Last Downfall Brasileira

Autor(a): VALHALLA


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 27: O Castigo do Protagonista

Durante um tempo, Guilherme ficou encarando o homem de cabelo azul, pois pretendia decifrar seus mistérios e, ao mesmo tempo, arrumar uma forma de escapar da situação lastimosa que se encontrava.

Os dois estavam de frente, mas o rapaz não estava com ânimo de enfrentar os joguinhos dele. Ao sentir o corte no rosto arder foi como receber um soco de realidade. Desejou que os pães que comeu ajudassem a melhorar sua aparência horrível, antes que aquele homem, ou qualquer outra pessoa, resolvesse chamar os pontas vermelhas para lhe expulsar da praça.

Esse cara é um mísero aventureiro de classe G, a classe mais baixa do rank das Guildas dos Heróis.

É tão fracassado quanto eu.

Só… não sei, tem qualquer coisa de muito estranha no seu olhar intenso.

Droga!

O que esse Papai Smurf do Paraguai quer comigo?

— O sentido da aventura é ir para frente — disse Dick, vendo que o rapaz havia ficado mudo. — Entende isso?

Guilherme não confiava naquele sujeito estranho como cobra sorridente, só que não era burro, e viu nisso uma boa oportunidade para resolver todos os problemas. Ainda, como bônus extra, poderia usar as palavras do sabichão contra ele mesmo.

— Sim, é claro, eu consigo entender. Ir para frente é o segredo da aventura, tem certeza? — ele perguntou, usando os olhos para interpretar as expressões do homem de cabelo azul. — Não posso negar sua sensatez, e me sentiria bem melhor para viver uma grande aventura dentro do seu grupo de aventureiros. Se ir para frente é tudo que importa, ora, não vai ter problema em me aceitar.

— Você é incrível, garoto da pedra falante, mal recuperou as forças e já quer jogar comigo. Você é perigoso, quanto potencial. Mas já disse, não pode entrar no meu grupo!

— É você que está jogando comigo. O que quer de mim? Não sou idiota, já me ajudou duas vezes, sem contar com a dica da guilda da caveira. Tudo isso não faz sentido — disse, irritado, porém, mais interessado em implorar que ofender. — Sou especial, sabe disso, deixa eu entrar, por favor, qualquer função serve.

— De fato, o jogo é divertido, porém, como antes, você ainda não sabe jogar. Não irá sobreviver!

— Eu posso aprender. Sou bom em jogos. Deixa eu entrar no seu grupo, por favor.

— Outra vez o egoísmo, e misturado com fraqueza, é feio demais, garoto da pedra. Confundi ajudar com dependência é um grande erro. Além do mais, você se inscreveu na guilda da caveira, não foi? O Conselho das Guildas jamais permitirá que entre num grupo de aventureiros.

— Mas Dick, se você não me ajudar, vou morrer.

— É claro que vai, se não descobrir o seu caminho, vai morrer. O mundo já tem heróis demais. Você é um mercenário, aceite isso, e viva sua aventura! 

Guilherme queria voar naquele homem e encher a cara dele de socos, mas não era idiota o suficiente, e era bastante covarde.

Esse maldito não entende…

Não existem heróis mercenários.

Não é isso que eu quero.

Quero ser um aventureiro corajoso!

— Aquela maçã mostrou que você não é ladrão — continuou Dick —, então esqueça do caminho fácil antes que algo pior aconteça. Apesar de tudo, você me surpreendeu, vejo valor em seu coração, por isso não desista da sua jornada por migalhas.

— Você planejou alguma coisa para mim, não foi? Eu sei! Tem informações que não tenho. É a única explicação. Mas não vou ser um dos seus peões. Se está fazendo apostas contra mim, pode apostar que vai perder!

O homem começou a rir enquanto arrumava o seu cabelo azul.

— Que ótimo ver essa animação — ele disse entre risos. — Só vou concluir uma missão e vou deixar essa cidade! — Pegou sua espada e olhou além da floresta que circundava Carrasco Bonito. — Sugiro que faça o mesmo enquanto há energia no seu corpo.

