Lobos de Mibu Brasileira

Autor(a): Suzuya


Volume 1

Capítulo 11: A Exposição

Em um dos andares do palácio EIGUN, na arena interna, Galahad e Otatsu treinavam com espadas simples de madeira. O piso claro com antigas marcas de impacto, lembranças de treinamentos anteriores.

Galahad, embora mais novo, era o responsável por conduzir o treino. Seus movimentos eram contidos, quase econômicos. Ele superava o herdeiro sem pressa, os pés mal deixavam o lugar, mas, o cavaleiro sempre buscava ser um adversário em movimento. Assim, o exercício se mantinha vivo.

A porta da arena se abriu. Otatsu desviou o olhar por um instante, curioso com a presença inesperada. O cavaleiro não hesitou e acertou o topo de sua cabeça com a espada de madeira. O impacto não foi forte, mas o suficiente para fazê-lo lembrar. O herdeiro gemeu de dor e recuou alguns passos.

— Nunca tire os olhos do seu oponente. — Ensinou Galahad.

— Me perdoe, manterei isso em mente. — respondeu Otatsu, enquanto a mão afagava a cabeça dolorida.

Yuki surgiu à entrada com o mesmo ar teatral de sempre. Seus braços abertos pareciam ocupar o espaço inteiro, uma extensão de seu carisma forçado. Ele sustentava um sorriso longo demais para um simples cumprimento.

— Senhores! Peço perdão por interromper, mas devo falar com Otatsu.

— Ah é? Bom, diga. — O herdeiro caminhou até a lateral do ringue e alcançou uma garrafa de água.

— O senhor recebeu um convite para visitar a exposição de Sakamoto Ryoma.

— Sakamoto Ryoma? — O nome chamou a atenção de Galahad, que ergueu o olhar. — O pai das cidades voadoras?

— Exatamente, será uma exposição de seus inventos, ideias e outras coisas.

— Ryoma estará presente? — questionou Otatsu.

— Não. O paradeiro do grande inventor é desconhecido, mas se ele estivesse morto, definitivamente seria anunciado.

— Então não tenho motivos para ir.

— É um evento importante, apenas a alta classe foi convidada. Magnatas, políticos, celebridades…

Otatsu deu de ombros, e tomou um gole da água para refrescar a garganta.

— E? Isso deveria chamar minha atenção?

— Você é o sucessor do seu pai, será uma ótima oportunidade para fazer novas conexões. Pelo bem da empresa.

— Não tenho interesse. Aquilo é uma toca de leões; velhos carniceiros só esperando a chance de tirar vantagem de alguém mais novo

Yuki diminuiu o sorriso, e esfregou a ponta do sapato no chão enquanto escolhia sua próxima carta, antes de jogá-la na mesa.

— Bem, se isso não chamou sua atenção, talvez isso chame; a Shinsengumi fará a segurança do evento. Será uma ótima oportunidade para enxergar de perto o seu trabalho.

A decisão tomou forma junto aos feixes de luz que atravessavam as janelas. Otatsu não parecia animado, apenas resoluto.

— Então será uma ótima oportunidade para descobrir o tipo de força que protege essa cidade.

Yuki sustentou o sorriso que parecia nunca variar.

— Ótimo, deixarei os convites no seu escritório.

O vice-presidente não aguardou resposta. Fez uma mesura rápida e deixou a arena com passos suaves. A porta se fechou sem pressa. Galahad observou o herdeiro por alguns segundos antes de falar.

— Apenas a palavra do vice-presidente não é o suficiente?

Otatsu agarrou uma toalha seca para limpar o suor do rosto.

— Suficiente para quê?

— Para acreditar nas verdadeiras intenções da Shinsengumi.

O jovem manteve o olhar no chão, ele buscava a melhor forma de expressar seus pensamentos.

— Eu... não quero odiá-los por engano, mas também não quero fechar os olhos. Se eu for, posso formar a minha própria opinião.

Galahad sorriu, satisfeito não com a resposta, mas com a forma como ela veio. Ele pousou a mão sobre o ombro de Otatsu e sustentou seu olhar.

