Volume 1 – Arco 3
Capítulo 32: Caçada, Parte 2
Capítulo 32: Caçada, Parte 2
O Sabre das mil maldições é um artefato conhecido por todos aqueles que já ouviram as histórias das aventuras de Heinrich.
Uma arma capaz de conceder um efeito aleatório e irrestrito para tudo que corta, variando com a intenção do usuário e tamanho do corte efetuado.
Dizem que Heinrich era capaz de se teletransportar por longas distâncias ao abrir fendas no ar. É claro que esse caso em específico não passa de uma lenda.
“Eca… aqui é mais fedorento do que eu imaginava!”
Mirele segurou o sabre com as duas mãos, sentiu um frio na barriga tremendo.
Ela estava caindo, e muito rápido.
Enquanto guardava o ar em seus pulmões para não respirar os gases no estômago vazio da serpente, ela cortou o interior dos órgãos da criatura. Apenas ouvindo os ruídos estridentes por dentro.
“O ácido gástrico vai se espalhar por todo o interior assim que ela bater contra o chão! Corta… vai logo!!”
Mirele foi rasgando o estômago escuro da serpente, passou por seu couro rígido até conseguir ver o brilho do lado de fora enquanto um sangue estranhamente escuro escorria para o lugar apertado em que ela se encontrava.
No momento em que ela colocou um braço para fora, o monstro colidiu com o chão, espalhando neve para todos os lados.
A criatura absorver todo o impacto, mantendo Mirele relativamente intacta. Ela conseguiu tirar boa parte de seu corpo de dentro da serpente e se jogou para o chão nevado.
— Nrgh! Ai!! — Ela olhou para seus pés. Um deles estava coberto por um líquido amarelado, exalando uma leve fumaça:
“QUE DOR!!” ela segurou sua perna. Era como se seu pé estivesse imerso em um poço de lava, fazendo o corpo todo sentir um calor desconfortável.
Não queria arriscar mais de seu corpo. Se ela levantasse a perna, o ácido poderia escorrer mais e se espalhar além dos fios de seda reforçados.
“Isso dói demais! Raios!” ela mal conseguia formar palavras na cabeça pela dor, apenas soltava alguns palavrões pela boca em desespero.
Depois de um instante agonizante, Mirele se esforçou para tentar pegar o sabre. A dor aguda e desconcertante fez com que ela agarrasse a arma pela lâmina, lacerando sua mão.
Estava suava, mesmo no frio intenso das montanhas, e rangia os dentes. No momento em que seu sangue escorreu do sabre para a neve, a mesma onda de informações voltou a passar em sua cabeça.
A mensagem não era clara, mas, por algum motivo, a dor aliviou bastante.
Ainda expressava um incômodo inexplicável, seu rosto estava todo franzido.
Ela se virou de costas para o chão. Abrindo os braços. Sua mão já estava cicatrizada, e, ao olhar para o seu pé, viu que ele estava normal novamente. Apenas a bota que usava antes havia sido derretida pelo ácido da serpente.
— Meu pé… voltou inteiro?! — disse antes de suspirar, aliviada.
…
“Por que será que meu pai teria me confiado o sabre dele…? Uma arma tão poderosa…”
Mirele tenta se recordar do momento em que estava sendo retirada do barco de seu pai pelos funcionários de Yvelle, antes de ser levada ao hospital.
“Será que é por conta do que ele sentia? A duquesa havia comentado… Ele sentia vergonha?”
“Mas… vergonha de quê?” A dúvida martelava na cabeça da jovem.
“Foco, Mirele. Você ainda precisa encostar no sangue da serpente com a carta…”
Ela se levantou e massageou a cabeça, apontando o sabre para frente.
— Está bem, seu bicho dos infernos! Vamos acabar com isso…
Apenas para ver que o monstro não estava lá.
“Como é que é?!” Mirele se virou para ver onde a criatura poderia ter ido.
Não havia uma mancha daquele sangue no chão. Até mesmo o ácido e o veneno que deveriam estar espalhados desapareceram.
Mirele notou que o rastro de neve do monstro ainda estava gravado na neve. O local onde seu corpo caiu e a direção que ela foi…
“A montanha que explodiu!”
— Pensa! — murmurou para si mesma enquanto começava a correr para a montanha. — A serpente provavelmente achou que eu tinha apagado, mas não me devorou…
“Ela só pode estar indo atrás do único aqui que atrai monstros… Que nem ele fez em Fajilla com Vaia.”
Eu, pessoalmente, estranharia se visse Zaltan fazendo algo assim antes de lutar contra ele no Abismo Revolto.
Nos poucos dias que fiquei em Arquoia antes de partir no navio de Heinrich, eu já havia ouvido falar sobre o rei do lugar.
Zaltan Arquois IV é um usuário de misticismo abençoado pela água. E ser o governante de um reino conhecido por chover constantemente fazia ele ser considerado uma forte barreira defensiva contra invasões diretas, até mesmo das nações do Norte.
Não sei muito sobre Feitiçaria em si. Mas sei que ela consiste na manipulação de um elemento individual da natureza, contudo…
— Ataque agora, Lâmina!
