Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 30: Gélida Recepção

— Glória, Fama, essas e muitas outras são palavras ouvidas por todo o continente quando se menciona… As Missões d’O Círculo!

As palavras da funcionária da guilda ecoaram por todo o salão de pedregulho. 

Ainda não sei se me arrependeria de entrar naquele lugar, cheirava muito mal. Ferro, suor e couro…

Atrás dela, se encontrava algum tipo de peça escondida sob um pano com uma fita vermelha na frente.

Ao lado estava outra funcionária da guilda, fazendo um sorriso doce para todos os aventureiros sentados nas mesas, bebendo e murmurando entre si.

— A guilda de caçadores de monstros de Tzoldrich já roubou as luzes de todos os outros feudos vizinhos ao se tornar a capital dos aventureiros em 494, quando Heinrich Cahrazan derrotou a infame Serpente Gigante das Cordilheiras… — continuou ela.

Eu nem havia parado para cogitar que enquanto estava desacordado, o mundo girou e passou de ano. Já estamos em 501?

— Com isso, recebemos uma grande oportunidade de uma das maiores organizações do mundo: O Círculo! — Ela brandiu os braços quando mencionou o nome — Uma de suas novas inovações sendo…

A funcionária deu alguns passos para trás e se juntou à sua colega perto da fita em laço. Ambas seguraram as pontas…

— As Side Quests™!!

Naquele momento, eu jurava ter ouvido um grilo pela janela. Elas não puxaram a fita, pareciam estar esperando as comemorações que nunca viriam…

— Gente, que climão… — disse a funcionária

— Mas o que raios é isso?! — gritou um dos caçadores

A outra trabalhadora da guilda deu um passo à frente, suspirou e ajustou seus óculos, perdendo o sorriso doce.

— Resumindo para vocês, idiotas. As Side Quests™ são uma iniciativa d’O Círculo de facilitar a burocracia de missões simples no continente sul. Ao invés de mantermos registros de missões em uma papelada nossa, vamos ter o apoio místico da organização, enquanto vocês pegam missões em cartas mágicas que não vão se perder e continuam atualizando seu objetivo até que seja concluído.

— E mais… — continuou a funcionária tentando voltar o entusiasmo. — Como se trata de um patrocínio, basicamente, as recompensas pelas missões foram dobradas!

Acho que elas usaram a palavra que funciona melhor com os aventureiros dali: dinheiro. 

Foi o que bastou para todos irem à loucura, gritos, assovios e palmas direcionados para as duas funcionárias, que se entreolharam com pequenos sorrisos de canto de boca enquanto puxavam a fita.

Da lona, se revelou um enorme quadro lotado de bilhetes brilhantes que me lembravam da carta d’O Círculo. Ao invés de terem um brilho nas cores comuns de cartas d’O Círculo, eram amarelas.

— Vejo que vocês estão bem animados agora! — disse a funcionária de óculos — Mas para a inauguração, vamos chamar o primeiro aventureiro para vir aqui na frente e pegar sua Side Quest™…

Todos levantaram suas mãos no ar, ansiosos pela primeira oportunidade de demonstrar o recebimento de uma missão. 

Eu não levantei por duas razões: a primeira é que nem tirei minha licença de caçador ainda. A segunda é que não gostaria de ter todos os olhos voltados para mim…

— Você, aí no fundão!

Fiquei quieto na mesa em que eu estava sentado, apenas eu, não tinha a menor chance de…

— É, você mesmo, o ruivo bonitão de chapéu e roupas pretas, falando contigo! — chamou a outra funcionária

Só consegui ouvir o ranger das cadeiras depois que toda a confusão cessou. Quando abri meus olhos, fui notar que todos os caçadores da guilda estavam com seus olhos fixados em mim.

Geralmente eu não tenho medo de nenhum monstro, mas tantas cabeças… Era pior do que qualquer criatura que já me apareceu mesmo…

— Você parece ser um rosto novo por aqui… Qual o seu nome?

Suspirei, já sabendo o que me iria ocorrer.

— É… Lâmina…

O salão ficou em silêncio antes de uma risada estourar em uma mesa e ir se espalhando até que toda a guilda tremesse com o alvoroço dos caçadores. Nem consegui falar meu nome inteiro…

Tudo ficou uma bagunça. Um dos aventureiros levantou as mãos pedindo para os outros pararem enquanto ele mesmo ria. Se levantou e andou até a mesa que eu estava.

Ele era bem parrudo e usava umas peças de couro leves por todo o corpo junto de uma camisa e calças de camponeses em botas sujas de lama seca, parecia até que todo o odor do lugar vinha dele.

