Lobos de Mibu Brasileira

Autor(a): Suzuya


Volume 1

Capítulo 10: O Príncipe das Sombras

No vão estreito de dois prédios em manutenção, um bar clandestino era suspenso apenas por cordas metálicas. Um toldo gasto escondia a entrada, assim como a música abafada e o cheiro de álcool barato. Ali dentro, o crime operava no nível mais ínfero.

Homens se revezavam nos jogos em mesas improvisadas. Cartas, dados, fichas metálicas marcadas à mão. O dinheiro mudava de dono rápido demais para ser apenas sorte. Um terminal velho, atrás do balcão, piscava conectado a um jogo que não constava em nenhum registro oficial.

— Última rodada — avisou o dono do lugar, enquanto limpava o balcão com um pano velho.

Ninguém deu ouvidos. Continuaram a jogatina.

Num canto, um sujeito de casaco escuro empurrou um microdisco para o centro da mesa. Não era uma aposta, era um pagamento. O homem à sua frente conferiu o selo, assentiu e então guardou o item no bolso interno do paletó.

— Você sabe que a Tríade não gosta de atrasos, não sabe? — perguntou, em tom neutro.

— Não vai acontecê de novo, patrão. Avisa pra rapaziada ficar tranquila, morô? — respondeu o outro. — A mercadoria já subiu, tá tudo certo.

Um terceiro homem virou o rosto para a entrada. Seu copo tremeu levemente. O sorriso havia sumido antes mesmo de entender o motivo. Algo parecia errado. Talvez estivesse. Mas não no bar, fora dele.

— Ouviram isso? — murmurou.

De repente, o som da música pareceu distante. O vento atravessou o corredor estreito entre os prédios e apagou uma das lâmpadas. As sombras avançaram sobre a mesa como manchas de tinta negra.

— Acende essa luz! — gritou um deles, com medo na voz.

— Estou acendendo, calma! — O dono berrou, isqueiro em mãos.

— Acende essa porra logo! — repetiu outro, a voz ainda mais desesperada.

A lâmpada se acendeu, e as sombras recuaram. O medo, porém, já havia se instalado.

— Alguém fecha a porta — ordenou o homem de paletó.

Ninguém obedeceu. Não tinham coragem. Todos os olhos permaneceram atentos à escuridão além das quatro arestas.


Abaixo da linha principal de tráfego, um estacionamento estava coberto pela penumbra. Luzes fracas pintavam tudo de vermelho-alaranjado, refletidas nas latarias antigas e no concreto rachado.

Dois homens empurravam um carrinho carregado de caixas seladas, os movimentos rápidos demais para parecerem calmos. Não era pressa, apenas hábito. Trabalhadores noturnos aprendem cedo a não dar margem ao azar.

— Última entrega da noite — disse um deles, os olhos no relógio. — Depois disso, a gente mete o pé.

O outro assentiu, mas não respondeu de imediato. Reduziu o passo de forma inconsciente; os olhos vagavam pelo estacionamento vazio. Havia carros demais para aquele lugar esquecido.

Algo na forma como estavam dispostos o incomodava. Estavam próximos demais uns dos outros, formando corredores estreitos onde a luz não alcançava. Entre uma fileira e outra, o escuro parecia mais denso, como se não fosse apenas ausência de iluminação.

— Ei, desde quando tem tanto carro por aqui? — perguntou por fim, a voz baixa, os olhos fixos nas fendas negras entre os veículos.

— Hum? Ah, isso aí deve ser carro apreendido — respondeu o primeiro, sem prestar muita atenção. — Esse setor vive mudando de função.

Eles empurravam o carrinho com mais cuidado, desviando instintivamente das áreas onde as sombras se acumulavam. Em certos pontos, elas pareciam não acompanhar o tremor das luzes; permaneciam imóveis demais, coladas ao chão e às laterais dos carros.

O homem do relógio percebeu algo estranho quando a sombra projetada pela própria perna se alongou além do esperado. Tocou o carrinho antes que ele chegasse perto o suficiente.

— Espera — disse, enquanto o coração tentava normalizar o ritmo.

— Adianta, mermão — respondeu o outro, impaciente.

O primeiro apontou com o queixo para a lateral de um sedã abandonado. A luz batia direto ali, clara demais para que aquele tipo de escuridão se formasse sob o chassi. Ainda assim, a sombra no chão era espessa demais, uma mancha sem contorno definido, que não refletia.

