Volume 1 – Arco 3
Capítulo 27: Nova Vida
Beep!
Beep!
Beep!
Se existia um som que Cálix conseguia reconhecer bem, era o de seus batimentos registrados num sensor cardíaco.
Ainda deitado na sua maca, ele olhou na direção do aparelho. Apesar do ambiente tecnologicamente atrasado, ainda usando a luz do sol para iluminação, o dispositivo era surpreendentemente moderno.
Era até parecido com os de sua terra — um pouco mais rústico, entretanto.
Os pulsos eram registrados em uma espécie de luz que alterava de cor, uma outra tela parecia medir a densidade de Aura dele.
Forçou a vista para conseguir ver o gráfico que mostrava a linha entre os números 15 e 24.
— Lily… desgraçada…
Lentamente mexeu todos os membros do seu corpo, que pareciam intactos.
— C-Cálix…?
Ao olhar para o lado, Cálix se deparou com Talyra deitada na cama ao seu lado. Assim como o clérigo, a maga também usava um avental hospitalar branco.
Estava sem seu chapéu, com os olhos claros olhando para ele. Os cabelos pretos e lisos dela se espalharam pelo travesseiro. Seu rosto estava coberto com curativos pequenos.
— Ah! Desculpa, não era nada…
…
Um silêncio constrangedor pairou sobre o ambiente do corredor. Nenhum dos dois queria comentar sobre a luta.
Cálix quebrou o silêncio ao ser instigado por um calor familiar em seu coração:
— Lily, eu…
— Me desculpa, Cálix!
— O-O quê?!
—Eu não conseguia fazer nada… fiquei a luta toda com medo e só agi quando todos estavam cansados e machucados — Ela colocou o braço sobre os olhos, tentando segurar sua voz trêmula — Eu fui uma inútil…
Cálix arregalou os olhos, acalmou seu tom e se dirigiu com calma para a menina. Tentou encorajá-la da melhor maneira que podia.
— Lily,Não começa! Convenhamos, ele tava literalmente sendo possuído por uma divindade! Se não fosse por você, estaríamos mortos!
…
Talyra queria dizer algo a mais para justificar sua fraqueza, mas as palavras de Cálix a lembraram da vez em que ele a apoiou em Fajilla…
— snif! É sério mesmo…? Mas eu estou sem o livro do meu pai agora… Não me resta nada de meu passado.
— Aquele papo sobre as missões d’O Círculo serem um recomeço… o que eu estava te falando… Na verdade foi Heinrich quem me disse antes. Você está disposta a proteger a bebê junto de nós agora, é isso que importa — Cálix sorriu e estendeu o punho para a cama de Talyra.
— Aliás. Como era o nome do que você usou no cara lá? “Eixo zero”?
— Já falei que é minha magia de nerd…
— Lily…
Ele mexeu o punho, esperava uma resposta de Talyra:
— Era… Minha magia, Matemática. — Talyra devolveu o soquinho enquanto Cálix murmurava “Que demais…!”
— E o que dá pra fazer com ela?
— Basicamente… Eu consigo manipular minha Aura para fazer ataques telecinéticos baseados em formas geométricas e planos com duas linhas… Foi o que eu fiz lá na arena de gelo: Dois corte para posicionar meu ataque no centro e fazer um cilindro que martelou a cabeça dele no gelo…
Cálix se perdeu na metade da explicação. Seu cérebro praticamente desligou.
— Não adianta falar com você mesmo, né? — a maga estreitou os olhos
— Olha, eu ouvi você dizer que “martelou a cabeça dele no gelo”, pra mim isso já é fantástico.
Talyra suspirou em desistência.
— Mas, fala. O que deu em você logo depois?
Cálix fechou a cara e virou o rosto.
— Desculpa se foi alguma indelicadeza! Eu só não entendi quem era…
— Nanavit. Aquela mulher era Nanavit. — o tom de voz dele ficou sério.
— Saquei…
Alguns minutos após a conversa morrer, os dois ficaram deitados em suas respectivas camas, apenas ouvindo os bipes dos aparelhos médicos e alguns pássaros do lado de fora.
Antes que qualquer um dos dois pudesse puxar outro assunto, eles ouviram passos vindos do corredor.
— Cálix! Talyra! — Era Vaia. Estava com um sorriso bobo estampado na cara, mas parecia extremamente feliz de ver os dois ali.
Estava sem maquiagem e sem seus acessórios dourados. Apenas algumas vestes de tecido vermelhas, ao contrário de seu vestido de seda.
Atrás dela estavam Lâmina — usando algumas roupas de couro mais escuras — e uma mulher de cabelos castanhos e um vestido estampado com margaridas.
