Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 41: O Festival das Flores

Capítulo 41: O Festival das Flores

Alphie deveria ter notado antes que a animação do povo de Tzoldrich era incomparável.

Andando pelas ruas lotadas de pessoas, ele continuava tenso pelo sumiço de Darfur, continuou incapaz de coletar suas próprias informações individualmente.

No centro da praça, onde ficava a enorme estátua dedicada a Heinrich Cahrazan, um grande palco foi montado, cercado de seguranças da guarda ducal entre alguns mercenários contratados da guilda.

As pessoas paravam para observar ansiosamente o local de apresentação exuberante — decorado com flores das mais diversas cores e com vinhas de rosas trepadeiras formando os padrões mais belos — para uma pessoa exuberante.

Alphie conseguia ouvir fofocas entre a população: “Ela vai fazer um grande anúncio”, “Mas o que pode ser?”, “Ouvi dizer que é algo que vai mudar nossas vidas para sempre!” Com a última sendo repetida tanto com animação quanto com ansiedade e medo.

Os dias desses sorrisos, dessa cantoria e da animação estavam contados.

“Ainda me pergunto se, naquele dia, eu tomei a decisão correta…” Alphie suspirou.

Era seu dever ficar ali e observar aquelas pessoas morrerem nas mãos de seus companheiros. Já se cansou de usar a máscara sádica de alguém que não tem remorso pelas próprias ações…

Ter tido a opção de roubar o sabre da filha de Heinrich e, ainda assim, não fazer… foi libertador, para dizer o mínimo. Lembrar-se de sua conversa com seu ídolo o fez até soltar um sorriso doce.

Ele caminhou mais pelas ruas ao redor da praça, notando que alguns eventos pareciam estar sendo organizados, shows de talentos, campeonatos de artes marciais e lutas livres. 

Alguns deles não pareciam ter nada a ver com flores ou a identidade da duquesa. Ao questionar os organizadores, ele foi surpreendido com a resposta de que a própria duquesa liberava qualquer tipo de atividade para a festa, contanto que não ferisse a legislação do ducado.

Alphie olhou para as arenas de duelos e ponderou por um instante. Ele ainda precisava coletar informações para compartilhar com Ibrahim e Renata à noite, mesmo que fosse contra sua vontade.

Caminhou até uma barraca que vendia máscaras com flores e surrupiou um item enquanto o pobre vendedor atendia uma multidão de pessoas.


— Espera, deixa eu ver se entendi bem: Vaia, você estava no hospital ducal e ele sofreu um ataque, o terrorista sabe os nossos rostos e, ainda assim, você sugeriu irmos até o Festival de Aniversário da duquesa?!

— Isso mesmo, Cálix! — respondeu Vaia com um sorriso contagiante. — Algum problema?

— Não, nenhum. — As pálpebras do clérigo estavam trêmulas, mas ele respirou fundo e manteve-se calmo.

Cálix estava no bordel até poucos minutos atrás, mas ninguém aparecera desde a manhã cedo. Por sorte, seu Deus conseguiu sentir a presença de seus amigos e sugeriu que Cálix fosse até eles.

— Bom, é que a bebê ficou presa em casa desde que chegamos. Eu concordei com Vaia para que pudéssemos aproveitar o festival. Estivemos muito distantes esses tempos.

“É só rotina de trabalho, Lâmina, não exagera…” pensou Cálix com um semblante exausto. “E só tivemos isso por… o quê, três dias? É, esses caras nunca trabalharam na vida…”

— Talyra era a única contra isso, mas não queria ficar sozinha em casa…

— Não é nada disso! — Talyra puxava a aba de seu chapéu para cobrir o rosto.

Parece que, mesmo depois de Fajilla, ela ainda sentia muita vergonha de lugares públicos, e Cálix não a culpava; Tzoldrich era muito maior e tinha muito mais pessoas. Sentir-se pequeno naquele centro de cidade com construções altas e ruas lotadas era normal, no mínimo.

— S-Se acalme, maga — disse Zaltan.

— E por que raios você está aqui? — Cálix interrogou-o com o dedo apontado como uma flecha.

Zaltan ainda estava com sua capa escura, assim como Lâmina, e estava usando sua máscara novamente.

— A guilda está fechada hoje.

