Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 35: Barreiras

Capítulo 35: Barreiras

— Ei… Psiu!

— Ngh! — Talyra grunhiu — Só mais cinco minutinhos…

A visão da garota estava toda borrada enquanto acordava. Ela via seu quarto, luzes douradas dos três sóis irradiando através da janela aberta enquanto um vento salgado do mar soprava contra as cortinas.

No pé de sua cama estava…

— Pai, me dá um tempo…! Hoje é sábado! — ela resmungou antes de puxar as cobertas até seu pescoço.

Tibúrcio Arithmos estava um pouco diferente de como Talyra geralmente o encontraria em casa — ou em qualquer ambiente, na verdade. Cabelo arrumado, barba feita e alguma maquiagem para disfarçar as olheiras sob seus olhos verdes brilhantes.

Continuava a usar o traje dos professores, uma túnica preta com um casaco por cima. O que o fazia parecer que estava usando um paletó com uma saia longa.

— Seus amigos estão te esperando. Hoje é o dia da cerimônia! — Ele agarrou o cobertor de Talyra e puxou.

Apesar de parecer um ambiente quente, Talyra sentiu muito frio pelo vento que circulava.

— Poxa, fala sério! — Ela se virou de barriga para baixo e cobriu a cabeça com o travesseiro.

— Tá, sua chatonilda! Mas saiba que vou estar fazendo um estrogonofe bem gostoso e vou dar tudo pra Denise e pro Egis…

Talyra largou o travesseiro e se sentou na cama rapidamente com um semblante sério e olhos bem abertos.

— Não! Não ouse fazer isso, papai!

— Então acorde logo, sua dorminhoca… Eu já ia tacar um copo d’água na sua cara! — respondeu num tom brincalhão.

— Hihi! — Talyra riu. Uma risada agradável, que não dava há… algumas horas? Era um sentimento realmente estranho. — Eu não sei como funciona a cerimônia, temos só que tocar numa pedra brilhante…?

— E decidir por fim sua magia. Mas antes…

— O quê? — Tibúrcio se levantou e ficou parado ao lado de Talyra, encarando-a. 

Parecia que ele tinha se movido para uma posição pré-determinada.

— Vamos, Talyra… a duquesa te chamou. — O pai dela estava com uma voz muito mais jovial e calma também.

Aos poucos, toda a visão borrada ia se desfazendo, derretendo e tomando outra forma.

Talyra se sentiu forçada a colocar a cabeça no travesseiro novamente… e despencou com o corpo para a cama.

No instante em que ela caiu, a maga despertou de seu sonho quase real. Talyra ofegava e suava frio pelo nervosismo da queda. Já ficando com o corpo ereto.

Estava no quarto escuro da casa de Heinrich, em uma cama muito maior que sua antiga.

Do lado dela, Lâmina olhava, preocupado.

“Que olhar deprimido… Será que ela teve um pesadelo?”

— Ah, oi, Lâmina… Sim, eu já vou me levantar…

— Você está bem?

— É, eu tô legal. — A jovem tirou o resto do cobertor da cama e foi até uma cadeira no quarto, que tinha suas roupas penduradas.

Ao contrário dela, Lâmina parecia estar acordado há um tempo.

— Me espera lá na porta, eu já estou indo.

Apesar de Talyra desgostar de ser acordada repentinamente, ela havia pedido para andar com Lâmina até o lugar onde a duquesa pediu para as duas se encontrarem.

Diante da cadeira com seu chapéu e vestido pendurados, a mesa tinha apenas a sua varinha. Nenhum… livro em específico.

Ela se lembrou do que Cálix falou para ela no Abismo Revolto: de como essa missão para a bebê era uma chance para um recomeço. Mas a garota realmente se perguntava se desejava recomeçar.

Mesmo depois de ser confortada tantas vezes por eles, algo a fazia não se sentir em casa. Tinha também o fato de a bebê estar chamando-a de “mamãe”.

“Eu não sou nova demais para essa conversa?” Talyra massageou os olhos. E pegou suas roupas verdes e chapéu feitos por Yvelle.

— Eu ainda vou ter que me acostumar com minha segunda cor favorita…

Ao sair do quarto, já vestida e arrumada, Talyra olhou a mesa da cozinha para ver a toalha, cheia de pães e um suco rosado.

