Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 34: Confissões, Parte 2

— Snif M-Muito obrigada! — a mulher apertou a mão de Cálix — Você não tem ideia de o quanto isso me acalma…

A voz dela parecia muito mais acalmada e menos desesperada. À medida que Cálix fazia a oração, segurando sua mão, ele sentia-a menos trêmula e mais aquecida.

Cálix sentia também. Um espírito quebrado, mas bem revigorado. Mesmo que o sofrimento tenha passado por um instante, esse instante era tudo o que importava para ele.

“Por sorte, memorizei boa parte das orações deste panteão.” Suspirou aliviado enquanto a moça se levantava. Contudo, ela lhe direcionou uma pergunta antes de sair:

— Seu clérigo… pode ser estranho perguntar isso, mas… Você já teve um filho?

O jovem foi pego de surpresa. Ponderou a situação por um momento, antes de responder:

— Bem, não exatamente — disse em uma voz calma ao coçar o queixo — Mas eu sou o guardião de uma neném agora, então…

— Então você vai entender bem o que digo. — Ela puxou a cortina da própria cabine. — Que mesmo quando fazem bagunça ou você tem um dia péssimo, eles sempre te lembram da sua razão de viver.

— Entendi… 

Cálix riu para si mesmo enquanto a mulher saía, dando lugar ao silêncio com os barulhos abafados do bordel.

“Os sons pareciam tão ordenados enquanto eu falava com ela…”

“Foi você, meu Deus…? Heh. Acho que não importa agora, depois de muito tempo, eu senti meu espírito alinhado por um momento, mas ainda me dói ter ouvido essa história.”

— Tem razão, às vezes devemos esperar pelo melhor. Não tenho controle sobre a vida dos outros de qualquer forma.

Tum! Tum! Tum!

O silêncio se quebrou de novo quando passos propositalmente pesados chegaram do corredor até a cabine ao lado de Cálix.

Das cortinas, uma silhueta sombria e esguia entrava, acompanhada de uma tensão inexplicável no ar. Cálix sentiu uma quantidade pequena de Aura vinda daquela pessoa — devia ser um desconexo.

— Ahhhhh… — O homem exalou um suspiro cansado e inclinou-se para frente, encarando Cálix de frente através da divisória do confessionário.

O clérigo sempre foi ensinado a não julgar pelas aparências, mas aquilo era certamente uma péssima primeira impressão.

— Uh… bom dia?

— Oficiante?

— É Ofician… Ah.

— Desculpa, eu costumo pesquisar sobre títulos… Gosto de evitar desrespeitos. — A voz dele se encolheu em comparação ao grunhido de quando entrou. — Oficiante, poderia me responder uma coisa?

— Deseja confessar algo?

— Não é exatamente uma confissão, eu busco apenas uma bússola para minha moralidade. Que lugar melhor para encontrar do que com um clérigo da própria definição de moralidade?

— É, acho que você está certo… — Cálix respondeu com certa hesitação.

— Aff! Não estou a fim de formalidades… — A silhueta do homem levantou a mão — É que me encontro em um baita dilema ultimamente e queria seu conselho.

Cálix relaxou um pouco mais sua postura quando o homem mudou seu tom. Falava de uma maneira mais casual e parecia mais confortável.

Era melhor assim para o clérigo.

— Eu sou um assassino contratado para matar um alvo, sabe? Aí você diria: “Pô, mas matar é errado”, não concorda?

— Me diga algo que eu não sei… — Cálix respondeu com uma risadinha irônica.

— Mas, digamos que eu acabei conversando com um dos parentes de meu alvo e descobri que, na verdade, esse parente é alguém que admiro muito.

— Você foi convencido a não matar seu alvo? Como assim?

 


 

Depois que Yvelle me ameaçou com aquelas palavras idiotas, eu não conseguia mais me segurar em ficar naquela sala chique.

Não sou um trouxa, Heinrich Cahrazan estava no ducado, em carne e osso!

Ele foi, de longe, uma das minhas maiores inspirações para trabalhar na Guarda de Arquoia. Mesmo que eu tenha sido rebaixado para assassino de quinta por Zaltan.

Qualquer um que passe em Arquoia acaba por ouvir a história dele e de seu misterioso sabre negro, dito prover para Heinrich todo seu poder.