— Aquela sombra… ela não tá certa.

O segundo forçou uma risada curta, nervosa, mas não teve coragem de se aproximar.

— É só o ângulo, parça. Vamo meter o pé, bora.

Eles apressaram o passo. Quanto mais rápido caminhavam, mais o estacionamento parecia se alongar; os corredores ficavam mais profundos, mais escuros. A própria escuridão parecia respirar. Respiraram aliviados quando enfim foram banhados pela luz do luar, fora do estacionamento.


O beco cortava dois prédios residenciais de ponta a ponta. Era uma cicatriz antiga, lembrada somente pelos ratos que por ali passavam. Seu concreto, desgastado; suas janelas, cegas. 

Sacos de lixo empilhavam-se junto às portas de serviço. Nada chamava atenção, e justamente por isso servia tão bem. Um espaço onde a cidade não fazia perguntas.

Quatro homens avançavam pelo corredor estreito, passos rápidos, mochilas pesadas demais para conter apenas roupas. Falavam baixo, e risos curtos escapavam entre frases truncadas. 

A adrenalina do assalto ainda queimava sob suas peles. Um deles abriu a bolsa por um segundo, apenas para confirmar o brilho de joias e outros objetos valiosos.

— Foi molezinha — comentou um, ajustando a alça no ombro. — O coroa nem entendeu o que aconteceu.

— Fecha o bico, caralho! — berrou o segundo. — Vai espalhar o assalto pra todo mundo?

As lâmpadas presas às paredes falhavam, espalhadas demais para iluminar todo o beco de uma vez. Entre um foco e outro, o escuro parecia se acumular, tornar-se mais espesso. Um deles diminuiu o passo sem perceber.

— Ei... — murmurou. — Minha sombra tá errada.

Os outros riram, o passo reduzido para acompanhar o terceiro.

— Enche o rabo de droga e fica doidão — disse um deles. — Tá vendo coisa onde não tem.

— Quando tu dormir, isso passa — comentou o outro.

O riso morreu no meio do caminho, pois as sombras nas paredes não reagiam mais ao piscar das luzes. Permaneciam fixas, densas. Uma caçamba de lixo projetava uma mancha longa, com um formato que não batia com o seu. Um deles virou o rosto e teve a impressão de que uma sombra havia se movido.

— Vocês viram isso? — perguntou, a voz baixa, trêmula.

Outro girou devagar e encarou o trecho por onde haviam passado. O beco parecia mais fechado. O ar estava mais pesado, frio. O espaço entre as paredes do corredor já não os convidava a seguir adiante.

Instintivamente, ficaram de costas uns para os outros, em um círculo irregular. Armas na mão, cada um vigiava um lado, atentos à própria sombra. O escuro parecia avançar pelos cantos, preenchendo os vazios.

O som das respirações ofegantes foi interrompido pelo eco de um passo.

Era curto, próximo.

Então outro, do mesmo ponto.

Todos olharam na mesma direção. Apenas a penumbra se fazia presente. Até que, então, dois pontos de luz surgiram no fundo do beco, na altura do rosto. 

Um era azul, o outro, amarelo. Não refletiam a iluminação ao redor; pareciam emitir a própria luz. A figura avançou até sair da sombra. Ela se desfez ao redor de sua silhueta, como se estivesse sendo trajada. 

Um cachecol branco envolvia seu pescoço. O padrão no uniforme indicava que era um samurai da Shinsengumi, mas não era turquesa. Não, o uniforme era quase todo negro, apenas com os espinhos em branco.

Ao redor, as sombras recuaram, servas que se curvavam diante de seu príncipe.

Ele inclinou levemente a cabeça, a voz calma, deslocada de todo aquele medo.

— Tá fazendo frio hoje, hein?


O senhor ficou surpreso ao ouvir alguém batendo à sua porta. Afinal, após o infortúnio mais cedo, quem poderia ser àquela hora? O trinco girou devagar, até ceder com um estalo. Por trás da fresta, o jovem Okita Tezuka encontrava-se em pé, com seus cabelos brancos e olhar bicolor.

Os pequenos e envelhecidos olhos do senhor demoraram um pouco até reconhecer o uniforme escuro à sua frente. Apoiado no ombro de Okita estava um saco aparentemente pesado.

— Ora… — murmurou o idoso. — Shinsengumi, não é?