— Estou tão feliz que acordaram! E que estão bem! — Ela chegou perto de Cálix e lhe deu um forte abraço
— Calma aí! Urgh! — grunhiu — Eu ainda tô quebrado!
— Como estão? Já se sentem melhor?
— Hum… Sim. Mas ainda estou com algumas dores… — respondeu Talyra
— Você é a que chegou mais ferida aqui: Duas pernas quebradas, tendões dos braços rompidos… — Ela começou a contar nos dedos — Sinceramente, se não fosse por sua amiga aqui, você nem estaria andando. Ela é a melhor cirurgiã que já conheci.
— Que isso! Não é pra tanto! — disse Vaia, corada.
— O-Obrigada… Vaia… — agradeceu a maga com muita timidez na voz.
— Mas… Onde é que nós estamos? — perguntou Cálix
— Aqui é o hospital ducal de Tzoldrich — respondeu Lâmina
Depois disso, o espadachim informou Cálix e Talyra de que ele e Vaia haviam acordado há poucos dias.
Yvelle se apresentou para eles de maneira extrovertida e alegre:
— E eu sou a belíssima governante deste ducado, vocês devem ser os amigos de Heinrich!
— “Amigos” é uma palavra um pouco forte…
— Não diga isso, Lily. Apesar de termos viajado juntos por poucos dias, ele realmente nos protegeu até o fim. Devemos tudo à ele.
— Também estou ciente de que vocês estão com uma missão d’O Círculo atualmente?
Ninguém ousou responder, todos decidiram virar os olhares para os cantos da sala. Não queriam falar sobre os membros da Elite que se pronunciaram através da carta sobre matar a bebê.
— Preciso que me falem tudo em detalhes. Estou aqui para ajudar…
Lâmina quebrou o silêncio:
— Nós… recebemos missões de escolta d’O Círculo, sabe, as das cartas azuis. Todos fomos direcionados à ilha de Fajilla.
— Lá, encontramos um vilarejo massacrado por uma xamã sem coração. Só fomos descobrir depois que ela era uma enviada d’O Círculo. “Uma candidata à Elite”, foi o que Jasmyne insinuou. — continuou Vaia
— Depois, com medo de que matássemos a amiga dele. Heinrich enviou suas filhas para atacarem Lâmina e Vaia, enquanto Heinrich tentou emboscar eu e Cálix na cidade com sua tripulação.
— Mas, é claro que como clérigo do amor, eu fiz todo mundo fazer as pazes durante a viagem de volta. — disse Cálix num tom esnobe — Até que fomos atacados por Zaltan e um dragão gigante. Pelo que parecia, Zaltan também era um candidato da Elite…
— Interessante… — Yvelle coçou o queixo — Espera! Você disse clérigo do amor?!
— Uh… Sim?
— Seu infeliz! Então era você! — A duquesa Schweitzer caminhou até a cama de Cálix e o agarrou pelo colarinho.
Gulp!
Yvelle estava praticamente rosnando de raiva, receber reclamações de algo que nem tinha ciência dentro de seu domínio era uma sensação péssima. Lâmina foi forçado a segurá-la. Impedindo que Cálix fosse morto naquele instante.
— Aiai! Calma lá! O que foi isso?!
— Eu recebi dezenas de cartas da tal da OGCS falando que tinha enviado um missionário para cá! Reclamações de que ele estava sumido!— Yvelle virou de costas enquanto desabafava. — Eu suspeitei quando recebi um clérigo no hospital, mas saber que era você…!
— Foi mal, sua Alteza! Eu peço mil desculpas! — Cálix juntos as palmas das mãos em reza — Foi tudo para proteger a bebê!
…
— Falando nisso. Onde ela está?
— Hmpf! — bufou Yvelle — Trocamos a incubadora de lugar quando ela dormiu. Se vocês já se sentirem melhores, posso trazê-la aqui.
— Não podemos ver ela?
— Sinto muito, mas é uma área restrita…
— Mas…
— Estou indo. — interrompeu Yvelle — Fiquem aqui e eu já volto, aproveitem para colocar a conversa em dia, por mais que não pareça, vocês ficaram um bom tempo sem se ver.
Ela abanou a mão e saiu para o fim dos corredores até atravessar uma porta corrediça, desaparecendo.
— Digam, vão explicar porque estão vestidos assim? Pfft! — Cálix segurou a risada.
— São só vestimentas temporárias… — rosnou Vaia — A duquesa vai nos dar roupas mais apropriadas.
