Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 33: Confissões, Parte 1

Acordar têm sido a tarefa mais difícil de realizar a cada dia desde que… encontraram ela.

Cálix despertou de um sono profundo sem nenhum sonho em sua memória. Ainda estava na cama de casal em seu quarto na casa de Heinrich.

Foi uma noite quente, então ele não se preocupou em colocar alguma espécie de pijama que o armário velho pudesse ter.

Não teve sonho, mas estava pensativo. A última noite, de fato, foi muito agradável. Passar tempo com seus amigos foi bom para fortalecer seu espírito, contudo, ele parecia distante.

Cálix ajoelhou-se no pé da cama para fazer suas preces da manhã e já tentou estabelecer uma comunicação com seu deus. Fez isso na mesa de jantar ontem, mas notou que não funcionou.

“Ah, claro. As armas; eu mandando ele ir à merda…”

— Vai só me deixar pensando sozinho aqui?

— Eu sei que você está zangado comigo, mas sabe as minhas motivações!

Cálix sentiu a presença dele voltar, junto com uma mensagem que só o clérigo poderia ouvir.

— Tem razão... Segui esse ramo, esses dogmas, porque prometi que me mudaria.

Ficou em silêncio um pouco mais, deixando apenas o sibilo do vento passando pela janela sinalizando as palavras de seu deus pelos meios que ele sempre usava para se comunicar.

“A criança é um sinal de mudança nos tempos e no seu destino” Cálix traduziu a mensagem que recebeu.

— Certo, aceito a punição. Minhas bênçãos serão revogadas até o momento que você achar necessário.

“Não pretendia entrar em combates de qualquer forma, então não vai fazer tanta falta” pensou.

Após a oração, Cálix pegou seu traje rosa de clérigo e foi até o banheiro mais próximo. Estava surpreso com a instalação de um encanamento na banheira rústica.

Escovou os dentes com uma escova que Yvelle deixou disposta ali mesmo e se vestiu.

Pegou o corredor dos quartos e do banheiro até o cômodo central que unia a mesa de jantar e a cozinha, passou por eles indo na direção da sala de estar.

Lá, encontrou Vaia. Ela usava uma camisola vermelha enquanto balançava a bebê em seus braços olhando para uma janela.

— Ah, bom dia, Cálix — cumprimentou com certo entusiasmo, mas com a devida calma para não acordar a criança — Lâmina fez o café mais cedo, ele saiu junto de Talyra.

— Você vai ficar em casa hoje?

— Pretendo ir ao hospital amanhã, alguém precisa ficar aqui para cuidar da bebê, né?

— É… tá certa. Eu vou ver o que ele fez para comer e depois vou até a cidade, sabe? Afazeres de um clérigo.

— Sim… — ela me encarou com os olhos cerrados — Mas aquele papo da mesa de jantar ontem… era só uma piada?

Cálix parou por um instante. “Era o fato dele ter que ficar seguindo casais com certa frequência ou ele ter brincado sobre os bordéis?” pensou.

— Ah! pfft! Não, Vaia, imagina. Eu tava zoando!

“Acho que eu brinquei demais mesmo, não tem jeito disso ser verdade”

— Ok então! — ela sorriu de volta para o clérigo antes de se virar para a janela novamente — Bom serviço, então!

Cálix acenou com um sorriso nervoso e foi até a mesa de jantar, onde lá, pegou alguns pães e biscoitos que Lâmina havia preparado e tomou um pouco de suco de romã.

Depois, desceu as escadas que levavam até a porta de entrada da casa e saiu, tirando seu celular de um dos bolsos da túnica.

— Faz um tempo que não dou uma olhada nos meus recados.

Estava com a tela lotada de notificações de um dos anciões da OGCS, um amigo de Cálix. Mas o jovem não se sentia à vontade de ver as mensagens dele.

Ao invés disso, olhou para sua lista de afazeres como um emissário da Organização e começou a seguir uma espécie de trajeto digital, caminhando até o local onde ele deveria ficar na cidade de Tzoldrich.

Já suspeitava que não haveria uma sede propriamente dita no ducado, portanto, esperava que fosse em alguma espécie de santuário de adoração aos… Espíritos da Natureza.. Deuses?

Enquanto andava, Cálix acabou por notar que o ambiente era extremamente laico, não haviam sacerdotes, padres ou pessoas com qualquer tipo de ícone religioso. O que lembra ele de sua terra natal após aquela mulher se tornar imperatriz.

Mesmo assim, ele conseguia reconhecer alguns símbolos místicos de outras vertentes da Teurgia: Portas com o símbolo para clérigos da felicidade, compaixão, empatia… Nenhuma com o seu símbolo…

Num cruzamento extremamente movimentado da cidade, ele parou com o celular diante de seu rosto com o seu destino bem diante de seus olhos. Tudo indicava que o seu local de trabalho seria… Um bordel de três andares.

“Malditos… Isso só pode ser piada!” pensou Cálix, com uma veia na testa saltada de raiva.

