Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 40: A Pedra Filosofal

Capítulo 40: A Pedra Filosofal

A comoção no hospital ducal foi acobertada de maneira surpreendentemente rápida. Yvelle foi capaz de convocar a sua guarda pessoal e a polícia civil com apenas um único chamado de um comunicador dentro do local.

Vaia se preparava para sair do anfiteatro a passos rápidos, até que a duquesa a puxou pelo braço com força.

— Vaia. O que houve aqui?!

— Algum terrorista implantou uma bomba no corpo da mulher que estava marcada. Eu só estava tentando ir atrás…

— Não!

— O-O quê?!

— Eu não posso deixar que saia e resolva isso sozinha. Eu prometi para você e seus amigos que Tzoldrich era seguro!!

Apesar de não afetar Vaia, ela sentiu que a força do aperto de Yvelle era grande. Como se tivesse colocado mais potência do que queria.

— E me levaram vinte malditos anos para concretizar essa promessa… — disse ela, cerrando os dentes.

Yvelle olhou sobre o ombro de Vaia, fitando a janela que o disparo atravessou. Mesmo com todos os seus colegas desconfiando da duquesa, Vaia realmente acreditava que tanto ela quanto Yvelle estavam igualmente confusas a respeito do ataque de agora.

“Ou ela é uma ótima enganadora… Ou ela também não sabe sobre o homem no comunicador…” Vaia cogitou. “Isso me leva a concluir que…”

— Querida, por favor. Eu cuido das coisas daqui… Pode ir para casa por hoje — suspirou Yvelle num tom deprimido.

— M-Mas…

— Na-Na-Na! Nada de “mas”. — Ela deu a volta por Vaia e começou a empurrá-la em direção à saída.

— Os nossos aventureiros mais experientes estão retornando das expedições até o sul do continente e eu já mobilizei boa parte da guarda real — explicou Yvelle. — Tudo estará corrigido antes mesmo de… você perceber.

Ela desacelerou sua voz e sua cara parecia derreter a cada palavra estendida.

Vaia, por outro lado, não tentava esconder seu olhar de preocupação.

— Eu… — Yvelle bufou de decepção. — Eu só quero construir um lar seguro, você tem que confiar em mim!

— Não quer conversar um pouco, duquesa?

Yvelle olhava quase que para cima para encarar Vaia; a duquesa desviou o olhar e coçou a nuca. Antes de concordar com a cabeça e guiar a jovem para outra área do hospital.

— Eu acho que deveria ter sido honesta com vocês no dia em que a maga e o clérigo folgado acordaram. — murmurou Yvelle.

“De graça… Pobre Cálix.”

Yvelle pareceu pensar por um longo momento. Ela colocou a mão no queixo e seus olhos se reviraram, como se estivesse observando enormes gráficos e analisando suas opções sobre como prosseguir.

Vaia reconhecia Yvelle como uma governante extremamente competente. Mas a atitude dela no momento só levantava as suspeitas da jovem.

A duquesa estava claramente pensando rápido, mas Vaia conseguia acompanhá-la rapidamente com sua percepção apurada.

Tocou na própria testa apenas para perceber leves protuberâncias. 

A jovem rapidamente cobriu-as com os seus cabelos castanhos. Como pôde se esquecer que sua regeneração forçava os chifres a sair…?

Após o que pareceram ser longos minutos. Yvelle respirou fundo, balançou a cabeça e aconselhou Vaia:

— Eu vou resolver essa situação. Eu prometo, querida. — Ela estava com um sorriso nervoso, mas confiante.

— Tem certeza?

— Não duvide de mim, mocinha! Eu levei vinte malditos anos para erguer prosperidade e paz por esse ducado e não vou largar a peteca agora!

Vaia queria confiar em Yvelle, mas, se Zaltan estivesse certo, eles estariam contra indivíduos poderosos da corte de Arquoia, e não alguns criminosos de esquina.

Quando andaram pelos corredores até o saguão. A visão do ambiente já não era tão agradável para Vaia.