— Olha quem fala, você tá com avental hospitalar, ele não tem cobertura atrás. — Lâmina gesticulou para Cálix, sentado na cama. — Agradeço por conseguir ver você apenas de frente.
Cálix se virou para ver suas costas.
— Ah, droga… — disse se cobrindo com as mantas novamente — Então onde estão nossas coisas?
— No fundo do mar… — respondeu Talyra. Ela colocou a mão no queixo — Isso inclui praticamente todo o dinheiro que tínhamos…
Vaia abaixou a cabeça, triste:
— Todas as minhas roupas… Cosméticos…
— Que dureza… — comentou Lâmina, forçando empatia — Mas, falando agora de um assunto importante… O que faremos à respeito da bebê?
Ele pegou a carta de missão dentro de seu bolso:
— Tinha quase certeza que o objetivo não era “Proteger a bebê”.
— Eu achei que seria só deixar ela em um ponto de coleta d’O Círculo… Será que estou fadada a não saber nada de mim mesma?
— Falando das recompensas, nós nunca descobrimos qual era a sua, Lâmina — disse Cálix.
— …Já andamos juntos por um bom tempo, então acho que é melhor eu contar… — ele se sentou no pé da cama de Talyra
Vaia também se sentou, na cama de Cálix.
— Eu estava buscando por uma sucessora.
— Uma sucessora?!
— Concordo, Talyra. Mas você parece tão novo…
— Ele deve ser estéril… — murmurou Cálix para Vaia
— Calem a boca! — exclamou o espadachim, rangendo os dentes — Não é para ela ser minha sucessora…
…
— Tanto que não me foi indicado um ponto de coleta. Apenas entrei na onda de vocês…
“Que cara ingênuo…” pensou Cálix com um semblante cansado
— Tantas razões diferentes para proteger aquela vidinha… — resmungou Talyra — Iríamos ser simplesmente descartados pelo Cìrculo… Qual é a pira desses caras?
— Nem fomos usados e já fomos descartados… — Vaia choramingou — Por qual razão receberíamos uma missão para proteger a criança enquanto outras pessoas devem matá-la?!
— Espero que me entendam quando eu digo que: O Círculo é nosso inimigo agora.
— Entendo sim, Cálix. Mas gostaria de acreditar que ainda vamos receber o que queremos…
Ficaram quietos, enquanto Lâmina continuou:
— Minha avó diz que todos os eventos no universo caminham para um único fim. —“Fui descobrir depois que ela leu isso num biscoito da sorte”pensou — Se O Círculo realmente não comete erros, então ainda deve haver uma missão envolvida em nossas cartas, apesar delas estarem apagadas.
— Não julgava você como o tipo filosófico, Lâmina…— disse Cálix, visivelmente surpreso.
O espadachim fechou os olhos e fez um sorriso orgulhoso.
— O único problema seria se a tal da Elite viesse atrás de nós.
— Não acho que seja impossível. Uma das vozes conhecia Cálix — Lâmina respondeu à Vaia.
O clérigo virou o rosto e coçou a nuca com um semblante triste.
— Isso pouco importa.
…!
Yvelle chegou no corredor segurando a bebê. Ela parecia maior e com a pele mais brilhante. Estava tomando leite em uma mamadeira.
No momento em que a criança viu os jovens, virou seu corpo e tentou se soltar dos braços da duquesa:
— Opa, opa! Calma aí, fofura — Yvelle segurou ela de volta — Vou te colocar aqui na cama…
A mulher foi até a cama com Cálix e Vaia e colocou a bebê perto deles.
Ela engatinhou até Vaia, que segurou-a no colo enquanto ela bebia.
— Como assim “pouco importa”? — perguntou Cálix
— Elite, Círculo, Arquoia, caçadores de recompensa, monstros… Não conseguem entrar aqui. — Yvelle apoiou os braços na cama de Talyra — Vocês são amigos de Heinrich, logo, são meus amigos. No ducado de Tzoldrich, estarão sob minha asa protetora.
— Você estaria mesmo disposta?! — disse Vaia, quase gaguejando.
— Heinrich me contou pelo que vocês passaram. Tudo que precisam é de um lugar para ficar, imagino.
…
— É, vocês não parecem ter um destino em mente.
— Então, você tá dizendo…
— Por sorte, Heinrich tem algumas propriedades vazias fora da cidade. — Yvelle gesticulou um aceno com a mão para a janela. — Ele disponibilizou uma delas para vocês.
Nenhum deles conseguia acreditar, brigaram com suas filhas; ameaçaram sua amiga; destruíram dois de seus navios…
— Isso não faz sentido… — Lâmina colocou a mão no queixo — Por que ele faria tudo isso por nós?