— Eu também estou aqui — Mirele protestou, com um tom irônico. — O ódio na sua voz me deixou bem ofendida, sabe?

Ela continuou:

— Mas não esquenta! Só finja que somos seus guarda-costas ou algo assim.

“Me preocupo com Lâmina sendo reconhecido como o cara que tacou o terror na guilda dos caçadores…” pensou Cálix.

Apesar de o nervosismo de Talyra ser justificável, Cálix notou que Zaltan e Vaia também estavam especialmente tensos, ao contrário de Lâmina, Mirele e a bebê.

— Pa-pa!

Lâmina tremeu como se tivesse entrado em uma piscina gelada. Não parecia estar preparado para as palavras da bebê, mesmo já tendo-as ouvido.

— Tá bom, então. — Cálix passou a mão em seus longos cabelos rosados. — Por que não curtimos um pouco? Nunca participei de um festival nessa pegada mais… antiga?

Eles estavam em meio a uma multidão, mas ainda aparentava ser a entrada do Festival das Flores. A cidade de Tzoldrich era abundante em beleza estética e pessoas. Todas as promessas e palavras de Yvelle tomavam forma naquelas casas e comércios bem cuidados, nas crianças felizes, correndo nas ruas ladrilhadas.

Nenhum deles, no fundo, queria contrariar a empatia genuína de uma líder que era, sinceramente, uma em um milhão para o padrão do continente sul.

Vaia, com suas rasas memórias, conseguia se lembrar de um breve tempo pelo qual passou em outros territórios do continente sul e vassalos de Arquoia. 

A diferença era gritante.

Lâmina e Talyra pareciam pequenos naquela quantidade de pessoas rondando para todos os lados. Cálix não conseguia se importar menos, mas ainda estava maravilhado com a composição do evento e a decoração.

Já Vaia se sentia mais confortável de andar por aí sem maquiagem — até porque ela deve ter sido devorada por um monstro do Abismo Revolto, a esse ponto —. O que a duquesa contou para ela hoje mais cedo também era reconfortante, não era uma aberração para essas pessoas, mas sim uma relíquia viva de uma raça que se desfez ao longo do tempo.

Ainda recebia olhares, mas não eram de estranheza ou abominação, e sim de admiração e surpresa. 

Infelizmente, isso fazia com que o ego de Vaia inflasse cada vez mais…

 

Eles adentraram no festival e, com o tempo, pareceram esquecer completamente a ameaça iminente. Até mesmo Zaltan parecia paralisado com as cores vibrantes das pétalas voando pelo centro da cidade; elas tinham Aura embutida.

Alguns feiticeiros voluntários e contratados para o evento ficavam em torres distribuídas no distrito central de Tzoldrich, usando suas feitiçarias de plantas e flores para dar ainda mais vida ao festival.

— Waa…! — A bebê exclamou, quase pulando do colo de Lâmina.

— Ah! Eita! O-O que foi? Será que eu apertei demais?! — disse o espadachim, que começou a se desesperar.

— Calma, grandalhão — Cálix colocou a mão em seu ombro —. Olha ali.

O clérigo apontou para uma das dezenas de barracas dispostas nas ruas. Ela tinha várias pelúcias penduradas nas vigas, com uma placa dizendo que o prêmio máximo era uma pelúcia de qualquer coisa.

— Qualquer coisa? — Talyra repetiu o termo na placa, parecendo confusa.

— Qualquer coisa… — Vaia murmurou, com a mão no queixo, formando alguma ideia que Cálix não conseguia decifrar.

Todos foram até o local do desafio. De frente para a barraca, tinham várias linhas desenhadas no chão, indicando a distância que o participante deveria ficar para concluir cada uma das atividades, que eram feitas em etapas.

O primeiro nível era o mais fácil, consistindo apenas em derrubar uma pilha de copos com uma bola.

O segundo era um desafio de derrubar garrafas, também com uma bola.

O terceiro consistia em um tiro ao alvo com dardos. Usavam ímãs e alvos de metal em vez de dardos com pontas, provavelmente para poder ser destinado a crianças também.

O último desafio era bem diferente dos outros; no momento em que Zaltan os viu, ele quase explodiu a barraca e o atendente com um relâmpago, sendo impedido por um puxão de orelha de Mirele.

