Volume 1 – Arco 3
Capítulo 29: Casa Cheia
“Eu posso até ter concedido a casa, mas…”
Quando chegaram, no fim da tarde, os jovens decidiram dar uma olhada pela casa, para se acostumarem com o ambiente novo.
Como a mudança deles já era algo esperado por Yvelle, ela já havia mobiliado a casa e disponibilizado alguns dias de suprimentos dentro de armários e dispensas presentes na cozinha.
Cada um deles tinha seu próprio quarto, com camas todas do mesmo tamanho, em modelos iguais, camas de casais com dois travesseiros, um lençol e um cobertor, com mais algumas roupas de cama guardadas em armários.
Inclusive, a própria bebê tinha um quarto individual, com um berço de madeira dentro e sem mais muitas coisas.
A casa tinha uma sala de estar com sofás, poltronas e uma lareira na parede. Estava tudo apagado, mas eles já conseguiam sentir o calor.
E por último, dois banheiros completos com banheiras e pias com acesso próximo à uma caldeira e um poço com água.
Se reuniram na sala de estar logo depois.
— Cara… Se o Heinrich fica navegando tanto… Por que ele teria um casarão desse? Sério, esse lugar parece muito menor por fora! — disse Cálix.
— A madeira do lugar também é muito resistente, é quase como se fosse feito de tijolos.
— Não é um ambiente lindo, Lâmina? — disse Vaia com um rosto ainda encantado — Eu não consigo lembrar a última vez que tive uma cama de verdade para dormir, ou uma lareira quentinha para ficar perto.
…
Todos esperavam o comentário de Talyra acerca do lugar, mas ele mantinha o rosto emburrado desde que saiu do hospital.
— Lily, por que você tá de braços cruzados assim? Sabe que não precisa usar esse vestido para sempre, não é? — Cálix apontou para sua túnica rosa — Eu não sou o único que odeia o próprio uniforme.
— Hmpf! — Ela virou a cabeça
— O que deu nela?
— Não sei dizer…
— Será que foi pelo que a duquesa disse antes de sairmos da carruagem?
“Eu posso até ter concedido a casa, mas…” A lembrança das palavras de Yvelle ecoou na mente dos jovens.
“A comida não vai se repor sozinha. Por sorte, eu tenho ótimas propostas de emprego para vocês.”
— Para mim, foi… — Lâmina olhou para cima, como se observasse as próprias memórias.
Pelo que Heinrich contou à Yvelle sobre os jovens, Lâmina Gélida era um promissor guerreiro que podia servir como guarda-costas pessoal da duquesa.
Contudo, ela mudou de ideia, decidindo enviar a proposta para ele se juntar à guilda dos caçadores de monstros.
— Eu lembro que ela gostou da minha performance no hospital. — murmurou Vaia
Yvelle sempre tinha bons olhos voltados para Vaia. Depois que ela conduziu a cirurgia nas pernas de Talyra, a duquesa se impressionou com os conhecimentos de biomedicina da moça, garantindo à ela uma vaga no hospital ducal.
— Eu só tenho que fazer meus deveres como Clérigo Emissário. — Cálix coçou o queixo — Recebo meu salário da OGCS com a conversão de moeda já feita…
…
— O que ela pediu para que você fizesse, Talyra? — perguntou o espadachim
Talyra revirou o escolho e começou a enrolar o seu indicador nos cabelos sedosos.
— Ela falou que tinha algo a ver com cuidar das barreiras de Tzoldrich. São diversos pilares espalhados nas fronteiras do ducado que mantém os monstros longe.
“Igual em Fajilla…” pensaram os outros
— E qual o problema disso?
— Ela vai provavelmente me fazer andar por todo o ducado. Pediu para que eu fosse falar com ela amanhã. Mas daqui até a cidade principal já são umas duas horas de caminhada…
— Ah, Lily! Você se preocupa com isso amanhã.
— Cálix tem razão, Talyra… — Vaia se agachou para falar com ela — sei que pode parecer uma adaptação muito rápida para você fazer. Mas olhe pelo nosso lado.
