Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 28: Aliança Inesperada

Em uma sala fria e escura, com apenas a leve luz de uma vela no centro da mesa circular, Nanavit, IIsaac e Alexei se encontravam esperando a conexão dos outros membros da Elite.

O único que não parecia nervoso para começar era Alexei, estava balançando na cadeira luxuosa de couro e desleixadamente apoiava os pés na mesa de mármore escuro.

Nanavit batia suas longas unhas na mesa de forma impaciente enquanto apoiava o rosto na outra mão.

IIsaac estava parado de olhos fechados com as mãos sobre as coxas, praticamente descansando.

A mesa era bem grande, grande o bastante para acomodar até mais do que só três pessoas. Nas outras pontas, pedaços de papel místico estavam abertos e brilhando em um símbolo de carregamento circular.

— Então… O que tá rolando? — perguntou Alexei

— Como pode perguntar uma coisa dessas, seu idiota?! Estamos fazendo uma das reuniões da Elite.

— Ah, é verdade. Desculpa, Gi, eu me esqueci.

— Mas, sobre o que é a reunião mesmo…?

— Argh! Fala sério seu incompetente! É a criança!

Alexei parou de balançar a cadeira e virou o rosto para Nanavit.

— Você ainda tá esquentada com isso? Qual é a da bebê? — Ela não respondeu — Matar uma nenê. Não só pega muito mal, como você está extremamente ofensiva quanto a isso. Eu deveria me preocupar?

— Não… Só… Cala a boca…

Quando Nanavit terminou de falar, todas as peças de papel simultâneamente brilharam, iluminando o resto da sala e acordando IIsaac.

Nanavit ajustou sua postura na cadeira e começou a falar calmamente para as outras vozes, que faziam a carta brilhar na medida que falavam.

— A Sede Oriental d’O Círculo e seus membros da Elite agradecem por serem os anfitriões desta reunião.

— Sem formalidades, senhorita Nanavit. — disse uma voz jovem e masculina — Estamos esperando um relatório do Cientista

Ele claramente se referia à IIsaac, que ergueu a cabeça para a conversa e começou imediatamente:

— Estamos lidando com uma situação delicada. Como devem ter percebido por suas cartas administrativas especiais, houve uma repentina mudança em quatro cartas de missões de escolta, elas foram desativadas.

— De fato, mas não houve um sinal de conclusão — disse uma outra voz masculina relaxada.

— Não sabemos exatamente do que se trata, mas sabemos que tem relação com uma missão passada há aproximadamente um ano.

— Aquela da bebê?

— Sim — confirmou Nanavit — Dois de nossos candidatos mais recentes para serem novos membros da Sede Oriental foram enviados para recuperar a bebê.

Alexei cerrou os olhos e encarou Nanavit, que respondeu com um semblante sério na mesma medida.

— Bom, são vocês que gerenciam as propriedades das cartas no continente oriental. Algum problema, Nanavit?

— Eu apenas temo, por se tratar de uma missão de alta importância, e sinto que negligenciamos ela…

— Mas não podemos falsificar cartas de missões, nem fabricá-las sem a devida permissão… — respondeu a voz jovem

— Também não podemos interferir em missões…

— Estou apenas dizendo! Como as cartas de escolta foram desativadas, não podemos ver se os membros responsáveis, possivelmente um grupo, estão concluindo a missão. — Nanavit exclamou.

— Você nunca se importou com problemas de vigilância, Nanavit, por que agora? — questionou uma voz feminina em outro ponto da mesa.

Antes que a moça tivesse a oportunidade de retrucar, todas as conexões foram desestabilizadas, o brilho dos papéis sumiu e a vela se apagou.

Um barulho como um trovão ressoou pela mesa, sendo ouvida por todos os membros da Elite.

As cartas pessoais administrativas de Nanavit e seus colegas brilharam e abriram seus papéis.

— Ele veio falar de novo… — comentou Alexei

— Se tem alguém que pode responder as nossas dúvidas…

Nos papéis brilhantes, uma nova mensagem em um texto claro aparecia. Não tinha tom, todos sabiam quem era, mas não podiam identificar.

