Volume 1
Capítulo 14: O Expurgo de Kabuki
A história de Okita Tezuka começa aos três anos de idade, quando foi entregue por seu pai, uma figura poderosa do governo, ao mestre Kondo. Ele foi o segundo jovem a ser criado por Kondo, Itou foi o primeiro, abandonado ainda bebê na porta de seu dojô.
Desde o primeiro momento em que Kondo olhou para aquela criança, percebeu que havia algo especial. Okita era diferente. Por anos, Kondo pensou no que diria quando o jovem perguntasse sobre seus pais, mas aquela pergunta nunca veio — Okita não possuía interesse em saber.
O jovem tornava-se exímio em qualquer atividade que lhe fosse ensinada. Em contrapartida, seu entendimento das emoções e relações humanas era vago, tal qual o de um animal. Mesmo Kondo temia o que aquela criança poderia se tornar, caso não encontrasse a própria humanidade.
Pouco a pouco, Okita tornou-se cada vez mais humano, mas mesmo após anos, ainda era possível enxergar algo indomável em seus olhos. Tudo mudou durante um incidente, oito anos atrás, onde Okita enfim entenderia o que significa ser humano.
Enquanto caminhava pela delegacia, Kondo percorria um registro com os olhos. Uma briga em uma rua pública, três homicídios cometidos com um lápis. O motivo verdadeiro era mais simples do que qualquer investigação poderia apontar.
A maioria das celas estava vazia. Eram frias, escuras, do tipo que não distingue culpados de inocentes. Okita estava sentado no canto, o braço apoiado sobre o joelho, o olhar afiado voltado para o exterior.
As roupas estavam sujas de sangue e lama, mas aquilo não parecia aborrecê-lo. O carcereiro destrancou a cela, e Kondo adentrou o pequeno cubículo de concreto.
— Sente-se apropriadamente. — Ordenou Kondo, sentando-se no centro.
Sem questionar, Okita caminhou até o mestre e tomou a mesma forma ao sentar-se.
— Diga-me, o que você fez?
— Eu matei três homens. — respondeu o pupilo, com a mesma frieza de quem informa as horas.
— Perdão, acho que não ouvi direito. Pode repetir?
— Três homens, eu matei três homens.
Kondo esbofeteou o garoto. O estalo do tapa ecoou por todas as celas. Ele se levantou, inquieto, movendo-se de um lado ao outro do espaço confinado. Ansiedade? Decepção? Raiva? Os sentimentos estavam misturados.
Finalmente, parou no centro, o dedo apontado para Okita.
— É dessa forma que você diz que matou três pessoas? Sem nenhum remorso? As pessoas não são objetos, Okita.
A criança desviou o olhar para o chão. Kondo respirou fundo, aquela era uma situação crítica para o desenvolvimento do garoto, sem brecha para erros.
— O motivo. Qual foi o motivo? — perguntou Kondo, os braços na cintura.
— Eles esbarraram em mim, quando questionei, não recuaram. Eram fracos.
Kondo passou a mão pelo rosto, incrédulo. Quando voltou à realidade, sentia algo entre o desagrado e a tristeza.
— Três meses, um mês para refletir sobre cada vida que você tirou. — Ele caminhou em direção à saída e parou pouco antes de sair. — Enquanto estiver aqui, mantenha isso em mente: nunca cabe ao forte decidir quem deve viver ou morrer, mas ao justo.
Okita observou o mestre partir. Quando a grade da cela se fechou, o pequeno quarto voltou a ficar mais frio e solitário.
Em seus pensamentos, não era capaz de compreender por que estava sendo punido por matar alguém mais fraco.
Quando o silêncio começou a tomar conta do local e os pensamentos começaram a invadir a mente de Okita, uma voz na cela ao lado os espantou.
— Era o seu pai? — perguntou o homem.
Okita não respondeu.
— Eu o vi quando chegou, e ouvi sua voz há pouco. Você é só um garoto, não é? Quantos anos, nove, dez? Deveria estar na escola, brincando.
Novamente, não houve resposta.
— Também tenho uma filha, ela tem quinze anos. Mais velha que você, mas ainda jovem demais para estar sozinha. — Uma pausa. — Eu… eu sei que deveria estar cuidando dela, fazendo o meu melhor como pai. Mas nada do que faço por ela dá certo. Nunca deu.
