Volume 1 – Arco 3
Capítulo 26: A Duquesa
Tudo estava um breu.
A mente de nenhum dos jovens conseguia se concentrar no que estava acontecendo. Visões dos lugares em que passavam apareciam diante de seus olhos como explosões.
Cada vez que piscavam, era como se uma magia fosse feita para que o tempo desse um salto.
Um píer…
Heinrich conversava com uma mulher estranha, seus olhares se voltavam para os jovens com frequência.
A subida de um morro nos ladrilhos iluminados pelos três sóis.
Estavam sendo carregados em macas macias e brancas, lentamente sendo tingidas de vermelho…
Chegaram até uma construção branca que parecia ser feita de mármore. Cálix reconhecia bem a estrutura de um hospital de sua terra natal.
Após algum tempo, os quatro foram colocados em camas dispostas diante de grandes janelas em um corredor claro.
Diversas figuras andavam pelo ambiente, trajados em vestes de pano brancas como a neve. Os jovens conseguiam sentir o calor do sol em suas peles.
Não estavam mais no oceano congelante, nem na ilha nevada.
Mas onde estariam, afinal?
Ainda mal conseguiam enxergar, mas captaram uma conversa entre uma voz que parecia ser da mulher que falou com Heinrich e um dos homens de branco, com suas palavras abafadas pela máscara que usava.
— Estou com a bebê aqui, Duquesa. Qual era o procedimento requisitado pelo Lorde Cahrazan?
— Coloque-a na incubação de recém nascidos. Ela parece grandinha mas não se alimentou muito bem nos últimos dias.
— Estou vendo… O pulso dela está muito fraco
— Fale com seus colegas e me chame para falar a respeito das provisões necessárias. Quem são os feridos?
Os passos do salto-alto da duquesa ecoaram pelo salão. Enquanto ela se aproximava de Cálix.
— A descrição que você recebeu de Heinrich bate com pelo menos dois dos indivíduos. Uma maga e um clérigo…
…!
“Será que era esse o clérigo enviado pela organização?!” pensou Yvelle
Ela se virou para o médico, aninhando a bebê.
— Sobre os dois outros… Não conseguimos identificar os tipos de misticismo por meios convencionais. Aliás, eles me preocupam um pouco, Duquesa.
— De que modo?
— O homem de preto. Ele é quase como um cadáver, muito frio, respirações quase imperceptíveis. — o homem se virou para Vaia — E essa moça… Dentes de vampiro e olhos vermelhos como um campo de batalha sangrento. Análises iniciais deixavam as posições dos órgãos dela bem confusas. Também não identificamos o tipo sanguíneo dela.
— Conduza análises mais profundas neles depois. Por hora, incube a bebê.
Quando o médico se virou para levar a bebê para a outra sala…
Buuááááá!!!
A criança começou a se debater nos braços dele repentinamente. Escalou o ombro do médico e estendeu seu braço aos jovens desacordados.
Os aparelhos místicos que estavam ligados entraram em estado de alerta. Apitando e brilhando mais forte.
— Mas que merda! — Yvelle assoviou para chamar a atenção dos outros médicos — Estabilizem eles! Eu prometi à Heinrich que os deixaria vivos… Não só eles…
Vários doutores e doutoras chegaram correndo aos pedidos de Yvelle. Seguraram os jovens, refizeram as suturas, trocaram as bolsas de soro. Tudo para que nenhum deles perdesse a vida naquela cama.
— Parece que não podemos afastar a criança deles… — A duquesa colocou a mão no queixo e pensou por um instante, até se virar para o médico com a bebê: — Tem como trazer a incubadora para cá?
O homem acenou com a cabeça e chamou outros colegas para que trouxessem a máquina para o outro lado do corredor.
Com a perturbação acalmada e a máquina de incubação ligada ao lado, os médicos preparam a criança para ser colocada em um recipiente de vidro azul, com diversas luzes leves piscando dentro.
Foi vestida com alguns panos folgados, parecidos com aventais hospitalares sobre uma roupa acolchoada.
Uma vez inserida, a cápsula se encheu de um líquido transparente. A bebê não reagiu e apenas mergulhou em um sono profundo. Seus cabelos brilhantes flutuavam no líquido enquanto sua respiração soltava bolhas de ar.
“Heinrich não quis me contar muitos detalhes. Preciso ver do que se trata essa relação toda…” Yvelle olhou para os jovens.
— Mas uma coisa é certa: se tem algo estranho rolando, só existe um culpado!
Ela foi até Lâmina e começou a enfiar a mão em suas roupas, procurou em cada bolso até achar o que procurava.
Uma carta velha com um selo de uma estrela de dez pontas azul.
“Eu sabia…”
Yvelle inspecionou a carta, ela não emitia nenhum brilho, de nenhuma cor.
Era… só uma carta qualquer. Mas não fazia sentido, aquele símbolo era único demais!
