Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 37: O Plano

— P-Podemos todos… nos acalmar?

Mirele gaguejou enquanto sorria nervosamente. Ela estava carregando alguns pacotes amarrados nas costas, mas ainda estendia o braço para os jovens que ameaçavam seu companheiro.

— Pessoal, por favor… 

— Para, Lâmina! — Cálix apontou a faca para ele. — Qual é o seu problema?! Trouxe esse maluco pra cá!

— Pelos três sóis! — Lâmina fechou a cara e arrancou a faca da mão do clérigo. — Acham mesmo que eu traria ele aqui se eu não tivesse certeza de que a bebê estaria segura?!

Cálix o fitou com a testa franzida, mas abaixou suas mãos.

— Ele está certo. — Mirele entrou na frente de Zaltan também. — Temos muitas coisas para discutir. Os problemas não param de aparecer e Zaltan pode ser nossa única fonte confiável de informações.

Vaia e Talyra se entreolharam, concordando em abaixar suas armas — e punhos — mas ainda olhavam para o rei com desdém.

Zaltan não disse uma palavra em todo esse tempo. Só era possível ouvir seus suspiros por debaixo da máscara, impossíveis de se decifrar.

Lâmina começou a pegar mais cadeiras para acomodar a todos, mantendo a mesa em um esquema parecido com o dia anterior, porém com Zaltan sentado na extremidade oposta à bebê.

O rei sabia que nenhum deles gostaria de falar com ele após a batalha que tiveram meses atrás, a batalha que deixou todos eles aleijados.

“Você precisa dizer alguma coisa…”

Zaltan segurou a máscara, todos estavam olhando fixamente para eles, esperando o seu próximo passo.

“Você… no fundo… precisa deles.”

Ele começou a remover o acessório, deixando seus cabelos louros caírem em uma franja sobre seu rosto.

— Então, vai dar as caras? — Vaia comentou.

Quando a máscara foi completamente removida, todos na mesa entraram em choque, com exceção de Cálix.

Sob seus olhos, manchas escuras se formavam, indo até sua mandíbula. 

Manchas de meses de lágrimas.

Lágrimas de arrependimento, tristeza e, acima de tudo.

Nojo.

“Nojo de mim mesmo. Por ter sido vítima daquelas manipulações!” Pensou.

— Vocês… Me ajudem… Por favor! 

Gritou Zaltan enquanto batia a cabeça na mesa e levantava o único braço com o punho fechado. 

Sua respiração saía trêmula e irregular.

“Claro, como se eu fosse acreditar nessa ladainha…” Cálix olhou para ele com um semblante de desinteresse.

“Meu Deus, por favor, deixa eu fazer uma leitura no espírito desse cínico.” 

“Sim, eu tenho certeza.”

Logo em seguida, Cálix foi imediatamente retaliado ao perceber uma honestidade sem precedentes vinda de Zaltan. O clérigo sentiu uma dor de cabeça muito forte e começou a massagear a testa com a mão.

— Zaltan, se acalme, por favor! O que deu em você?! — Mirele colocou a mão em seu ombro, seu olhar parecia preocupado como o de uma mãe.

Já era a segunda vez que isso acontecia dentro de um ano. Antes disso, foi com Jasmyne. Olhares de choque se transformaram em confusão pura.

Os soluços de Zaltan eram ensurdecedores. Mirele tentou acalmá-lo com tapas nas costas, o que fez o choro diminuir com o tempo.

— Bah.. bah? — A bebê virou a cabeça.

— M-Me desculpem… de verdade. É só que… eu perdi tudo. — Zaltan levantou a cabeça, ainda com dor na voz. — Tudo estava tão confuso antes de eu ir ao Abismo Revolto tentar matar Jasmyne.

— Confuso? 

“Você nunca comentou disso comigo, Zaltan…” pensou Mirele, um pouco zangada.

