Volume 1
Capítulo 12: Julgamento
O sol ocupava o céu sem nuvens e a luz se espalhava pela cobertura. Okita Tezuka estava sentado no parapeito, as pernas suspensas balançavam sobre o vazio, e uma fatia de torta era apoiada em sua mão. O uniforme turquesa absorvia o brilho claro do meio-dia.
Ao lado dele, um dispositivo com o símbolo da Shinsengumi transmitia relatórios curtos. Naquele dia, a maior parte das forças estava posicionada na exposição do Centro Cultural Ryoma.
Ele levou a torta à boca quando a voz no comunicador confirmou interferência nos sistemas do local. Entre ruídos técnicos e protocolos repetidos, o nome da Tríade surgiu.
Okita aumentou o volume com o polegar e ouviu a atualização seguinte sem mudar de postura. As vozes passaram a repetir os dados com mais precisão. A palavra “urgente” apareceu mais de uma vez. Havia risco potencial à estrutura do evento.
Okita deu outra mordida. Mastigou devagar, os olhos voltados a rua fechada abaixo, qual mantinha apenas os carros credenciados da exposição, alinhados junto às barreiras metálicas.
O dispositivo continuou a transmitir. Ele manteve sua posição, por agora, mais preocupado em terminar o seu doce.
A figura mascarada permanecia na passarela superior, todos os olhos voltados a ela. A Shinsengumi começava a se mover entre os grupos de forma discreta; cada ângulo era fechado, cada distância, reduzida.
O pânico ainda não havia se instaurado, mas a ilusão de tranquilidade já não convencia ninguém.
A figura desceu com a leveza de uma pena, seus pés tocaram o piso polido do salão, e os convidados recuaram dois ou três passos. Obviamente, ninguém ali queria estar perto demais do inesperado.
Com a distância criada, o mascarado ficou sozinho no centro de um círculo. Ele se ergueu sem pressa, a teatralidade mantida. Com o equilíbrio ajustado, retomou seu discurso:
— Imagino que este não fosse o tipo de atração que esperavam.
Sorrisos tensos surgiram nos rostos. Um homem cruzou os braços, já irritado com aquele transtorno. A Shinsengumi se distribuía entre os grupos, ocupava os espaços vazios, tornava-se parte da decoração.
— O que querem aqui? Destruir as invenções? — questionou um convidado.
— Invenções não são o problema — respondeu o mascarado. — Não, não. Elas são belas, funcionam, ampliam possibilidades. O verdadeiro problema é a crença de que seus benefícios alcançam a todos.
— Você não pertence aqui, caia fora! — gritou um senhor na multidão.
— Pertencer? — A máscara inclinou-se levemente na direção da voz. — Nós somos aqueles que sustentam tudo isso. São vocês que não pertencem.
Galahad e Otatsu foram os primeiros a perceber a movimentação, talvez os únicos. Dois policiais começaram a fechar a distância pela lateral, uma aproximação em pinça. Nada abrupto, nenhuma intenção declarada.
— Construir grandes palácios em direção aos céus não foi o suficiente para vocês na terra, então agora vocês os constroem mesmo no céu.
Os dois policiais já estavam a poucos metros, um pela lateral, outro por trás. Galahad sentiu uma sede de sangue, mas a multidão dificultava encontrar a origem do cheiro.
— Mas vocês esqueceram que, em toda torre de marfim, a base sempre será terra. E o que acontece quando essa base decide que já suportou o suficiente? — perguntou o mascarado, os braços abertos enquanto aguardava uma resposta.
Porém, sua resposta nunca veio.
Todos os olhos no salão se arregalaram quando uma lâmina ensanguentada rompeu o tecido escuro e atravessou seu peito. Seu corpo enrijeceu por um instante, sua voz foi interrompida, e sangue foi expelido de sua boca.
Atrás dele, um policial da Shinsengumi manteve a espada firme. Quando puxou a lâmina de volta, Otatsu teve um vislumbre de seu rosto.
Ele estava sorrindo.
Aquele sorriso foi o gatilho para que algo se rompesse dentro de Otatsu. O mundo ao redor tornou-se silencioso para ele; o corpo atingindo o chão, os primeiros gritos de histeria. Ele não ouviu nada disso.
— Sem julgamento algum… — murmurou Otatsu.
A multidão ao redor tinha opiniões diversas; alguns acharam bem-feito, outros não esperavam presenciar uma morte. Quando Galahad percebeu a mudança na postura do herdeiro, ele já havia avançado.
A adaga surgiu de dentro do casaco em um movimento curto e preciso. A distância foi encurtada, e Otatsu cravou a lâmina no peito do policial. O cenho franzido, os dentes cerrados, mas, para a surpresa do herdeiro, seu oponente apenas sorriu.
O homem não reagiu como os outros reagiriam. Não houve tentativa de defesa. Não houve recuo instintivo. Seus olhos encontraram os de Otatsu, e o sorriso permaneceu intacto. Somente quando seu corpo perdeu a força é que ele foi desfeito.
Otatsu ainda segurava a adaga ensanguentada quando sentiu algo surgir por trás dele. Um braço envolveu seu pulso antes mesmo que pudesse girar o corpo. O movimento foi curto, técnico, e seu equilíbrio desapareceu sob um giro. O piso frio recebeu seu ombro primeiro, e logo após, o resto do corpo.
