Volume 4
Capítulo 786: A Primeira Experiência de Sonho
A mulher tinha um longo cabelo castanho. Metade da franja dela estava jogada para o lado, revelando metade da testa. Ela tinha um rosto delicado, o que faria qualquer um pensar que ela era gentil. Ainda assim, sob as atuais circunstâncias, a beleza dela não encantou Roland, e sim fez ele pensar que ela era algum tipo de fantasma.
Além disso, Roland também notou que o vestido dela estava um pouco surrado e desbotado, como se tivesse sido encontrado no lixo.
— Eu, eu ouvi você saindo, daí queria checar se a porta estava mesmo fechada. Mas quando eu cheguei na sala, vi ela! — Zero estava bem pálida. Obviamente, aterrorizada.
A mulher também pareceu notar o que estava acontecendo. Quando ela levantou a cabeça e olhou para Roland, a expressão facial dela mudou abruptamente.
Roland cerrou os punhos. Ele não planejava fugir.
Mas o que a mulher disse logo em seguida o deixou perplexo.
— Vossa… Majestade? — Ela falou, surpresa.
O quê? Vossa Majestade?
— Hmmm… Você é… — Roland tentou descobrir o que estava acontecendo.
— Sou Phyllis, Vossa Majestade. O que está acontecendo aqui? — A mulher parecia ainda mais perdida que Roland.
Phyllis? — Vários pensamentos passaram pela cabeça de Roland. — Ela é a Bruxa da Punição Divina no salão do castelo? Como que ela conseguiu entrar aqui? O Mundo dos Sonhos agora está abrindo e se conectando com o Mundo Real? Cadê Anna? Por que ela não está aqui?
— Espere… Vocês se conhecem? — Zero percebeu que havia algo de errado. — O que ela quis dizer com “Vossa Majestade”? Vocês tão ensaiando alguma peça?
— Ah… Ela é… uma parente distante minha. — Roland de repente percebeu que essa não era a hora de ficar surpreso. — O “Vossa Majestade” foi apenas uma brincadeira dela. Nós crescemos juntos. Ela tem essa mania estranha de me chamar de Vossa Majestade.
— Uma parente? — Ao saber que a mulher não era um fantasma, a garotinha parou de ficar assustada e fez cara de valente. Ela começou a desconfiar, dizendo: — Mas você acabou de perguntar quem era ela.
Descaradamente, Roland retrucou:
— Perguntei? Que dia foi isso? Nunca nem vi, aliás, o que eu vi mesmo foi uma garotinha quase se mijar nas calças.
O rosto de Zero ficou vermelho.
— Seu, seu mentiroso!
— Não foi você que acabou de gritar? Essa mulher aí, que você acha que é um fantasma, já estava aqui antes, neste apartamento. Você tava tão ocupada com seu dever de casa que nem viu ela.
Para a surpresa de Roland, a mulher logo entendeu a situação.
— Me desculpe, eu… eu não queria te assustar. Eu dormi no quarto dos fundos. Quando eu estava prestes a dizer “olá”, você gritou e saiu correndo. — Phyllis disse.
Roland deu o toque final nesse teatro improvisado.
— Entende agora, Zero? É por isso que ela está confusa. Você assustou ela. Se uma garotinha gritasse assim comigo de repente, eu também ficaria confuso. Que falta de educação, heim.
— Eu… Eu… — Zero tentou rebater, mas não conseguiu. Ela não podia negar o fato de que havia gritado, já que ela não tinha o hábito de mentir. Acuada, a garotinha sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.
Roland percebeu que havia pegado muito pesado com a garota, então se curvou e acariciou o cabelo dela.
— Enfim, foi só um mal-entendido. Volte a fazer seu dever de casa.
Roland se sentiu um pouco culpado, pois sabia que uma criança como Zero não conseguiria ver através da malícia e dos subterfúgios usados pelos adultos. A vida dela só estaria completa quando ela passasse por decepções e enganações, pois essa era uma etapa inevitável do amadurecimento, uma cerimônia pela qual ela deveria passar a fim de se adequar ao mundo dos adultos e se tornar mentalmente madura.
Roland pensou que Zero sairia correndo para o quarto com lágrimas no rosto, mas isso não aconteceu. A garotinha deu um “humpf”, enxugou as lágrimas rapidamente e deu um chute bem forte na canela de Roland.
— Tio, você é um babaca! — Com essas palavras, ela correu para o quarto, furiosa.