Mesmo com as funcionárias na entrada mandando beijos em sua direção e fazendo muito barulho, Cálix ainda tinha a sensação de estar sendo observado por algo, mesmo sem suas bênçãos, os sons dos passos na rua pareciam… inconsistentes.

O cheiro dentro do local era de um incenso barato de morango, algum perfume que ele não conseguia distinguir… e álcool. Muito álcool.

Ele se aproximou de um balcão com a cara emburrada e se apresentou para uma das funcionárias que estava mexendo em alguma coisa do outro lado.

A moça olhou para ele de relance.

— A entrada para clérigos do prazer é pelos fundos.

— Acho que houve um engano. — Cálix apontou para o próprio peito — Sou um clérigo do amor… O clérigo do amor, pra ser mais exato.

Geralmente a OGCS preferia que seus “agentes” trabalhassem de maneira mais anônima, vestindo-se de maneira mais casual e secreta. Mas Cálix nunca se importou com isso, na verdade, até discordava deste padrão.

Nenhuma das emoções defendidas pela organização deveria ser tratada como secreta ou ser propaganda nas sombras, aquilo era ridículo. Tanto que isso era algo em que Cálix e seu Deus concordavam profundamente.

— Ah, então… — ela revirou uma gaveta velha e puxou um papel — Nossa você está dois meses atrasado!

— Hm! É, você tinha alguns horários reservados, parece que a duquesa passou aqui antes para organizar seus afazeres, mas não era meu turno… Caramba sempre sobra pra mim! — A funcionária começou a falar consigo mesma. — De todo modo! Terceiro andar, vai ter uma salinha separada em cortinas como um confessionário. Em breve, os seus horários agendados devem chegar. 

— Tá — Cálix resmungou — estou indo.

— Você vai passar boa parte do dia sem fazer nada lá… — A mulher apoiou o rosto nos dedos cruzados e se curvou sobre o balcão. — Se quiser, pode descer para aproveitar…

— Passo — Cálix neutralizou a fala dela de maneira grossa e saiu andando sem olhar para trás.

Ao chegar no último andar depois de passar por sequências de escadas, Cálix já estava cansado daquele lugar. Só queria voltar pra casa.

Ficava imaginando como deveria ser o dia de Lâmina e Talyra.

O Espadachim era forte, ir para a guilda dos caçadores faria com que ele fosse imediatamente reconhecido por sua força. Já Talyra…

Cuidar das barreiras mágicas do ducado não pode ser uma tarefa tão difícil assim — apesar de Cálix não ter a menor ideia de como funcionam.

Olhou ao redor, parecia que todos os andares se tratavam do mesmo sistema de corredores com cabines fechadas por cortinas sem nenhum pingo de privacidade.

O local estava cheio de luzes artificiais roxas e rosadas. Onde deveria estar o centro do andar, estava uma abertura enorme com corrimãos até o piso térreo do local, onde algumas dançarinas do bordel faziam suas apresentações para os patronos do local.

Aproximou-se de uma das lamparinas roxas de parede…

“Isso… é uma lâmpada?! Como eles têm acesso a energia elétrica aqui?”

Parando para pensar, Cálix também se lembrou do equipamento do hospital em que estava. Imaginava que os reinos do sul mantinham suas tradições há centenas de anos, mas parece que a duquesa tinha outros planos.

Andando pelos corredores, em um dos cantos, Cálix encontrou sua cabine, que ao menos era personalizada, como um confessionário comum em alguns santuários que já foi.

Havia uma divisória entre duas cabines que não permitia que dois indivíduos se vissem — além da cortina padrão do estabelecimento. No caso de Cálix, a cortina tinha a mesma estampa de coração presente no seu moletom guardado em casa.

Entrou em sua cabine respectiva, parecia que apenas o exterior fora alterado para sua estadia. O lado de dentro ainda continha uma mesa central com um sofá se estendendo pelas paredes numa sala bem apertada, felizmente, tinha uma cadeira que ele podia se sentar.

“Eca… Vou ter que lavar meu uniforme todo dia? Sério?”

— Nah, a Talyra cuida disso.

Cálix puxou a cadeira e fechou a cortina aveludada diante dele, sentando-se para ouvir as tensas batidas nas paredes de madeira e passos que pareciam vir de todas as direções.

Cada minuto, cada segundo naquele lugar era mais um segundo que o jovem gostaria de passar longe dali. Mais perto da bebê, assim como ontem…

Passos se aproximaram de onde ele se encontrava. O terceiro andar estava relativamente vazio, então ele já podia afirmar que era sua primeira visita marcada.

O primeiro confessante entrou na cabine ao lado, mesmo com a silhueta presente, Cálix ainda não conseguia nem distinguir a forma do corpo:

— Bom dia, padre — uma voz grossa ressoou do outro lado, parecia aflita, mas isso já era de se esperar.

— Bom dia, por favor, se refira à mim como Oficiante. Dito isso, o que você deseja confessar hoje? — Cálix já estava com o rosto apoiado na mão em uma postura desleixada.