— Lâmina, é…? — Ele se agachou para falar comigo — E cadê a sua espada? Vai caçar coelhinhos com suas luvinhas pretas de princesa!? Ahahahaha!!

A gargalhada dele ecoou por todo o ambiente antes de ser acompanhada pelo resto dos homens e mulheres ali.

Que droga… Nem o Cálix me deixa tão envergonhado assim com as besteiras que ele fala.

— Perdi minha espada lutando no Abismo Revolto — quando disse isso, as risadas só aumentaram…

Abaixei a aba do meu chapéu em vergonha, não iria deixar nenhum deles ver meu semblante decepcionado daquele jeito. Até me levantei da mesa.

Por alguma razão o homem que veio até mim imediatamente deu um passo para trás e engoliu em seco.

— F-Foi mal, cara… E-Eu não queria ofender, valeu?

— A-Aí, alguém mais tá sentindo essa brisa fria saindo do ruivo? — gaguejou outra aventureira próxima a mim, provavelmente tentando me provocar.

Só fui andando até o quadro para não deixar as funcionárias no vácuo, todos os caçadores até deram espaço para mim. Que vergonha…

Brrr! Que frio maldito! 

— Esse cara tem feitiçaria de gelo ou o quê?

Ao chegar perto do quadro, consegui ver melhor as funcionárias que estavam falando antes, as duas vestiam uniformes azul-marinho com brasões que vi em diversas construções governamentais até chegar aqui, provavelmente por elas serem trabalhadoras do ducado.

A que usava óculos estava esfregando os próprios braços de frio enquanto a outra apenas se aproximou do quadro, tremendo também…

— A-Aqui senhor, pode escolher… Q-Quando você tocar na carta, o nome registrado na missão será computado com base no seu cérebro.

— O registro é feito automaticamente! — disse a outra, nervosa.

Nem me preocupei em revirar muito o quadro que ia muito além de minha altura, apenas peguei a maior carta que achei…

Ela se abriu, deixando sair um papel em texto escrito com uma letra brilhante.

Tratava-se de uma missão para pegar o dente de umas serpentes que vivem nas montanhas próximas da cordilheira do norte.

A atendente que me apresentou o quadro leu o conteúdo da missão rapidamente e pareceu entrar em choque.

— E-Ela deu crias?!

A colega dela pareceu se preocupar com o grito e se aproximou de mim para ler a carta também. Elas estavam perto demais para o meu gosto…

— Senhor… Peço que reconsidere — sussurrou ela olhando para mim com um olhar desesperado — C-Caçadores experientes estão fora por hoje mas devem retornar em alguns dias. Se não se importar, por favor pegue outra missão…

— Ah, mas é que eu quero essa… — respondi, tentando manter a calma na voz

As duas deram um pulinho para trás enquanto se agarravam, será que missão era tão assustadora assim? 

Parando para pensar, o salão todo estava com essa sensação… Apenas murmúrios eram ouvidos e estava nitidamente mais calmo.

— Uhh… Muito bem! — uma das garotas se virou para a multidão de caçadores e tentou recompor sua postura animada — Algum corajoso caçador deseja se juntar à esse novato para realizar a caçada contra os filhotes da Serpente Gigante das Cordilheiras?

Em um momento constrangedor, todos os aventureiros se viraram de volta para suas mesas, como se todos os eventos agora nem tivessem acontecido. Voltaram às suas conversas com seus grupos e perderam o interesse nas novas missões.

— Nós vamos nos juntar! — uma voz feminina familiar ressoou pelo saguão da guilda. Estava com a mão erguida.

Eu abri meus olhos e levantei de volta a aba do chapéu quando vi quem se aproximava.

— Ah, esses novatos são tão ambiciosos, mas tão burros… 

Cabelos brancos como a neve e olhos azuis como o mar que tive que contemplar por tantos dias, se fosse qualquer outro de meus colegas, provavelmente a confundiriam com sua irmã gêmea.

Vestia uma roupa alaranjada de um tecido resistente e fitas de couro como cintos, além de roupas mais leves brancas por baixo.

Na cintura dela, estava algum tipo de arma enrolada em faixas brancas, o formato já me dizia exatamente do que se tratava, mas decidi não apontar minha atenção para aquilo.

Calças frouxas e botas de couro me faziam lembrar muito de Heinrich — não a culpava por querer relembrar o visual do pai. Parecia uma marinheira e guerreira formidável.

— Vou ajudar esse novato na missão de caça! — O salão entrou em total silêncio mais uma vez, fitando-nos.