Ela abriu o envelope e tirou o papel para ler o conteúdo:
“Integrantes: Lâmina Gélida, Vaia, Talyra Arithmos e Cálix Valente
Classe da Missão:???
Grau: Global
Dificuldade: Nula
Objetivo:
Proteger a bebê
Descrição:”
— A descrição está vazia, não há classe… grau global…?
Yvelle olhou para a bebê. Realmente, ela parecia normal fora algumas características físicas como o cabelo… Mas a carta d’O Círculo estava apagada, parecia defeituosa…
Mas O Círculo não tem defeitos.
A duquesa decidiu deixar os jovens em paz por hora. A análise dos doutores julgava uma recuperação que levaria meses.
Em contrapartida, Heinrich deixou outros dois indivíduos para que ela cuidasse… Com esses dois estando em condições bem melhores…
“Zaltan… do que está falando…?”
“Por que eu não consigo me lembrar?”
“Por favor… poupe a bebê.”
“Por que eu a odeio. Por que odeio a criança?”
“Nada faz sentido…”
Um brilho vermelho como um relâmpago ofuscou o subconsciente de Zaltan, perfurando cada um de seus neurônios.
A dor era insuportável. Mas era a mesma visão vermelha que tinha quando estava com ódio por Jasmyne. Ou quando tentou matar a criança.
As luzes ficaram cada vez mais fortes. Mais intensas. Mais dolorosas.
“Persistente… Tudo bem. Você venceu.” sussurrou uma voz demoníaca em sua mente
De repente, a dor parou, e tudo ficou escuro novamente. Zaltan se via no vazio confuso de sua cabeça mais uma vez.
Nas sombras, ele estava parado, até que sentiu um toque em suas costas.
Uma mão pequena e suave…
Ele se virou, e nada poderia preparar o rei para aquela visão.
Em um pequeno vestido, com seus cabelos louros, estava um corpo completamente esfolado e quebrado de Alessa Thuzaryn.
Seu rosto estava intacto, mas parecia morto. Suas pupilas sem vida olhavam no fundo da alma dele.
Zaltan entrou em choque.
— Não… Eu… E-Eu não sabia! Pelos três sóis…
Alessa se aproximou de Zaltan e o mesmo apenas rastejou para trás.
Ela caminhava lentamente, o corpo do feiticeiro ficou preso em uma parede invisível.
“Faça parar!!”
Ele fechou os olhos.
— Pare!!!
Ao abri-los novamente, ele conseguia sentir o vento e a chuva daquela tarde infeliz.
Lá estava ele. Parado na sacada de seu castelo, olhando para seu reino abaixo.
Bem no parapeito, não conseguia mexer seu corpo.
Sentiu o mesmo toque leve em suas costas, até que se tornou um empurrão imparável.
O tempo parou, assim como naquele dia.
Caiu rodopiando até as árvores nas ruas. Antes que caísse no chão…
Zaltan acordou em um susto.
— Aaaahhhh!!!
Levantou a parte superior do corpo. Estava sem camisa, apenas com algumas faixas em seu peito…
Uma janela na parede em que a cama estava encostada iluminava um pequeno copo metálico com água dentro.
“M-Minha feitiçaria…”
Estendeu o braço esquerdo e nada apareceu em sua visão. Um pedaço enfaixado onde deveria estar perfurou a alma de Zaltan como uma flecha.
Não conseguia mover a água, nem sequer fazer o copo mexer.
A memória de um espadachim em roupas pretas surgiu. Ele atravessou o ar com um vento frio e cortou fora o braço de Zaltan.
“O que aconteceu…?” Ele colocou a mão na testa, sentindo outra dor de cabeça vindo.
— Nngh~...
Além da cômoda com o copo de água, a sala escondia, nas sombras da cortina, outra cama. Nela, uma pessoa estava se mexendo sob as cobertas.
Zaltan se levantou da cama com muita dificuldade, quando se descobriu, viu que usava apenas uma bermuda branca. Arrumou a franja dos cabelos louros e andou até a outra cama movimentada.
— Quem está aí? — perguntou com a voz fraca.
A mão de Zaltan se aproximou da figura…
Toc Toc!
Batidas na porta do local alertaram o feiticeiro, a pessoa na cama também parou de se mover.
O coração de Zaltan começou a bater mais rápido, não sabia onde estava nem como havia chegado ali. Não podia confiar em ninguém.
— Estou entrando… — disse uma voz familiar
“Não é possível…” pensou Zaltan
Balançou com o braço que ainda tinha para o copo de água, fazendo uma estaca de água que se lançou na direção da porta se abrindo.
— Como estão… — Crack! A estaca de água se fincou na parede ao lado da porta, assustando a mulher que entrava.
— Zazá! É assim que se cumprimenta a mulher que trocava suas fraldas?! — disse Yvelle com as mãos erguidas, em um tom sarcástico.
— Duquesa Schweitzer… Que porra é essa?
