Volume 1 – Arco 3
Capítulo 38: Crescimento Rápido
— E é basicamente isso que eles conversaram. — Bufou, orgulhoso. — Conseguiu algo, Alphie?
— Eu sinto que você está tomando uma aproximação muito agressiva, Darfur.
Taberna do Richie, distrito leste de Tzoldrich.
Alphie e Darfur discutiam em uma mesa à luz de velas tarde da noite, com a taverna já completamente vazia.
O desconexo olhava para o seu companheiro de cabelos azuis, um olhar arrogante, ainda vestido com o colete branco e roupas de seda do conselho de Arquoia.
Diferente de Alphie, parecia que Darfur não se preocupava tanto com a “furtividade” da missão.
— E o que há com isso?
— Se o que Zaltan e Heinrich disseram é verdade… você deveria tomar mais cuidado.
— Espera, Heinrich? Tipo, o herói e ex-general? — Darfur se curvou sobre a mesa com um sorriso provocador — Você falou com ele? Conta outra.
— Quando eu vim aqui da última vez, eu conversei com ele. Por sinal, foi ele quem deixou Nira naquele estado, toda detonada, quando ela retornou do Abismo Revolto…
“Darfur é um nobrezinho bem arrogante. Não faz parte da família real, mas também não é relegado como desconexo, como eu. Ele acabou descobrindo sua afinidade com inscrições místicas, o que é conhecido em outros lugares do mundo como Alquimia, aparentemente.”
Zwoo! Zwoo!
— Ah!
Os sons de algum toque e um brilho mágico permearam os bolsos de Darfur, deles, ele removeu algumas pedrinhas brilhantes e segurou uma delas diante do ouvido.
Era uma pedra que brilhava em vermelho e tinha uma inscrição feita com algum tipo de tinta mística. Alphie não sabia o que significava, entretanto.
“Eu nunca entendi como essas coisas funcionam. Ele basicamente consegue fazer várias coisas se pintar com seu dedo em pedrinhas? Que poder mais infantil…”
— Alô? …Ibrahim, é você!
Alphie arregalou os olhos e perdeu o equilíbrio na cadeira.
“Ibrahim?! Por que ele estaria se comunicando com Darfur a essa hora?!”
— Desculpa, Alphie, deixe-me aumentar o volume para você ouvir também.
Darfur apertou a pedra algumas vezes enquanto ela brilhava mais e mais, até que a voz de Ibrahim fosse audível.
— Ibrahim?
— Boa noite, senhor Alphie. Eu estava falando com o senhor Darfur Argentum sobre a nossa ida até Tzoldrich… Estou com a senhorita Renata, a propósito, mas ela já foi dormir.
— Bom, vocês estão com uma sorte grande, acabamos de descobrir que o garoto indicado por Nira está em Tzoldrich. Junto dele estão outras pessoas da lista de nomes e rostos que a majestade montou. — Ele fez uma concha com a mão e sussurrou: — E querem saber a melhor parte? Eles estão juntos de Zaltan Arquois.
— Uau! Isso será mais fácil do que eu esperava, então.
— Darfur, o que eu estava te falando até agora?! Não temos praticamente nenhuma informação sobre o misticismo desses caras!
— Darfur, Alphie. Por favor, não se preocupem. — A voz de Ibrahim era calma e sombria, como se tivesse certeza em cada palavra que dizia. — Eu e Renata iremos até o ducado e vamos resolver a situação.
— Também estou no quarto estágio, então, como eu disse, será fácil.
Alphie cerrou os dentes. Era agora que ele percebeu que não havia o que fazer, estava adiando o inevitável.
Se Ibrahim e Renata realmente chegarem em Tzoldrich, uma batalha contra os jovens guardiões da bebê poderia ter proporções além de tudo que o desconexo já viu.
“Eu ainda tenho liberdade de escolha? Mas o que posso fazer?” Alphie ponderava enquanto o suor apenas escorria pelo seu rosto pálido.
“Heinrich… fudeu… Sua filha vai morrer e não vou poder fazer nada!”
— Estamos fazendo uma viagem tranquila, vamos passar por algumas cidades e devemos chegar em uma semana. Continuem a juntar o máximo de informações que podem.