— Eu saio dois segundos para pegar um café e duas pessoas morrem… nada dá certo para mim mesmo... — disse um Yamazaki disfarçado, por cima do herdeiro.
— Vocês executaram um homem sem julgamento, e com um sorriso no rosto! — berrou Otatsu, o corpo inquieto.
Yamazaki ajustou a pressão sobre o braço do herdeiro para impedir qualquer reação imediata.
— “Vocês?” Eu não me lembro de ter matado ninguém. Mesmo assim, qual era sua grande ideia? Equilibrar a balança?
A pressão aumentou ainda mais quando Otatsu tentou se erguer.
— Fiz o que não seriam capazes de fazer: julgá-lo. Agora, me solta.
— Na-na-ni-na-não. Você está confortável demais com a própria justiça, isso costuma ser preocupante.
Ao redor deles, o salão já não se parecia mais com uma exposição. Era apenas desordem à espera de um desfecho. Yamazaki se surpreendeu ao ouvir o ar se deslocar de forma violenta ao seu lado.
Seu tempo de reação foi suficiente apenas para vislumbrar a perna de Galahad vindo em sua direção. Seu corpo atravessou uma mesa, arrastou cadeiras e desapareceu ao romper uma parede.
Otatsu estava livre novamente e não tardou a se levantar. Galahad já estava entre ele e os demais policiais.
— Consegue andar? — perguntou o cavaleiro, sem desviar os olhos dos uniformes que os cercavam.
— Consigo. Precisamos ir embora, agora.
Dois policiais tentaram fechar o espaço. Galahad avançou: um golpe curto na mandíbula do primeiro, um chute na costela do segundo. A força do cavaleiro enviava pelos ares qualquer um que fosse atingido.
— Vamos para o carro, eu abrirei caminho. — disse Galahad.
Otatsu assentiu, e eles avançaram pelo salão à força; cada policial sucumbia com golpes simples do cavaleiro.
Um último agente tentou bloquear a saída principal; Galahad desviou do primeiro ataque e o agarrou pelo uniforme, lançando-o contra as portas de vidro, que se quebraram com o impacto.
Os agentes no estacionamento externo já estavam em alerta quando os dois atravessaram as portas quebradas. O carro permanecia onde haviam deixado, isolado sob a sombra da marquise.
Otatsu entrou primeiro e tomou o volante. O motor respondeu na primeira tentativa.
— Eles não vão deixar isso barato. — disse Otatsu, seus olhos fixos no retrovisor.
— Agora não é hora de pensar nisso. Vamos sair daqui.
Ele engatou a marcha e saiu da vaga antes que dois policiais fechassem o corredor de saída. Um veículo da Shinsengumi surgiu na rampa lateral quando alcançaram a via principal.
Otatsu girou o volante com firmeza e lançou o carro para a faixa externa da avenida.
— Eu sabia que, no momento em que fizesse aquilo, não teria volta. — disse, sem perder a atenção da pista.
— Você finalmente escolheu um lado, só isso.
Galahad observou as luzes se aproximando; as sirenes se multiplicavam.
— Mantenha o carro firme. — Ordenou Galahad, antes de soltar o cinto.
O cavaleiro se estendeu até o banco de trás, onde seus dedos se fecharam na empunhadura de sua espada. Uma Zweihander tecnológica, nas cores branca e roxa, cuja lâmina capturava o reflexo das viaturas no retrovisor.
O teto solar se abriu com um simples empurrão de mãos, e o vento invadiu o veículo. Galahad ergueu-se através da abertura, estável demais para alguém em um carro em alta velocidade. No centro da espada, um cristal de cor bizâncio começou a pulsar com eletricidade.
Com a espada carregada, ele desenhou um arco amplo na horizontal acima do teto. Por um segundo, nada pareceu mudar. Então, uma súbita descarga elétrica percorreu o espaço entre os veículos em um clarão roxo.
Um por um, os veículos da Shinsengumi começaram a perder potência; as luzes das sirenes se apagaram, seus motores foram silenciados. As máquinas de perseguição tornaram-se massas inertes no meio da pista.
Galahad retornou ao banco do passageiro com naturalidade.
— Enquanto eu estiver aqui, você não terá que enfrentar tudo isso sozinho. — comentou o cavaleiro.
— Isso deixa tudo mais fácil… obrigado.
A perseguição terminou rápido demais, e isso por si só já era motivo de suspeita. Galahad foi o primeiro a perceber a mudança no som, no vento. O impacto veio de cima; o capô afundou sob o peso da figura.
O metal se dobrou com estalos secos, como se fosse plástico; as vibrações podiam ser sentidas através do volante. Por um segundo, o carro perdeu a estabilidade, mas Otatsu conseguiu corrigir antes que saíssem da pista.
Quando ambos ergueram os olhos, havia alguém sobre o capô do veículo. O uniforme turquesa, tremulante ao vento, não deixava margem à dúvida, e a espada em sua mão indicava suas intenções.
À frente deles não havia apenas um policial da Shinsengumi.
Havia o melhor.
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