A maga tirou os olhos da mulher agachada para olhar os dois colegas parados diante da janela ensolarada, e a bebê no sofá.
— Veja como ainda continuamos juntos, mesmo depois de apanhar tanto, mesmo depois dessa criança ser caçada por tantas pessoas poderosas… Estamos finalmente tendo um tempo de paz e não sabemos o quanto ele pode durar.
— Aonde você quer chegar? — disse a maga olhando de volta para Vaia
— Sei que é pedir demais de você, mas eu ficaria muito feliz se você pudesse nos ajudar. — Vaia persistiu, sem levantar a voz — Não precisa gostar de seu ofício, apenas fazê-lo com dedicação, sabendo quem você está ajudando.
Talyra descruzou os braços e começou a pensar um pouco. Talvez Vaia estivesse certa, nunca teve que falar desse jeito, entretanto. Parecia ser a maneira da moça ser carinhosa.
E, bem, estava funcionando.
— Além do mais, você não está sendo pressionada.
A garota se desconcentrou de Vaia por um momento, queria contemplar a situação por mais alguns dias antes de retornar ao momento atual. Seu rosto parecia morto.
Desde o momento em que seu teletransporte fez com que ela parasse naquela ilha nevada — o teletransporte responsável por sua fuga da morte…
Ela teve que fugir de novo e de novo, por mais e mais tempo. Seja de Heinrich, Jasmyne ou de Zaltan.
Talyra não conseguia perceber isso até o momento em que Vaia veio falar com ela. A moça poderia ter colocado em palavras melhores. Mas todos os jovens se sentiam assim, mesmo que não quisessem admitir.
Aceitar a missão de escolta foi um ato de desespero.
Nenhum deles tem algum lugar para retornar. Yvelle tinha razão certeira.
“Eu confio nessas pessoas e também quero proteger a bebê…” Talyra fechou o punho e desviou o olhar dos companheiros.
— Se você não consegue se decidir ainda, apenas descanse por hoje, acho que todos nós merecemos — Lâmina se aproximou e colocou a mão no ombro da garota — O que você quer jantar hoje? Deve estar enjoada de soro mágico na veia…
…
Ao anoitecer, o ambiente da sala de estar estava iluminado pelo lustre no teto. Era possível ouvir Talyra, Lâmina e a bebê na cozinha, rindo e conversando.
Cálix e Vaia estavam sentados nas poltronas opostas, com a mesa de café entre eles.
Um clima mais obscuro em comparação ao que se ouvia no cômodo ao lado, ambos estavam parados e pensativos.
— Quanto tempo você acha que isso vai durar? — perguntou Cálix sem tirar os olhos do chão.
— Não sei… A duquesa falou que estávamos seguros, afinal.
— Acredita nesse papo mesmo?
— Eu quero acreditar… Mas parece que você sabe com o que estamos lidando.
— Está falando…? — Cálix arregalou os olhos
— Da mulher que falou na carta de Zaltan. Sim.
Vaia percebeu que tocou em um ponto sensível, Cálix se inclinou para frente na poltrona e cruzou os dedos perto da boca. As luzes das velas nem deixavam a moça ver os olhos do clérigo sob a franja rosada.
— É, é por conta dela que eu tinha perguntado, não é uma questão de “se” mas de “quando” esse ducado vai ser invadido.
— E quem é ela?
…
Cálix lambeu os lábios e se inclinou de volta para o encosto da poltrona. Engoliu em seco e cruzou as pernas:
— Isso é algo… mais fácil de contar para todos vocês. Pode ser outro dia?
Vaia fitou Cálix com tanta intensidade que mais parecia com uma ameaça sem palavras. O jovem nem se mexeu, reforçando ainda mais sua teimosia para a mulher.
— Tá…— Vaia bufou e se levantou — Eu desisto.
Instantes antes de Cálix decidir se levantar, ambos ouviram o chamado de Talyra da cozinha:
— Ei, pessoal, venham comer!
Ao chegarem na mesa de jantar, viram Lâmina e Talyra já sentados junto da bebê — sentada em uma cadeira especial na ponta. Uma panela rústica com arroz e outra com um caldo alaranjado.