O monólogo terminou ali, naquela noite. No dia seguinte voltou, e no dia seguinte após aquele. Okita não respondeu em nenhuma das vezes, mas nunca deixou de ouvir.
Dentro da cela, os dias pareciam não ter pressa.
Okita não demonstrava impaciência, nem buscava companhia. O garoto mantinha o foco nos treinamentos, exercitava-se dentro do pequeno espaço que tinha, os movimentos do Tennen Ryshin-ryu: Mukei cravados em seu corpo pela repetição.
Quando terminava, sentava-se no canto e observava o exterior. O tempo passava, e Okita o deixava passar.
A cela ao lado não era tão silenciosa.
O homem que a ocupava falava bastante, e falava para ninguém em particular, pois Okita ouvia sem responder. Com o passar dos dias, o garoto descobriu através dos longos monólogos que o homem se chamava Kaito.
E descobriu também que alguém é capaz de falar muito sem precisar de resposta, desde que o silêncio do outro possa ser confundido com atenção.
Foi assim que as semanas se passaram.
Certa manhã, pouco antes de Okita iniciar o treino, ouviu algo ser arremessado contra a parede da cela ao lado. A voz de Kaito rompeu o silêncio, mas dessa vez carregava algo diferente: fúria.
— É tudo uma droga! Dane-se essa prisão! Dane-se esse papel e lápis! O quão falho é o homem que não pode sequer escrever para a própria filha!
Algo bateu contra a parede, e então bateu novamente. O ritmo entre os estrondos indicava que ele golpeava a própria cabeça contra o concreto.
Okita falou pela primeira vez.
— O que houve? Por que está se lamentando?
— Eu sou um fracasso. — disse Kaito, a voz mais baixa agora, quase envergonhada. — Tudo que me resta é um papel e um lápis para escrever à minha filha. Mesmo isso, sou incapaz de fazer.
— Então é por isso?
Okita ficou em silêncio por um momento.
— Se for apenas isso, eu escreverei por você.
O garoto não podia ver, mas Kaito ficou estático do outro lado da parede, os olhos encharcados. Quando as palavras foram processadas, seus joelhos foram de encontro ao chão.
— Jura? Você faria isso por mim?
— Como você mesmo disse, escrever é um ato simples. Não me incomodaria.
— Muito obrigado, meu jovem. Tudo que me resta nessa vida é a minha filha, e tudo que ela tem sou eu. Não desejo que ela seja consumida pela solidão.
— Sua razão é nobre, mas não é por isso que escreverei por você.
— Então por que motivo?
— Porque eu quero. É somente por isso. — Finalizou Okita.
O lápis e o papel atravessaram as grades. Kaito começou a falar, e Okita começou a escrever.
A partir daquele dia, as cartas tornaram-se semanais. Respostas nunca vieram, mas isso não era capaz de fazê-lo parar.
"Mesmo que minhas cartas não cheguem até ela", ele dizia, "tenho certeza de que Deus fará com que minha voz a alcance, mesmo que seja em seus sonhos."
Okita escrevia sem comentar, mas escrevia cada carta como se fossem suas.
O Natal chegou após um mês, e com ele veio também o inverno.
Tudo que era visível tornou-se coberto pelo manto branco de Bóreas, e seu sopro gélido adentrava as celas como se as paredes não existissem.
O sol já não mostrava mais as caras quando o carcereiro da noite apareceu para a troca de turno, a neve empilhada dos pés à cabeça em suas roupas.
— Minha família vai comemorar o Natal, e eu ficarei aqui cuidando desses dois. Que grande Natal. — Resmungou ele, enquanto seu colega terminava o café e se agasalhava.
— Se não quer trabalhar, é só pedir demissão. — Sugeriu o outro, antes de pôr o chapéu na cabeça.
— Vá à merda.
O colega saiu aos risos, a porta se fechou atrás dele enquanto desaparecia na neve. O turno monótono do segundo carcereiro havia começado.
Sua busca por entretenimento não deu resultados. As redes sociais lotadas com comemorações de Natal o deixavam cada vez mais aborrecido. Depois de algumas horas, levantou-se e observou os dois únicos prisioneiros no local.
Havia tomado uma decisão. Agasalhou-se, trancou tudo e parou na porta antes de sair.
— Eu não acho que vocês tenham condições de ir a lugar algum, mas fiquem quietinhos aí. Volto de manhã.
O vento frio inundou o corredor. Mesmo assim, ele não hesitou em sair.