Lembrava-me de quando eu e meu amigo ficávamos comentando sobre as possíveis aventuras que esse grande homem teve ao longo de sua vida antes e depois de largar o posto de general de Arquoia.

Eu sabia como encontrá-lo, treinei para isso, afinal.

— Depois de uma longa viagem de barco, ele provavelmente seria reconhecido por todo o Ducado. Mas eu suspeito que o fato de ser Heinrich Cahrazan seja uma informação restrita apenas para a duquesa, justamente para evitar a comoção.

— Tzoldrich é um ducado muito populoso e um importante posto de troca no continente sul, com exceção de Arquoia, é claro. Yvelle provavelmente teria uma taberna vazia ou bem acabada para mandar Heinrich para lá, visando evitar a atenção do público.

— Ele provavelmente evitaria qualquer taberna próxima do porto e, por outro lado, escolheria uma o mais distante possível das docas. Ou seja, bem aqui.

Taberna do Richie, distrito leste de Tzoldrich.

— Você é bom mesmo. — Ele usava um capuz que cobria todo seu rosto e estava bebendo uma caneca cheia de rum, a bebida favorita de um bom marinheiro. — Mas o que você veio falar sobre? Não acho que seja só para uma conversa de fã para ídolo.

— Você é O Herói Lendário de moral inabalável. Então, queria pedir sua opinião: digamos que alguém me mandou matar a duquesa e…

— Ha! Tá falando daquela dragoa maldita?!

— O-O quê?! C-Como você adivinhou?!

— Cara, você deveria melhorar essas suas histórias falsas… Primeiramente, a duquesa não tem inimigos políticos fora de Arquoia Segundamente, todos aqui a amam de coração, caso houvesse um motivo para quererem matar a duquesa, eu saberia. Terceiramente, Zaltan não teria os culhões para fazer isso com a mulher que já trocou as fraldas dele.

Levantou o seu dedo mindinho:

— Quartamente… nem sei se esse termo existe… Eu acabei de arrasar com ela lá no Abismo Revolto.

— Ah…

— Mas aonde você quer chegar?

— Eu… — abaixei minha cabeça na mesa — Estou farto dela. Os outros membros do conselho parecem não ligar, contanto que tenham o poder que desejam. Já eu… apenas quero evitar destruições aqui e em meu reino natal…

— E você não sabe o quanto estaria facilitando o caos generalizado de Nira ao seguir cegamente as ordens dela?

— Qual é o seu nome?

— É Alphie, senhor.

— Sem sobrenome? — Heinrich se inclinou para trás na cadeira e sorriu. — Não que faça diferença. Veja bem, Alphie, eu sou uma pessoa que sempre prezou pela liberdade absoluta, compreende?

O homem continuou enquanto balançava a cadeira que rangia, prestes a quebrar.

— O primeiro passo para se libertar de verdade é questionar os dogmas ou ordens que você segue, não estou falando de algo besta como “Não cague no chão”, mas, coisas que realmente colocam uma dúvida na sua cabeça. “Eu deveria obedecer?”

— Está dizendo que estou no caminho para me tornar livre?

— Exatamente! Foi o que pensei: “E se eu apenas largar o conselho de Arquoia agora que tenho essa arma lendária? A minha parceira sabe se cuidar!” E, como você deve saber, sem Zaltan no trono, Nira efetivamente se tornou uma governante extraoficial, ou seja, uma ditadora, pelo que conheci dela.

Apesar de parecer relaxado, eu sentia as leves travadas na voz dele.

Sua mão tremia o bastante para que parte do rum transbordasse.

Eu via meu herói… incerto.

— Mas, algo está errado com a sua situação atual, não é?

O sorriso se esvaiu de seu rosto e ele se inclinou de volta para a mesa.

— Foi esta bebida… que me fez tomar minha decisão de não interferir nos assuntos daqui. E é por isso que estarei te dando uma escolha.

Eu estava sem palavras. Não me sentia digno nem rebelde o bastante para interromper sequer uma palavra dele. Só pude ouvir.

— O sabre que Nira tanto quer não está comigo, como pode ver. — Ele levantou o manto com capuz que usava, revelando uma cintura com apenas um sabre comum prateado em uma bainha de couro marrom. — Na realidade, ele está com minha filha desacordada lá no hospital ducal. Ela provavelmente vai ficar de cama por mais algumas semanas.