— O que é isso? Algum tipo de curry? — questionou Cálix
— Não, se trata de uma comida de nossas terras. — respondeu o espadachim — Eu achava que o lugar de onde Talyra veio fosse muito diferente de onde cresci.
— Descobrimos algo em comum! — a maga parecia mais contente e energética do que nunca.
Vaia pegou a concha da panela com o caldo e provou:
— Carne… Páprica… Cogumelo… Cebola…
— Nossa, Vaia! Como adivinhou tudo só provando o caldo?
— Não sei, os sabores só vieram na minha cabeça.
A bebê estava ao lado de Lâmina, com um prato cheio de uma papa branca e uma pequena garrafa de madeira próxima.
Vaia e Cálix se sentaram à mesa e já colocaram o arroz e o caldo em seus pratos.
— O que você cozinhou para a bebê?
— Um purê de batata doce. Yvelle também deixou um leite em pós especial que ela pode beber sem problemas.
Ela parecia estar gostando, a criança ficou ainda mais feliz quando os dois jovens restantes sentaram-se. Pegou uma colher de sua tigela e balançou-a, deixando um pedaço do purê cair na cara de Lâmina — que nem ligou.
— Lâmina, cara, isso tá muito bom. Ainda me surpreende o quão bem você cozinha.
— Eu sempre fui ensinado a realizar tarefas domésticas desde a infância. A esgrima nunca me foi incentivada, sempre pratiquei sozinho — Ele soltou um suspiro de decepção — E agora minha espada quebrou…
— Acho que defo ser pago relativamente bem pelos meus serfiços de emissário aqui. Depois de alguns dias eu consigo comprar uma espada para vofê…
— Não fala enquanto come! — resmungou Vaia — Aliás, o que clérigos como você fazem mesmo?
— Ah… gulp! Bem, eu acho que falei isso quando estávamos no navio com Heinrich, mas você não ouviu. Resumidamente eu apoio relacionamentos amorosos entre pessoas; faço leituras de destinos amorosos; fico observando relacionamento de perto… Basicamente qualquer coisa relacionada ao amor.
— Então… você segura a vela e fica perseguindo casais no meio da noite?
— Uh… Isso é uma maneira bem rude de se referir ao meu serviço, mas sim.
— A essa altura só fica perto dos bordéis e faz seu serviço por lá. — comentou Lâmina com um leve sorriso no rosto.
— O que é um bor…
— Nada, Talyra!
— Ele tá mais ou menos certo, Vaia. — Cálix estufou o peito — Eu pego as minhas tarefas em bordéis com membros infiltrados da OGCS.
Naquele momento, Lâmina e Vaia se viraram para Cálix, enojados. Já Talyra apenas olhou para ele com curiosidade.
A bebê também ficou quieta, observando a situação.
— MUDANDO DE ASSUNTO! — berrou o clérigo — Lâmina! O que você vai fazer amanhã?
— Ah… então… Eu acho que vou para a guilda dos caçadores de monstros, dar uma olhada e conhecer o pessoal. Talvez eu até pegue uma licença — murmurou
— Eu sabia! Você não era licenciado!
— Heh, você se importa com isso desde que nos conhecemos… — Lâmina soltou uma leve risada antes de dar outra colherada em seu prato.
Para um ambiente outrora hostil e desconhecido, mesmo com as preocupações, todos os jovens estavam felizes com o primeiro jantar entre eles e a bebê em uma casa própria.
Esse calor e essa calma os fazia lembrar de quando eram apenas estranhos na cabana do vilarejo devastado. Confiando uns nos outros apenas pelo desejo de concluir uma missão e conseguirem o que queriam.
Nenhum deles conseguia admitir ou sequer perceber que já estavam se esquecendo…
De querer provar seu valor…
De ter memórias de volta, quando novas já estavam se formando…
De ter ódio profundo por alguém…
Ou de se achar extremamente incapaz…
Naquela mesa, tu
do parecia deixar de existir. Havia apenas eles, a criança e uma comida deliciosa em um lugar confortável.
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