…
— Não pretendo sujar as mãos mais do que o necessário…
“Ainda bem que o Ibrahim consegue se conter, diferente de Darfur…”
— Afinal, teremos que guardar nossa ira para usar contra Arquoia. A situação lá está cada vez pior.
“D-Droga! Como é que é?!” Alphie massageou as têmporas com um semblante tenso.
— Entendido! Fechando as comunicações. — Darfur manejou a pedrinha entre os dedos até que ela perdesse seu brilho. Então, soltou uma leve risada enquanto olhava para Alphie. — Eita! Parece até que você viu um fantasma, o que deu em você?
Alphie não respondeu, apenas continuou paralisado pelas palavras de Ibrahim.
— De qualquer forma… Eu prefiro obedecer ao Ibrahim. O quarto estágio de um xamã não é brincadeira. Apesar de eu não ter a menor ideia de como ele atingiu isso sendo homem.
— Ainda pretende ir ao hospital amanhã?
— Sim, mas meu plano de ação mudou um pouco.
No dia seguinte, Zaltan e Mirele se reuniram bem cedo de manhã na casa dos jovens. Assim como o rei havia marcado com Lâmina na noite anterior.
Vaia e Cálix já estavam na cidade, portanto, a bebê estava atualmente com Talyra.
— Mas eu não concordei com iisssoooo… — Talyra resmungou, com os olhos fechados de cansaço enquanto se segurava nas roupas do colega.
— Você ficou bem manhosa desde que chegamos em Tzoldrich, não é? — Lâmina suspirou. — Vamos, Talyra, você já trabalhou na maioria das barreiras, então pode aproveitar hoje para ajudar nossos aliados.
“Ai, Lâmina. Por que é que você fala deles desse jeito?”
Zaltan caminhou até Talyra e tomou uma postura mais respeitosa, abaixando a cabeça diante dela.
— Jovem maga, por favor, lembre-se da situação em que nos encontramos.
— Talyra, você não gosta de falar de misticismo? Por que não me responde essa?
Lâmina preparou uma pergunta. Os olhos de Talyra se abriram, brilhando em verde.
— Que eu me lembre, a feitiçaria de Zaltan era água, mas, por algum motivo…
— Eu consigo controlar e convocar relâmpagos agora. — Ele terminou. — Você sabe me dizer o porquê disso?
Lâmina já havia entendido como animar Talyra sempre que ela estava cansada ou exausta: tocar no assunto de misticismos.
— É verdade. — Mirele interveio — Quando Jasmyne estava falando de você para nós, ela falou que sua feitiçaria consiste apenas no controle de água. Eu cogitei que esse seu novo poder fosse uma consequência de Jasmyne não saber sobre ele.
— Ah, agora eu entendo! — Talyra coçou o queixo, pensativa. — O velho mundo aparentemente não sabe sobre “feitiçaria avançada”…
— Feitiçaria… Avançada?
— É um termo que inventei agora, porque eu não sei o nome de verdade, mas já sei do que se trata. — Talyra levantou o indicador, enquanto Zaltan escutava, atento, como se estivesse numa sala de aula.
— “Feitiçaria: o misticismo baseado no controle de elementos da natureza. O mais comum entre os humanos do planeta.” Se fosse só isso, seria considerado fraco, por mais que o usuário seja extremamente inteligente em combate.
— Pelo fato de o continente sul manter as tradições da era dourada, a feitiçaria acabou não se desenvolvendo… — Zaltan murmurou.
— Exatamente! Por conta disso, a feitiçaria avançada consiste em uma extensão da Aura do usuário para a manipulação de outros elementos da natureza, permitindo que ele tenha controle sobre fenômenos da natureza.
— Água e relâmpagos…
— Meu chute é que seja uma feitiçaria avançada da tempestade. Mas ainda falta o controle sobre mais um elemento, pelo menos.
— Talvez… Vento?
— Que demais! — Talyra deixou escapar.
Logo após, a garota começou a entrar em devaneios sobre as possibilidades de poderes com a feitiçaria de Zaltan. Enquanto isso, Lâmina acenou para Zaltan, sinalizando que ele e Mirele estariam indo treinar em outro lugar.
“Essa é mesmo a menininha que me derrotou com um único golpe…?”