— E-Espere, por que está me dizendo tudo isso?! 

— Porque esta é a liberdade de escolha. Você pode simplesmente ir ao hospital e pegar o sabre de minha menininha inconsciente. É claro que… — ele gargalhou para si — se você encostar um dedo nela, eu vou te transformar em uma mancha vermelha na neve das cordilheiras.

Gulp!

— Mas você entende, né? Pode pegar o sabre e reportar para Nira, pode até evitar uma invasão de larga escala dela para o ducado. Mas você estaria dando a ela um objeto com poder o bastante para colocar milhões sob o mesmo controle que você está agora…

….

— Ao invés de te dar um conselho sobre moralidade, eu prefiro te colocar na oportunidade perfeita para seu coração te guiar. Se você é realmente bom de corpo e alma, vai tomar a decisão correta, não importa o que aconteça… E aí, o que me diz?

Depois do que Heinrich falou, eu imediatamente senti a culpa de qualquer ação futura já pesando em meu coração. Fiquei apenas alguns dias em Tzoldrich antes de voltar para Arquoia como se nada tivesse acontecido…

 


 

— Acho que entendi… Então ele basicamente te deu todos os detalhes do seu alvo e deixou você livre para fazer seu trabalho sem nenhuma dificuldade?

— Isso mesmo.

“Se fosse para pedir minha opinião, eu diria que isso é uma burrice extrema…”

— Eu digo apenas para não matar. Acredito que mortes já trazem dor o suficiente para esse mundo de forma natural… Querer tirar a vida de alguém, quem quer que seja, por alguns trocados, não vale a pena.

Cálix prosseguiu:

— Pessoalmente, eu nunca matei ninguém e não pretendo. Mas sempre acredito que as pessoas podem mudar. Se algum dia você estiver com muita vontade de matar alguém, eu sugiro… Se colocar no lugar da vítima.

— Você acha que ainda há esperança para mim no pós-vida? Ou eu vou para o Inferno direto?

— Meu Deus diz que sempre há tempo para redenção, basta você dar o primeiro passo. Esse é o mais difícil, mas fica bem mais fácil depois.

— Eita, Oficiante. Que roteiro é esse para você falar palavras tão sábias?

— Haha! É só que eu falo com o coração, é sempre mais sincero… — Cálix bufou, orgulhoso.

Mesmo com a presença sombria do outro homem, Cálix ainda não conseguiu distinguir uma mentira da história que ele falou ou uma alteração nos batimentos dele.

— Não, é sério! — disse ele num tom animado. — Você não tem filhos, esposa ou algo assim?

Cálix ponderou por um momento sobre a resposta que deu para a mulher que esteve no confessionário antes deste homem.

“Caqui!” Se lembrou da bebê tentando falar o nome dele.

— …Eu tenho um tempo até ter que concluir minha missão… talvez eu volte outro dia. Valeu, Oficiante…

— É. Eu tenho uma filha, sim…

— Hmpf! Bem, se alguém algum dia encher o saco dela, já sabe quem chamar.

Antes que Cálix pudesse se despedir finalmente, a presença do homem escapou daquela sala em um segundo. Não tão obscura quanto no momento em que ele entrou. 

Tanto a conversa com a mulher quanto a do homem agora foram confortáveis e fizeram Cálix esquecer por um momento do ambiente extremamente insalubre e nojento em que estava.

Esperou alguns minutos ali dentro de sua cabine até se levantar e sair pelas cortinas. Não sabia dizer que horas eram, o ambiente, por outro lado, dizia que era noite lá fora.

Cálix sentiu-se tentado a olhar para baixo, lembrando-se da funcionária da recepção…

“Se quiser, pode descer para aproveitar…”

— Nah, nem fudendo. Não vou arriscar ter Vaia descobrindo um podre desses. Apesar de que ela tem um olfato aguçado e já vai sentir o cheiro de incenso a meio quilômetro da casa… — murmurou para si com a mão no queixo.

E, de fato, ao sair do bordel. Os tons rosados e alaranjados dos três sóis formavam raios sobre as muralhas e construções do condado, desaparecendo sob o oceano ao oeste.

Cálix se sentia aliviado de poder respirar o ar surpreendentemente limpo de uma cidade rústica como aquela. Enfim, poderia voltar para casa.

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