Eu apenas me movi com a espada de gelo em mãos, ao colidir contra a pele grossa do Wendigo, a arma imediatamente explodiu em uma nuvem de relâmpagos azuis.
Zaltan concentrou seu misticismo na ponta dos dedos de sua única mão e apontou para o Wendigo, que usou um de seus braços para bloquear o feixe elétrico.
Pareceu que tanto a explosão de relâmpagos quanto o feixe de Zaltan causaram danos no monstro, enquanto o golpe com a espada nem o arranhou.
Uma alta resistência contra ataques físicos, mas recebe dano por meios místicos normalmente…
O Wendigo realizou outro golpe com o braço oposto. Tentou me acertar com um golpe para baixo.
Ao contrário de quando estava no vilarejo, eu não tinha mais tantos sussurros na minha cabeça. Me sentia concentrado como nunca e desviei do golpe com tanta fluidez que o monstro nem foi capaz de acertar minha capa.
— Mais uma vez! — Zaltan gesticulou com sua mão novamente. Diante de mim, outra espada de gelo surgiu da neve compactada.
Eu agarrei a espada e, mais uma vez, meu misticismo foi canalizado no gelo sem destruí-lo — como eu havia praticado.
Agora, eu fui para uma estocada próxima do coração da criatura, que respondeu com um golpe usando o braço que foi acertado pelo feixe elétrico de Zaltan.
Crack!
Eu fui forçado a usar a espada de gelo para bloquear o golpe, ela se fragmentou com pouca resistência. Entretanto, aquela seria a segunda vez em que o membro da criatura foi acertado pelos relâmpagos de Zaltan.
O feiticeiro deu um estalo com a mão, e no instante seguinte, o braço do Wendigo explodiu, fazendo o monstro soltar um rugido agonizante.
Sploch!
Raaaaaaarrrrgh!!
“Se eu não estivesse próximo da criatura para ser o foco de seus ataques, talvez Zaltan não tivesse chance. Posso até estar desviando com certa facilidade, mas ele era rápido assim como o do vilarejo em Fajilla.” pensei.
Com o monstro atordoado e Zaltan ainda realizando o gesto para fazer outra espada de gelo, eu forcei outro ataque. Um chute direto em seu abdômen esquelético.
Ainda era um pouco complicado mover a força da minha Aura pelo resto do meu corpo. Mesmo assim, tentei fechar os olhos e concentrar todo o sangue de meu corpo indo para a minha perna direita.
O ar rachou quando eu me mexi. O ar úmido próximo do corpo do Wendigo rapidamente tomou a forma de uma fina camada de gelo que se fragmentou no impacto do chute.
Levantei os braços em uma postura de guarda para me equilibrar sobre uma perna quando a barriga do Wendigo já estava preta pela geladura do golpe.
Os três sóis não estavam altos o bastante para iluminar o local onde se encontravam, pois a montanha ainda estava à frente.
Com a sombra do bosque próximo, o Wendigo usou um vendaval repentino para desaparecer diante dos dois.
— Para onde ele foi? Não consigo sentir mais a presença dele! — Zaltan exclamou, preocupado.
Mas eu conseguia… Era que nem Fajilla, os monstros viriam atrás apenas de mim.
“Ela sabe se cuidar…”
— Vamos logo, temos que ir atrás da Mirele!
— Você consegue chegar mais rápido, não é? — interrompi — Vá até ela e me mande um sinal quando matarem a serpente.
Zaltan me encarou sob a máscara danificada e apenas acenou a cabeça.
Quando ele se virou para a montanha, desapareceu como um raio atravessando a neve.
Suspirei fundo. Com Zaltan fora do local, eu poderia finalmente parar de me segurar.
“Ele se misturou com a neve e o breu do bosque daqui…”
O ar que saiu de minha boca rapidamente se transformou em um bloco de gelo sólido. Segurei ele e, como esperado, ficou carregado com um brilho azulado.
Um monte de neve se levantou no chão. Era o Wendigo.
A Regeneração dos monstros é muito boa. O braço da criatura já estava de volta, mas a queimadura gélida que golpeei em seu corpo ainda estava lá.
O Wendigo avançou sobre os quatro membros, quase como um cavalo. Abriu a boca da sua cabeça óssea e elevou a garra que usaria em seguida para me dilacerar.
Nem consegui ouvir o som direito. Ao colidir com meu rosto, as garras do monstro só se estilhaçaram para fora de suas mãos humanóides.
Nem me preocupei em ver se eu estava sangrando, aquele Wendigo era muito mais fraco em comparação com o de Fajilla.
“Isso seria tão fácil se eu tivesse uma espada comigo…” virei o rosto com um olhar cansado.
Com a criatura atordoada por ter acertado algo tão rígido, eu pulei contra ela e segurei ambos seus chifres no crânio.
“Canalize a Aura…”
Nesses momentos eu só conseguia me lembrar de Talyra, afinal, foi ela quem me ensinou a fazer isso com mais eficiência, tanto na ilha em que nos conhecemos quanto no barco de Heinrich na volta.