— Alguma entidade… Não, várias entidades estavam mexendo com a minha cabeça. — A tristeza no tom de Zaltan ia lentamente se transformando em raiva. 

— Minhas memórias foram confundidas, a missão d’O Círculo estava fazendo minha cabeça e alguma divindade controlava meu corpo sem eu nem entender.

— Memórias? — Vaia interveio, bateu as mãos na mesa e se levantou.

— Vaia. Vamos com uma coisa de cada vez. — Talyra elevou a mão, pedindo para a colega se sentar novamente. — Zaltan, é? Nos diga exatamente o que tá rolando.

Mirele insistiu para que Zaltan começasse a falar tudo o que podia. Finalmente, o rei sentia que podia se abrir completamente.

Aqueles jovens e Mirele eram os únicos que poderiam entender toda aquela situação maluca.

— Então, ela manipulou você também…

Zaltan limpou o rosto com a manga e começou a respirar fundo, tentando recuperar sua postura.

Sua voz saiu rouca, mas um pouco menos desesperada.

— Fala de Nanavit, clérigo? 

— Sim… — Cálix se virou para Vaia, que respondeu com um sinal para que ele seguisse adiante. — Ela… já foi o amor da minha vida. Mas nossa história não importa agora.

— O que importa é que ela está arruinando a vida dos outros agora. Manipulando as memórias dos outros e coisas assim.

— Não era ela quem estava manipulando minhas memórias. Era alguma outra presença. Ela apareceu nos meus sonhos, logo antes de eu acordar em Tzoldrich. — Zaltan passou a mão no cabelo dourado. — Era uma presença sombria… demoníaca… Desculpa, é tudo o que sei.

— Mas tudo isso tem relação com aquela bebê ali? — Mirele apontou para a criança, que já estava tentando comer a própria comida sozinha e se lambuzando no processo.

— Faz sentido se você parar pra pensar. — disse Cálix — O que posso falar de Nanavit é que ela é bem poderosa. Enquanto essa bebê existir, será uma ameaça para qualquer plano de dominação dela.

— Dominação, é? — Talyra colocou a mão no queixo.

— Mesmo depois de tudo isso. Parece que Nanavit não importa para a duquesa, que nem deve saber de sua existência. — O rei prosseguiu.

— Tenho que concordar com Zaltan… — Mirele complementou. — Yvelle nos fez a proposta de matarmos monstros e ficarmos mais fortes, para que possamos voltar para Arquoia e derrubar Nira.

— Quem? — perguntou Vaia.

— A minha ex-parceira e rainha de Arquoia. — respondeu Zaltan — Pelo que estou ouvindo, meu reino está um caos absoluto. O que significa que até mesmo meus conselheiros não estão se opondo a ela.

— E onde a nossa ajuda entra aí? — perguntou Lâmina.

De acordo com Zaltan, os treinos de Yvelle não eram muito eficientes. Mas ele e Mirele reconheciam a força dos jovens. Principalmente Zaltan, que não foi capaz de matá-los mesmo com a força de uma divindade.

“Eles têm algum tipo de anomalia… essa criança também não é normal. Se tem alguém que pode colocar um fim em todos que me causaram sofrimento…”

Zaltan inspecionou cada uma daquelas pessoas sentadas junto dele e Mirele.

“Um cara com uma Aura avassaladora que foi capaz de arrancar um braço meu mesmo quando eu estava com uma resistência de níveis celestiais.”

“Um clérigo que já tem informações sobre Nanavit e conviveu com ela pessoalmente.”

“Uma maga com uma magia que era impossível de decifrar mesmo quando eu estava aprisionado em minha própria mente assistindo nosso combate…”

Ele olhou para Vaia.

“E eu não tenho a menor ideia de que porra ela é… Mas eu sinto uma presença parecida com a da entidade demoníaca dos meus sonhos.”

O rosto do rei parecia ficar mais confiante. No fundo de sua alma, ele queria trazer paz para o seu próprio espírito, o de Jasmyne e o de Alessa.