Quem lhes deu a oportunidade de tanto poder, quem lhes guiou até a mesa e a posição em que se encontram neste exato momento.

O Remetente.

Todos os membros da Elite são especialmente enigmáticos, com as únicas informações compartilhadas aos outro membros sendo suas vozes e codinomes.

Mesmo assim, a presença d’O Remetente era devastadora, não era amedrontadora ou ameaçadora, só… misteriosa.

A entidade começou a escrever no papel, com toda a Elite conseguindo ler a mensagem simultaneamente:

“A bebê deve ficar viva.”

“Nanavit estará encarregada do envio de missões de resgate para trazer a bebê até o local designado.”

— O que você pode dizer sobre ela? — disse a voz do jovem da Elite

“A anomalia é capaz de anular todo e qualquer tipo de misticismo, tornando-o inexistente da realidade…”

“...da realidade dela, ao menos.”

“Quanto mais a bebê cresce e envelhece, maior é o raio de alcance de sua anulação. Se trata de um crescimento exponencial.”

“As quatro missões apagadas estão fora de alcance. Isso é uma ocorrência inaceitável. Será corrigida em breve.”

— E-Espera! — interveio Nanavit, olhando para a carta —  Se o raio de anulação dela é exponencial com base no tempo…

“Significa que quando ela atingir a idade de 15 anos, o alcance será maior que a circunferência do planeta.”

Suspiros foram ouvidos de diversos papéis dos outros membros da elite. Surpresa; medo e espanto genuíno se alastraram pelos canais de comunicação como um fogo em mato seco.

“Pode parecer ridículo manter a criança viva, mas acreditem quando afirmo: Se ela morrer… será pior.”

— Ah, é? De que modo?

“... Não se precipitem”

O papel parou de escrever e o texto começou a desvanecer como poeira sendo soprada de um livro velho.

A sala ficou em silêncio. Nenhum dos membros ousava fazer sequer um comentário.

Todos foram apenas fechando as comunicações aos poucos, até que restassem somente os três integrantes da Sede Oriental.

— 15 anos… É um tempão — Alexei suspirou

— Acredito que devemos obedecer às ordens d’O Remetente. Seria o mais sensato a se fazer — disse IIsaac, cruzando os dedos

— Não se preocupem — Nanavit se levantou — Eu vou resolver a situação. Mesmo que eu tenha que quebrar algumas regras…

Ela caminhou para as sombras do cômodo, onde abriram-se portas duplas para um salão claro.

— Gi! — Alexei chamou, fazendo ela parar o passo. — Por que você mentiu… para os outros membros?

Os dois se encararam por um momento. Ambos com expressões sérias, tentando decifrar as intenções do outro com apenas o olhar.

— Não sei do que você está falando, Alexei.

— Então está tudo certo…

As portas se fecharam em um estrondo, deixando Alexei e IIsaac no cômodo escuro.

 


 

No dia em que Nira retornou da batalha no Abismo Revolto. Ela imediatamente foi até o salão do conselho de Arquoia, onde encontrava os membros sentados — incluindo Alphie, que havia sido enviado pela própria dragoa para Tzoldrich e retornou há pouco tempo.

Tinha conseguido andar pelas ruas discretamente, o povo ainda acreditava que estavam fora. Arquoia estava em um momento muito estável. O rei sair por alguns dias não era uma preocupação tão grande, apesar de ser incomum para os que conheciam Zaltan. 

Ela ainda estava exausta e cansada dos golpes que recebeu de Heinrich. 

Olhou para Alphie. Nem precisou dizer uma palavra para o homem já entender o que queria saber. 

— A duquesa Schweitzer ainda está viva, ela tem muitas manias de andar em público. — Ele desviou o olhar e coçou a nuca — Matar um alvo assim é bem difícil, sabia?

Para a sorte de Alphie, Nira estava muito desmotivada para caçar a alma dele por mentiras, apenas franziu o nariz para ele e se virou para o xamã, também sentado na cadeira. 

— Zaltan está desaparecido, provavelmente morto. 

— O que quer que eu faça, majestade? 