— Parece que estamos sozinhos, pequenino. — comentou Kaito, deitado na cama com apenas um fino lençol sobre o corpo.
Okita estava sentado no centro da cela em meditação, vestindo apenas uma calça. O frio não parecia alcançá-lo — ele estava em um lugar mais profundo de seu próprio corpo.
— Você deve estar ocupado. Vou dormir, não estou me sentindo muito bem com esse frio. Boa noite. — disse Kaito, e virou-se para repousar.
Okita não respondeu. As horas se desfizeram na quietude da noite.
Na madrugada, começou a tosse. No início parecia ordinária, provavelmente provocada pelo frio, e que passaria em pouco tempo. Mas não passou.
Okita sentou-se na cama com os ouvidos atentos à cela ao lado. A tosse ficava cada vez mais forte, e trazia junto o som de um líquido a se espalhar pelo chão.
— Kaito, está tudo bem? — perguntou Okita.
— É apenas uma tosse... — respondeu Kaito, a voz rouca. — Está... está tudo bem.
Quando o barulho de um corpo a se chocar contra o chão alcançou os ouvidos de Okita, as palavras de Kaito já não podiam mais contê-lo.
Sem chaves ou tempo, a rota mais drástica era a única disponível. Ele se aproximou das grades e respirou fundo, os dedos a envolver o ferro gelado.
Com as duas mãos, aplicou pressão até sentir a resistência do metal ceder. Com um último empurrão, entortou as barras o suficiente para escapar.
Buscou o chaveiro no claviculário e testou uma chave por vez, até abrir a cela de Kaito. A voz sem rosto agora obtinha um: rosto magro, cabelo azul escuro e espetado, kimono surrado com cores desbotadas.
O homem estava inconsciente no chão, sobre uma poça do próprio sangue, que escorria tanto pela boca quanto pelo machucado na cabeça.
Okita recolheu todos os agasalhos e tecidos que encontrou, enrolou o homem como podia e o amarrou nas próprias costas. Quando abriu a porta da delegacia, a nevasca cortou sua pele como navalhas.
Mesmo com a neve na altura dos joelhos, o garoto deu o primeiro passo.
Cada passo era uma batalha contra a neve. O vento rasgava a pele exposta, a respiração fundia-se à tempestade, e o peso de Kaito tornava a jornada mais lenta e difícil.
— A minha filha… — murmurou Kaito, com pouca força na voz.
— Não diga nada. Economize suas energias.
— Poupe-me dessa bobagem. Se for mesmo a minha hora, morrerei de qualquer maneira, então me deixe falar.
Ele tossiu antes de continuar, o sangue deixado para trás no vasto tapete pálido.
— Na superfície, eu e minha esposa não éramos ricos. Mas éramos o suficiente, sabe? Éramos o suficiente...
Respirou com dificuldade, a mente pareceu vagar até aquele tempo distante.
— Quando chegamos aqui, eu não soube me adaptar. Nunca fui bom nisso. A gente faliu, e decidi que precisava consertar. Que precisava dar uma boa vida para ela.
O vento aumentou por um instante, Okita quase tropeçou. O esforço para manter Kaito fora do vento era colossal.
— Cassino. Aposta. Você sabe como é, na verdade espero que não saiba. Quando você perde, acha que irá recuperar tudo na próxima rodada. Eu queimei tudo que tínhamos. — Ele riu, mas o garoto não conseguia apontar o porquê. — Que tipo de pai faz isso?
Uma série de tosses interrompeu o monólogo. O sangue escorria pelas costas de Okita.
— Já chega. Você me conta o resto quando estiver recuperado.
— Eles levaram minha filha. Como pagamento. — A voz ficou mais baixa. — Graças à sua voz, a tornaram uma cantora. Ela escapou de um destino pior por uma dádiva divina. Minha esposa adoeceu, e agora vive com a mãe dela. E eu... fiquei aqui, sozinho, escrevendo cartas que não chegavam a lugar nenhum.
Outra crise veio, e desta vez ele foi derrubado. Com os músculos relaxados pela inconsciência, Okita conseguiu avançar mais rápido. Enquanto as rajadas de vento uivavam ao seu redor, as palavras de Kaito ressoavam no interior de Okita como um chamado à redenção.