O perfil de apostador que Guilherme formou sobre Dick era: aquele jogador espertalhão, brincalhão em todos os sentidos e esperto como uma toupeira, porém, com os bolsos cheios de fichas.

Só por esses motivos, se fosse uma mesa de poker, já seria lucrativo grudar nele feito cola.

No entanto, esse mundo não era a Terra e não estava num cassino virtual, seguro, na frente de uma tela. 

Se esse espertalhão o tivesse aceito, era certo que todos os problemas do rapaz acabariam e nunca mais passaria dificuldades.

Entretanto, Dick quis entrar num jogo obscuro, e apostar com uma mão de trinca de valetes, mesmo diante do jogador que era capaz de ler todos os blefes.

Um grande erro.

Vai perder até as cuecas, Papai Smurf.

Jogou errado, noob.

Vai quebrar a cara, e será bonito.

Acha que caio nessas de PROPÓSITO HERDADO.

Esse mundo não é One Piece, e você nem tem o cabelo ruivo.

Miserável!

Guilherme saiu da toca do coelho e deu algumas risadinhas maquiavélicas.

Curioso, Dick perguntou:

— O que há de tão engraçado numa despedida?

— Não é isso. Estava recordando algo engraçado da minha terra natal.

— Espero que seja uma boa piada, é? Há, deixa, algum dia você me conta. — Dick olhou fixamente para o rapaz e disse: — Já é hora de partir, se deixar ela esperando… sou um homem morto.

— Ela?

— Penélope, você não a viu, lá na Guilda dos Heróis? Ela lembra de você. Bem, sorte sua que esqueceu, senão teria pesadelos horríveis. — Dick tremeu. — Sabe, acho que ela me vigia… hehehe… não ouviu isso de mim. Bem, até uma boa vista, Guilherme, o sábio que pensa que é miserável!

— Tanto faz, está bem, já que você insiste... — suspirou Guilherme. — Sim, sim, se não vai me aceitar em seu grupo, pouco me importa seus companheiros idiotas, logo depois que vencer essa cidade, você irá se arrepender por ter virado as costas para mim. Meu bando será o mais forte e famoso desse mundo; Coelho, não se…

Quando decidiu lançar um olhar impactante, para se fazer de durão, descobriu que estava falando sozinho, e só conseguiu avistar o cabelo azul a uma légua de distância, subindo a rua.

Dick acenou e gritou.

— Você é engraçado, garoto da pedra falante, boa sorte e: ADEUS!

Mas, mas, mas… como ele chegou lá tão rápido, maldito?

Fuuu… o infeliz estava certo numa coisa, preciso resolver minha vida e não pode ser nessa cidade.

Mas consigo escapar?

IR EM FRENTE.

Agora isso vai ficar martelando na minha cabeça.

Besteira!

Vou dar meu jeito!

O que a pedra iria dizer?

Tanto faz.

Guilherme estava decidido que poderia resolver sua situação, sem perceber que não restava mais tempo para suas tolices.

Ele pôs-se a perguntar a torto e direito, naquela praça, sem pensar em nada efetivo, buscando apenas alguém que pudesse oferecer um trabalho. Mas todas as pessoas tiveram repulsa do seu estado.

Anoiteceu, então sentou num canto, desanimado. O calor escaldante das manhãs deu lugar a um vento gelado e constante, e percebeu que não tinha escolha, teria que deixar Carrasco Bonito a qualquer custo.

Então se deitou aos pés das estátuas do Grande Urso; pelo menos não estava com fome.

Dessa forma não vou conseguir nada.

Não adianta, essas roupas imundas e junto dessa ferida escorrendo pus, é horrível demais.

Estou parecendo a bosta de um carro velho vazando óleo.

Posso pegar algumas roupas para tentar melhorar minha aparência.

Depois da maçã e tudo que Dick disse, vai mesmo roubar?

aff!

Vou pensar nisso amanhã.

Aqueles pãezinhos salvaram minha pele, pelo menos por um tempo.

Era de carne, qual mesmo?

Droga!

Estavam tão gostosos.

O que vou fazer para escapar dessa cidade?