A luz dos três sóis já estava numa posição completamente diferente. Mal percebeu que poderia ter passado horas ali dentro…

— Alteza! — Um dos guardas se aproximou das duas, fazendo uma reverência. — Os caçadores de mais alto grau da guilda retornaram da expedição. Estão esperando a avaliação do relatório deles.

Yvelle sorriu com o canto da boca, parecendo triunfar perante a situação estressante.

— Mande-os para meu gabinete. Fale que eu tenho uma caçada especial para eles. E que serão bem recompensados.

O soldado bateu continência.

— Ah, por sinal, prepare uma carruagem blindada para mim e para essa dama!

— Nós ouvimos o impacto do disparo, Alteza — O soldado respondeu num tom firme. — Todos os protocolos de segurança foram efetuados! A escolta aguarda você e a madame de vermelho na entrada do hospital ducal.

— Mas já?! — Vaia exclamou.

— Como eu disse. Eu levei vinte anos para deixar esse ducado como a fortaleza mais segura no continente sul.

Ninguém entrava com armas, a não ser que a duquesa pessoalmente deixasse ou soubesse. Se alguém conseguiu fazer isso, é porque burlou a barreira com algum misticismo.

A breve interação entre o guarda e Yvelle deixou claro para Vaia que ela não brincava em serviço, que, além de ser uma governante competente, era uma pessoa extremamente preparada — ou paranoica.

Vaia ainda se perguntava qual era o tipo de força mística usada no disparo. Pensou se deveria ir verificar a situação de Cálix no local em que trabalhava ou se deveria voltar para casa e questionar Talyra acerca disso.

— Querida, venha. — Yvelle fez um gesto.

Quando a jovem saiu de seus pensamentos, ela notou que já estavam na entrada do hospital.

Todas as janelas do local estavam barradas e, no lugar onde estaria a porta de entrada, um longo túnel com paredes feitas de ferro guiava até a porta de uma carruagem feita de um aço negro e robusto.

— N-Não se preocupe, eu vou ficar bem. — “Se eu aguentei um tiro, devo sair viva de outro, com certeza”, pensou. — A senhora é que tem que ficar segura.

Yvelle assentiu com a cabeça e começou a andar pelo túnel. Um soldado abriu uma passagem para o exterior para que Vaia conseguisse sair logo após.

No exterior do hospital ducal, tudo parecia normal. As ruas não estavam em comoção e as pessoas pareciam andar normalmente, como se nada tivesse acontecido.

O caminho não estava mais iluminado pelos postes elétricos e as barracas já estavam montadas. 

Vários estabelecimentos com vendas das mais bonitas e coloridas flores do continente já estavam abertos e com comerciantes gritando para todos os lados.

Vaia andou pela multidão calmamente, tentando não chamar a atenção do atirador de antes, e se direcionou para os portões nas muralhas de Tzoldrich.

Após chegar de volta à sua casa, Vaia discretamente lixou os chifres que estavam nascendo e interrompeu o treino entre Talyra e Zaltan para falar sobre o ataque.

— Darfur… — Zaltan suspirou. — Merda, Darfur está aqui.

— Zaltan, sabe me dizer qual é o misticismo dele? Não parecia ser magia…

— Pela sua descrição, nem mesmo eu sei… — comentou Talyra.

— Não é exatamente uma força mística propriamente dita, como feitiçaria ou xamanismo. Mas não chega a ser desconexo.

Pelo que Zaltan comentou, Darfur já era um membro do conselho real de Arquoia quando Zaltan III, seu pai, ainda governava.

Membro da casa Argentum, uma das casas nobres do reino, Darfur foi um estudioso, um gênio, assim como Zaltan era.

Não nasceu abençoado com uma força mística, mas não se rendeu ao destino de desconexo, como Heinrich ou Mirele.

— Apesar de não se tratar de uma regra oficial, essa separação é geralmente aceita em boa parte do continente e até mesmo no mundo: “Para ser um desconexo, você precisa ter pouca Aura, e nenhuma afinidade com uma força mística.”