— Ainda há tempo de consertar as coisas.

“Eu sou um rei… E…”

— Se eu quiser ter meu reino de volta, vou precisar de vocês.

— Preciso que vocês nos ajudem a ficar fortes até o definitivo embate contra Nira Rajaput. — Zaltan se levantou rapidamente, empurrando a cadeira para trás.

Mirele desviou o olhar, mas não estava exatamente negando o que Zaltan dizia.

— Está falando sério? — disse Vaia.

— Pensem comigo, qual é a pessoa mais poderosa além de mim para quem Nanavit recorreria a fim de matar essa bebê?

— A sua esposa. — respondeu Mirele com um tom irônico.

— Nunca mais se refira a ela dessa forma. — Zaltan ameaçou, fazendo Mirele recuar um pouco — Mas sim, é ela.

— O objetivo final de Nira é adquirir o sabre negro das mil maldições. Que está em minha posse atualmente.

— E coincidentemente, Nira ficou ciente da existência de Tzoldrich pouco antes de eu e ela irmos até o Abismo Revolto.

— O que quer dizer…? — disse Cálix, girando a mão.

— Que é só questão de tempo até Nira descobrir que estamos aqui, vir até o ducado com o apoio de Nanavit e de alguma divindade. — disse Talyra, roendo a unha do polegar.

— A duquesa tinha nos dito que poderíamos estar mais tranquilos aqui…

— Espera, Lâmina. — Talyra interrompeu-o. — Por que nós deveríamos ajudar vocês?

— Por que eu sei que… diferente de mim ou de Nira, a bússola moral de vocês é inalienável. — O rei caminhou lentamente até a extremidade oposta da mesa, onde se encontrava a bebê.

— Se vocês estão dispostos a proteger apenas uma vida, imagino que não seja diferente para as pessoas inocentes deste ducado… 

Um silêncio pairou sobre a mesa e Cálix ficou ainda mais ressentido, considerando pelo que ele passou hoje.

— Lâmina, lembra do local da explosão da montanha hoje? — perguntou Mirele.

— Sim, o que tem? Descobriu algo?

— Não é só o local da explosão, lá não tinha nada, mas também a carcaça da serpente que você trouxe junto da cidade. Quando eu e Zaltan tentamos vendê-la para os açougueiros da guilda, eles disseram encontrar partes de metal e fios de cobre dentro dela.

— O-O quê?! — exclamou Lâmina — Tzoldrich tem a capacidade de produzir isso?

— Nem ferrando… — Isso só pode ser coisa do norte… Mais especificamente San-Solaris…

Talyra estava degustando um copo d’água quando se engasgou após a fala do colega. Seus olhos arregalaram e ela quase caiu do assento.

— San-Solaris?! Eu tinha visto esse nome em todas as barreiras que configurei hoje!!

— Desculpa, estou meio perdida… O que é San-Solaris? — Mirele levantou a mão.

— É o império da suja da Nanavit.

— Conseguem ver agora?! — Zaltan se virou e olhou para todos da mesa. — Estamos sendo feitos de vítimas por esses desgraçados d’O Círculo, Nira e até mesmo Yvelle.

— Sei que posso estar interrompendo este belo jantar em família. Entre vocês e essa bebê. — Zaltan se curvou para frente e fez um gesto de belisco com os dedos. — Mas entendam que essa paz de vocês é uma farsa! Se essa bebê representa uma ameaça para Nanavit, imaginem o que ela significa para o resto do mundo!

— Os monstros, o Abismo Revolto, a barreira no Mar do Legado… todos os tipos de misticismo… incluindo até mesmo o seu próprio, Zaltan. Você abandonaria mesmo tudo isso? — perguntou Talyra.

— Eu não estou abandonando nada! …Erm! — Ele pigarreou, se desculpando pelo grito. — Eu apenas quero voltar ao meu reino e colocar um ponto final nessa história. Ou na minha, pelo menos.