— Você está começando a pensar como um cavaleiro de verdade.

— É, talvez eu tenha passado muito tempo com vocês. — Otatsu sorriu de volta.

Os dois riram baixo. Foi o suficiente para aliviar o ambiente, acalmar a tensão e relaxar seus corpos. Eles recolheram os equipamentos e as espadas de madeira, que se apoiavam nos suportes ao lado da arena.

— Vamos, precisamos escolher nossos trajes.

Eles deixaram o local lado a lado. A arena voltou ao silêncio anterior, intacta, a aguardar o próximo treinamento.


Deitado sobre um galho grosso de uma cerejeira no pátio interno, o vice-comandante Hijikata fumava um cigarro comicamente longo. O cigarro pendia entre seus lábios, e a fumaça subia por entre as folhas.

Kondo se aproximou devagar, os braços cruzados, e parou sob a árvore.

— Eu já te disse que deveria parar de fumar, isso ainda vai te matar.

— Não enche, todo mundo vai morrer um dia. E definitivamente eu não pretendo morrer pra um cigarro. — O vice-comandante abaixou o jingasa, escondendo o rosto.

Kondo ergueu o olhar até a ponta acesa do cigarro acima de sua cabeça.

— Tudo bem. Mas está encardindo a bela árvore com esse cheiro grotesco.

— É só passar um perfume nela depois.

Kondo sacou o revólver e acertou o cigarro em cheio. O estampido cortou o pátio, mas o som veio depois do saque do comandante. A ponta voou para longe, e Hijikata levantou o jingasa, a expressão contrariada.

— Estraga-prazeres.

Ele cuspiu o resto do maço e virou o rosto na direção de Kondo, ainda deitado, o queixo apoiado no punho.

— O que você quer? Sempre que está me procurando é por causa de trabalho.

— É exatamente por isso que estou te procurando.

— Tô falando...

— Haverá uma exposição de Sakamoto Ryoma para a alta classe, e a Shinsengumi será a responsável pelo evento. Ou melhor, você será, pois estará no comando.

Hijikata deu um suspiro. Fechou os olhos por um instante e deixou a cabeça pender contra o galho. Ele não queria trabalhar.

— Por que não envia o Itou? Ele gosta de burocracia.

— Não me sinto confiante em enviá-lo para ficar de olho em pessoas importantes. Suas boas intenções não costumam andar acompanhadas do bom senso.

— Teme que ele assassine outro magnata, não é?

— É um medo justificável.

Hijikata apoiou a mão no galho e deu um salto curto até o chão; caiu de pé diante de Kondo. Em respeito, jogou o jingasa para trás da cabeça.

— Leve quantos membros for necessário, as unidades estão ao seu dispor.

— O que Yamazaki está fazendo?

— Dormindo.

— Heh. — Um som curto escapou das narinas do vice-comandante.

Kondo reconheceu a expressão; aquele sorriso torto já dizia o bastante: alguém perderia o descanso naquela tarde. Hijikata ajustou o uniforme com um puxão curto e começou a caminhar em direção ao prédio principal.

O trabalho estava à sua espera.


A exposição ocupava os três primeiros níveis do Centro Cultural Ryoma, uma enorme edificação localizada no distrito de Hikari Heights. Faixas discretas anunciavam o nome do inventor ao lado de projeções holográficas, suspensas no ar como memórias extraídas de sua grande mente.

A entrada principal estava cercada por barreiras móveis e detectores de metal. Os integrantes da Shinsengumi distribuíam-se em pontos elevados e corredores, estátuas alinhadas em seus uniformes turquesa. Seus olhares se mantinham atentos ao fluxo constante de convidados. Tudo parecia correr bem.

No interior, tradição e tecnologia tornavam-se uma só. Protótipos de turbinas e motores, além de maquetes de cidades flutuantes, estavam expostos em pequenas áreas. 

