Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 36: Convidado Indesejado

Capítulo 36: Convidado Indesejado

A garoa não parava em Arquoia, e já era desse jeito há tanto tempo que as pessoas nem suas avós conseguiam se lembrar dos três sóis.

O fraco fogo das tochas era apagado repentinamente por pancadas de vento recorrentes da região. Ainda assim, a população vinha aos montes pelas ruas lotadas do reino. 

O morro que subia para o palácio branco do antigo rei agora estava coberto de manchas de carvão, jogadas por diversas pessoas.

— Morte à Falsa Rainha!

— O rei Zaltan não morreu!!

— Essa estrangeira não fala nada além de mentiras!!!

Por outro lado, Nira não dava a mínima. Como havia cogitado antes de receber a carta de Nanavit, poderia queimar o reino todo em uma questão de segundos.

Tudo que fazia no momento era sentar no trono de seu ex-marido e contemplar as gotas de chuva batendo contra a janela.

A dragoa estava cada vez mais impaciente com a situação toda. Os raios clareavam a sala em que estava, iluminando apenas sua figura no tapete chique.

“Meu plano… Tudo deu errado”, pensou, lembrando-se de Heinrich.

“Tudo… por causa de um único homem!” 

Nira agarrou os encostos de braço do trono de mármore branco e prateado.

— Quero acabar com isso logo… Quando eu tiver o sabre… poderei voltar, voltar ao meu povo!

“Nira, tem noção do que houve…? Seu povo, sua história foi roubada!” As vozes antigas de seu irmão ressoavam no seu crânio como um eco.

— Eu ainda vou deixá-lo orgulhoso… 

Quando Nira se virou para os aposentos do palácio, as portas duplas do salão se abriram em um estrondo.

Tum!

Porta e trovão, no mesmo instante.

— Foi burlada. — Era Renata, seu rosto parecia nervoso, mas de certa forma… contente.

— O quê…? — Nira respondeu, franzindo a sobrancelha.

— De alguma forma. — Ibrahim prosseguiu, logo atrás da maga.

— Me expliquem o que está acontecendo. Agora.

— Alguém fez uma alteração nas barreiras de Tzoldrich, não sei quem, nem como, mas a duquesa Schweitzer está por trás disso.

— A madame Renata me confirmou que só um mago experiente como ela poderia desfazer suas barreiras complexas assim. — Ibrahim se curvou diante de Nira.

— Espera… Zaltan já me contou uma vez que Yvelle tem apenas uma feitiçaria de flores básica!

— Não tem como ela ter alterado as regras da minha barreira.

— A menos que… — Nira pareceu ficar mais entusiasmada, sorriu e começou a andar até uma mesa disposta na sala do trono.

Lá estava sua carta de missão, brilhando em turquesa e mostrando as informações dos alvos que Nanavit comentou.

Além do clérigo de cabelos rosados, havia outros três rostos.

— Renata, venha aqui. — Nira chamou-a. — Reconhece algum desses indivíduos?

— Deixe-me ver… — A maga se aproximou da mesa e começou a olhar…

— Eu preciso de uma resposta boa, mandei Darfur e Alphie investigarem os reinos e condados vizinhos há dias e eles não retornam nada!

— Renata..?

Quando Nira se curvou para trás para ver o rosto da mulher, ela notou que algo claramente estava errado.

Ibrahim deu passos rápidos até as duas, até que Renata soltou o papel, deixando-o cair na mesa ilustre.

Seu rosto estava desesperado, parecia que ela queria gritar e correr ao mesmo tempo. Pálido como aquele palácio, e trêmulo, como se reagisse a cada gota de chuva que batia contra a janela à sua frente.

— Invocação Dracônica! — Nira canalizou uma leve chama turquesa de suas mãos e tocou nas costas de Renata.

— M-Mas o que deu nela?! — exclamou o xamã ao lado.

— Renata… Se acalme e me explique… — Nira aproximou o rosto da moça — Quem. É. Essa pessoa?

A maga foi afetada imediatamente pelo misticismo de Nira e se recompôs no mesmo instante.

— Ninguém. Eu devo estar vendo coisas, só pode ser.

A voz saiu monótona e vazia como a de um robô.