Uma hora se passou em meio à tempestade, as pernas do jovem já tinham perdido sua sensibilidade, mas ele continuava a avançar. Finalmente, as luzes do hospital surgiram em meio a escuridão como um farol.
Mesmo com o corpo a cambalear, Okita não cedeu, receoso de que uma queda poderia agravar o estado de seu amigo. Então, ajoelhou-se numa só perna, os funcionários retiraram Kaito de suas costas e o colocaram em uma maca.
Antes de ser levado, o homem recobrou sua consciência, e sua mão gélida imediatamente agarrou o braço de Okita com firmeza. Lágrimas frias escorriam de seus olhos, ele desejava transmitir o que talvez fosse seu último recado.
— Se eu morrer, por favor, diga à minha filha que... sinto muito por tudo.
O garoto segurou a mão de Kaito, e a colocou de volta na maca. Com um olhar determinado, a última coisa que disse antes de se retirar foi:
— Fique vivo, e diga você mesmo.
Kaito foi levado para ser cuidado. Os funcionários insistiram em verificar a condição de Tezuka, mas ele recusou. Finalmente, quando foi perguntado se precisava de algo, ele apenas disse:
— Um casaco, eu preciso de um casaco.
No distrito de Asahi Nexus, a rua de Kabuki era o lar dos cassinos. Entre os adultos imersos na ganância e na luxúria, o jovem Okita caminhava com determinação. O peacoat turquesa o destacava em meio à multidão e cobria quase inteiramente seu pequeno corpo.
Quando adentrou o cassino, o ambiente o recebeu com sua aura de excitação e promessa. Ali, cada momento trazia a possibilidade de fortuna ou desventura.
Seus olhos varriam o salão em busca da garota, e olhos incógnitos acompanhavam cada passo seu.
Então seus ouvidos foram capturados por uma melodia que começou a ecoar por todo o salão. Era uma voz envolta em notas de melancolia e tristeza. Okita foi atraído por ela como um marinheiro perdido em meio à tempestade.
De frente a um palco, uma bela garota cativava a todos com a voz encantadora. O som que saía de seus lábios purificava o cansaço e a tristeza das almas ao redor.
Okita se libertou do canto da sereia e relembrou o objetivo. Subiu no palco, interrompeu a performance e questionou a cantora.
— Você é Miku, a filha de Kaito?
A garota era bela, com cabelo azul claro que caía como uma cachoeira uniforme por todo o torso, contrastando com a tez escura e os olhos violeta.
— Kaito…? Sim, ele é meu pai. — As palavras atravessaram seus lábios. — Mas quem é você?
— Estou aqui para te levar de volta à sua família.
— Pare! Eles vão nos matar se tentarmos fugir! — exclamou Miku, as mãos no pulso de Okita.
— Eu gostaria de vê-los tentar. — disse Tezuka, com um sorriso.
Na direção da saída, um homem enorme bloqueou o avanço dos dois. Com uma espada na cintura, pôs a mão sobre o ombro do jovem.
— Garotinho, para onde pensa que está levando a garota?
— Embora. — respondeu, olhando para cima.
— Embora? — O homem riu. — Aqui não é lugar para uma criança ficar de brincadeira. Solte ela, a menos que queira morrer.
— Você não deveria falar da morte tão casualmente.
— O que você disse?
Em um instante, a mão de Okita tapou os olhos de Miku, e a outra puxou a espada da cintura do homem. O criminoso foi partido ao meio, o sangue a espirrar em todas as direções.
— Esconda-se e feche os olhos. — Okita ordenou Miku, que apesar de hesitar, obedeceu.
O evento que se sucedeu ficou conhecido como O Expurgo de Kabuki. Os criminosos foram massacrados, e os cassinos de Kabuki passaram a ser operados pelo estado.
O pomposo salão estava irreconhecível. Os corpos espalhados pelo chão como estátuas pálidas em um jardim escarlate. Tudo que restou de uma noite que ninguém esqueceria.
Em meio a tudo isso, Okita emergia vitorioso. As roupas fatiadas, o sangue seco por todo o corpo. Seu rosto juvenil infligia um temor que poucos adultos eram capazes de provocar.
Tezuka caminhou até o último sobrevivente, encostado num balcão, já à beira da morte.
— Por quê? — gritou ele. — O que fizemos para você? Diga-me!
Okita parou diante dele e respirou fundo antes de erguer a espada.
— Porque um pai desejava ver sua filha. Nada mais.
Desceu a espada.
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