— Foi mal, acho que me distraí um pouco. — Ela coçou a nuca. — Mas por que é que alguém tão forte como você iria querer meu treinamento? Eu nem me formei na minha academia.
“Eu também… perdi o livro…”
— Talyra… não é? — Zaltan disse com uma voz calma. — Tudo o que preciso é de seus conhecimentos sobre aura e como conduzi-la. Estou aqui pois reconheço a força de você e de seus amigos.
— Se o contato com a divindade da Mãe Natureza permitiu que você conseguisse uma evolução na feitiçaria, então… — Ela olhou para cima, pensativa. — Estabilidade de Aura tem uma grande conexão com o seu estado emocional. No caso da feitiçaria, ela tende a ter uma evolução lenta caso você esteja num ambiente favorável.
— Será que eu não ficava forte em Arquoia, mesmo treinando tanto, por conta das chuvas constantes da região?
— Talvez. Mas, sobre o estado emocional, não precisa contar se não quiser, também sou meio fechada sobre meus sentimentos. Mesmo assim, pense a respeito.
“Meu… estado emocional?” O rei ponderou.
“Obviamente, estou destruído. Noite passada, eu tive aquele sonho com Alessa novamente. Ele estava ficando cada vez mais real, até o ponto em que eu senti que ficaria louco.”
“Ainda falta algo…”
— Muito bem, parece que o clima está bem seco, o céu está limpo hoje e estamos sem ventos — Talyra disse com a mão na testa, bloqueando a luz dos três sóis enquanto olhava para o alto. — O que significa que é uma boa oportunidade para você testar feitiçarias novas.
Talyra forçou a vista até que seus olhos brilhassem em fortes tons de verde, permitindo que ela observasse a Aura de Zaltan em sua totalidade.
Como esperado, não tinha o molde de uma chama, mas parecia mais um líquido ou fumaça pesada que escorria para os lados. Isso poderia dizer tanto sobre a forma base da Aura dele como também sobre a postura dele, relaxada e sem nenhum tipo de alerta.
Talyra sacou sua varinha e fez uma parede brilhante diante de Zaltan, erguida pela telecinese de sua magia.
— Espessura… trinta centímetros!
— O que é isso?
— Use sua feitiçaria para dar um soco nessa parede que ergui. Pode usar tanto a água quanto o relâmpago, o que achar melhor.
“Vou fazer um teste para ver o quão rápido a Aura dele muda de forma, assim posso analisar o grau de aprendizado…”
Tzzz!
Pá!
— Hã…?
Zaltan usou o único braço que tinha para destruir completamente a parede brilhante com apenas um golpe, os relâmpagos ainda eram repelidos de sua mão para as superfícies próximas.
“Calma, eu nem vi isso! Como está a Aura dele?” Talyra pensou com um semblante chocado.
Talyra forçou a vista novamente. Era como se ele nem tivesse entrado em um estado agressivo.
Depois de seu pai, ela era a pessoa com a visão de Aura mais precisa que conhecia, e mesmo assim, ela nunca viu uma mudança tão rápida que sua percepção não pudesse acompanhar.
De algum modo, isso ia além de quando ele estava no Abismo Revolto.
— Eu fiz certo?
Talyra cruzou os braços e sorriu, contente. Era agora que ela poderia elevar os seus testes para outro nível. E talvez, até aprimorar seus próprios conhecimentos.
— Então, gostou da espada que consegui para você?
— Eu tentei mantê-la enfaixada até o momento. — Respondeu Lâmina, ainda segurando o cabo nas costas com a espada enrolada em panos brancos.
Ele tirou a espada das costas e puxou a ponta do pano, revelando um enorme montante.
Antes que Lâmina pudesse avaliar a qualidade do aço e do ferreiro que fez a espada, ele e Mirele ouviram uma pequena pedrinha caindo na grama junto dos panos.
— O que é isso? — disse Mirele, se agachando. — Hm? É só uma pedra… Não sei como ela foi parar aí dentro, desculpa, Lâmina.
— Ah, não esquenta. — Lâmina amenizou as preocupações de Mirele e começou a segurar no cabo da espada com força.
O ar ao redor deles esfriou tanto que a grama ficou congelada.
A espada ganhou uma grossa camada de gelo, ficando completamente azul e cristalina, com o aço em si ainda visível sob o gelo.
— Pronta?