O público circulava em pequenos grupos, todos com taças de vinho caro e tabacos exóticos. A música ambiente preenchia os espaços vazios entre as conversas.

No centro do salão, magnatas, políticos e herdeiros reuniam-se para distribuir sorrisos e intenções falsas. As aproximações eram lentas, os cumprimentos calculados, e cartões trocados com cuidado. A iluminação favorecia seus rostos, mas escondia as intenções nas sombras.

Tudo funcionava dentro do esperado.

A sala de segurança ocultava-se em uma das laterais do segundo nível. Fileiras de monitores exibiam ângulos diversos do salão principal, corredores e entradas externas. 

Algumas luzes indicadoras piscavam em intervalos regulares, mas Hijikata fazia questão de ignorá-las. O ruído baixo dos aparelhos de comunicação preenchia o ambiente.

Hijikata encontrava-se reclinado em uma cadeira giratória, os pés apoiados sobre a mesa de controle. Novamente, o jingasa cobria parte do rosto. Com os braços cruzados sobre o peito, ele não observava nenhuma das telas.

Ao lado, um policial permanecia de pé para fazer companhia; sua postura rígida contrastava com o relaxamento de seu superior.

— Vice-comandante… devo permanecer aqui? — perguntou o policial.

— Hm... Tem alguma coisa acontecendo?

— Não, senhor.

— Então vá dar uma volta, ver se alguma das coroas ricas se apaixona por você. Eu já estou supervisionando as coisas por aqui. — disse, com os olhos ainda fechados.

O policial lançou um último olhar para as telas, preocupado, mas obedeceu ao vice-comandante. 

O ruído voltou a dominar o espaço e começou a incomodar o samurai. Não demorou muito para que ele se alongasse e abaixasse o volume dos dispositivos. Seu sono agora poderia continuar, perturbado por nada.


Otatsu e Galahad caminhavam lado a lado, maravilhados com as estruturas metálicas suspensas acima dos convidados. A maquete de uma cidade flutuante girava lentamente sobre um eixo central, e o reflexo dourado da iluminação percorria as superfícies polidas.

— Como alguém é capaz de conceber algo assim? Vai totalmente contra as leis da física. A maioria das pessoas consideraria impossível. — comentou Otatsu, os olhos fixos na pequena cidade flutuante.

— A maioria dos gênios são considerados loucos. Até que um dia não o são. — Galahad aproximou-se um pouco mais da estrutura. — Esse dia é quando seus delírios finalmente se tornam realidade.

Otatsu inclinou-se para observar os cálculos projetados ao lado da maquete, pouco capaz de compreender as anotações técnicas.

— Pouca gente o conheceu. Ainda assim, estamos vivendo em seu mundo.

— Esse é o verdadeiro legado. Quando o que você cria deixa de ser seu e passa a ser parte essencial do mundo.

— É um belo significado. — Otatsu endireitou a postura antes de retomar a caminhada.

Eles continuaram seu percurso pelo salão, misturando-se ao fluxo elegante de convidados. Tecidos caros roçavam uns nos outros, e as taças adornadas com ouro tilintavam entre conversas baixas sobre investimentos e projeções. O herdeiro não passou despercebido por rostos mais experientes.

— Jovem Otatsu! Que satisfação finalmente conhecê-lo pessoalmente. — disse um homem de cabelos brancos, que segurava sua mão por tempo excessivo.

— A imagem de seu pai quando tinha sua idade! — acrescentou outro.

— Esperamos que herde não apenas o nome, mas também sua visão. — comentou mais um, próximo o bastante para reduzir o espaço ao redor do herdeiro.

Um círculo começou a se formar ao redor de Otatsu com uma naturalidade ensaiada. Cumprimentos firmes demais, proximidade excessiva e olhares que avaliavam mais do que cumprimentavam. Nada mais do que lobos em pele de cordeiro.

— A empresa precisará de decisões rápidas nos próximos meses.

— O mercado é impaciente. Não costuma esperar por reorganizações internas.

— De fato, talvez possamos discutir participações estratégicas ainda esta semana. — Sugeriu um deles, ajustando os óculos.