— Olha essa boca, menino! Não ensinaram modos em Arquoia?
…
— E o que você está fazendo tentando tirar as cobertas de uma dama? — perguntou a duquesa com um sorriso provocativo
“Dama? Como assim…”
Quando Zaltan se virou para a cama, viu uma menina em um avental hospitalar branco. Ela tinha cabelos brancos bem claros e olhos azuis brilhantes, uma menina muito bela… desconsiderando o fato de que ela segurava um sabre preto contra o pescoço de Zaltan neste exato momento.
— Ei! Ei! Mirele! Se acalme, não mate ele!
— Quem é você? Como sabe o meu nome?!
— Argh! Acho que vou ter que explicar tudo mesmo… — Yvelle bufou de raiva — Certo, mas vocês precisam se sentar e ficarem calmos antes.
Ela puxou uma cadeira no canto da sala e se sentou, esperando que os dois cooperassem.
As palavras firmes e imponentes da duquesa fizeram Zaltan e Mirele obedecerem na hora. Se sentaram em suas camas com caras fechadas, sem trocarem olhares.
Após algum tempo de conversa. Yvelle explicou toda a situação. Todos eles estiveram envolvidos em um combate sangrento no meio do Abismo Revolto. Heinrich resgatou Zaltan, Mirele, os jovens e a bebê e os trouxe para cá.
— Sim, então estamos em Tzoldrich mesmo…
— Shiu, Zazá. Deixa eu terminar.
Quando Heinrich atracou no porto, ele pediu para falar diretamente com Yvelle, explicando a situação atual e fazendo pedidos para que ela ajudasse todos os que foram resgatados. Ele não explicou o que aconteceu no caminho até Tzoldrich, entretanto.
— Mas… Onde ele está? Cadê meu pai?!
— Ele infelizmente… Foi embora. Partiu para o oceano.
— O-O quê…
O mundo de Mirele desabou. A única pessoa que ela poderia confiar, fora sua irmã, a abandonou.
Deixou ela para trás. Conseguia só se lembrar da voz e de seu sorriso besta quando estava bêbado, das viagens em conjunto no navio e de todas as vezes…
Que Heinrich a elogiou, mesmo que ela não tivesse misticismo até ter sua alma fundida com a de Milene.
— C-Como ele pôde…? Por que ele fez isso?!
A menina começou a lacrimejar, olhou para o sabre embainhado na cama, se perguntando o porquê dele ter deixado a arma com ela.
Segurou o sabre com toda a força que conseguia. Sua frustração por não ter conseguido derrotar Nira, por ter forçado Heinrich a lutar enquanto ele só ficou parada com medo…
— Eu acho que… foi vergonha. Vergonha de não ter conseguido proteger todos. — Yvelle tentava consolar a menina — Eu conseguia ver em seu olhar…
— Tá, mas por qual razão eu estou aqui? Caso tenha se esquecido, Yvelle, eu ainda sou seu Lorde!
Yvelle se virou para Zaltan segurando uma risada sincera.
— Sou forçada a discordar.
— Como é?!
— Acontece que “O rei Zaltan Arquois IV morreu em uma expedição ao Abismo Revolto” — disse Yvelle puxando um jornal que trouxe consigo — Em resumo, o seu reino acha que você morreu. Nira tomou o trono e virou uma ditadora.
Yvelle falava tudo aquilo com um sorriso no rosto, quase como um “eu te avisei” para Zaltan, que ficou muito abalado com a novidade, mas ainda não conseguia entender…
— Como isso aconteceu tão rápido?! Só se passaram…
…
Yvelle ergueu a sobrancelha, indagando Mirele e Zaltan.
— Passaram dois meses. Vocês estão em coma há dois meses — Ela jogou o jornal para o canto da sala — Os cidadãos de Arquoia já viraram a página.
— E agora…?
— Na verdade, eu tenho que agradecer à você, Zazá. Ultimamente esteve me ajudando bastante a ser independente de Arquoia.
Zaltan bufou e virou a cabeça contra as duas.
— O que isso quer dizer? — perguntou Mirele
— Que enquanto estiverem sob minha asa, em Tzoldrich, vocês estarão seguros das garras sujas de Nira.
…
Zaltan e Mirele se entreolharam, a menina acenou para Zaltan se desculpando por ter atacado antes.
— Mas não vou me esquecer que você tinha ido até o barco para matar todos nós…
— Sei que pode ser difícil acreditar em mim… Mas eu estava sob algum tipo de influência. Não era Nira, disso eu tenho certeza.
— Mas você ainda estava com ela…
— Ela nem se deu ao trabalho de vir me resgatar. Eu odeio ela também…
— Se não se importarem. Vocês já receberam alta só por estarem conversando tão tranquilamente assim… — Yvelle se levantou e começou a andar até a porta — Conversaremos mais tarde sobre o que vocês vão fazer. Por hora, tenho que ver outras pessoas…
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