— Mas rápido assim? — respondeu a garota com um sorriso confiante. — Antes, eu queria falar sobre algo que descobri sobre o sabre de meu pai…
— Não.
— O-O quê?
— Isso também será um treinamento para mim. Será mais desafiador quanto menos eu souber sobre o sabre.
— Hmpf! Sim, senhor. — Mirele entrou na sua postura de combate. Muito semelhante à do pai.
Braço esquerdo nas costas. Empunhadura do sabre elevada até o rosto, com o fio da lâmina apontando para o oponente e corpo virado, com os pés posicionados para equilíbrio máximo.
— Não me chame disso, faz eu me sentir velho. — Lâmina devolveu o elogio em um tom amigável. — Vamos lá, sem se segurar!
Antes que os dois já começassem, Mirele tomou um instante para ver a postura de Lâmina:
Ele mantinha todas as aberturas possíveis, sua Aura congelante saindo como se fosse um vapor, resfriando tudo ao seu redor.
Apenas segurava a espada com a ponta tocando o chão e um sorriso calmo no rosto, esperando o primeiro ataque ou o primeiro tropeço de Mirele.
“Irmã, se queremos derrotar Nira, temos que ao menos dar trabalho para Lâmina agora.”
“Se ela quer ficar forte. Não posso me conter também.” Pensou Lâmina.
O ar frio explodiu em uma rajada de vento, balançando os cabelos brancos de Mirele.
As lascas de gelo que se formavam no ambiente eram imediatamente dilaceradas por fios turquesas que surgiam ao redor de Mirele. Lâmina notou isso, elogiando a proficiência do espírito de Milene dentro da irmã.
“Um mecanismo de defesa automático contra projéteis…? Interessante.”
…
“Ela está parada, parece que aprendeu a ser mais reativa. Muito bem, senhorita Cahrazan, vou dar as honras de começar o combate.”
Lâmina deu um passo adiante e se impulsionou, avançando contra a garota.
Os olhos de Mirele brilharam em azul enquanto ela respirava fundo.
Um corte para cima.
Um lateral.
E um chute.
Todas as tentativas de golpe de Lâmina foram frustradas por bloqueios perfeitos de Mirele, com ela desviando do último chute.
Ela tentou desferir um corte com o sabre negro na perna de Lâmina, mas o espadachim enfiou o montante no meio, prendendo a arma da jovem em uma lasca de gelo formada pelo impacto.
O punho de Mirele torceu no cabo do sabre. Em seguida, o gelo ao redor do montante de Lâmina explodiu em chamas, forçando um recuo dele.
Era a vez de um contra-ataque.
Mirele girou o braço, apertando seu punho em um fio que se tornou visível repentinamente — já conectado ao peito de Lâmina.
O fio brilhou ao mesmo tempo que tensionou com o puxão de Mirele.
Parecia que a força de tração do fio favorecia a garota, que conseguiu puxar o espadachim na direção dela em alta velocidade.
— Hein?! — Lâmina exclamou.
Enquanto estava no ar, ele notou que os fios de seda do pano na cintura de Mirele começaram a tomar uma forma em torno do punho que segurava o fio.
“Um golpe amplificado com o misticismo dela?!”
Lâmina deixou escapar um sorriso aberto.
“Ela deve ter aprendido comigo…”
Lâmina fechou o seu punho da mão livre e carregou sua energia em um soco devastador para o peito de Mirele, assim como fez contra o wendigo no dia anterior.
Pow!
Boom!
Após a onda de choque se dissipar, os dois estavam novamente separados um do outro.
O gelo da espada de Lâmina rachou e começou a se esmigalhar. Já a roupa de Mirele começava a se reconstruir, protegendo a pele de sua barriga, aparentemente intacta.
Os dois se encararam e soltaram uma bufada de orgulho, com Lâmina orgulhoso do crescimento de Mirele e a garota sentindo o prazer de estar par-a-par com alguém que ela admira tanto.
Na noite anterior, quando Zaltan e Mirele chegaram a eles suplicando, não era exatamente isso que Talyra e Lâmina esperavam.
Estavam preparados para um treino comum e desinteressante. Contudo, aquela sessão rapidamente se tornou uma ótima oportunidade para crescimento e estudos de dois indivíduos igualmente talentosos e fortes.
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