A cabeça do Wendigo ficou completamente preta e mais dura do que os ossos que a compunham antes. Fiz um leve esforço com os braços, arrancando ela por completo.
Eu sentia uma formigação muito estranha por todo o meu corpo. Nada parecia machucado ou fora do normal.
Será que essa era a sensação de estar mais forte? Afinal, eu não engajei em nenhum combate depois de lutar contra Zaltan no Abismo Revolto.
…
“Não… não deve ser o caso.”
Ruuuuuuuuummmm!!
Outro tremor ressoou pelo chão vindo da montanha em que Mirele e Zaltan estavam.
Do outro lado dos picos nevados, uma enorme serpente branca surgiu com diversas cicatrizes ao redor de seu corpo. Mirele estava se segurando nela com seus fios místicos — como rédeas de um cavalo.
Já Zaltan… Ele estava fazendo diversas paredes de gelo com a neve da montanha, lançava relâmpagos no focinho da criatura enquanto descia da montanha como se estivesse esquiando.
Os dois pareciam estar gritando sobre alguma coisa.
O monstro rastejava pela neve fazendo uma enorme bagunça com seu corpo colossal. Ele vinha na minha direção, pra variar.
Já preparei uma parte de minha Aura para ficar em meu punho, se ela se aproximasse demais…
Eu derrotaria ela com um golpe e falaria que os dois derrotaram-na.
Mirele criou outro fio para puxar Zaltan até a cabeça da serpente, onde ele revestiu seu braço com gelo e diversos relâmpagos.
Ao mesmo tempo, a jovem usou o sabre negro que empunhava com a boca para atacar junto de Zaltan no mesmo ponto.
Eu sinceramente estava mais preocupado com Mirele do que tudo nesta missão, mas já que a serpente parecia estar com os olhos focados em mim, apenas fiquei parado. Ela estava bem.
Quando a criatura parecia não perder a velocidade ao se aproximar. Os dois parceiros desferiram seus golpes contra a cabeça dela, que começou a capotar.
Uma onda de neve se formou, espalhando para todos os lados enquanto a serpente desacelerou até parar diante de mim.
Das pilhas de neve próximas, Mirele e Zaltan emergiram sem fôlego. Suspirando e se segurando em partes do corpo doloridas. Estavam inteiros, entretanto.
— E aí, Mirele? — perguntei, forçando uma expressão surpresa
Ela apenas puxou a pequena carta ensanguentada de seu bolso. Ao que tudo indicava, a missão foi concluída.
Mirele estava recuperando a postura com a outra mão em seu joelho.
— E o Wendigo?! Cadê ele?! — Zaltan indagou, ofegante.
— Ah. Ele fugiu. Desculpa.
— Eu consegui derrotar a serpente…! — Mirele triunfou, levantando o braço coberto de neve.
— Quis dizer “Nós”, não?
— Fala sério… uff… eu fiz 90% do trabalho pesado!
— É, mas realizamos o golpe final juntos…
Intervi entre os dois antes que alguma briga inútil começasse, os dois pareciam ficar cada vez mais irritados quanto mais o outro respondia.
— Olha só, os dois conseguiram derrotar um monstro enquanto eu não consegui… Eba… Acho que deveriam ficar satisfeitos com isso!
Caminhei até a cabeça da serpente ao lado e comecei a verificar a criatura mais de perto. Gigantes escamas brancas, dentes do tamanho de meus braços e um estranho cheiro metálico vindo de sua boca.
— O que você tá fazendo, Lâmina?
— Mirele… sabe se dá pra vender a carcaça dessa serpente em Tzoldrich para eu conseguir uma grana extra?
— Hã? Ué, dá sim… mas você acha realmente que conseguiria… — Zaltan respondeu
— Ótimo — agarrei a serpente pelo dente e comecei a puxar na direção da montanha. — Vamos verificar o ponto da explosão na montanha, aquilo não foi normal e imagino que a Duquesa ficaria interessada em saber.
Fui andando, mas não consegui ouvir os passos deles atrás de mim. Me virei apenas para deparar com os rostos chocados de Mirele e Zaltan —mesmo sob a máscara.
— C-Como você tá fazendo isso…?
— Também vamos levar mais algumas horas para voltar para as barreiras do Ducado… — desviei a pergunta — Talvez cheguemos só no fim da tarde.
— Ah… esquece.
— O que acham de… sei lá… passarem na nossa casa hoje à noite para jantar? — disse, coçando a nuca.
Não conseguia ver o que os dois estavam fazendo, na expectativa da resposta, Mirele concordou em um tom radiante:
— É claro, Lâmina. Eu e Zaltan iremos depois de passar na guilda para pegar nossa recompensa, vamos aproveitar e pegar a sua parte, que tal?
— Hmpf! — Bufei, sem nem perceber que eu realmente estava satisfeito.
No fim do dia, foi uma missão divertida. E ver o quanto Mirele cresceu nesse tempo que ela estava acordada antes de mim é impressionante.
Apesar disso, a explosão na montanha e o cheiro metálico deixavam muitas perguntas sem respostas.
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