Um fantoche de metal animado que abria e fechava a boca periodicamente, vestido como o ex-rei de Arquoia em suas roupas brancas e cabelo dourado, era o quarto desafio da barraca. A tarefa era usar uma arma de água para atirar na boca dele sem derramar nada.

Antes de participar da competição, os jovens notaram que a bebê não estava particularmente interessada em nenhuma pelúcia já pendurada na barraca, mas continuava a apontar para o estabelecimento, o que os fez cogitar que ela queria o prêmio máximo.

O dono da barraca concordou que todos os jovens competissem nos desafios, com a condição de que apenas um prêmio fosse resgatado.

— Tá certo, quem tem a melhor mira aqui…? Desculpa, sou eu. — Cálix se interrompeu, arrogantemente.

— Eu vou primeiro — disse Lâmina, agarrando uma das bolas da pilha e colocando a bebê dentro de seu casaco, com só a cabeça dela saindo para fora em sua gola.

Ele se posicionou na primeira linha da barraca e girou o braço em aquecimento.

Uma pequena plateia se juntou ao redor do espadachim, com algumas pessoas o reconhecendo como o cara que carregou a carcaça da serpente até a entrada da cidade.

Antes que qualquer um notasse, com um movimento rápido, Lâmina Gélida atirou a esfera contra a pilha de copos.

Logo após, um baque e estalos de madeira foram ouvidos por toda a multidão.

Silêncio.

— Eita… E-Eu errei… — gaguejou.

— Nota mental: nunca confiar um arco ou uma pistola ao Lâmina — disse Mirele.

— Espera! — Zaltan protestou, notando alguma perturbação no ar.

Quando o dono da barraca parecia surpreso com a bola ter quebrado o fundo de seu estabelecimento, ele foi empurrado por um vendaval que levantou a tenda e a pilha de copos, fazendo todos eles caírem no chão.

— Ah. Boa. — Lâmina cerrou o punho em uma comemoração seca.

 

Após isso, era a vez de Vaia. O desafio dela era extremamente similar ao de seu amigo; ela não queria exagerar na força, mas também não era nenhuma especialista em acertar objetos — ou lançá-los…

— Senhorita elfa! É sua vez, vamos ver como se sai — disse o proprietário.

Com um movimento preguiçoso, ela arremessou sua bola sem técnica alguma. Ainda assim, de uma maneira quase paranormal, a esfera quicou entre as garrafas, derrubando uma por uma, desafiando as leis da física.

A plateia aumentou mais. Alguns murmúrios sobre a chegada dos jovens e de Mirele junto de Heinrich começavam a se espalhar.

Vaia realizou uma comemoração modesta, não conseguindo esconder seu orgulho num “Isso!” bem baixinho.

 

Na vez de Talyra, ela já estava ainda mais encolhida e tremia pela quantidade de pessoas a observando, mas não queria deixar a bebê sem sua pelúcia. Sacou sua varinha e apontou para o dardo em sua outra mão, que começou a levitar.

Erm! Erm!

O dono da barraca pigarreou com um olhar crítico, fitando a maga enquanto apontava para uma placa de regras, dizendo que o uso de misticismos era proibido.

“Ah, fala sério! Como se a força do Lâmina e a sorte de Vaia fossem naturais…” resmungou na própria cabeça. “Droga… Eu estava contando com minha magia para ser certeira.”

Depois disso, Talyra pegou o dardo, mas não atirou; ao invés disso, passou longos segundos indo com a mão para frente e para trás, fingindo estar alinhando o tiro.

Na verdade, ela estava tremendo ainda mais e suando bastante. Morria de vergonha.

— Vai logo! — gritou Cálix.

Eek! Ai!

Talyra jogou o dardo no susto. Nem ela poderia estar preparada para acertar o alvo bem no centro.

Nrgh! Cálix! Nunca faça isso de novo, me ouviu?! — A garota caminhou até o clérigo e ficou batendo o pé no chão.

— Pelo menos você acertou — respondeu, dando de ombros.

 

Quando a vez de Cálix chegou, ele se certificou de fazer um espetáculo, principalmente para as mulheres da plateia.

Assim que recebeu a pistola d’água do senhor, ele ficou fazendo truques: girou no dedo, jogou-a sobre o ombro e pegou com a mão oposta.

Parece que ser clérigo do amor lhe concedia alguns benefícios naturais para Cálix. Talvez algum feromônio?

