegado a dormir.

— YAMAZAKI! — berrou Hijikata, os olhos em fúria. — Onde você estava, maldito?!

— Mocaccino. — Ele ergueu a bebida.

Hijikata esbofeteou a bebida do subordinado. O espião apenas assistiu enquanto o líquido se espalhava pelo chão — naquele estado de sono, nada mais o abalava.

— Eu te deixei responsável por não permitir que nada saísse do controle.

— Por que a culpa é minha?

Hijikata estava aborrecido, mas percebeu que aquela discussão não teria um vencedor. E se tivesse, não seria ele.

Os corpos foram movidos para o corredor do segundo nível, cobertos por mantos brancos como dois vultos, cortesia da perícia improvisada. Hijikata se agachou ao lado do mais próximo e ergueu a mão. Yamazaki prontamente o entregou duas luvas.

Sem muitos comentários, os olhos do vice-comandante começaram a escanear o uniforme. Algo não parecia bater, as medidas estavam erradas, largas demais nos ombros e curtas demais nas mangas. Ele abriu a gola e encontrou o que procurava, tatuagens ligadas ao crime.

— Esse homem não faz parte da Shinsengumi. — comentou Hijikata. — Yamazaki, verifique o número do uniforme no banco de dados.

— Sim, senhor.

Yamazaki já tinha o dispositivo na mão. Seus dedos correram pela interface por alguns segundos.

— A identidade no registro pertence a um membro ativo, mas seu rosto e biometria não batem. — Ele encarou o vice-comandante. — Ele estava se passando por esse membro.

— O que significa que temos um membro desaparecido, talvez até em apuros. — Hijikata se levantou devagar e retirou as luvas. — Bem, temos que encontrá-lo.

Um policial se aproximou com o passo torto de quem havia apanhado. O braço estava enfaixado, o uniforme rasgado.

— Vice-comandante! O capitão Okita está em combate com um dos terroristas a alguns quarteirões daqui. Devemos prestar suporte?

Hijikata olhou para o policial, olhou para o braço enfaixado, e então olhou novamente para o policial.

— É Okita quem está lutando, quem ajudaríamos? O outro cara? — seguiu com uma risada curta.

Yamazaki se aproximou da janela, os olhos perdidos na cidade lá fora.

— No dia em que Okita cair, não precisaremos nos preocupar com mais nada. — Yamazaki olhou de volta para o policial. — Porque não haverá mais nada para se preocupar.

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