— Yuki está cuidando da transição por enquanto… — Otatsu tentou responder, mas foi interrompido.

— Aquele homem? Bem… tome cuidado, confiança é um investimento delicado...

As respostas permaneceram educadas, mas o espaço ao redor tornou-se estreito. Galahad estava incomodado com a pressão imposta sobre seu companheiro, mas manteve-se atento em meio ao cerco discreto.

Antes que um dos homens iniciasse uma explicação detalhada sobre alianças inevitáveis, uma voz de enorme carisma atravessou o grupo. Ra’as Shyr havia surgido do meio da multidão.

— Que cena bonita. A agilidade do setor sempre me surpreende quando surge um herdeiro.

— Isso se chama responsabilidade. Talvez devesse experimentar — respondeu um deles.

— Responsabilidade, claro. — Ra’as inclinou-se ao lado de Eigun. — Está conseguindo respirar, meu jovem? Pisque duas vezes se precisar de ajuda.

O comentário foi leve, mas sagaz o suficiente. O círculo se dissipou sob justificativas variadas, cada qual buscando outro ponto de interesse no salão. Ra’as Shyr suspirou antes de continuar a falar.

— Rapaz, esses velhos são mesmo rápidos. — Ele observou os magnatas se afastarem. — Se colocassem essa mesma energia em inovar, eu já estaria falido.

— Acho que, no fundo, eles só querem estabilidade.

— Claro que querem. Estabilidade é uma coisa maravilhosa para quem está no topo. Para quem está subindo, é só uma forma de dizer “fique onde está”.

Ele analisou o jovem por um instante, sem perder o sorriso.

— Sabe, seu pai nunca me suportou.

— Eu sei. — Otatsu riu.

— Excelente. Seria constrangedor descobrir agora que ele gostava de mim secretamente.

Galahad andava um pouco atrás, os ouvidos atentos à conversa.

— Seu pai era um concorrente difícil. Orgulhoso de sua nação, direto, previsível, de certa forma. Competição honesta é um luxo. Perder um concorrente forte sempre é ruim para o mercado. Muito ruim mesmo. Homens fracos não nos obrigam a melhorar.

Otatsu permaneceu em silêncio por um momento.

— Não sei se sou capaz de ocupar o lugar dele.

Ra’as riu, mas não alto. O suficiente para manter o clima leve.

— Ótimo. Se tivesse dito que já é capaz, eu ficaria preocupado. Dúvida significa que você ainda está pensando. Homens que pensam costumam ser trabalhosos.

Ele deu dois tapinhas nas costas de Otatsu, o sorriso se abrindo novamente.

— Continue sendo trabalhoso, Otatsu. Eu detestaria vencer porque você desistiu.

Ra’as Shyr seguiu seu caminho, e a dupla enfim ficou sozinha. Galahad, que estava um pouco atrás, aproximou-se novamente, ficando ao lado de Otatsu.

— Acredita no que ele disse? — perguntou o cavaleiro.

— Não sei. Mas confio no que ele acredita.

— O que seria?

— Um mundo onde ninguém espera que eu seja meu pai.

A música cessou de forma abrupta, e todos foram pegos de surpresa. As luzes oscilaram, e os hologramas falharam por um instante. Quando reapareceram, os cálculos de Ryoma haviam sido substituídos pelo símbolo da Tríade.

— O que está acontecendo? — murmurou Otatsu.

— Seja lá o que for, não é bom.

Enquanto o murmúrio e o pânico espalhavam-se pelo salão. Uma voz tomou conta do salão, entregue pelos próprios sistemas de som.

— Aqui, vocês celebram o futuro construído sobre os corpos que escolhem ignorar.

Os olhares se ergueram quase ao mesmo tempo. Em uma das passarelas do nível superior, uma figura estava sobre o parapeito, seu rosto coberto por uma máscara, suas roupas igualmente discretas.

— Esta cidade flutua porque alguém está por baixo dela. Hoje, vamos virá-la de cabeça para baixo.

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