Talyra não estava com muita fome, portanto, apenas pegou um punhado de pães quentes e fofinhos, enrolou em um pano e colocou em uma bolsa transversal de couro que encontrou no armário.

Desceu as escadas até a porta da frente, onde Lâmina estava.

— Preparada? — indagou o espadachim com um sorriso no rosto.

— Eu que pergunto! É você quem vai ter que lutar contra monstros hoje… — respondeu, com os olhos ainda inchados de cansaço.

— Você parece um pouco cabisbaixa… Não quer falar nada, não?

Aceitar toda essa situação era muito difícil para Talyra, mas, mesmo distante de casa, com seu pai sumido, ela ainda lembrava daqueles dias com gosto.

Além do mais, era melhor estar com essas pessoas que se preocupam com ela do que ter sido devorada por lobos em uma ilha distante e isolada.

— Relaxa, Lâmina! — disse, sorrindo de volta — Vamos lá, o dia vai ser loooongo!

Eles começaram a andar, os três sóis ainda nasciam no horizonte atrás das cordilheiras, trazendo consigo uma brisa refrescante e revigorante o bastante para tirar todo o sono de Talyra.

Em alguns momentos, ela notava que estava ficando para trás em comparação ao amigo, por ele ser muito grande e ter passos mais largos. Em outros momentos, Talyra ficava cansada e pedia para que os dois parassem para respirar um pouco.

— Então… Isso estava sendo uma dúvida para mim. Como exatamente as barreiras funcionam?

Finalmente um assunto de especialidade de Talyra, ela até deu um pequeno salto quando Lâmina tocou no assunto.

— Ah! Você quer saber? Mesmo?!

— Eita, você ficou bem animada.

— Eu gosto de falar sobre as coisas que sei ou que gosto. Desculpa, hehe… — ela coçou a nuca — Mas, respondendo à sua pergunta…

Talyra levantou o indicador e olhou para cima, tentando lembrar de suas aulas.

— A composição de todos os seres vivos do planeta tem Aura, e tal como Aura tem sua forma e cor, ela tem suas propriedades.

— Propriedades?

— É, sua Aura exala um frio extremo, por exemplo, por isso estou até um pouco afastada e ainda me dá arrepios. — disse Talyra, esfregando as mãos. — A propriedade da Aura de monstros é extremamente instável e tem sua forma e cor mudando a todo momento, o melhor caso disso foi a presença da Vaia quando estávamos lutando, principalmente depois dela beber seu sangue.

“Mas ainda me pergunto o porquê de a barreira de Fajilla não ter fritado ela por completo quando ela perdeu o controle no barco…” pensou.

— As barreiras funcionam como um acordo entre quem as faz e a própria ordem natural. Algo como: “Em troca de ter que fazer vários pilares ao redor deste ducado, você força a necessidade de uma Aura estável aqui dentro.” É a melhor maneira que tenho de explicar isso.

— Há uma entidade por trás desse “acordo”?

— Nunca parei para buscar essa informação. Pelo que eu saiba, não. Mas enfim… Quando esse pacto entre o construtor da barreira e as leis naturais é feito. Toda a área dentro dos pilares, usando pilares como exemplo, força a estabilidade da Aura de todos os seres vivos. Caso você não obedeça a essa regra… Bem, existe um escopo muito grande de efeitos colaterais.

— Espera, então a Vaia não estaria em perigo?! — Lâmina gritou com a sobrancelha erguida para Talyra.

— Calma, Lâmina! Vaia teria que sair do controle igual àquela vez para isso acontecer, e, se for perguntar para mim, eu nunca senti a Aura dela tão estável desde o momento que chegamos aqui. Você tem minha garantia de que ela ficará bem!

— Entendi… Mas me surge outra dúvida: e quanto às plantas e animais de estimação? O que os diferencia de monstros?

— Ah, isso é fácil de explicar. Existem dois motivos principais para as barreiras não desintegrarem ou repelirem animais, grama ou árvores. O primeiro é que a presença de misticismo por todo o mundo é que causa a corrupção de alguns seres vivos ou cria novos. Como consequência, temos monstros, vampiros e até mesmo demônios.