◈◈◈◈◈◈

Os dias passaram rápidos e a situação não melhorou para Guilherme desde o último encontro com Dick, na verdade, sua condição física e mental foi ladeira abaixo.

Se passaram quatro dias. Quis seguir os conselhos do Papai Smurf e deixar a cidade de Carrasco Bonito, mas tentou tudo e não conseguiu; pelo menos se conformou com essa desculpa.

Ele foi até a entrada do Bosque dos Sussurros. Com medo, não entrou, mas sentiu o olhar sinistro do líder da matilha. Conseguia imaginar a satisfação da fera por lhe ver definhar. 

Você não tem a coragem de entrar na cidade para me pegar, não é, cachorro estúpido?

Também não vou te dar o gosto de me estraçalhar nesse bosque dos infernos.

Eu vou matar você!

Com seu couro vou fazer um tapete e colocar na entrada do sítio, para ele dormir.

Hã?

É tão tarde, preciso ir ao cafezal, é dia de poda.

Mamãe vai ficar brava.

Droga… o que estou pensando, o sítio não existe mais.

Não… ele gosta de brincar entre as folhagens dos pés de cafés.

É divertido.

Onde estou?

O corte no rosto gangrenou. A febre se tornou insuportável. A fome virou um espectro que caminhava ao seu lado.

Mais do que nunca, Guilherme era responsável pelo seu estado, e não haveria perdão se falhasse. Porém, misturar as realidades em sua cabeça, trazia um pouco de alívio.

Nunca mais voltou a ouvir o seu companheiro, e pensou que só foi outra ilusão. A besta lendária da sabedoria nunca existiu, e essa pedra no seu pescoço só é uma pedra comum de leito de rio.

Eu sempre vaguei sozinho no purgatório.

Sem rumo, doente e faminto, ele voltou para a praça. O lugar estava vazio, mas próximo da estátua do Grande Urso havia um homem jogando migalhas aos roedores do lugar. Teve esperança de que fosse o Dick, mas não, era apenas um velho tentando capturar ratos para sobreviver.

Não sei o que daria para encontrar ele de novo.

Comer pães.

Dessa vez ele iria reconhecer que sou especial.

Não, não vai!

Não vou voltar a ver aquele cara.

Nunca mais vou ouvir a pedra.

Vou morrer!

As ruas e avenidas zuniam de movimento. Carruagens luxuosas ignoravam os miseráveis. Os miseráveis vasculharam os córregos de esgoto para encontrar comida. Os escravos eram surrados.

Esse mundo girava. Todos pareciam tão indiferentes à aflição do rapaz quanto a estátua de mármore do grande herói deles, que se erguia como um farol no meio daquela podridão.

Um mundo novo?

Uma ova!

ISEKAI?

É a mesma porcaria da Terra.

É a Terra.

Os ricos comem. Os pobres passam fome. Os fortes vencem. Os fracos sofrem. Os sonhos morrem.

Quem eu tentei enganar que aqui seria diferente?

Só a mim mesmo!

Poderia mudar?

Não!

— Baruuum… ca-cabuuum!

Escutou o poderoso ruído de uma explosão. Em seguida, começou uma correria, pessoas livres misturadas com escravos, todos desesperados.

O instinto fez Guilherme fugir seguindo pela avenida; não sabia para onde estava indo, e apenas correu na direção contrária dos gritos e da correria. As trombadas nas outras pessoas desesperadas quase o jogaram ao chão, com outros miseráveis, várias vezes.

Quando as coisas se acalmaram, percebeu que havia chegado na Rua das Baratas, que tão próximo da Guilda dos Heróis, seu coração sentiu uma profunda dor.

A visão das inúmeras barracas, tanta comida, era cruel demais para um faminto, mas entre tudo isso, ele viu um pedaço do paraíso.

Uma linguiça, feita com a carne e tripa de porco, tombada meio de lado sobre um balcão de madeira, era enorme e suculenta. Estava tão perto dele, que só precisava erguer a mão e pagá-la, para saciar a fome.

Foi como ser puxado por uma força anormal, pois avançou sem nenhuma restrição. A boca salivou, os olhos cintilaram e o estômago roncou.