— Está certo. — Nira bateu no ombro dela. — Vocês devem estar cansados de cuidar das informações falsas para a população…

— Mas eu preciso que vão para o ducado de Tzoldrich: essa pode ser nossa única confirmação. Se a chuva não atrapalhar vocês, devem chegar em Tzoldrich em uma semana.

— Estou preocupado quanto à reação da madame Renata, vossa majestade…

— Não se preocupe, Ibrahim, vão com calma e não gastem muita energia. Eu quero todo o cuidado do mundo para garantir o sucesso absoluto. — Nira caminhou até a janela oposta da sala e observou o oceano.

— Estaremos saindo amanhã ao amanhecer, então. — Ibrahim colocou a mão no ombro de Renata. — Vamos lá, você parece mal.

Antes de saírem da sala do trono, Nira assoviou a fim de chamar a atenção do xamã uma última vez.

— A propósito, Ibrahim, como está a criança que forneci?

— A transfusão foi um sucesso, vossa majestade. Lorde Thuzaryn foi enganado e já me encontro no quarto estágio.

— … Ótimo.

 


 

O primeiro a chegar em casa foi Cálix, subiu as escadas até o cômodo principal e tirou suas sandálias lentamente…

— Cálix!! 

O berro de Vaia ecoou por toda a casa, ela parecia louca de raiva.

“Ah, merda…”

— Fala, patroa…

Cálix suspirou, mas imediatamente enrijeceu a postura ao sentir um toque em seu ombro.

Vaia passou a cabeça ao lado dele. Cálix nem tinha a coragem de olhar para o lado.

— Que. Cheiro. É. Esse?

O jovem clérigo sabia que não poderia disfarçar o odor perfumado dos incensos do bordel em que passou o dia todo. Fechou os olhos e começou a fazer uma oração silenciosa para seu Deus, implorando pela misericórdia de Vaia sem dizer uma única palavra.

— Eu sinto… 

Cálix engoliu seco.

— Que você foi comprar perfumes sem minha presença! Como pôde?!

— H-hã…?

— Desde que minha bagagem não foi recuperada, eu estive sem maquiagens, perfumes ou qualquer um dos meus cosméticos — resmungou Vaia, colocando a mão no rosto. — Não estou muito confortável sobre ir trabalhar amanhã sem estar apresentável…

Cálix não via a bebê em lugar algum. 

“Provavelmente está dormindo”, pensou.

Colocou o braço ao redor de Vaia e disfarçou:

— Na verdade, foi só uma amostra, sabe? Podemos sair amanhã com o dinheiro que eu peguei na saída do serviço junto com a grana gorda que o Lâmina vai fazer hoje…

Enquanto Cálix continuava seu monólogo, Vaia franziu a testa e começou a cheirar o cara perto do braço de Cálix, indo lentamente até sua mão.

— Por sinal, sabe que horas eles cheg… Aaaaii!! — gritou.

Vaia fez um rosto sério enquanto agarrava o pulso de Cálix com uma força anormal.

— Ai! Ai! Desculpa, Vaia. De coração! Eu posso explicar! — O jovem suplicou enquanto caía de joelhos diante da mulher.

— Por que você cheira à mulher…? — Vaia se curvou diante de Cálix e soltou sua mão.

— Você não entenderia, é coisa de sacerdotes… — disse com um leve sorriso no rosto e um tom provocativo.

Levantou-se e começou a massagear seu punho.

O ar do cômodo repentinamente ficou frio, já avisando os dois sobre a chegada de mais alguém.

— Pessoal, cheguei… Hm?

Lâmina se deparou com a visão de Cálix e Vaia se encarando furiosamente.

— O que deu em vocês? Talyra não chegou ainda?

— Não foi nada, Lâmina. — Vaia respondeu, ainda fitando o clérigo.

— Bem, eu preciso falar com vocês. É um assunto importante…

Lâmina virou a cabeça e suspirou.

— Tem algumas coisas estranhas acontecendo. Fui caçar uma serpente das cordilheiras hoje e…

— Espera, você caçou uma serpente das cordilheiras… Sozinho?! — Cálix o interrompeu.

— Então, era aí que eu queria chegar. Sabe quem encontrei na guilda hoje? A Mirele!

— Ah, é mesmo? Como ela está? — disse Vaia, radiante.

Antes que Lâmina continuasse, todos ouviram gemidos e suspiros vindo do pé da escada para a entrada. Parecia uma espécie de fantasma choramingando enquanto era possível ouvir o som de algo se arrastando pelos degraus de madeira.

Huff! Cof! Cof! Ahh… Eu odeio isso… — A jovem maga de roupas esverdeadas estava subindo as escadas de quatro.

— Lily? O que aconteceu com você?

Ela grunhiu e atirou-se contra Cálix. Agarrou-o pelo colarinho antes que pudesse reagir e os dois desabaram no chão.

— “O que aconteceu?!” Eu te digo o que aconteceu! — Ela abaixou a cabeça no peito dele e começou a chorar.

Cálix já conhecia aquela garota bem o bastante para saber que Talyra estava fazendo drama.

— Eu tive que andar com a duquesa o dia inteiro e subir uns obeliscos ridículos, Cálix!! Snif! Andei! Gastei minhas forças para alterar as configurações de doze barreiras fajutas!

Snif! Eu não aguento mais…! — ela fungou.

— Argh! Tá bom, Lily, já entendi! Agora, para de chorar no meu uniforme, por favor!

— Não! Tem um cheiro bom… — Talyra puxou parte da túnica de Cálix, que começou a empurrá-la para longe.

— Sai de mim, peste!

— Raios... — Vaia passou a mão pelo rosto. — Lâmina, você estava falando da Mirele. Como ela está?

Lâmina hesitou. Olhou para Cálix, empurrando Talyra com o pé, a garota rolando pelo chão como um saco de batatas. Vaia ainda parecia irritada.

— É complicado... — Ele coçou a nuca. — Ela morreu, mas não exatamente. Não tem mais corpo físico, mas a alma e o espírito de Milene ainda vivem dentro dela.

Vaia e Cálix trocaram olhares confusos.

— Tá, isso é bizarro, mas... — Cálix se levantou, sacudindo a túnica. — Por que você está com essa cara de velório?

Lâmina respirou fundo.

— Porque eu convidei-a para jantar. Aqui. Hoje.

— Ótimo! Faz tempo que não vejo a Mirele. — disse Vaia, sorrindo.

— Ela não vem sozinha.

O tom de Lâmina fez o ambiente esfriar mais do que a presença dele já fazia naturalmente. Cálix franziu a testa.

— Quem vem com ela? Heinrich?

— Não. Acho que a duquesa estava certa... Heinrich partiu e não deve voltar tão cedo.

O ambiente ficou em um silêncio muito pesado, todos sentiam vontade de soltar um suspiro de decepção toda vez que ouviam o nome daquele homem. 

Tanto feito por ele, mas nada retribuído. Por mais egoísta que Cálix admitisse ser, ele não conseguia deixar de pensar nas motivações do marinheiro.

Lâmina olhou para cada um deles. Sabia que deveria falar, que deveria avisá-los de quem estava vindo, mas não tinha ideia de como seria a recepção.

— Lâmina — Vaia cruzou os braços. — Me responda, por favor.

— Alguém que... nós conhecemos bem...

Cálix estreitou os olhos.

— Isso não é resposta.

— Eu sei. — Lâmina desviou o olhar. — Olha, que tal eu fazer o jantar e vocês irem descansar? Não se preocupem, eu cuido disso.

— Lâmina… que tal me deixar cozinhar hoje? — Vaia colocou a mão no peito e se aproximou do espadachim com um olhar preocupado. — Não sou muito boa, mas não queria que você se esforçasse muito. Já caçou monstros e andou por horas hoje…

— Tem certeza? Nunca vi você cozinhar…

— Qual é? Não pode ser tão difícil assim. — caçoou, dando de ombros.

— Cááálix…! — Talyra choramingou. — Me leva para o meu quarto…

— Eu, hein? — O jovem franziu a testa. — Vou nada.

Cálix se levantou e se encaminhou para o corredor dos quartos.

— Que drama, hein, Talyra? — Vaia olhou para ela.

— Olha quem fala. — A garota apontou. — Andar para você não deve ser nada! Suas coxas são do tamanho da minha cabeça!!