Talyra continuou.

— E você se lembra do que falei sobre o acordo das barreiras? Por se tratar de um contrato com o próprio conceito do misticismo, se o construtor tem ao menos um cérebro na cabeça, ele consegue moldar o acordo para que ele afaste apenas os males do mundo para nós, humanos.

— E o segundo motivo?

— É que a própria natureza do universo consegue diferenciar monstros de animais e plantas comuns.

— Temos sorte de ter alguém tão sábia quanto você andando conosco! — elogiou.

— Ah, não é nada… — disse Talyra, toda corada — E-Eu estudei bastante, só isso.

Eles lentamente se aproximavam dos portões de Tzoldrich. Por agora, não tinham guardas e estavam abertos, com algumas pessoas caminhando dentro da cidade.

— Tá… Vamos entrar… — resmungou Lâmina.

Porém, antes de atravessarem a ponte da entrada, uma carruagem familiar saiu de dentro do lugar com os cascos dos cavalos ecoando por todo o ambiente.

A carruagem parou diante dos dois e a porta abriu.

— Ah, olá, minha pequena maga! 

Era Yvelle, usando um vestido verde cheio de trevos de quatro folhas. 

— Estou vestida hoje para acompanhar você em suas tarefas! 

— A senhora parece contente, alteza. — disse Lâmina.

— É claro que estou! As barreiras atuais estão me dando alguns problemas e precisam de reformas. Não consigo me expressar melhor ao dizer que essa garotinha é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos.

“Isso não é um pouco de exagero?” Talyra se perguntou.

— Por favor, entre! Temos muito o que conversar.

— Temos…? — A maga se virou para Lâmina, que deu de ombros. — Pode ser, então, né…

Durante a viagem na carruagem, Yvelle ficou durante alguns bons minutos tentando puxar conversas com Talyra a respeito das terras fora do “Velho Mundo” e como estavam as outras nações depois da Era de Ouro.

Comentou sobre como as cordilheiras impedem diversas expedições dos reinos do sul para o norte do continente, tanto pelo clima hostil quanto pela presença avassaladora de monstros perigosos, como as serpentes das cordilheiras.

— Mas, sabe… Eu acabei descobrindo um jeito. Uma nova rota!

— Para o norte?

— Sim, veja — Yvelle pegou uma mochila em seu banco da carruagem e tirou um mapa de dentro. — Fiz este para mostrar de maneira simples. Está baseado no mapa mais preciso que meus navegadores conseguiram…

— Consegue ver a linha vermelha? — Ela apontou. — Se trata de uma rota planejada para o norte do continente que me estabeleceu uma conexão única e… Me permitiu uma visita reveladora.

— Reveladora…?

— Você não é daqui, então não sabe como é a vida por essas partes. Desde que me tornei duquesa e comecei a propor obras em Arquoia também, as pessoas nunca tiveram uma qualidade de vida tão boa!

Talyra ficou nervosa à medida que o entusiasmo de Yvelle crescia.

— Eu construí hospitais, escolas, tudo com a tecnologia que o norte me proporcionou! É claro que eles fizeram algumas demandas… Mas eu digo que, se é pelo meu povo, vale cada sacrifício!

— S-sacrifício?!

— Ah, desculpe, meu bem! Não estamos sacrificando pessoas. Foi só um modo de dizer…

A felicidade abundante da duquesa lembrava Talyra de seu amigo… Ele, sim, tinha uma grande ambição. Infelizmente, a jovem não compactuava muito com coisas como prosperidade e grandeza, nem antes, nem agora.

Ela, na verdade, se sentia satisfeita com vidas simples. Assim como era quando estudava em sua escola de magos natal.

— Não ligue muito para o mapa. Ele nem mostra Arquoia, que fica um pouco para o norte daqui. — Yvelle amenizou a garota enquanto guardava o mapa de volta na mochila ao lado.

— Ah, chegamos! Ali está.

Talyra olhou pela janela da carruagem e testemunhou algo digno de um “Uau!”

Um enorme obelisco negro estava disposto no meio da grama no topo de uma colina, bem distante da cidade principal de Tzoldrich.

— Esse negócio preto é o pilar da barreira?