— Eu não sei, ele não quis me dizer. Se eu tivesse que adivinhar, diria que vocês tocaram o coração dele.
— Ah…
— Além do mais, eu não poderia deixar vocês ficarem de nômades com um alvo gigante nas costas.
— E onde está ele agora? — perguntou Talyra
— Ele partiu de volta ao Abismo Revolto, deixou vocês aqui. — Yvelle pigarreou — Mas enfim, vocês já parecem estar melhores. O que me dizem de irem ver a casa?
Os jovens se entreolharam por um momento, concordando sem desperdiçar muito tempo.
Yvelle havia separado algumas roupas para que eles pudessem andar pelo condado sem trazer muito destaque de estrangeirismo.
Trouxe alguns carrinhos com maletas contendo as roupas antigas e alguns pertences deles:
— Estas devem servir, dois meses desacordados permitiram que eu tirasse todas as medidas de vocês.
Entregou um conjunto escuro para Lâmina junto de seu chapéu:
— Couro flexível e resistente, reforço nas juntas e um sobretudo para completar com seu estilo introvertido.
O espadachim ergueu as roupas.
— Uh… Obrigado.
Em seguida, a duquesa pegou um longo vestido de rosas vermelhas — curiosamente semelhante ao de margaridas dela — e entregou para Vaia.
— Um estilo tradicional do ducado, invoca beleza e força… Além de combinar com seus olhos.
— Uau… Obrigada — disse Vaia abraçando o vestido, corada.
Para Cálix, Yvelle jogou uma túnica rosa com detalhes pretos. Não se preocupou em fazer nenhum comentário além de:
— A OGCS mandou essa aqui para você.
— Nossa, valeu pelo tratamento especial — rosnou o clérigo
Na bagagem de Talyra, Yvelle tirou um belo vestido e chapéu verde novinhos em folha. Ficou surpresa quando a maga a encarou com um olhar desapontado.
— Eu prefiro preto.
— Preto é pra quem quer desaparecer… — Lâmina parecia ficar incomodado atrás da duquesa — Verde indica um crescimento forte, assim como uma bela árvore! Ou de uma jovem maga…
Após entregar todas as roupas, Yvelle chamou um funcionário do local para retirar os carrinhos e bateu palmas na conclusão do que parecia ser um passatempo.
— Agora que vocês estão portados para morar aqui, o que acham de já irmos para a casa? Vistam as roupas nos vestuários e me encontrem na entrada.
A duquesa esperava os jovens com uma carroça do lado de fora, entraram, vendo a cidade principal do ducado pelas finas janelas. Casas com fundações de pedra e pilares de madeira.
Eram muito parecidas com as casas de Fajilla, porém claramente mais robustas e bem planejadas. Ruas ladrilhadas e barracas de comércio para todas as partes cheias de pessoas.
Saíram pelos enormes portões e passaram nas pontes sobre os rios que circulavam a cidade.
De longe, foram capazes de ter uma visão de tirar o fôlego. As montanhas que separavam o norte e o sul do continente. Gigantes brancos que ultrapassavam as nuvens.
E abaixo deles, se encontravam as colinas e campos verdes de Tzoldrich, com diversas casas de fazendeiros e ranchos espalhados. Quando olhavam arregalados, Yvelle fazia algum comentário aleatório acerca da cultura de cultivo local.
— Ainda tenho uma dúvida sobre as roupas, duquesa. — comentou Lâmina
— O que seria?
— Eu estava planejando usar este traje de maneira mais casual, deixando minhas roupas para um provável combate. Com todo respeito, mas não poderia ter escolhido algo mais confortável?
— Ah… que bom que tocou neste ponto — Yvelle abaixou a cabeça, as franjas cobriam seus olhos. — Eu posso até ter concedido a casa, mas…
— Chegamos! — gritou o condutor
Do lado de fora, uma grande casa de madeira parecia descansar entre as árvores das colinas. Com alguns arbustos próximos e uma entrada nada chamativa, a propriedade de Heinrich soava para os jovens como um último agradecimento do capitão para aqueles que tentaram defender suas filhas e a bebê.
A carroça parou, rangendo as rodas de madeira na estrada de terra lá fora.
Cálix respirou fundo, era um odor difícil de reconhecer — úmido, terroso, mas vivo — Muito diferente da arena congelada, do cheiro salgado do mar, ou do sangue.
Talyra arrumou o chapéu em sua cabeça, ainda incomodada pela cor e pelo chamado da duquesa. Mesmo assim, deixou escapar um sorriso quando viu seus companheiros felizes com a vista da casa.
— Por hora, se acostumem. Será um prazer ter vocês aqui.
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