Lâmina, Vaia e Talyra olharam decepcionados para a atração que seu amigo estava fazendo.

— Vejam como se faz! — ele girou a arma uma última vez no dedo e apontou contra o boneco de Zaltan.

— Heh. Eu me recordo do papai falando que Cálix aguentou uma breve luta contra ele. — Mirele comentou. — E aí, Zal…

— Eu deveria ter matado esse rosadinho infeliz quando tive a chance… — disse, enquanto faíscas elétricas começavam a sair de sua mão.

Antes que Zaltan realizasse algum crime do qual se arrependeria profundamente, Mirele deu uma cotovelada em sua barriga.

— Cê tá falando da boca pra fora!

— A Yvelle me odeia tanto assim?

— Não sei, mas… É verdade que ela trocava suas fraldas?

Hmpf! O assunto morreu!!

Quando Mirele e Zaltan voltaram sua atenção para Cálix, o jovem girou a arma d’água mais uma vez e fingiu colocar na cintura, dentro de um coldre invisível.

Ele começou a agradecer enquanto a plateia — que cresceu para dezenas de pessoas — estava comemorando a precisão de seus tiros na boca de Zaltan.

 

— Uh, vamos querer o prêmio máximo. — Lâmina apontou para a placa.

— Uma pelúcia de qualquer coisa, né? — O atendente se curvou diante do balcão. — Bom, podem falar, minha esposa vai fazer!

— Ela não se cansa alguma hora? — Cálix olhou para a senhora que parecia estar descansando em uma poltrona nos fundos. — Esquece…

— Não são todos que conseguem passar do último desafio e, aliás, a feitiçaria de algodão dela permite que ela faça pelúcias de qualquer coisa mesmo! — O homem bufou, orgulhoso. — Me casei com uma mulher extremamente habilidosa!

— Que maravilha! Bem, agora temos que ver com essa pequenina… — Vaia fez carinho na cabeça dela, ainda dentro do casaco de Lâmina — Diga: o que você vai querer?

— Caqui!

— Uma pelúcia de caqui? A fruta?

— Sim… — Cálix assentiu com um tom extremamente desapontado.

— T-Tá… Vou chamar ela para fazer.

Após um tempo de espera surpreendentemente curto, a esposa voltou com uma pelúcia de caqui feita com extrema precisão. Aquilo deixou até mesmo Talyra e Zaltan surpresos.

A bebê ficou ansiosa, estendendo os braços para a pelúcia, que era quase de seu tamanho. No momento em que ela a agarrou, soltou vários risos de alegria que fizeram Vaia derreter.

— Bi… Gada!

Aww~! Quem a ensinou a ser tão educada? 

— Com certeza não foi você, Cálix.

— Talyra, às vezes você me tira do sério… mesmo.

Os jovens aproveitaram mais várias horas no festival. Foram para diversas atrações, como teste de potência de Aura, que usava uma máquina importada. Mas desistiram no momento em que Lâmina ameaçou ir primeiro.

Levaram a bebê em passeios pelas praças com balões, pinturas, bandas tocando músicas tradicionais ou inovadoras, com ritmos apenas reconhecidos por Cálix.

Almoçaram em uma casa de churrasco recomendada à Mirele e Zaltan pela Duquesa, comendo bastante.

Aos poucos, eles se esqueceram das ameaças, do perigo. Vaia acreditava cada vez mais nas palavras da Duquesa, de que os manteriam seguros.

— Poderíamos voltar ao treinamento durante a noite? — perguntou Zaltan enquanto caminhavam para outra atração que Cálix tinha apontado para irem.

— Por mim tudo bem.

— O quê?! Fale por si, Lâmina! Eu quero dormir! — Talyra esfregou as mãos. — A duquesa vai provavelmente me chamar pra viajar mais, ainda estou cansada…

— Preguiçosa… — provocou Cálix.

No momento em que Talyra iria partir para cima do clérigo, ambos foram interrompidos por um chamado na multidão.

Em uma das atrações, estava uma arena de luta marcial e livre. A anunciadora dos combates era uma das funcionárias da guilda dos caçadores.

Na atração da guilda, um grande ringue estava fechado por grades, e grandes grupos se formavam para apostar entre os lutadores.

— O-O desafiante chama pela filha de Heinrich! Filha de Heinrich Cahrazan!

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora