Volume 1 – Arco 3
Capítulo 42: Duelo entre os dignos
Havia algo a mais na conversa que eu tive com Heinrich naquele dia…
Algo que mostraria a verdadeira razão dele para deixar Tzoldrich, sua filha, e os jovens que protegeu para trás.
— Meu destino dizia para que eu ficasse desacordado no meu barco e deixasse Nira matar minhas duas filhas e Zaltan matar os moleques.
— Pelo andar da carruagem, imagino que não foi o caso.
Ele assentiu.
— Te fiz a proposta da liberdade de escolha para testar sua moralidade. Não sei o que você vai fazer ainda — disse, batendo a caneca na mesa.
— Mas a minha liberdade de escolha, veio mais como um impulso em meu corpo. Ele dizia: “deixe-os livres”, “deixe sua filha crescer”, “se você continuar a interferir, eles não vão resolver os próprios problemas sozinhos”.
Talvez, naquele momento, Heinrich estivesse pensando em alguma possibilidade. Algum erro que ele cometeu que impediu sua liberdade de escolha.
— Eu ainda acho que fiz a escolha certa. Revendo agora, provavelmente eu me equivoquei quando falei com Yvelle.
Eu ainda não entendia o porquê de seu “destino” e “liberdade de escolha” estarem alinhados naquele momento… Talvez eu nunca entenda.
Mas nunca vou me esquecer das palavras que Heinrich me disse logo antes de eu sair da taberna:
— Alphie…
Eu parei e me virei para o homem, tentando manter um semblante orgulhoso do caminho que estava tomando.
— Você sabe o porquê de haver três sóis no céu diurno?
— Espere, Mirele! — Zaltan segurou o braço da garota. — Poderíamos ter mais cuidado nos mostrando em público, ainda mais quando somos nós dois ao invés dos guardiões da bebê.
— Há uma pessoa me chamando, usando o nome de meu pai! — Ela forçou o corpo para se soltar do agarrão do ex-rei. — Nunca menti sobre meu sobrenome, mas ninguém nunca o reconheceu de verdade.
— Lâmina…
O espadachim levantou o olhar esvoaçado para a garota, que estava com um sorriso radiante no rosto.
— Sem me segurar, não é?
— Mirele… só não se esqueça de que você não é invencível.
Mirele caminhou entre as pessoas, empurrando todos e pedindo licença com muita educação, até que chegasse na grade de entrada da arena. Zaltan e os outros ficaram observando tudo à distância. Mal era possível ver o rosto de Mirele.
Diante dela, um homem com roupas escuras e uma máscara com rosas cheias de vinhas estava sentado em um banquinho com a cabeça encostada na grade.
— Ah! Você… — a funcionária da guilda exclamou — é a novata que matou uma serpente das cordilheiras!
— Mirele Cahrazan! — apresentou enquanto a menina entrava na arena.
— Quem seria o desafiante?
— Bem… ele não quis revelar a identidade…
A arena era um ringue hexagonal com uns quatro metros de raio, cercado por grades com dois metros de altura. Em certas partes em torno do ringue, estavam algumas bancadas que subiam para promover uma boa vista das lutas.
Uma multidão já estava reunida ao redor da arena. Quando a funcionária da guilda anunciou o nome de Mirele, as dezenas de pessoas se tornaram centenas.
— Já derrotou outros quatro oponentes que se disseram ser descendentes do lendário herói deste ducado! — ela ajustou os óculos e se curvou para o homem mascarado. — O que acha dessa?
— É legítima, sim. Tem um cheiro parecido com o dele.
“Eca!” Mirele pensou com um olhar de nojo vidrado em Alphie. “O que esse cara quer comigo?”
— Viemos aproveitar o festival, mas custava se manter na surdina…? — Cálix resmungou.
— Mirele é uma garota bem orgulhosa e, mesmo sem entender o sumiço de seu pai, ela ainda respeita o seu nome — Lâmina comentou.
Os jovens conseguiam ouvir murmúrios na multidão, perguntando-se se aquela garota realmente era a sucessora de seu grande herói. Apesar de ter uma pele e cabelos pálidos como a neve das montanhas, em contraste com Heinrich, aquela postura e estilo de vestimenta eram extremamente característicos.
