Volume 4
Capítulo 785: Uma Intrusa
Depois que Pergaminho saiu, Roland e Anna ficaram sozinhos no escritório.
Roland abriu um livro didático 50% concluído, planejando terminar a outra metade, mas as palavras pareciam fugir dele. Por um longo tempo, a pena de escrever ficou imóvel, e ele não conseguia produzir nada.
Roland notou que ele sempre, sem querer, olhava para Anna, como se seus olhos se sentissem atraídos por ela.
— Algum problema? — Sentindo o olhar, Anna abaixou os papéis e olhou para Roland, sorrindo.
— Não, nada. — Roland balançou a cabeça levemente. — Se você se sentir entediada aqui, pode ir pra Área dos Fundos da Montanha da Encosta Norte.
Anna deu um sorriso quase imperceptível.
— Não me sinto entediada. Eu posso terminar o trabalho aqui. Além disso, eu não me importo, contanto que eu esteja com você.
Essas palavras poderiam corar as bochechas de qualquer dama, mas vieram naturalmente de Anna.
— Certo. — Sorrindo, Roland não tocou mais no assunto.
Ele sabia que Anna nunca mentiria para ele.
Já que Anna era a primeira bruxa com a qual ele havia se familiarizado neste mundo, Roland a conhecia muito bem. Tirando algumas discussões acadêmicas e conversas românticas, na maior parte do tempo Anna era quieta e séria, especialmente quando ela estava focada no trabalho. Mas Roland não achava que ela era uma pessoa fria. Silêncio, para eles, também era uma forma de comunicação.
Às vezes, um simples contato visual era o suficiente para eles se entenderem.
Roland decidiu esquecer o livro didático por enquanto. Ele colocou a pena de escrever na mesa e olhou para o rosto de Anna.
A lateral do rosto dela sempre o fascinou. Aquele cabelo cor de mel, que já havia crescido bastante, cascateava pelos ombros dela, revelando parte do pescoço. Seus olhos azuis eram tão claros quanto um lago cristalino. Ela usava um agasalho amarelo e macio, e uma calça preta confortável e quadriculada, conferindo-lhe um ar de tranquilidade e elegância. Roland se sentiu orgulhoso por ter desenhado essas roupas.
Como Anna já havia cortado os lingotes metálicos em cubos menores, ela só precisava processá-los com a Chama-negra no escritório quando eles fossem entregues no castelo. Roland ficou impressionado com o quão rápido esses lingotes eram transformados em peças completas. Até certo ponto, esse trabalho parecia mais uma performance artística do que uma mera demonstração das técnicas engenhosas de Anna.
Essas pequenas partes, que pareciam ser tão insignificantes, no fim seriam entregues às fábricas e se tornariam partes importantes de uma máquina ou arma.
Definitivamente não era uma tarefa fácil. Roland sabia muito bem que tanto o comprimento quanto a largura da Chama-negra precisavam ser controlados pelo poder mágico de Anna. Invocar a Chama-negra e cortar diretamente o lingote metálico por diferentes ângulos seria mais difícil que usar as duas mãos para trabalhar em duas funções completamente diferentes ao mesmo tempo. Precisava-se de uma concentração incrivelmente alta. Provavelmente, somente uma pessoa tão esforçada quanto Anna conseguiria se dedicar continuamente e se destacar nesse trabalho.
A garota, que costumava praticar manipulação de fogo no jardim do castelo, sem dúvida alguma havia mudado bastante, mas dentro dela ainda havia algo que permanecia o mesmo.
O dia passou tão rápido que Roland nem notou.
Quando anoiteceu e ele caiu no sono com Anna em seus braços, o outro mundo acordou. Sim, o Mundo dos Sonhos.
Bocejando, Roland virou a página do calendário, que estava em cima da mesa de cabeceira.
Era Sábado, 14 de novembro.
Embora o tempo corresse mais rápido no Mundo dos Sonhos do que no Mundo Real, Roland não visitava este mundo toda noite. Se ele não sonhasse, o tempo ficaria congelado no Mundo dos Sonhos.
O café da manhã já estava pronto quando Roland entrou na cozinha.
— Por que você acordou tão tarde hoje? — Zero perguntou enquanto comia um pedaço de pão.
— É fim de semana. Eu sou uma pessoa adulta e tenho minha vida noturna. Então é normal que eu durma até tarde. — Roland foi até o banheiro e pegou sua escova de dente e o creme dental. — E você? Tem escola hoje?
— Não, só tenho que fazer meu dever de casa. — A garotinha respondeu. Em seguida, ela falou baixinho: — Vida noturna? Esse velhote volta pra casa primeiro que eu e vem falar de vida noturna… Não passa de um perdedor que não tem amigos ou carreira… — Mesmo com a voz bem baixinha, Roland ainda conseguiu ouvir tudo o que ela disse. Claramente, ela havia feito isso de propósito.
Ele quase se engasgou com a espuma do creme dental em sua boca. Roland já não gostava que ela o chamasse de “tio”, e agora parecia que esse título havia evoluído para “velhote”. Ele se olhou no espelho. A aparência dele não era tão diferente da do Mundo Real. Pelo visual, ele parecia ter uns 23 ou 24 anos. E embora não estivesse bem vestido, seria um exagero enxergá-lo como um perdedor.
Roland desaprovou o comentário de Zero.
Ele decidiu não bater boca com ela e disse:
— Nesse caso, quando eu sair daqui a pouco, vou deixar minha chave aqui. Daí, quando eu chegar, você vai abrir a porta pra mim.
— Certo.
Quando ele terminou de escovar os dentes e lavar o rosto, Zero já havia terminado de tomar o café da manhã e ido para o quarto.
Roland foi até a sala e ligou a TV com o controle remoto.
Ele precisava se encontrar com Garcia hoje.
Nesses últimos meses, ele havia comprado todos os materiais e livros didáticos necessários e os guardado dentro do quarto. A única coisa que faltava agora era copiá-los. Por outro lado, ele havia encontrado alguns obstáculos na procura por fragmentos de memória.
Nenhum inquilino estava disposto a desistir de seu respectivo apartamento. Roland só havia conseguido persuadir dois inquilinos, mas não havia nada de interessante nos Fragmentos de Memória deles. Havia mais de dois mil moradores no edifício de apartamentos, mas o dinheiro que Roland conseguia ao vender armaduras era limitado.
Após pensar bastante, Roland concluiu que havia apenas duas opções possíveis: uma era aumentar seu rendimento e a outra, sua reputação.
Se ele pudesse ser tão influente quanto Garcia, ele poderia facilmente persuadir os vizinhos a se mudarem ou a alugarem seus respectivos apartamentos. E se ele ficasse bem financeiramente, outra solução seria comprar todo o edifício.
Qualquer uma das opções seria um grande investimento, e atualmente, a forma mais viável de conseguir um fundo tão grande seria se juntar à Associação Marcialista.
De acordo com Garcia, qualquer um que participasse da caça aos Servos do Diabo receberia uma generosa recompensa. Se o Marcialista estivesse disposto a fazer parte da operação, a associação lhe daria apoio irrestrito. Quando Garcia falou sobre a remuneração, ela pareceu bastante desinteressada, como se ela caçasse os Servos do Diabo apenas para proteger a humanidade, em vez do dinheiro.
Para falar a verdade, Roland sentia que essa organização, que se gabava das responsabilidades e dedicação pessoal, era bastante suspeita. Provavelmente, por trás disso tudo, havia conspirações e negócios obscuros. Diante disso, Roland não sentia lá muita vontade de trabalhar para eles, e certamente não trabalharia de graça. Ele só decidiu se tornar um membro da Associação Marcialista porque parecia que essa era a opção mais viável e rápida.
Às dez da manhã, Roland colocou um terno, preparando-se para sair. Embora o local de encontro fosse no Apartamento 0827, Roland sentia que seria melhor se vestir formalmente, já que, afinal, ele se inscreveria oficialmente.
Mas assim que Roland saiu do apartamento e fechou a porta, ele ouviu o grito de Zero.
O grito assustou Roland. Ele se virou e viu a garota abrindo e fechando a porta, assustada e nervosa.
— Qual é o problema? Um rato?
Zero gaguejou:
— Te-Te-Tem alguém lá dentro.
— Alguém? — Roland franziu as sobrancelhas. Ao abrir a porta e olhar para dentro, ele ficou paralisado.
No centro da sala de estar, que estava vazio segundos atrás, havia uma mulher desconhecida.
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