O feiticeiro continuou:

— Você e seu amigo espadachim não entram nessas duas categorias ao mesmo tempo. Portanto, é incorreto julgá-los dessa forma. — Zaltan se sentou na grama. — Mas não me interpretem mal, esse cara é muito forte. Provavelmente o mais forte entre todos os membros do meu conselho.

— Aliás, meu pai me contou dele quando eu era mais novo — recordou-se. — Darfur ganhou acesso ilimitado à biblioteca real de Arquoia e conseguiu estudar sobre técnicas místicas que datavam até de quinhentos anos atrás, na Era de Ouro.

Descobriu registros de povos antigos que habitavam no noroeste do continente, a milhares de quilômetros de distância, que conseguiam usar sua pouca Aura como catalisadores para a mutação da matéria, moldando-a a seu bel-prazer.


— Algo deu errado… Minha alquimia não funcionou nela?!

Darfur caminhou pelas ruas de Tzoldrich, visando voltar para a taberna onde encontrou Alphie da última vez.

“Eu sei que Ibrahim falou para apenas coletarmos informações, mas eu achei que conseguiria resolver isso rapidamente…”

Uma visão do rosto de Vaia voltou à sua mente tão rápido quanto desapareceu.

— Aquela mulher… Tem alguma coisa de errado com ela… Ela tinha a aura de um monstro. 

— Mas conseguiu… alterá-la antes que a barreira a negasse? — Ele colocou a mão na testa e a franziu. — Isso não faz sentido!

Darfur foi até a encruzilhada em que ficava a taberna do Richie, no distrito industrial do ducado.

Parecia ser a data de alguma comemoração especial, portanto, nenhum dos trabalhadores estava nas fábricas ou nas mercearias. 

As construções altas deixavam o vento sibilando entre as ruas estreitas, resultando em uma melodia exageradamente macabra.

Ele carregava consigo um rifle feito com um cristal mágico. A arma que usou há pouco para tentar matar Vaia. Alcançou um cordão dentro de seu colete e tirou de lá uma pedra vermelha. Pura. Sem imperfeições. Uma esfera quase perfeita de cinco centímetros de diâmetro presa ao seu colar.

Agarrou-a com uma mão e canalizou sua aura para a outra mão, que segurava o rifle. Foi empurrando a arma contra o chão até que virasse um monte de terra.

Voltou a andar na direção da taberna, não sentia a presença de Alphie; provavelmente o amigo estava no bordel ou alguma coisa assim. Mas ele tinha certeza de que havia pessoas ali dentro e elas não pareciam tranquilas ou embriagadas.

Empurrou as portas dobradiças da entrada.

Duas mulheres e dois homens estavam sentados em mesas, bebendo nas canecas de uma taberna tão vazia quanto as ruas do lado de fora.

Vestiam armaduras e roupas de couro escuras, com brasões de platina presos em partes diferentes de suas vestes. Seus semblantes eram ameaçadores e dominantes, mas Darfur nem mudou de expressão — apenas manteve seu sorriso arrogante.

Caminhou até o balcão no fundo, passando por todos eles sem trocar olhares, e se sentou em um banquinho. Puxou uma caneca e removeu o manto escuro que usava.

Enrolou o pano do manto nas mãos sobre a caneca e começou a apertar os punhos.

Os caçadores não conseguiam acreditar nos próprios olhos. Um manto velho estava derramando cerveja pura na caneca do homem no balcão.

— Os rastros traçavam desta taberna na noite anterior… — disse um dos caçadores. — Causar problemas no começo do Festival das Flores é uma baita falta de respeito… Não concordam, pessoal?

— Com certeza — disse outra caçadora, levantando-se e sacando uma espada curta.

Darfur bufou enquanto segurava a caneca e então riu alto. Uma risada genuína e desleixada, gargalhando até seus pulmões cederem.