“Heinrich, não estou indo matá-la desprevenida… Vamos ver se ela é digna de seu sobrenome.”
Alphie se levantou do banco em que estava sentado, soltando um grunhido de esforço que não foi testemunhado em nenhum de seus combates passados.
— M-Muito bem! Por favor, dirijam-se até o estande de armas de treino. Elas não possuem fio e podem…
Alphie alcançou uma faca dentro de seu manto e atirou para cima, derrubando um carregamento místico de decorações para o festival bem em cima do estande.
Ouviu-se um grande estalo das madeiras se rachando e uma nuvem de poeira se expandiu até a plateia.
— Iremos lutar com nossas armas de verdade.
— Como ele adivinhou a posição do carregamento aéreo?! — Talyra questionou, incrédula.
— Ele tem uma percepção bem aguçada. Nem dava pra ver a sombra dessa carga por aí… — disse Cálix, olhando para cima.
“A voz dele também é estranhamente familiar…” pensou.
— I-Isso já basta! Eu vou chamar as autoridades…
— Não precisa. — Mirele interrompeu a funcionária da guilda. — Será um duelo justo.
Alphie usava uma máscara de rosas com espinhos, além de seu confiável manto negro e armadura de couro, com bolsos para facas, bombas e qualquer tipo de equipamento que um assassino pudesse desejar.
Já Mirele usava roupas de um tecido grosso, mas bem apertado, prático para alguém ágil ou que praticasse artes marciais. Bandagens e fitas estavam amarradas em seus braços, com tons azuis combinando com o resto das roupas.
Sua única arma estava à mostra, o sabre de seu pai, enfaixado com fitas brancas para ocultar sua coloração característica.
Não tinha nenhuma razão para se esconder agora. Foi desafiada e pretendia vencer.
— As condições do duelo são simples! — Alphie apontou para a garota. — Se eu ganhar, você me dará o sabre que está com você, seu bem mais precioso, e única lembrança dele.
— Hmpf! E o que ganho se eu vencer?
Alphie afrouxou o braço que usava para apontar, deixando-o cair de modo desleixado.
— Eu conto pra você o que ele me disse antes de partir.
Mirele paralisou por um instante. A ideia de que aquele homem teria conversado com Heinrich há dois meses era inacreditável, fazendo a menina até dar um passo para trás.
— Eu sou desconexo, assim como Heinrich. Pensava que você também era. Honro combates e leis de duelos tanto quanto qualquer outro guerreiro. — Ele estalou os dedos com os punhos. — Digamos apenas que meu estilo de luta é… não ortodoxo.
Sua voz era indecifrável e enigmática, não parecia se fixar em um tom definitivo, balançando constantemente entre uma voz cansada ou séria como um pêndulo.
— Isso pode acabar mal… — resmungou a funcionária da guilda.
— Não liga não, tô fazendo uma bolada com as apostas! — respondeu uma de suas colegas na barraca próxima.
— Grr… Maldita… — rosnou. — Tudo bem… Prontos?
— Mirele ainda tem o misticismo dela. Ela não seria burra o bastante para sacar a arma que estamos ativamente tentando proteger…
Zaltan então foi rudemente interrompido por Mirele, desfazendo o nó das fitas que enrolavam sua arma. A garota preparou sua postura, remetente à do pai.
Estranhamente, entretanto, o sabre ainda estava embainhado.
O ex-rei nem terminou sua frase seguinte, apenas soltou um suspiro de decepção enquanto Cálix e Talyra pareciam segurar uma gargalhada profunda.
— Certo, só estou esperando sua largada…
“Eu não estou louco. Esse é o sabre das mil maldições mesmo! Um corte, e qualquer coisa que o fio da lâmina toca pode ter um destino premeditado…”
“Não sei o quão cauteloso eu deveria ser. Eu só preciso pegar a arma. Mas ela parece bem confiante…”
— Comecem! — anunciou a funcionária.
Alphie cogitou que uma bomba de fumaça funcionaria bem. Seu plano era cortar a linha de visão de Mirele.
A nuvem cinzenta e densa se espalhou pelo ringue, proibindo até mesmo que a plateia contemplasse o combate.
“Vamos ver o que a filhinha indefesa saberia fazer contra alguém como Nira…”
A expressão do assassino era serena, não confiava nem um pouco na garota, apesar de entender de quem se tratava.