— E-Eu… sou uma pessoa com problema de bebidas— o homem fungou — Elas simplesmente trazem muito prazer para mim! … Hoje eu estava na guilda de caçadores de monstro e tentei pregar uma zoação com um novato…

— Aham…

— Ele me ameaçou sem nem dizer uma única palavra! Fui completamente humilhado diante de meus aliados… Depois… eu fui na taberna mais próxima e afundei as mágoas em três litros de cerveja.

Cálix só parou de responder, colocou a mão na testa e olhou para baixo tentando processar a informação.

— Ah… E você fez isso às nove da manhã?

— Uhum! — o homem assentiu com um choramingo — Desculpa Aliciante, a bebida mexe um pouco com meu humor…

— Entendi… — Cálix passou as mãos no rosto, incrédulo — Bem, estou sem a bênção de purificação no momento… Eu diria para que você… pensasse mais nas pessoas que você deseja caçoar. Não faça isso não importa com quem seja.

— Pode soar meio rude, mas é mais fácil quando você cuida da própria vida, e se preocupa com os outros no intuito de ajudar. É difícil de acreditar, mas quando você pensa bem, é muito mais fácil amar do que odiar, entende?

— Sim…

— Se quiser, pode retornar amanhã para falar mais sobre o ocorrido. Por agora, vá para casa e tente se preparar para a ressaca que você vai sentir em algumas horas.

O homem assentiu e se retirou da cabine. Cálix apenas implorou para que a próxima confissão marcada não fosse tão catastrófica quanto essa.

Alguns minutos depois de ficar imerso em seus pensamentos, outros passos se aproximaram da cabine de Cálix, sendo distintos por se tratarem de saltos… Era uma mulher?

O segundo confessante entrou na cabine e se sentou na cadeira, Cálix já conseguia ouvir o choro leve e os suspiros de uma pessoa realmente perturbada. Até ajeitou a própria postura.

— C-Clérigo… — disse a mulher, gaguejando.

Nem sentiu vontade de corrigi-la.

— Pode falar, minha cara — Cálix ficou preocupado e cruzou os dedos, ouvindo atentamente para cada palavra.

— Desculpa… é só que… Eu estou perdida… snif

Depois, ela continuou a contar para Cálix toda a sua situação atual. Ela é uma das funcionárias do bordel aqui e tem um filho adolescente que só sabe se meter em encrenca.

As condições de vida nunca estiveram tão difíceis para ela…

— A Duquesa recentemente abriu um programa de apoio para os pobres, mas…

Isso era familiar demais para Cálix se manter calmo, agarrou sua túnica rosa e puxou com a intenção de rasgar, contudo, não conseguia.

“Certos ofícios “ selecionados não se candidataram para o apoio ducal.

Aquela mulher vivia uma vida péssima e não se orgulhava de ser incapaz de dar condições para seu único filho ter uma vida próspera.

— Agora… Eu não sei mais o que fazer… Meu filho não para de causar problemas e nunca vou ter dinheiro para voltar para Arquoia…

— Sua família é de lá? — respondeu com força na voz

— S-Sim… snif, mas eu não recebo cartas há semanas, a última dizia que o reino está um caos absoluto e… eu… eu não sei se…

Cálix sentiu uma enxaqueca muito forte e queria apenas invocar uma arma para se apagar naquele instante. Era apenas a segunda pessoa que passou ali hoje, mas essa situação…

Era tudo muito reminiscente para ele. Estava com os olhos arregalados e sentia um leve mal-estar de continuar a ouvir aquela história.

Antes de tomar qualquer decisão, uma onda de vento sibilou entre as paredes do bordel, indo até o ouvido de Cálix. A mesma mensagem que tentou acalmá-lo no Abismo Revolto, quando o jovem ouviu a voz daquela mulher.

“Eu não posso fazer nada por agora…”

“MAS POR QUÊ?!” Cálix puxou os próprios cabelos.

“Eu tomei esse caminho para ajudar as pessoas, fazer o que os outros não podem fazer por si! Especialmente essa mulher…”

— Não peço por nenhum conselho, mas… você poderia fazer uma oração, por favor? — as súplicas da moça acertaram Cálix como uma bala, ele respirou fundo — Sei que você está listado como Clérigo do Amor, mas você conhece alguma prece da felicidade? É-É que sou devota à um dos deuses dessa linhagem.

Fazer orações em nomes de deuses que não sejam os que lhe fornecem suas bênçãos é considerado uma violação grave dos dogmas da OGCS, contudo…

“Eu to pouco me ferrando pra essas regras de merda. Se tem algo que eu possa fazer pra ajudar ela…!”

— Eu vou fazer, sim. — Cálix assentiu com um sorriso doce e levantou um pouco a divisa entre as duas cabines, apenas o bastante para que ele não visse o rosto do outro lado.

Aquilo era real demais para ele. Estar tão próximo de uma pessoa que sofreu tanto, e só poder orar para que um deus resolvesse tudo… Ele odiava, do fundo de seu coração. 

Porém, sua empatia o impedia de recusar um pedido como aquele. Quando ele passou sua mão para o outro lado, sentiu o toque fino da mulher em contraste com suas mão calejadas. Um toque mais confortável para ele do que deveria ser para ela.

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