— Vá ao necrotério. Procure por qualquer cadáver semelhante à Zaltan. Dê uma batida na condição do corpo. — Nira se virou para a maga do conselho — Renata. 

— Diga, rainha. 

— Ajude Ibrahim com as propagandas de morte de Zaltan. — ordenou ela, referindo-se ao xamã — Só posso confiar em vocês dois para coordenar isso. 

A maga abaixou a cabeça, em concordância. 

— O único monarca legítimo de Arquoia morreu sem deixar nenhum herdeiro… Que barra…— disse outro homem na mesa, mexendo com alguns frascos.

 — Alessa seria a próxima na fila pela relação de Jasmyne como conselheira direta do rei anterior. Mas, ela também já era… — Alphie acrescentou. 

— Calados. Eu cuido disso. A monarca legítima agora sou eu. 

“Não estava nos meus planos tomar o trono tão cedo…” 

Nira colocou sua mão no rosto inchado e apertou forte enquanto bufava. 

“Heinrich… maldito. Como alguém tão patético tem acesso à uma fonte de poder tão… tão…” 

— Eu preciso descansar agora. — Nira se virou para as grandes portas do salão do conselho — Alphie e Darfur! 

O desconexo e o homem que mexia com os frascos imediatamente olharam para a dragoa, ajeitando a própria postura. 

— Achem o paradeiro de Heinrich o quanto antes! Não vou conseguir recuperar o sabre enquanto seguro as pontas no reino… 

Arquoia entrou em um caos durante as próximas semanas. Mesmo com tanto apoio e popularidade que o rei tinha, a tomada súbita do poder por uma estrangeira não foi nem um pouco aclamada pelo povo. 

Nira só conseguia observar as ruas cheias de protestos. Pessoas com tochas fazendo passeatas pacíficas — práticas promovidas pelo próprio Zaltan — Ela poderia facilmente incinerar todo o reino e as pessoas ali. Contudo… 

“Não tenho a menor ideia de como as nações do norte reagiriam. Arquoia é um ponto de referência chave dos costumes da Era de Ouro. Os ducados e condados vizinhos poderiam se rebelar… ou pior…” 

Nira ponderava enquanto uma forte tempestade batia contra a janela da sala do trono. 

Antes que conseguisse terminar seus pensamentos, ela deu de encontro com um objeto voando no lado de fora do palácio… 

Ela não conseguia acreditar… 

Uma fina carta de brilho turquesa passou em um rasante pelos céus chuvosos de Arquoia. 

Nira queria negar tudo aquilo. Fechou o punho e bateu contra o vidro. Nem conseguia manter as pálpebras trêmulas abertas. Aquilo deveria ser uma pegadinha. Uma piada de mau gosto. 

A carta passou pelas portas dos fundos, chegando até a sala do trono, onde se encontrava a dragoa. A carta piscou. 

Nira já sabia o que estava por vir… A carta saiu do envelope, com a mesma letra elegante presente na carta de Zaltan… 

“Nira Rajaput.” 

“Sua sede de vingança é admirável.”

 “Estamos cientes de seu repúdio por nossa organização, mas parece que nossos objetivos podem se alinhar.” 

“Seja bem-vinda à Elite” 

Desta vez, o texto com a descrição da missão aparecia abaixo da mensagem d’O Círculo. 

[Missão Especial de Grau Global] 

[Objetivo: Matar a criança sem nome e recuperar o sabre negro das mil-maldições] 

[Recompensa: Ascensão Posse da arma Especial]

A carta brilhou novamente.

Se tratava de uma chamada com os membros da Elite… 

— Nira… — ecoou a voz de Nanavit do outro lado. 

Um silêncio pesado envolveu a sala, a garota parecia estar com um tom sério. 

Nira achava que ao se manter longe das cartas d’O Círculo. Ao se esconder das chamadas, ela poderia preservar seu anonimato. 

Mas de alguma forma. Eles descobriram seu nome e localização. 

Engoliu em seco.

“Que limites teriam em termos de logística e informação?” pensou. Era mais fácil dizer o que eles não sabiam… O Círculo é um grupo certamente assustador.