Seu movimento foi veloz; nem foi possível ouvir a própria lâmina saindo da bainha.
Usava uma rapieira dessa vez. Precisa e letal, assim como ele estava acostumado. Sua intenção agora era de matar.
Ele tentou realizar uma estocada. Mirele estava de olhos fechados, com um semblante concentrado, e nem reagiu.
Chink!
O som agudo do estalo da arma ecoou pelos ouvidos de Alphie. Ao tentar perfurar a parte azul da roupa de Mirele, a lâmina de sua rapieira partiu-se pela força aplicada.
O tecido azul brilhou levemente, indicando para Alphie a interferência mística no combate.
“Ela usou misticismo para fortalecer certas partes de sua roupa. Eu bem que percebi que ela estava se movendo de maneira um pouco rígida…”
Seu primeiro teste foi realizado.
Mirele continuava sem reagir, mas pareceu incomodada pela velocidade e precisão do ataque.
Alphie tirou três facas de seu casaco e atirou-as contra as partes brancas das roupas de Mirele, incluindo os tendões de suas pernas.
Faíscas azuis surgiram tão rápido quanto desapareceram, interrompendo os projéteis do assassino.
“Hm. Já entendi que você não é nenhuma novata, mas…”
O assassino olhou à sua volta, notou que a fumaça começava a se dissipar com uma brisa vinda do oceano.
“Fazer uma defesa passiva contra projéteis é digno de respeito para qualquer misticismo. Ainda assim, até mesmo o Darfur sabe fazer algo parecido.”
Alphie juntou as mãos e se concentrou, fazendo o mínimo de barulho possível para não alertar sua oponente.
“Devo desembainhar?” Mirele pensou. “A névoa parece estar sumindo, mas não sei se ele vai aproveitar para fazer algum outro truque.”
Mirele percebeu só agora, e sua espinha congelou. Alphie estava apenas testando terreno; se ela continuasse na defensiva, seria ultrapassada em algum momento. Tomar aquela decisão era agora ou nunca.
Ela removeu uma pequena parte da lâmina do sabre negro e fez um movimento no ar.
Fwooosh!
“Novo efeito adicionado ao compêndio: Explosão de Vento.”
— Você usou o sabre?! — Alphie espantou-se.
Mirele embainhou o sabre novamente e fitou Alphie, fazendo um sorrisinho arrogante.
A plateia comemorou o caos repentino que veio da arena fumacenta, mesmo sem nem entender o que estava acontecendo.
“Entendi… Bem, que assim seja!” Alphie jogou a rapieira no chão e avançou contra Mirele com os braços levantados.
A garota respondeu na mesma medida. Colocou o sabre dentro das fitas de sua cintura, nas costas, e interceptou o primeiro golpe de Alphie, que vinha em direção ao seu pescoço.
“Ela já desvendou meu estilo de luta reativo. Está mantendo a guarda alta com o outro braço enquanto desvia meu golpe para baixo…”
Alphie contornou o contra-ataque com o mesmo braço, girando o cotovelo por uma trajetória que nenhum manual de combate ensinaria.
Mirele viu o golpe. Não conseguiu impedi-lo.
O impacto veio como uma onda que atravessou o tecido reforçado e reverberou dentro de sua caixa torácica. Ela sentiu as costelas vibrarem antes de sentir a dor.
"Aura concentrada no punho… Ele canalizou tudo em um ponto só."
Suas costas bateram na grade com um estalo metálico. O ar saiu de seus pulmões de uma vez e, por dois segundos inteiros, Mirele não conseguiu respirar. O gosto de seu próprio sangue subiu pela garganta.
Aquela sensação não era nem um pouco familiar.
Essa era a diferença entre um desconexo comum e o assassino mais perigoso do Reino de Arquoia.
Lâmina arregalou os olhos e deu um passo adiante, mas Zaltan o interrompeu, colocando o braço diante de seu peito.
— Ela me disse que você ficaria fora das brigas dela. Relaxe. — disse o ex-rei.
— Você ainda não está pronta para as ameaças que vai enfrentar… — Alphie agarrou ela pelo cabelo e levantou a cabeça dela até o rosto. — Não entende?! Esse festival, essa felicidade toda… não vale de nada!
— Heinrich era o único que poderia impedir o caos no continente sul. E eu percebi que ele se foi, pois nem ele achava que era capaz. Só pode ser isso.
— Gnrh! — Mirele rosnou.
— Me dê o sabre, e eu farei isso ser… menos doloroso, para todos.
“Foi como eu pensei, só bastou um soco com Aura canalizada para derrubar ela, Nira a fritaria em uma questão de segundos”, pensou Alphie com um olhar decepcionado.
Ele tentou puxar o sabre da bainha, esforçou-se, até usou sua força anormal, mas nada adiantava.
Puxou sua manga para revelar um fio azul amarrado ao redor de seu pulso, ligado ao topo da grade.
Alphie sentiu a força puxar seu punho antes que pudesse reagir, atingindo o próprio rosto com um golpe devastador.
Alphie cuspiu sangue e deu um passo para trás.
— Eu esperava que você e seus amiguinhos do conselho de Zaltan viessem, mas não esperava que o primeiro a me confrontar seria a porra de um covarde! — exclamou Mirele.
— O-O quê?!
Quando Alphie se atentou ao seu redor, ele notou as dezenas de fios de seda azuis que prendiam seu corpo às diversas partes do ringue.
Uma por uma, Mirele foi puxando os fios, arrastando o corpo de Alphie e fazendo-o quicar entre as paredes como um boneco de pano velho.
— Acho que você tem razão, meu pai não sabia se poderia lidar com a tempestade que se aproxima. É por isso que ele confiou em mim! E eu prometi que não iria decepcioná-lo.
Alphie se apoiou para tentar se levantar do chão e soltou um cuspe de sangue.
— Eu poderia ter acabado com isso muito mais facilmente. Mas você ainda decidiu lutar em seu ambiente de desvantagem, por quê?
O assassino não respondeu, mas se levantou do chão e continuou de costas para Mirele, com os sons de sua respiração escapando pelos buracos da máscara. As pétalas de rosas estavam murchas e algumas até estavam presas nos espinhos do acessório.
— Isso ainda não acabou. Sua teimosia vai custar a vida de todas as pessoas nesse ducado! O fim está mais próximo do que você imagina, moleca.
Mirele entrou em sua postura de combate desarmado.
— Meu pai foi embora porque ele confia em mim de verdade. Sabe que não sou uma menina indefesa. Essa é uma prova de fogo que me fará digna de ter o sobrenome dele. — O olhar dela pareceu se voltar para algum lugar da plateia.
Alphie sacou uma adaga de seu manto e se virou para atacar Mirele mais uma vez.
A jovem respondeu. Levantou o sabre e começou a desembainhá-lo. Quem iria matar agora seria ela.
O tempo pareceu ficar imóvel enquanto os dois se moviam um contra o outro.
Mas, antes que o destino daquele embate e de seus objetivos fosse decidido, os sons de cornetas ecoaram.
— Hã?! — eles expressaram em uníssono.
A atenção de todas as pessoas se voltou para a plataforma central na praça, onde estavam alguns guardas do ducado.
Yvelle Schweitzer saía de trás de uma grande cortina, balançando o braço para dar “oi” ao seu querido povo.
Mirele tentou voltar a enxergar Alphie, apenas para ver que ele desapareceu completamente. Não era visto em lugar nenhum.
A aparição da duquesa deixou todos estonteados; ninguém para denunciar sua fuga, só Mirele, que olhou para o chão, onde estaria o seu oponente.
No piso de terra preparado para a arena, um grande pano vermelho se encontrava jogado.
Era encardido, feio e todo rasgado, como um trapo, mas a jovem o reconhecia bem.
Mirele se agachou no chão, sentiu a presença de sua irmã se manifestar na sua mente, como uma melodia suave.
— O que passou na cabeça desse cara…? Mas ele realmente falou com o papai, não é, Milene?
O pano vermelho que Heinrich usava na cintura era uma de suas peças mais características. Mirele o apertou com bastante força e saiu da arena sem chamar a atenção de ninguém.
A duquesa sabia mesmo roubar os holofotes; em poucos instantes, as pessoas se esqueceram completamente do combate intenso que acontecia naquela arena.
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