Atrás dela se encontrava um misterioso indivíduo alto e encapuzado usando uma máscara cinzenta, seu corpo estava coberto pelos tecidos e o manto, impossibilitando que eu fizesse uma leitura corporal.

— Ah, os enviados da Duquesa… — resmungou uma das atendentes — Só toquem na mesma carta que o senhor Lâmina está segurando para que sejam registrados como um grupo…

Mirele e a figura atenderam, entreguei a carta na mão de cada um. Tentei usar a oportunidade para ver o sujeito mais de perto, ouvi apenas sua respiração sob a máscara.

— Não precisamos passar mais nenhuma informação adicional. — disse outra atendente — Como todas as informações agora se encontram na carta, vocês podem apenas sair e pegar sua recompensa!

As duas funcionárias saíram correndo até a parte de trás do balcão de atendimento e se esconderam de toda a situação que não deveria valer o salário delas.

— Vamos sair daqui? Não aguento mais esse pessoal me olhando… — disse ela.

Assim quando eu cheguei, as ruas do lado de fora da guilda dos caçadores estavam tão animadas e cheias quanto no momento em que cheguei na cidade. Não queria admitir, mas estava muito contente por ver Mirele aqui. 

Após a batalha no Abismo Revolto, eu tinha certeza de que ela havia morrido, a garota também parecia muito contente em me ver, sempre que eu virava meu olhar, ela sorria de volta. Mas…

Falando no Abismo Revolto. Esse cara…

— Lâmina!

Eu consigo ver alguns fios louros escapando sob o capuz e a máscara dele.

— Terra para Lâmina, você está me escutando?

Esse é o tal do Zaltan, não?

Será que a Mirele sabe disso? Eu deveria contar para ela?

Putz, mas e se ela cogitar que eu já sei? Vou passar a maior vergonha né?

— Lâmina!!

— Ah, desculpe, Mirele!

Hmpf! — ela bufou — Você está bem avoado desde a última vez que nos vimos… Eu queria te fazer uma pergunta.

— Pode falar

— Como… você adivinhou que era eu, Mirele, e não minha irmã?

Parei de andar por um momento. A garota me encarou esperando uma resposta em um rosto um pouco confuso.

— Geralmente eu reconheço pessoas pelo meu instinto, sua postura principalmente me deixou indicado de cara que era você. — Olhei para ela — Admito que estranhei a cor dos olhos, entretanto. O que houve?

— Você é um dos poucos para quem eu compartilharia algo assim… Essa mística maldita, Nira, matou minha irmã diante de mim. Depois ela… — Mirele segurou o próprio rosto e cintura, como se estivesse tentando agarrar algo dentro de si — Enfiou a alma dela dentro do meu corpo.

— Assimilação de Alma?! — o termo simplesmente escapou de meus lábios

— O quê?! Você sabe o que é isso?! — ela lançou as mãos em meus braços apertando eles com os olhos arregalados

— É… B-Bem, é um termo que ouvi há tempos na minha infância, acho. Desculpa, não consigo saber mais do que isso.

— Ah, entendi… — Mirele murchou o corpo, decepcionada.

Voltei a andar pela cidade, em direção ao portão mais próximo.

— Eu sinto muito pela dona Milene, de verdade.

— Agora, a duquesa Schweitzer nos colocou como caçadores especiais na guilda, apesar de ainda sermos considerados novatos pela maioria lá.

E eu não consegui minha licença ainda…

— Lâmina, já que você está aqui… Onde estão os outros amigos seus? E a bebê?

— A bebê está bem. Vaia deve estar em casa com ela agora. A propósito, ficamos com uma das propriedades rurais de seu pai.

Mirele assentiu, me dizendo que também estava em outra casa de seu pai fora da cidade junto de seu amigo mascarado.

— Cálix está fazendo o trabalho esquisito da ordem de clérigos dele. Talyra deve estar com a duquesa nesse momento, indo cuidar das barreiras do ducado. E eu estou só tentando juntar dinheiro para comprar comida e… uma espada nova. 

Consegui ouvir a capa do homem atrás de nós balançar um pouco ao mencionar “espada”. 

É, era ele mesmo.

A caminhada até a saída da cidade foi curta. Ao atravessar os portões, me deparei com aquela mesma vista de quando estava na carruagem indo até casa: colinas verdes e grandes montanhas brancas na distância.

Zaltan atrás de nós não disse uma única palavra o tempo todo. Pessoalmente, eu estava receoso de guardar algum rancor contra mim quando eu estava apenas protegendo a bebê.

Afinal, assim como Vaia e Talyra, eu também percebi que havia algo de errado com ele durante a luta. Apenas torço para que aquilo não aconteça novamente.

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