Roland fez cara de dor. A reação dela foi um pouco diferente da que ele havia imaginado, mas… de todo modo, ela havia aprendido a lição.
— Hahaha. — A mulher que afirmava ser Phyllis caiu na gargalhada. — Parece que você não é um rei todo poderoso aqui.
— Mas eu sou o criador e o governante deste mundo. Bem… Vamos pro meu quarto. Eu tenho muitas perguntas pra fazer.
Depois de meia hora, Roland finalmente se convenceu de que a mulher era Phyllis.
Ela falou sobre Taquila, sobre o que viu no castelo, sobre seu disfarce como guia nos Mercadores Negros. Ela até mesmo revelou algumas informações que Roland nem sabia. Seria impossível desenvolver uma narrativa tão bem organizada e consistente ao simplesmente ler as memórias de alguém. Roland, portanto, teve a certeza de que essa mulher não era um ser autoconsciente criado automaticamente por este mundo.
Além disso, a aparência da mulher diante dele era a da verdadeira Phyllis. A Phyllis antes de se tornar uma Bruxa da Punição Divina.
Então a pergunta era: como ela havia conseguido entrar no Mundo dos Sonhos?
Phyllis balançou a cabeça:
— Eu também não sei… Já era tarde da noite, os soldados haviam acabado de trocar de turno. Daí eu desconectei meu corpo pra dormir profundamente e restaurar minha força. Quando eu acordei, estava aqui. — Ela parou por um momento e depois continuou: — O senhor chama isso de… Mundo dos Sonhos?
— Correto. Este é um mundo que opera apenas em meus sonhos, mas eu não sei se essa regra ainda se aplica agora. — Roland sentiu que não precisava mentir para ela, já que era mais importante descobrir como ela havia conseguido entrar no Mundo dos Sonhos. Embora Roland soubesse que este mundo complexo não existia em sua cabeça, ainda era… muito chocante se deparar com alguém que não havia sido convidado. Afinal, o Mundo dos Sonhos havia sido criado precisamente de acordo com suas memórias. A presença de um(a) intruso(a) indicava que alguém poderia entrar em suas memórias sem permissão. Roland pegou a escada tesoura atrás da porta e colocou perto da cama, dizendo: — Vamos fazer um pequeno teste para descobrir como você veio parar aqui.
— O que é isso? — Phyllis perguntou, surpresa.
Roland explicou:
— Quando eu caio da escada, o sonho termina. Você pode testar primeiro pra ver se consegue voltar pro Mundo Real. Logo depois eu vou fazer o mesmo. Se nós dois conseguirmos sair daqui, me espere no salão do castelo. Bem… Vamos lá.
— Espere um pouco… Vossa Majestade. — Phyllis estendeu a mão, tentando pará-lo.
Roland ficou pasmo com o comportamento dela. Este seria um ato de extrema insolência na Cidade de Primavera Eterna. Poderia ela ter se esquecido de toda a conduta e tradição que aprendera nos últimos séculos? Roland achava isso improvável.
Phyllis perguntou em voz baixa:
— O senhor poderia… me beliscar?
— O quê? — Roland ficou atônito.
— Me belisque o mais forte que o senhor puder, por favor. — Phyllis levantou a manga e disse.
— Mas a dor não interrompe o sonho. Eu já confirmei isso.
— Eu só quero sentir dor… Por favor.
— Sentir… dor? — Roland logo se lembrou do que Agatha havia falado sobre as Bruxas da Punição Divina e entendeu o que Phyllis queria dizer. Após um momento de silêncio, ele beliscou bem forte o braço de Phyllis.
Phyllis cerrou os dentes e… gemeu de satisfação. Ela tremeu de empolgação, parecendo um prisioneiro que havia readquirido a liberdade após décadas de cárcere.
Depois de um bom tempo, Phyllis abriu os olhos e respirou profundamente.
— Santo Deus, eu posso sentir dor novamente! — Phyllis parecia uma pessoa completamente diferente. Seus olhos radiantes fixaram-se em Roland, cintilando de alegria.
Roland deu de ombros, dizendo:
— Você pode se beliscar sozinha.
Phyllis balançou a cabeça e de repente se ajoelhou, dizendo:
— Isso é diferente, Vossa Majestade. Talvez este mundo seja apenas um sonho para o senhor, mas eu poderia fazer qualquer coisa só para estar aqui. Eu não sei se, depois de sair daqui, eu vou conseguir voltar novamente. Então… eu poderia ficar aqui só mais um pouquinho?
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