— Calada, eu não tenho assuntos a tratar com vocês da Elite. 

— Sua vad… — Nanavit respirou fundo, tentando se recompor — Senhora Rajaput. Sei que você deve odiar O Círculo, por qualquer motivo que seja, mas preciso esclarecer: essa missão tomou proporções inimagináveis. 

— Como assim? 

— A bebê. 

— Aquela que Zaltan deveria matar? 

— Devo admitir que foi um erro de minha parte ao não considerar o ritual de sacrifício da bebê a sério… Sim, estou falando dela. 

… 

— Essa bebê é muito especial. E-Ela tem a capacidade de anular misticismos. …! 

Nira ficou um pouco preocupada com Nanavit, que gaguejava e tinha a voz incerta. 

— De qualquer forma, o que eu tenho a ver com isso? É razão para ser uma missão de nível global? 

— Nos foi alertado que essa “propriedade” de anulação da bebê tende a crescer enquanto ela cresce. Se ela atingir a maioridade… 

Nira se virou para a carta e ergueu a sobrancelha, parecia ganhar interesse à medida que Nanavit falava.

A dragoa arregalou os olhos. 

— Isso é algum tipo de peça? 

— Eu disse a mesma coisa quando fui informada das consequência. Por isso eu digo para agirmos em uma parceria temporária. 

Pela voz de Nanavit, Nira tinha a certeza de que não se tratava de uma mentira. A sua capacidade de ler as almas poderia ser avançada, mas o seu sentido de audição nunca a tinha falhado. 

— Eu estou tendo que controlar um reino que acabou de perder seu rei, caso não saibam: Zaltan morreu. 

— É, de fato, nós perdemos a conexão com a carta dele. A questão é que também perdemos conexão com outras quatro cartas de missões de escolta. 

— O que querem que eu faça?

Nanavit segurou uma risada, sua isca foi mordida.

— Sabemos que você é do ocidente, então eu deveria conectar você com o pessoal da Elite Ocidental. Mas eu consigo cuidar das coisas por aqui. 

… 

— Preciso que você encontre um jovem de cabelos rosados chamado Cálix Valente. Ele é um clérigo do “amor”. 

Uma imagem viva de Cálix apareceu no papel de Nira, sendo influenciada pela descrição exata de Nanavit.

A dragoa pretendia perguntar qual é a conexão deste indivíduo com seu objetivo, mas Nanavit interrompeu seus pensamentos: 

— Você deve estar se perguntanto quem é esse moleque desgraçado, estúpido, burro e insignificante: tudo que precisa saber é que ele é um dos guardiões da bebê. 

— Se eu acho a bebê, eu acho Heinrich, e, se acho Heinrich… 

— …Você terá o Sabre Negro das Mil-Maldições — Nanavit completou — Então, o que me diz? 

A chuva batia contra a janela em um barulho ensurdecedor. Nira sabia que fazer um pacto com O Círculo seria uma má ideia. No entanto, teria de escolher entre ter uma oportunidade de encontrar o que queria ou nunca mais ver o sabre. 

— Aceito sua proposta… Como era seu nome mesmo?

Por mais que Nira não conseguisse ver, era óbvio pelo tom de voz da garota da carta que ela estava sorrindo malucamente. 

— Não ligo mais para as formalidades. Pode me chamar de Giovanna, Giovanna Vitória. 

Em um aperto de mão quase invisível, a carta de Nira pulsou em um brilho antes de fechar a comunicação. 

Ela massageou os olhos antes de ficar debruçada diante da paisagem da capital de Arquoia. Sabia de quem se tratava, além daquelas montanhas. Uma nova ameaça lentamente poderia ser a ruína de seus planos. 

Nira tinha outras preocupações, entretanto. Naquele momento, ela só queria dormir um pouco. 

Caminhou as escadas que ficavam ao lado de outra porta na sala do trono e começou a subir em espiral. 

Cada passo a deixava mais exausta, no momento em que finalmente chegou no quarto em que ela e Zaltan compartilhavam, a dragoa se jogou na cama e dormiu no mesmo instante.

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