— Vocês… são hilários! — Ele tomou um gole.

Os caçadores se levantaram, um por um. Sacando suas armas e liberando suas auras cada vez mais.

— O problema da alquimia — a voz de Zaltan soava pesada — é que ela exige um preço. Uma troca equivalente. Para contornar a própria falta de Aura e manipular a matéria em grande escala, Darfur precisava de uma fonte externa. Um catalisador perfeito.

— Que tipo de catalisador? — perguntou Talyra, com o cenho franzido.

Zaltan hesitou por um momento, abaixando o olhar para a grama.

— Boatos dizem que ele forjou um artefato mitológico. Algo capaz de ignorar as leis naturais da troca e amplificar o poder do usuário a níveis absurdos... Uma “Pedra Filosofal”.

De volta à taberna, os quatro caçadores avançaram ao mesmo tempo. A mulher da espada saltou sobre uma mesa, desferindo um golpe vertical com força o suficiente para partir uma rocha ao meio.

Darfur sequer se mexeu. Ergueu a mão livre e segurou a gema em seu pescoço.

No momento em que a lâmina iria tocar na sua cabeça. Ela se desfez em um pó de giz, desequilibrando a caçadora.

O alquimista se levantou do banquinho e deu uma rasteira na mulher, fazendo-a bater a cabeça no balcão e cair, desacordada.

— D-desgraçado! — outro caçador avançou contra Darfur, disparando uma pistola de pederneira.

Darfur pisou no chão, fazendo um barulho úmido da madeira velha e levantando-a contra a trajetória da bala. 

Segurando sua pedra filosofal, ele transmuta a madeira para um chumbo, que bloqueia completamente o disparo.

Ele agarrou a tábua de chumbo, transformou-a em madeira novamente, arremessou-a contra o caçador da pistola e retornou o material para chumbo no momento em que ele parou de encostar.

— A Casa Argentum era gigantesca — continuou Zaltan, com a expressão mais sombria ainda. — Centenas de parentes, servos, cavaleiros em uma única mansão. Uma noite, toda a propriedade amanheceu em absoluto silêncio. Quando a guarda real de Arquoia arrombou os portões... não havia um único corpo. Apenas roupas vazias, manchadas com um pó vermelho.

Vaia sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Imaginando ser algo parecido com as linhas vermelhas na paciente do hospital.

— Ele... sacrificou a própria família? — a jovem murmurou.

— Oficialmente, a corte declarou como um ataque de forças rebeldes — Zaltan cerrou os punhos. — Mas todos no meu conselho, no fundo, sabiam da verdade. Darfur transmutou o sangue, a carne e a alma de toda a sua linhagem para criar aquela pedra.

A barra de chumbo acertou o caçador no rosto, jogando-o para trás e tirando-o de comissão junto de duas mesas e três cadeiras.

— Richie! 

— Cacete! Ele era o Richie?! — Darfur riu. — Ha! Foi mal aí!

Os dois caçadores restantes tentaram desferir um ataque combinado, unindo seus punhos e canalizando fogo de feitiçaria contra Darfur, que só arremessou a cerveja da caneca contra o fogo.

A cerveja imediatamente se transformou em álcool puro e derramou sobre os feiticeiros, incendiando-os.

O primeiro pareceu morrer rapidamente; já a outra pareceu continuar viva. Arrastava-se até a porta, murmurando e gaguejando para si mesma.

— A vadia Schweitzer superestima muito suas defesas nesse castelinho de areia. — Darfur caminhou em direção a ela com um olhar morto. — Esperei demais por um cartão verde para poder vir aqui.

— A verdade… é que eu sempre suspeitei… — disse Zaltan, com a voz séria. — que ele fosse a porra de um psicopata.

Ele pisou no chão novamente enquanto segurava a pedra filosofal, transmutando a madeira sob a caçadora em vidro derretido. Abafando seus gritos no momento em que sua boca foi soterrada.

— Preciso pensar em um jeito de acabar com aquela aberração do hospital.

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