— Um deles. Existem dezenas de obeliscos tanto na superfície quanto no subterrâneo para afastar os monstros das minhas minas de prata.

— Beleza… — disse Talyra, suspirando.

Yvelle abriu a porta da carruagem e saiu junto da garota até a enorme estrutura de material misterioso.

— A última pessoa que configurou as barreiras foi uma maga que entrou recentemente no conselho real de Arquoia, talvez você até a conheça.

— Existem diversas nações e escolas de magos de onde vim, eu duvido muito…

— Coincidências são o que tornam este mundo tão intrigante, sabe? — a duquesa respondeu enquanto olhava para o obelisco. — Ela modificou o ponto de ativação das barreiras lá no topo.

Talyra olhou para o alto, com o obelisco fazendo uma enorme sombra sobre as colinas ao lado. Devia ter uns vinte metros ou mais de altura.

“Eu vou ter que subir isso e ainda ajustar a barreira lá do alto…?” Ela franziu a testa.

— Certo, certo, minha pequena maga — Yvelle bateu uma palma — você pode começar, ainda temos que ver todos os outros pilares do ducado. Talvez leve semanas para você finalizar tudo, afinal…

— Eu ainda preciso saber a chave de acesso… A moça que mexeu nessas barreiras te entregou algum papel…?

— Ah, entregou sim! — Yvelle correu até a carruagem de onde tirou um pedaço de papel velho, com algo escrito em tinta vermelha. — No verso deste papel estão minhas requisições para a configuração, tá?

Era uma inscrição mágica, símbolos místicos feitos e usados como se fossem uma linguagem secreta. 

Muito populares entre selos, Talyra cogitou que o acordo para a ativação seria uma espécie de talismã.

A maga pegou sua varinha e começou a canalizar sua Aura para a ponta, onde fez uma forma quadrada sob seus pés.

— Que magia impressionante! É algum tipo de telecinese? — exclamou Yvelle, surpresa.

— É… bem, como eu explico isso? É matemática, dona duquesa.

— Entendi — respondeu com um sorriso intrigado.

Talyra apontou para cima e começou a subir junto de sua plataforma, assim como fez em Fajilla.

Ao chegar ao topo, o obelisco se encerrava numa área plana com um pequeno pedestal no centro.

— O obelisco é feito de obsidiana… Vejamos…

Ela caminhou até o pedestal, encontrando outro pedaço de papel, desta vez intacto, com as mesmas inscrições em tinta vermelha.

— Se me lembro bem, devo analisar a barreira fazendo o símbolo da chave que recebi de Yvelle.

Talyra canalizou um pouco de energia na varinha e começou a desenhar no ar.

“Isso não é nada prático, acho que vou reformular o método de acesso também.” 

Quando finalizou, o talismã no pedestal brilhou e Talyra colocou o papel que recebeu diante dela, com as instruções de Yvelle voltadas para seu rosto.

“Acho que seria bom eu ao menos olhar as instruções ao invés de aplicá-las sem mais nem menos…”

Lendo o papel, Talyra conseguiu notar alguns pedidos levemente estranhos e um pedaço de papel grudado no canto do papel.

— “Comprometimento com o contrato: Habilitar uso de tecnologia produzida com Teurgia.” Espera, esse não é o misticismo do Cálix? — Talyra espremeu os olhos e continuou a ler — “Remover limitações sobre consumo de energia em equipamentos e tecnologias criadas sem o uso de misticismo. Habilitar conexão energética com a barreira sul de…” San-Solaris?

Talyra ainda estava muito confusa sobre o que se tratava exatamente aquelas novas configurações da barreira. As tecnologias descritas deveriam estar habilitadas por padrão!

A não ser que…

“A maga que mexeu aqui tenha propositalmente bloqueado esses objetos.”


— Ah, como foi? Já terminou?

— Sim, e eu também alterei o método de entrada da configuração da barreira. Agora é uma sequência numérica. — Talyra bufou, orgulhosa.

— Eu não sei exatamente o que isso muda, mas… Obrigada, xuxu! — Yvelle beliscou as bochechas de Talyra.

“Que saco…”

— Vamos, temos ainda muitos outros pontos para ver!

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