Guilherme pegou a linguiça e puxou para seus braços, e depois a abraçou como se fosse um tesouro.

Minha preciosa!

Não demorou dois segundos. Dois homens agarraram os braços do rapaz e o arrastaram, ao redor da barraca de carnes, ao longo de uma construção de tijolos, por dentro de uma porta, passando por um corredor e entrando numa sala escura que havia pedaços de carnes espalhados por toda parte.

Depois de tanta agitação, a única coisa que Guilherme conseguiu recordar foi de uma placa na frente de uma loja bonita, com os escritos: casa de carnes do açougueiro.

Dentro da sala, que lembrava os fundos de um depósito, foi jogado num chão frio e úmido. No lugar, havia uma parte na completa escuridão.

— Senhor, açougueiro, esse rato roubou uma das linguiças no balcão de rua — disse um dos homens, um loiro e jovem. — Não vou fazer isso sozinho. Estamos juntos neste negócio.

O que esse garoto tá falando?

Ele tem a minha idade?

O loiro deu um soco na boca do estômago de Guilherme.

Guilherme sentiu muita dor, e num momento de lucidez e rancor, disse:

— Eu só roubei porque tenho fome. Vocês têm tanto e eu não tenho nada. Que inferno, isso não é certo!

— Rato miserável, ainda quer choramingar — disse o outro homem, esse era velho, e depois deu um soco violento nas costelas do rapaz. — Não existe certo ou errado no mundo, é tudo ponto de vista.

O soco acertou entre as duas costelas quebradas, pressionando os órgãos internos.

O loiro não quis ficar fora da brincadeira, agarrou Guilherme pelo cabelo e o puxou, em seguida deu-lhe um mata-leão apertado, parecia um laço duplo em volta do pescoço.

Da escuridão, um braço ergueu um cutelo assustador, deixando o rapaz apavorado e sem fôlego. Quando conseguiu respirar o bastante para tentar entender a sua situação, o pesado cutelo caiu sobre um tronco de madeira, fincando-se nele.

Guilherme cravou as unhas no braço e na mão que o sufocava, mas nada conseguiu, sem poder respirar, arregalou os olhos na direção do escuro, tentando ver a figura que se aproximava, trazendo junto um terror indescritível.

— Vocês não querem fazer? É isso? Acham que apenas uns tapas e alguns ossos quebrados serão suficientes. Idiotas! Se não cuidar dos ratos, eles vão continuar voltando e voltando. Tudo bem… eu posso fazer! — O homem riu de forma sinistra, não dava para ver, mas podia ouvir as perturbadoras risadas.

Desesperado, Guilherme sacudiu a cabeça, e conseguiu um pouco mais de espaço.

A falta de oxigênio já lhe dava tontura, e ele parecia ver a própria escuridão ganhando forma explodindo seu coração de pavor, sendo algo a mais, porque aquela escuridão tinha o formato de um sorriso infernal.

As trevas vieram cobrar seu preço.

— Hhe… hhe… vvão llevar uum ppedaço, mmas nnão vvai mmorrer…

O braço em volta do pescoço soltou-se e o rapaz caiu de joelhos, ofegante, para encher os pulmões de ar. Uma luminária se acendeu e viu diante dele, nítido, o homem medonho.

— O país está infestado de pragas. Fique aí sentado, e de boca fechada, rato — disse ele. — Maldição! — praguejou e um pouco de saliva amarelada escorreu pelo canto da boca. — Hum… que mão bonita você tem.

Ele trazia um pano branco enrolado na cabeça e um avental encardido de sangue sobre a avantajada barriga, e os olhos eram ameaçadores. Pelo olhar raivoso que ele lançou, Guilherme pôde perceber que corria perigo de verdade, e por um momento reconheceu aquela sensação ruim.

Por favor…

Deus Skog, não deixem que esse mundo me machuque mais.

Não mereço isso.

Só queria uma aventura, viver, fazer amigos.

Por favor, chega!

...

◈◈◈◈◈◈

Uma fanart do Guilherme feita por um leitor, fico muito orgulhosa.



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