— Boa noite, senhor. Isso mesmo. — Okita inclinou a cabeça. — Estou aqui para devolver seus pertences.

— Ah, é sobre o assalto mais cedo, não é? — ele gargalhou. — Eu pretendia relatar ele pela manhã, mas pelo visto não será necessário.

O senhor permitiu a entrada do jovem Tezuka em sua casa. Ele abriu a sacola e começou a enumerar os itens, enquanto os colocava sobre a mesa com cuidado.

— Está tudo aqui? — perguntou Okita.

— Sim, sim. Era só isso mesmo.

O policial não pôde deixar de notar o estado da casa, completamente revirada. Alguns móveis quebrados, papéis e objetos sem valor espalhados. Era tarde, e com certeza aquele senhor não merecia dormir em tamanha bagunça.

— Deixe-me ajudá-lo com essa baderna — sugeriu o jovem.

— Não, não. Você já fez demais, tenho certeza de que há mais pessoas para ajudar. Não quero tomar seu tempo.

— Está tudo bem, esta noite está calma. — Okita retirou seu cachecol e o sobretudo da polícia. — O senhor pode se sentar, eu dou conta.

O idoso obedeceu com um sorriso; seus olhos começaram a acompanhar cada movimento do jovem samurai.

Ele começou pelo que estava mais próximo. Endireitou as mesas, recolheu os papéis do chão e varreu os cacos de um vaso quebrado para longe dos pés do senhor. Seus movimentos eram precisos, quase automáticos; para ele, aquela casa era apenas mais um cenário que precisava voltar ao eixo.

— Você é novo — comentou o idoso, quase casual. — Deve ter a idade do meu neto.

— É possível — respondeu Okita.

— Mesmo assim, é muito cedo para alguém da sua idade estar trabalhando em algo tão perigoso. E tão tarde da noite! — ele alisou a barba. — Você está em fase de crescimento, deveria estar dormindo.

— A maior parte da Shinsengumi está acordada durante o dia. Alguém precisa tomar conta da noite, se não os ratos fazem a festa.

Ele endireitou uma cadeira, colocou os livros de volta na estante. Alinhando-os um por um, aos poucos a casa retomava sua forma. Enquanto arrumava, o jovem pensava: para os idosos, sua casa costumava virar o próprio mundo. Revirá-la daquela forma era uma grande falta de educação.

— Vocês da Shinsengumi realmente mudaram a cara da cidade, hein? — disse o senhor. — Em tão pouco tempo, tudo ficou mais seguro, organizado. As pessoas agora podem viver sem medo. Antes era bem pior.

— Bem, antes da Shinsengumi, a Guarda Real era a responsável pelo policiamento da cidade. E... eles não são exatamente uma unidade policial. — Ele jogou a sujeira e os cacos de vidro no lixo.

— Guarda Real... São um bando de mercenários, é isso que eles são. Na guerra, lutaram pelo Shogun apenas por dinheiro, e agora são considerados heróis.

— Nem todos, senhor. — Kondo surgiu na mente do jovem. — Nem todos.

Okita enfim havia terminado. A casa não parecia nova, mas havia voltado a respirar. O senhor se levantou com um leve esforço, caminhou até uma pequena gaveta intacta e retornou com algo na mão. Então estendeu uma bala de canela para o jovem.

— Minha esposa adorava essas balas. Aceite, como forma de agradecimento — disse, de forma genuína.

Tezuka aceitou o presente, agradeceu e então colocou de volta seus acessórios. Ele seguiu até a porta, acompanhado pelo idoso, onde se despediram.

No canto da escada externa da casa, os três criminosos repousavam inconscientes, algemados. O garoto os agarrou e começou a arrastá-los, até desaparecer na escuridão.

O papel da bala estalou baixo entre seus dedos antes de ser aberto. O gosto forte de canela espalhou calor pela boca, amenizando o frio da noite. Okita seguiu adiante, o cachecol ajustado ao pescoço.

Na prisão da Shinsengumi, muitos homens acordariam algemados e tentariam compreender o que os havia cercado. Não lembrariam de golpes ou lâminas. Mas lembrariam da escuridão.

Passariam a temer as próprias sombras, desconfiados daquilo que sempre os acompanhou.

Para os criminosos, ele era uma lenda, algo que não deveria existir. Para a noite, porém, era apenas o seu príncipe, que imperava em silêncio sobre um reino insone.

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