Vaia ficou boquiaberta e um pouco corada com a reclamação repentina da jovem maga. Ela fitou rapidamente Lâmina, que deu um passo entre elas.

— Ok, já chega, vocês duas. — Ele colocou a mão no queixo e ponderou por um instante. — Vaia, vá para a cozinha e pegue o arroz. Talyra… deixa que eu te levo…

Lâmina agarrou a garota pelas costas do vestido e a jogou sobre seu ombro.

— Só estou te dando um crédito, pois suas pernas estão cheias de cicatrizes, apesar de a duquesa ter dito que você já estava completamente recuperada.

— Nunca vai me ouvir reclamar de novo, Lâmina… obrigada. — Ela juntou as palmas das mãos e deixou escapar um sorriso.

 


 

Cálix não havia saído de seu quarto desde então. Talyra e a bebê também já estavam dormindo enquanto Vaia e Lâmina ficaram cozinhando o jantar — ou tentando, ao menos.

— Eita… O arroz queimou de novo!

— Caramba, Vaia! Deixa que eu faço agora…

O forno dessa casa levava até o telhado para impedir que a fumaça se espalhasse por toda a cozinha, contudo, ele parecia estar cedendo com a quantidade de vezes que Vaia errou o processo de cozimento nas panelas rústicas.

Naquela noite, Lâmina descobriu que Vaia não tinha o menor talento para cozinhar. Chegava a ser inexplicável sua falta de aptidão.

“Talvez eu deva perguntar depois para Talyra se a Aura de Vaia tem alguma relação com isso…”

Alguns bons minutos depois, quando os três sóis haviam sido substituídos pelo lindo céu estrelado do continente sul, Lâmina finalmente havia colocado o último prato na mesa.

Não conseguiu segurar o sorriso que escapou de sua expressão quase sempre fria, chamando até mesmo a atenção de sua companheira.

— Você gosta mesmo de cozinhar, né?

— Acabou sendo meu lazer preferido. Nunca tive muito incentivo para a luta. Já que eu sempre era segregado, tanto pela minha Aura fria quanto pelo meu talento nato para a esgrima.

Uaaaaahhh…!!

— Ai, ai… Boa noite, gente! — Talyra saiu saltitando do corredor com a bebê nos braços — Nossa! Que cheiro maravilhoso!

— Lâmina, você não para de me surpreender… — Cálix chegou logo atrás dela, se espreguiçando.

Todos foram se sentando à mesa, com exceção de Lâmina, que estava olhando fixamente para fora da janela, para a estrada de terra que vinha da cidade.

Pouco tempo depois, ele disparou escada abaixo.

Cálix se curvou para as garotas na mesa, cochichando.

— Pessoal, sabem que o Lâmina desviou o assunto quando perguntamos da companhia de Mirele?

— Sim…

— Pois é, meu Deus está me enviando uns sinais de alerta vindo do andar de baixo… — Cálix prosseguiu, virando os olhos para o chão.

Era apenas possível ouvir leves sons da conversa entre Lâmina e Mirele logo antes de os passos nas escadas ficarem mais altos. Vaia notou que havia seis pés caminhando ao todo.

Talyra conseguia notar leves movimentos dos músculos faciais de Vaia. Ambas estavam paradas, apenas aguardando.

Cálix instintivamente colocou sua mão na faca de cozinha que estava sobre a mesa e flexionou suas pernas, se virando para o batente e se apoiando na própria cadeira.

Ninguém disse uma palavra, mas a bebê ainda parecia feliz na ponta da mesa. Estava até rindo.

O acompanhante foi o primeiro a subir as escadas e passar pela entrada.

Estava usando um manto amarronzado e uma máscara preta que parecia imitar feições humanas. Entretanto…

O cheiro dele, o alerta divino para Cálix e a Aura eram inconfundíveis.

— Ah, bah bah! — A bebê sacudiu os braços e as pernas em sua cadeira na visão familiar do homem que tentou matá-la há poucos meses.

Lâmina chegou junto de Mirele logo depois, se deparando com Vaia preparando um soco, Cálix puxando uma faca de cozinha e Talyra com sua varinha verde e já brilhante apontada contra o rosto de…

— Ei, Lâmina… — disse Cálix num tom sério.

— O que Zaltan está fazendo aqui? — Talyra finalizou.

 

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