Ele continuou.

— Reconheço a força de vocês e sei que já cometi muitos erros nesses últimos meses. Por isso eu peço para que vocês ajudem a mim e a Mirele. — Ele estendeu a palma da mão aberta, como um gesto de amizade para todos os jovens. — Estou apenas tentando fazer a coisa certa, então. O que me dizem?

— Vamos estar protegendo as pessoas daqui, né? — Cálix perguntou com um sorriso de canto de boca. — Eu não tenho problemas com isso. 

— Eu ainda vou trabalhar no hospital ducal amanhã… — comentou Vaia, colocando a mão no peito. — Ainda acho que há um pingo de honestidade na duquesa. Contudo, tenho certeza de que sua atitude é muito honrável, majestade.

— Isso está ficando muito cansativo… Por que um feiticeiro experiente iria querer conselhos de uma maga novata como eu…? — Talyra resmungou.

Ela virou o olhar para os seus amigos na mesa, que pareciam confusos e incertos sobre a afirmação dela. Cálix, especialmente, deixou escapar um “Novata? Conta outra…”.

— Tá… — disse, apoiando o rosto na mão.

— Só falta você, senhor espadachim. Posso contar com você?

Lâmina ia dizer algo, mas hesitou. Ele sabia que tinha o dever de proteger seus colegas e as outras pessoas, mas…

Esse tempo que eles passaram juntos, por mais que tenha sido minúsculo. Foi um tempo muito precioso para ele.

Buscando um norte, ele tentou se lembrar de algo que sentiu que havia perdido:

“O que a vovó Lyn diria…?”

“Ela não viu um futuro de lutas em mim depois que notou a inocência em meus olhos, por isso, apesar da minha força, eu sempre fui mantido longe. Mas agora, eu posso lutar, lutar para proteger.”

“Ela lutou por décadas e não queria o mesmo destino para mim… Entretanto!”

— Estou disposto a fazer esse acordo, Zaltan. — Lâmina levantou a cabeça, seus olhos roxos tinham um brilho determinado que reacendeu a fagulha de esperança em Zaltan.

— Muito obrigado… — Ele se curvou uma última vez.

Mas não era uma súplica desesperada, ou uma insistência infantil, mas sim um gesto nobre vindo do fundo do coração daquele jovem.

— Amanhã, virei discutir os detalhes mais calmamente durante a manhã. Mas, por hora… — ele caminhou e se sentou em sua cadeira novamente.

Seu rosto estava com um sorriso calmo e controlado, sua voz era inspiradora, assim como quando ele estava sentado em seu trono. Falando com seu povo nos primeiros dias de reinado, antes de tudo desmoronar na palma de suas mãos.

— Um brinde aos heróis do continente sul! — gritou.

A energia positiva de Zaltan exalou para cada uma das outras pessoas na mesa.

Pela primeira vez, ele não se sentia completamente sozinho. Tinha pessoas com quem contar, pessoas que o ajudariam a terminar este trajeto perigoso para que ele não acabasse num caos sangrento.

Sua chance final de trazer paz para si e para a mãe e filha que ele matou.

Talyra, que ainda estava um pouco desanimada com o bombardeamento de notícias negativas, sentiu-se forçada a erguer seu copo e brindar com todo mundo.

— Ah! Bah.. Hi! — A criança riu com a boca suja de comida.

 


 

As risadas saíam aos montes das janelas brilhantes da casa. No bosque próximo, uma figura humana segurava uma pedra brilhante entre os dedos.

— Transmutação sonora bem-sucedida. Parece que a filha do Cahrazan escolheu bem a espada que eu havia sabotado… Sorte a minha.

Bwooo…

— Ops, parece que a camuflagem está se desfazendo… — A figura sorriu — Não que importe muito, talvez eu faça uma visitinha para essa tal de Vaia amanhã.

“Então, ela vai se encontrar com a duquesa? Dois coelhos numa lapada só!”

 

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